segunda-feira, 15 de novembro de 2010

6061 - LITERATURA DO BRASIL

Impulso, Piracicaba, 16(41): 27-37, 2005 27
Literatura Popular: diálogos
com Sartre no Brasil
POPULAR LITERATURE: DIALOGUES WITH
SARTRE IN BRAZIL
Resumo Este ensaio procura reconstituir a polifonia motivada pelas declarações
de Sartre sobre literatura popular e engajada, em algumas de suas comunicações
com intelectuais, estudantes e jornalistas, durante sua passagem pelo Brasil, em
1960.
Palavras-chave LITERATURA POPULAR – SARTRE – EXISTENCIALISMO – CRÍTICA
LITERÁRIA – TEORIA LITERÁRIA.
Abstract This essay attempts to reconstitute the polyphony motivated by the
declarations of Sartre on popular and engaged literature, in some of his
communications with intellectuals, students and journalists during his visit to
Brazil in 1960.
Keywords POPULAR LITERATURE – SARTRE – EXISTENTIALISM – LITERARY
CRITIQUE – LITERARY THEORY.
LUÍS ANTÔNIO
CONTATORI ROMANO
Faculdade Prudente
de Moraes (FPM)
contatori_romano@yahoo.com.br
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28 Impulso, Piracicaba, 16(41): 27-37, 2005
INTRODUÇÃO
o propor um trabalho de doutorado, cujo objetivo era reconstituir
a passagem de Sartre e de Simone de Beauvoir
pelo Brasil, em 1960, deparei-me com um enorme volume
de material bibliográfico, sobretudo periódicos. Comecei
a pesquisa por arquivos da Unicamp e pela Biblioteca
Mário de Andrade, em São Paulo. Depois ela se estendeu
por arquivos e bibliotecas do Rio de Janeiro, Recife
e Salvador. Mais de cem matérias jornalísticas foram
localizadas em periódicos da época, além de textos mais recentes, que
contribuíram para a tarefa de reconstituição, à luz projetada pelo tempo,
do significado dessa visita.
Dentre esse material jornalístico, alguns artigos de autores célebres,
como Benedito Nunes, Sábato Magaldi, Gilles Granger, Alceu Amoroso
Lima, Adolfo Casais Monteiro, José Guilherme Merquior, Gérard Lebrun
e Luiz Roberto Salinas Fortes, entre outros, discutem a fundo a recepção
no Brasil que tiveram o teatro, a literatura, a filosofia e as idéias
políticas do pensador francês. Outros desses textos constituem material
informativo sobre o itinerário de Sartre e de Simone de Beauvoir; os demais
contribuem para preservar a memória de suas atividades mundanas,
sendo, nesse sentido, essencialmente importantes crônicas de Nélson
Rodrigues para o jornal Última Hora, de Paulo Mendes Campos à revista
Manchete, de José Condé para o Correio da Manhã e de Mauritônio Meira
para o Jornal do Brasil.
Talvez seja relevante destacar que o Brasil parecia exercer enorme
fascínio sobre o imaginário de Sartre e de Simone de Beauvoir, mesmo
antes de surgir a real oportunidade de viajarem ao País, entre 12 de agosto
e 21 de outubro de 1960. A viagem realizou-se a convite de Jorge Amado,
que programou uma série de atividades para o casal de intelectuais franceses
no Brasil. Mas, como nada os prendia sem que o escolhessem, às vezes
fugiam das garras do cuidadoso cicerone. Por exemplo, Sartre aceitou
deslocar-se para Araraquara, onde, numa então pequena Faculdade de Filosofia,
fez sua única conferência no País sobre as relações entre existencialismo
e marxismo, motivada por uma pergunta do professor Fausto
Castilho. Ao se despedirem do cicerone Jorge Amado, viajaram solitários
para a Amazônia e retornaram a Recife, onde Sartre desejava reencontrar
uma recente e fugaz paixão brasileira, Cristina Tavares.
Na correspondência de Simone de Beauvoir ao escritor norte-americano
Nelson Algren, podemos encontrar uma amostra desse imaginário
sobre o Brasil. Em carta de 14 de dezembro de 1950, diante dos perigos
da Guerra Fria, ela considerava a possibilidade de viver aqui: “O Brasil,
opulento, onde se admira a cultura francesa, talvez fique meio neutro. Seria
um caso a considerar, como exílio”.1 Novamente, em 14 de janeiro de
1 BEAUVOIR, 2000, p. 383.
A
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1951, Simone escrevia sobre esse seu desejo:
“Creio que no Brasil poderemos ganhar algum
dinheiro dando aulas, conferências etc., pois os
brasileiros são ricos e muitos deles falam francês,
mas sei que o começo seria difícil”.2 Esse imaginário,
ao que tudo indica, nem sempre a realidade
encontrada no Brasil chegou a confirmar.
O presente ensaio configura-se como um
recorte em meio à profusão de atividades desses
intelectuais franceses no Brasil para tratar de um
dos temas mais debatidos por aqui, motivado por
declarações de Sartre: a proposta de uma literatura
popular. Aliás, o pretexto de sua visita ao Brasil
foi participar, a convite de Jorge Amado, do I
Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária,
que se realizou em Recife. Porém, a despeito
de ser esperado para a sessão de abertura, Sartre
apenas chegou para o fórum de encerramento.
