sexta-feira, 1 de abril de 2011

10239 - LINGUA GREGA

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A língua atualmente falada na Grécia, a neoeliniki (νεοελληνική), é a única descendente do grego antigo e, como tal, faz parte do grupo das línguas indo-européias. Apenas muito recentemente se estabeleceu como a única língua oficial do povo grego e isso só foi conseguido depois de muita luta e algum derramamento de sangue. As razões que levaram as autoridades e um pequeno grupo de intelectuais a reagirem contra a língua usada pelo povo em seu dia-a-dia são tanto ideológicas quanto políticas.

O grego antigo, como se sabe, não era uma língua homogênea, estava dividida em quatro dialetos, dentre os quais, o Ático, falado em Atenas. Com a ascensão política e cultural de Atenas, o dialeto ali falado, e que provinha do iônico, acabou prevalecendo sobre os demais se estabelecendo, então, aquela que foi chamada de grego helenístico. Essa era a língua ainda falada no século IV A.C. no império macedônico e que, com a companha de Alexandre, o Grande, se espalhou por todos os centros helenísticos.

Como era natural, com a passagem do tempo e com o contato que teve com falantes de outras línguas, a língua ática foi, pouco a pouco, se transformando e acabou formando uma língua comum a todos os falantes do grego que, por isso mesmo, recebeu o nome de Koiní Alexandriní (Κοινή Αλεξανδρινή) ou, simplesmente, Koiní (Κοινή). Essa foi a língua utilizada, não só para a tradução do Antigo Testamento, como para a elaboração do Novo Testamento.

No século IV A.C., alguns autores abandonaram a Koiní e começaram a escrever no idioma ático por acharem que somente com essa língua poderiam criar suas obras-primas. Esse movimento, chamado de Atikismós (Αττικισμός), e que perdurou durante todo o Império Bizantino, deliberadamente expulsou a língua falada da produção literária. Assim, e pela primeira vez, o povo grego teve que conviver com duas línguas, a Koiní e a Ática. Embora nunca tenha conseguido suplantar a Koiní como meio de comunicação do povo grego, a língua ática se manteve como língua oficial durante todo o período do Império Bizantino, isto é, de 300 a 1451 D.C. Entretanto, a Koiní, língua totalmente viva na boca do povo, continuou seu desenvolvimento e, já no século IV, durante o reinado de Juliano, tinha se afastado bastante do grego antigo. No século XI, já se aproximava bastante da atualmente falada e, ao fim do Império Bizantino, era praticamente a mesma.

Enquanto a Europa vivia o Renascimento com o conseqüente desenvolvimento não só da