Além de sua participação durante esse congresso,
o filósofo-literato procurou colocar em debate o
tema da literatura popular em conferências pronunciadas
em Salvador e no Rio de Janeiro e em
debates com intelectuais e artistas em São Paulo.
LITERATURA UNIVERSAL E LITERATURA POPULAR
Parece que, ao apresentar a proposta de
uma literatura popular, Sartre não estava preocupado
com sua permanência, com o valor que lhe
seria reconhecido através dos tempos. O que importava,
naquele momento de seu pensamento,
era a função prática da literatura, a orientação a
ser promovida para a ação das camadas populares.
Tendo em vista esse objetivo, o homem de letras,
engajado, pode, inclusive, lançar mão de temas
clássicos, reelaborá-los – como ele próprio fez na
peça As Moscas, ao transpor o mito de Orestes
para a França ocupada.
Em seu pronunciamento no congresso de
Recife, Sartre afirma que a literatura francesa é reconhecidamente
universal, pois o escritor francês
se preocupa com problemas do homem em geral,
o que nem poderia ser diferente, pois considerava
que na França já não existia o povo:
Nós temos, pois, na França, uma literatura do tipo
universal. E o que se entende por isto? Quer dizer
que nós pensamos, quando escrevemos um livro,
que poderemos realizar a concordância dos espíritos
(...), sejam eles estrangeiros ou apenas nacionais,
a respeito do que é dito, narrado, sobre a descrição
psicológica ou social que existe no interior
do romance que o escritor fez, do mesmo modo
que, por exemplo, nas ciências, uma lei científica,
experimentalmente provada, realiza a concórdia
dos espíritos. (...) A ele (ao livro) não pode interessar
a realidade popular porque o povo já não mais
existe na França. Existem meios, classes, subgrupos
no interior das classes. Mas não existe povo. E nestas
condições, (...) a maneira de pôr os problemas
num romance, na França, ou a maneira mesma de
escrever ou abordar certas questões, é sempre na
base de um plano universal, como se existissem não
franceses, brasileiros, ingleses, mas um homem universal,
em toda parte igual.3
Sartre coloca à assistência uma questão sobre
a possibilidade de que no Brasil exista uma literatura
popular. Acreditava que aqui, diferentemente
da França e de outras velhas nações burguesas
européias, o desenvolvimento industrial
não teve ainda tempo de criar zonas de separação
absolutamente distintas entre certas camadas do
povo, e que, por conseguinte, existe ainda uma unidade
popular, que esta burguesia menos desenvolvida
e menos velha não pode (porque não é provavelmente
ainda suficientemente numerosa) monopolizar
a literatura. Que, de fato, é necessário procurar
uma literatura, procurar um público para os
livros que se escrevem no povo mesmo.4
UMA LITERATURA PARA O POVO
Poderíamos então considerar que, ao falar
de literatura popular, o pensador referia-se a uma
literatura produzida “no povo mesmo”. Entretanto,
percebemos, na seqüência de seu pronunciamento,
que não podemos ter certeza disso –
muito provavelmente Sartre também não a tivesse
–, pois ele parece entender que a literatura deve
ser feita para o povo, falar de sua realidade concreta
e respeitar seus anseios:
Desse modo, no momento presente, o escritor se
encontra em posição de procurar a realidade mesma
2 Ibid., p. 388.
3 CRÍTICA e História Literária, 1964, p. 278-279.
4 Ibid., p. 282.
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de seu público, e não de impor ao público o que ele,
escritor, pensa sobre ele mesmo, suas tristezas, suas
misérias, suas ambições. Ele deve dar a este público
o que este público pede que lhe seja dado, isto é,
seus desejos populares, as infelicidades populares,
as ambições populares, os seus mitos, os seus costumes.
O que significa, por conseguinte, algo de inteiramente
singular e concreto, ligado a toda a realidade
nacional brasileira.
Do que resulta que a literatura popular, num caso
como este, é ao mesmo tempo uma literatura
nacional – pois as duas caminham paralelamente.
Trata-se de uma literatura com a qual se escreve
para o povo e sobre o povo, e que se torna marcadamente
particular a este povo, no caso o povo
brasileiro. Um povo em vias de se constituir nação.
Em suma, a personalidade nacional torna-se o objeto
da literatura.5
Sartre ressalta que essa literatura encontra o
universal por outro caminho, à medida que,
numa sociedade na qual não houve tempo de se
cristalizar uma estratificação social nos moldes
franceses, o escritor pode se identificar com o
povo, falar de seus problemas, pois na origem é
ainda povo. Nesse sentido, num país em luta
contra o subdesenvolvimento, a literatura teria a
função de mover esse público a tomar consciência
de seus problemas e de suas possibilidades. Seria
esse o papel que o escritor começava a desempenhar
em Cuba,6 país visitado por Sartre e Simone,
a convite de Fidel Castro e Che Guevara,
poucos meses antes da vinda ao Brasil. Sartre parece
pactuar com a idéia de que deve haver uma
vanguarda a guiar o povo na compreensão de sua
realidade até a dita revolução redentora.
EXISTE UMA LITERATURA POPULAR NO BRASIL?
Depois da exposição de suas idéias em Recife,
convencido de que os congressistas pertenciam
a um campo popular, Sartre propôs um debate
sobre a existência, no Brasil, de uma literatura
que correspondesse à expressão da realidade
nacional, que fosse popular. Além disso, pediu esclarecimentos
sobre as solicitações do público
brasileiro e da dimensão do nosso universo de leitores,
informações que os presentes não souberam
precisar.7
Wilson Martins procurou ressaltar a complexidade
da nossa literatura e a diversidade do
público: Jorge Amado e Érico Veríssimo, embora
representassem ambientes opostos, eram os escritores
mais lidos. Jorge Amado atribuiu ao pernambucano
Ariano Suassuna o mérito de ser um
escritor que parte de temas populares e consegue
atingir a burguesia, os trabalhadores e superar o
regionalismo, pois, naquele momento, o Auto da
Compadecida estava sendo representado na Argentina,
no Paraguai e na Tchecoslováquia.
Por sua vez, Adolfo Casais Monteiro levantou
uma questão a respeito do sujeito dessa literatura
popular apregoada por Sartre. Para ele, o
que poderia existir seria uma aspiração de escritores,
sempre de formação burguesa, a se identificar
com o povo. Em três artigos, publicados na
imprensa do Rio de Janeiro e de São Paulo, o crítico
português retomou o tema da possibilidade
de uma literatura popular.8 Na assistência, Cléa
Brasileiro trouxe o problema da literatura popular
para um plano mais concreto, ao questionar a
responsabilidade do escritor em relação a um público,
como o brasileiro, ausente pelo analfabetismo
e pela impossibilidade de adquirir livros. Essa
colocação foi posteriormente referida e elogiada
pelo próprio Sartre, durante conversa com os jornalistas,
e retomada pela crítica na imprensa pernambucana.
9
A UTILIDADE DO CONGRESSO DE RECIFE É
QUESTIONADA
A realização de um congresso de crítica literária,
com a presença de Jean-Paul Sartre, numa
típica cidade de Terceiro Mundo como Recife, gerou
larga polêmica na imprensa nacional. Nos
próprios jornais pernambucanos surgiram críticas
à sua organização e ao afinamento entre os seus
objetivos e as intenções que trouxeram Sartre ao
Brasil. Aníbal Fernandes sugeriu que Sartre teria
vindo ao País muito mais interessado em conhe-
5 Ibid., p. 282.
6 “ESCRITOR deve atingir povo...”, 16/ago./60.
7 Ibid.
8 MONTEIRO, 10/set./60 (republicado pelo Correio da Manhã, em
24/set./60) e 8/out./60.
9 “ESCRITOR deve atingir povo...”, 16/ago./60.
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cer novas paisagens do que em discutir temas literários.
Para esse autor, o interesse do filósofo naquele
momento voltava-se à grande reportagem,
mencionando a série de artigos sobre Cuba publicados
no France-soir, jornal que, apesar de não
ter uma linha política afinada com a de Sartre,
atingia um grande público. Este parecia, então,
esperar uma nova seqüência de reportagens, dessa
vez sobre o Brasil, o que não se concretizou.10
Fernandes parte do raciocínio de Sartre sobre
Cuba11 para questionar a utilidade de um
congresso de crítica literária numa cidade em que
50% da população era analfabeta – apesar da existência
de três universidades. E retoma a colocação
de Cléa Brasileiro, durante tal evento, acerca
da situação do autor em face do público12 para
apresentar a seguinte questão: “Se não temos público
para ler os livros, como pensar primeiro
num Congresso de Crítica, antes de formar o
maior número de leitores para esses livros?”.13
Diferentemente pensava o crítico português
Casais Monteiro, que, em seus artigos, falava
sobre a importância do evento como fator de
descentralização da cultura brasileira. Entretanto,
reclamava da pouca cobertura dada pela imprensa
do Sul aos debates, atribuindo-o às rivalidades regionais
e à incredulidade sobre a vinda de Sartre
ao Brasil. Alguns congressistas já haviam deixado
Recife quando o filósofo chegou, pois, próximo
ao encerramento, talvez acreditassem que a suspeita
geral tivesse se confirmado: Sartre não se
dignaria a vir a uma pobre universidade “de província”.
Monteiro alegou que, justamente por ser
um congresso nessas condições, deve ter interessado
ao filósofo. Disse ainda que, a despeito do
pouquíssimo tempo que Sartre passou na reunião,
sua participação foi o seu melhor momento,
pois ele procurou integrar-se à realidade do País,
levantando questões sobre literatura brasileira.
Mas lamentou a ausência de diversos críticos que
poderiam ter enriquecido o debate, citando nomes
como Augusto Meyer, Amoroso Lima, Antonio
Candido, Sérgio Milliet, Álvaro Lins,
Franklin de Oliveira, Otto Maria Carpeux e Cavalcanti
Proença.14
O fio condutor das preocupações de Monteiro
era com a definição de literatura popular,
proposta por Sartre aos escritores brasileiros. No
entanto, antes de tudo, procurou esclarecer a expressão
engagement,15 empregada por Sartre para
definir o papel do escritor em face das questões
sociais envolvendo o seu público. Alertou para o
fato de que essa expressão não devia ser entendida
no sentido de “compromisso” ou de “alistamento”,
tal como traduzida pela imprensa brasileira,
e sim como “participação” do escritor na solução
dos problemas da sociedade em que vive, na
qual deveria tornar-se elemento ativo. Para Monteiro,
a idéia de compromisso parecia ser o que
Sartre sempre combatera, haja vista sua condenação
à agressão soviética à Hungria. O “compromisso”
implica pactuar, ao passo que o engagement,
ou “participação”, pressupõe liberdade.
Nesse sentido, o escritor deveria lutar pela liberdade
e pela revolução socialista.
A LITERATURA POPULAR COMO “ARTE
SUPERIOR”
Como vimos, durante o congresso de Recife,
Sartre quis saber se existia uma literatura popular
no Brasil. Wilson Martins nem Jorge Amado,
ou qualquer um dos presentes, conseguiram
lhe dar uma resposta satisfatória. Segundo Monteiro,
não se sabia exatamente o que é uma lite-
10 “Parece que ultimamente a grande reportagem passou a interessá-lo,
sobremodo, pois tendo passado um mês em Cuba (irá passar outro no
Brasil, o que é quase nada) apressou-se a oferecê-la a um jornal de vasta
tiragem como France-soir, que lança na rua todos os dias mais de um
milhão de exemplares e não adota a sua linha filosófica ou política.
Levando em conta, porém, a personalidade do autor, um dos maiores
escritores contemporâneos, em torno de um assunto jornalístico palpitante,
e ainda que divergindo dele, o popular vespertino parisiense
não hesitou em divulgá-lo, em nome daqueles mesmos princípios de
liberdade, que nos Estados Unidos e nos países de índole democrática
leva escritores, jornalistas e homens públicos a comentar e a criticar,
livremente, a política governamental” (FERNANDES, 17/ago.60).
11 “Ora, falando de Cuba na sua grande reportagem do France-soir
(Ouragan sur le sucre) o sr. Sartre, que é um filósofo, toma os ares de
um propagandista da Liga contra o analfabetismo, ao dizer: ‘Aprender
a ler é aprender a julgar. Para que o povo empobreça é preferível
mantê-lo na ignorância. Assim não lhe ensinaram nada. Para começar,
não lhe deram sequer escolas’” (idem, 18/ago./60).
12 “Muito se teria admirado o sr. Sartre se viesse a saber da pequena circulação
dos jornais do Recife, levando em conta que esses jornais circulam
também no interior e em outros Estados do nosso Nordeste”
(ibid.).
13 Ibid.
14 MONTEIRO, 3/set./60.
15 Ibid.
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ratura popular, pois o assunto foi apresentado
por Sartre, mas não lhe foi perguntado o que o filósofo
realmente pensava sobre ele. Monteiro
tece reflexões sobre quem poderia ser o autor
dessa literatura e quem haveria de ser o seu público,
pois “o povo”, da maneira como essa expressão
parece ter sido entendida pelos congressistas
e pela imprensa, era uma realidade que não
existia no Brasil:
Há realmente uma questão de palavras a elucidar,
antes de mais nada. Precisamos eliminar as associações
de idéias expressas, por exemplo, no sentido
que damos a “popularizar”, que vem a ser o de “tornar
mais acessível”. Ora, não se trata de popularizar
a literatura, mas de saber o que seria a literatura
dum povo inteiro, quer dizer, aceite, reconhecida
por um povo inteiro, e não apenas expressão duma
classe, e só por ela consumida. Ora, nós estamos na
fase em que o escritor burguês escreve sobre o povo
– mas ele não é o povo. E em que, também, o povo
não o lê, porque não sabe ainda ler; de onde só podemos
concluir que é cedo para se pôr realmente o
problema da literatura em termos socialistas.16
Monteiro parece remeter a possibilidade de
uma literatura popular para o plano de uma sociedade
ideal: seria a literatura possível num mundo
verdadeiramente socialista em que o leitor
médio se tornaria mais exigente.
Em outro artigo,17 o crítico português considera
que o problema essencial para a definição
de literatura popular está no fato de que não se associou
a idéia de popular à de arte superior. Ele parece
querer reforçar a colocação do tema no âmbito
de uma sociedade ideal, pois, se possível de
ser realizada, essa “arte superior” seria a expressão
dos problemas de um povo inteiro e acessível a
ele como um todo; caso contrário, “não poderá
deixar de haver uma literatura ‘de classe’, de e para
uma classe – quer isso seja implicado por diferenças
propriamente socioeconômicas, ou então
porque, mesmo com identidade de educação, haveria
sempre as diferenças de gosto para estabelecer,
pelo menos, classes... estéticas”.18
No artigo “Ainda Sartre”, Monteiro afirma
que o pensador francês se preocupava com a literatura
popular por ser um problema que não
havia sido resolvido pelo realismo socialista, tratado
por Sartre como expressão do dogmatismo
stalinista.19 E em “Literatura e povo”, procura
discutir os princípios da arte do realismo socialista.
De acordo com ele, essa arte assume como
princípio a idéia de que a solução dos problemas
sociais suprimiria tudo quanto não é “positivo”
na literatura, que receberia sua validade da expressão
da “saúde social”. Os aspectos negativos
da vida social ou individual apenas teriam lugar
no romance histórico. Entretanto, obras antigas
perduram, mas não pela expressão de uma realidade
social, o que
pode fazer-nos prever que as grandes criações estéticas
do futuro mundo socialista não serão fundamentalmente
(isto é, esteticamente) caracterizadas
pela relação que mantenham com os “problemas”
resolvidos por tal sociedade. O que nos permite, assim,
pensar que a arte “superior” que podemos conceber,
para quando o povo inteiro nela se ache expresso,
e o povo inteiro a possa apreciar, estará muito
longe de ser literatura “social” em que sempre (e
erradamente) pensamos ao abordar tais questões.20
Prossegue o crítico português em suas
considerações sobre literatura: “a literatura é uma
expressão do homem concreto, válida (ou seja,
bela, pois é esta a espécie de validade própria das
obras de arte) somente quando exprime de fato a
autenticidade da experiência humana – seja esta
qual for”.21 Porém, suas reflexões não resolvem
os problemas deixados em aberto por Sartre. Primeiramente,
porque Monteiro admite que a validade
estética da obra possa existir mesmo quando
o escritor exprime uma experiência pessoal,
idéia que entra em conflito com as declarações de
Sartre, no Brasil, sobre os escritores franceses
nada terem a dizer de novo, pois apenas se preocupam
em tratar experiências individuais.
16 Idem, 10/set./60.
17 Idem, 8/out./60.
18 Ibid.
19 Idem, 24/set./60.
20 Idem, 8/out./60.
21 Ibid.
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Ademais, Monteiro desloca o tema da perspectiva
assumida pelo filósofo: já havia sugerido22
que a literatura popular somente seria possível
numa sociedade ideal e, em outro artigo,23 apresenta-
a como arte esteticamente superior. Assim,
transfere a possibilidade de uma literatura popular
para a realidade de uma sociedade em processo
revolucionário, quando fossem criadas condições
para tal literatura ser uma “literatura difícil”. Nesse
sentido, sua conclusão só poderia ser a de que
a qualidade estética – e, portanto, a validade – de
uma arte socialista não se poderia conhecer, pois
“tal sociedade não existe em parte alguma do
mundo”.24
Apesar de o filósofo não ter definido, em
seus pronunciamentos no Brasil, o que entendia
por uma literatura popular, afirmou que ela deveria
ser nacionalista, no sentido de representar os
problemas do País e conduzir o público à ação
transformadora. Afinal, Sartre apresenta a proposta
para o Brasil tal como ele o conheceu em
1960, com suas graves contradições econômicas e
sociais e acentuada diversidade cultural. Para o filósofo,
a possibilidade de uma literatura popular
não estaria restrita a uma sociedade socialista,
mas parece ter sido apresentada como instrumento
de conscientização. Nesse caso, não poderia
ser “difícil”, mas teria de mostrar-se acessível
a um povo em condições ainda precárias de
educação. Parece, portanto, pertinente imaginar
que essa literatura não poderia ser feita pelo próprio
povo, mas pelo escritor burguês identificado
com ele.
CRÍTICAS À PROPOSTA DE ENGAJAMENTO
DO ESCRITOR
A proposta de que o escritor brasileiro deveria
fazer literatura popular de teor nacionalista
foi retomada por Sartre em vários de seus pronunciamentos
no Brasil e também no diálogo
que com ele manteve a inteligência nacional por
meio da imprensa. Parecem válidas as críticas feitas
pelo poeta Ferreira Gullar e pelo romancista
Carlos Heitor Cony, ao censurarem-no por sua
proposta conduzir ao juízo de que seria preferível
o mau romance com boa mensagem ao bom romance
apenas preocupado em falar do homem.
Ferreira Gullar percebeu a ingenuidade de
Sartre na sugestão de uma literatura popular e de
soluções políticas em moldes cubanos para o Brasil,
sem levar em consideração nossa diversidade
cultural e nossas diferenças regionais. Afirma o
poeta maranhense: “no Brasil, existe um contraste
flagrante entre as grandes cidades e o resto do
País”.25 Por isso, o Brasil não cabe numa definição
tão simples de subdesenvolvimento como
Cuba, pois, se grande parte do País vive em condições
de miséria, outra porção dialoga com a
cultura contemporânea e está integrada à vida
moderna. Em conseqüência, também os escritores
brasileiros não podem caber nesse modelo de
uma literatura nacionalista – que Sartre receitava
aos escritores de países subdesenvolvidos.
Além disso, Ferreira Gullar coloca em dúvida
a eficácia prática da literatura nacionalista:
“não seria mais útil ao homem entregar-se à ação
política de fato que fazer literatura?”.26 E cita o
exemplo do teatro nacionalista que se pretendia
fazer no Brasil, cujo público, na verdade, era burguês,
porque o proletariado não lhe teria acesso
22 “O problema do Recife: a literatura ‘popular’. Por que interessa a
Sartre investigá-la? Porque, evidentemente, a sua consciência duma
crise na literatura francesa, e o predomínio de preocupações, digamos,
sociológicas, na fase atual do seu pensamento, lhe impõe a busca de
uma solução para o problema que não foi de modo algum resolvido
pelo realismo socialista, o qual não passa duma expressão do dogmatismo
stalinista aplicado à estética; ao mesmo tempo, não vê, na literatura
‘burguesa’ (por exemplo, no ‘novo romance’ dos Robbe-Grillet,
Butor etc.) maneira de se restabelecer a possibilidade dum romance
universal; isto é, do povo para o povo: não o romance expressão duma
classe, e ‘feito’ por ela, mas o do ‘povo’ e feito por...
Ora eis o obstáculo, parece-me: feito por quem? Eu podia ter escrito
‘feito pelo povo’. Mas quer isso dizer alguma coisa? Quem é o povo?
Mas a possibilidade de se dar resposta à pergunta de Sartre implicava
precisamente que houvesse ‘o’ povo e uma literatura para ele implicava
precisamente uma realidade que também no Brasil não existe, e por
isso mesmo ninguém lhe deu resposta satisfatória. Se lhe tivesse dado
teria sido uma mentira. É que, de fato, a renovação do romance que
por exemplo a literatura dos Estados Unidos parecia constituir, de há
quarenta para trinta anos, era uma literatura de ‘oposição’. Era a burguesia
condenando as ‘maravilhas’ da suposta civilização americana.
Não era talvez, e isso é da maior importância, uma revolta no individualismo,
no sentido ‘liberal’ da palavra. Era, sem dúvida, uma reivindicação
dos valores humanos contra a escravização ao tecnicismo. Mas não
era uma literatura socialista, porque, se a palavra pode vir a ter sentido,
será o que ganhe numa sociedade socialista, coisa que é ainda do domínio
da utopia” (idem, 10/set./60).
23 Idem, 8/out./60.
24 Ibid.
25 GULLAR, 6/set./60.
26 Ibid.
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cultural e econômico. O poeta discute também as
implicações estéticas da proposta de Sartre:
Além do mais, esse ponto de vista de Sartre pode
levá-lo, logicamente, a preferir um mau romance
nacionalista a um bom romance, que trate apenas
do homem, de sua vida, de seus problemas íntimos.
Passaríamos a julgar as obras pela sua moralidade
e voltaríamos às fábulas bem-pensantes.
Mas Sartre já se ocupou amplamente de Faulkner
e Jean-Genet.27
Carlos Heitor Cony encarou a proposição
de Sartre aos escritores brasileiros como uma atitude
de colonialismo intelectual. Questionou
também a supervalorização da responsabilidade
atribuída por Sartre ao escritor: a missão especial
do escritor teria como pano de fundo a idéia de
que o intelectual é superior aos outros homens?
De acordo com Cony, “ninguém pode ser responsável
no lugar dos outros, cada qual tem a sua
dose intransferível e (essa sim) inalienável”.28
LITERATURA POPULAR, FOLCLORE E
REGIONALISMO NORDESTINO
Também durante a sua passagem pela
Bahia, o principal tema tratado por Sartre foi a literatura
popular. Ele voltou a considerar que a literatura
deve refletir mais o meio que o indivíduo.
Contudo, parecendo preocupado com a
colocação de Cléa Brasileiro no congresso de Recife,
teria dito que antes é preciso alfabetizar o
povo para que possa ler uma nova literatura, então
inteiramente popular: “É preciso ensinar o
povo a ler para depois poder ler uma nova literatura
que seria então inteiramente popular”.29
Atentemos para o fato de Sartre, a confiar
na imprensa baiana, ter usado apenas o verbo ler,
e não escrever, ao falar da relação entre povo e literatura.
Essa visão do povo como leitor, e não
como produtor de literatura, é reforçada pela
matéria de outro jornal baiano, ao afirmar que
Sartre “não se afastou da tese de que a literatura
deve ser realizada em função do povo e jamais
afastada dele”.30
Em contraposição a essa literatura popular
que receitava, o filósofo procurou definir a literatura
burguesa:
Os escritores da literatura burguesa que continuam
a insistir na sua tecla dão mostras de seu fracasso.
Os temas já se esgotam. E eles não têm mais nada
a dizer. A formação própria de tais escritores já se
apresentava viciada desde a origem em face ao que
chamamos de “humanidades burguesas” a que os
mesmos são levados a estudar. O mundo hodierno
reclama uma literatura de unidade do povo, exigida
pelas condições do próprio país, afastando-se
aquela denominada burguesa em virtude das melancolias
e desesperos patenteados. A literatura
burguesa, em síntese, é a literatura da solidão, do
individualismo e do desespero que a nada conduz.
A única solução, a literatura desejada só poderá ser
aquela arrancada do povo e sintonizada com os anseios
desse mesmo povo.31
Como se percebe nesse pronunciamento, a
chamada literatura burguesa tem suas características
delineadas por Sartre (o que já fora feito em
Qu’est-ce que la Littérature?). Porém, ele não definiu
quem seria o autor dessa literatura “desejada”,
“arrancada do povo”, expressão cujo sentido
permaneceu vago. Embora tivesse conhecido,
em Pernambuco e na Bahia, formas de “literatura
popular”, como a oral dos repentistas e a de cordel,
teve, em Salvador, a preocupação de salientar
que, apesar de ter notado “na Bahia um ambiente
muito propício a esse gênero que aconselha,
deve-se ter a cautela de não copiar o folclore, que
também é falso”.32 Não era, portanto, a literatura
folclórica que ele preconizava como a literatura
popular “desejada”.
O crítico Nélson Werneck Sodré reconhece,
no romance regionalista nordestino, um gênero
ancorado nas narrativas de tradição oral, no
“causo”, de fácil compreensão. Entretanto, esse
gênero não deve ser confundido com a literatura
folclórica, que Sartre diz não corresponder à literatura
popular por ele proposta. Isso porque o regionalismo
nordestino, que pretere a estética da
27 Ibid.
28 CONY, 1.º/out./60.
29 “SARTRE, na reitoria...”, 18/ago./60.
30 “A LITERATURA popular...”, 18/ago./60.
31 Idem.
32 “SARTRE, na reitoria...”, 18/ago./60.
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forma em função da narrativa documental, segue
um plano consciente de denúncia, visando, portanto,
à transformação da realidade social:
Como os outros romancistas nordestinos – salvo
Graciliano Ramos – José Lins do Rego é um documentarista,
além de memorialista. O romance nordestino
do pós-Modernismo – que representou
fase curiosa no desenvolvimento da literatura brasileira
– foi acentuadamente documentarista: informou
sobre a vida regional, reconstituiu-a, denunciou
suas mazelas, forjou um libelo, válido como
tal, sem dúvida, mas frágil como arte literária. Esse
nível de documentário, em que o romance nordestino
se manteve e de que se alimentou, era assim
como uma espécie de estágio pré-artístico, de etapa
preliminar, como se tivesse sido atribuída a alguns
escritores a missão preliminar de reunir o material
bruto. Nota-se isso desde A Bagaceira, em que falta
até a estrutura de romance. José Lins do Rego faz o
relatório da vida no engenho e o da transformação
do engenho em usina; Jorge Amado faz o relatório
da vida na zona do cacau e em Salvador. São excelentes
documentaristas. Sob certos aspectos, os romances
que escrevem servem ao estudo sociológico
das regiões indicadas; passagens, episódios, problemas,
poderão até incorporar-se, como categorias
históricas, à análise do desenvolvimento da sociedade
regional de que tratam: a transformação do engenho
em usina, a conquista, desbravamento, apropriação
das terras do cacau.33
Num processo de transformação social,
numa sociedade em que o povo tem acesso restrito
à literatura, estaria Sartre querendo dizer
que caberia ao escritor de origem burguesa identificar-
se com o povo para dele “arrancar” os
problemas e as possíveis soluções e elaborá-las?
Afinal, o povo seria o objeto dessa literatura,
como tema, e também sujeito, na medida em que
se percebesse representado nela? Ou, poderia
constituir, em países em luta contra o subdesenvolvimento,
inclusive em sujeito, como autor
dessa literatura? Sartre não deu tais respostas; no
entanto, como salientou Casais Monteiro, que
recolocou a questão no plano estético, também
ninguém lhe perguntou.34
SARTRE NO RIO: UM MODELO DE LITERATURA
POPULAR PARA O BRASIL
Em entrevista coletiva à imprensa, na Faculdade
Nacional de Filosofia, no Rio de Janeiro,
ao ser indagado sobre a posição do escritor, Sartre
voltou a salientar uma diferença, já enunciada em
Recife, entre o papel desse agente nos países subdesenvolvidos,
em luta pela emancipação, e na
Europa. Naqueles, os escritores deviam se libertar
da influência estrangeira e voltar-se para os
problemas específicos e concretos de seus povos.
A tarefa seria revelar ao público a sua real situação
e o seu campo de possíveis. Citou o exemplo de
Cuba, onde, dizia, a população das cidades se espantou
com a miséria em que vivia o homem do
campo, situação que, embora próxima, era desconhecida
por aquela. O articulista Villela Neto resume
a concepção de literatura revelada por Sartre
na entrevista:
A verdadeira posição do escritor é mostrar, fazer
conhecer as necessidades do país, pouco importa se
sob o ponto de vista de um nacionalismo crítico ou
se por obra nacionalista. Contar e descrever como
vive o seu povo, revelar a verdade e desmascarar as
mistificações que se criam sobre uma pretendida incapacidade
ou impossibilidade dos países se servirem
por si mesmos de seus recursos e possibilidades
nacionais. E esses livros devem ir “partout” (por
todos os cantos). Que no Brasil, por exemplo, os
habitantes do Rio Grande do Sul ou de São Paulo
saibam como vivem os trabalhadores da Amazônia,
ou os do cacau, em Ilhéus.35
Ainda no Rio de Janeiro, Sartre pronunciou
a conferência “Estética da literatura popular”,
na Faculdade Nacional de Filosofia, em 26
de agosto. Nela, voltou a afirmar, como já havia
33 SODRÉ, 1970, p. 102.
34 “O problema parece-me estar em que não se associou ainda, num
esforço de esclarecimento, a idéia de ‘popular’ à de ‘arte superior’. Este
‘superior’ não seria necessário, e só está aqui para ficar bem claro que é
de arte ‘mesmo’ que se trata. Foi pena que, tendo-lhe perguntado tanta
coisa, a imprensa não tenha querido saber de Sartre o que ele realmente
pensava do problema. E por isso mesmo ele só aqui figura por ter
levantado, e não como autor de nenhuma resposta, que não deu, porque
toda a gente lhe perguntou (fora os disparates) aquilo a que ele já
respondera em toda a sua obra, mas ninguém quis saber o que ainda
não disse” (MONTEIRO, 8/out./60).
35 VILLELA NETO, 31/ago./60.
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feito em Recife e Salvador, que a literatura popular
tem no povo ao mesmo tempo o seu sujeito
e o seu objeto. Segundo ele, escrever para o povo
é muito mais difícil do que para uma classe,
como faz a literatura burguesa – o problema que
se apresenta ao escritor é saber quais os meios de
que dispõe para dar ao leitor a idéia de que o destino
humano está, exclusivamente, nas mãos do
próprio homem.
Segundo Sartre, o povo busca na literatura
a expressão de sua realidade nacional e cultural.
Arrisca outra receita para o caso do Brasil:
A literatura deve interpretar os acontecimentos populares,
mas na perspectiva histórica em que esses
acontecimentos se desenvolvem. No Brasil, por
exemplo, creio que uma literatura popular deve expressar,
necessariamente, os problemas e as
contradições do país em luta contra o subdesenvolvimento.
Fora disso não há literatura popular, pois
se limitaria ao que é exótico, ao anedótico.36
Sartre pensava que a literatura popular
apresenta problemas estéticos novos. A necessidade
de exprimir a totalidade de uma realidade
contraditória era, para ele, um problema novo,
não colocado pela literatura clássica ou burguesa:
“Existe um problema estético da literatura popular
a que poderíamos chamar de horizontal, qual
seja o de representar a totalidade de uma situação,
e um outro problema, que poderíamos chamar de
vertical, não menos importante: o de buscar no
passado o condicionamento do homem presente
e mostrar suas perspectivas futuras”.37
Sartre defendia que a literatura burguesa
não pode representar essa dupla presença do passado
e do futuro no presente em transformação,
porque se fixa a uma época estanque. Exemplifica
esse raciocínio para o caso do Brasil: “É impossível,
por exemplo, que um brasileiro veja o que
quer que seja, sem sentir o seu prolongamento no
futuro. A dimensão do futuro deve ser, entretanto,
a mais próxima possível do presente. Essa é
uma das tarefas da literatura popular, a única que
legitima hoje o papel do escritor”.38
INSUFICIÊNCIA DE INTERLOCUTORES SOBRE A
LITERATURA BRASILEIRA
Embora a seqüência dos pronunciamentos
de Sartre em Recife, Salvador, Rio de Janeiro e
São Paulo mostre interessante evolução de sua
percepção sobre a complexidade da realidade brasileira,
é pena que seu conhecimento de nossa literatura
continuasse bastante restrito, pois parece
que os interlocutores que encontrou por aqui
pouco contribuíram para que ele o ampliasse. Talvez
as rivalidades regionais tenham sido fatores
limitadores à presença de críticos do Sul do País
nos diálogos sobre literatura popular, desencadeados
no Recife, com base nos pronunciamentos
de Sartre. Talvez hajam sido insuficientes os contatos
com críticos literários no Rio de Janeiro e
em São Paulo. Assim, não foram mencionadas a
Sartre as obras de um escritor como Graciliano
Ramos ou de poetas como Murilo Mendes, Carlos
Drummond de Andrade ou João Cabral de
Melo Neto. Ao menos em parte significativa de
seus textos, esses autores inserem preocupações
com a identidade nacional39 e a questão da solidariedade40
– tão pertinentes ao pensamento de
Jean-Paul Sartre – ou representam, de forma tão
crua e tão bela (embora, naquele momento, o filósofo
não estivesse preocupado com a beleza), a
solidão da paisagem e a miséria nordestina,41 com
a qual ele teve contato em suas andanças por Pernambuco,
Bahia e Ceará.
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36 “SARTRE leva uma multidão...”, 27/ago./60.
37 Ibid.
38 Ibid.
39 Nesse contexto, a Canção do Exílio, de Murilo Mendes, foi publicada
na década de 1930.
40 De Carlos Drummond de Andrade: Sentimento do Mundo, publicado
em 1940, e A Rosa do Povo, em 1945.
41 Grande parte da obra poética de João Cabral de Melo Neto foi
publicada nas décadas de 1940 e 1950, inclusive Morte e Vida Severina,
que, poucos anos depois da visita de Sartre, iria se consagrar, inclusive
na França, em montagem musicada por Chico Buarque de Holanda.
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Dados do autor
Doutor em teoria literária pela Unicamp, autor
da obra A Passagem de Sartre e Simone de
Beauvoir pelo Brasil em 1960, originariamente
tese de doutorado publicada, em 2002,
pela Editora Mercado de Letras/Fapesp.
Professor nas Faculdades Hoyler e na
Faculdade Prudente de Moraes.
Recebimento: 13/abr./05
Aprovado: 18/ago./05
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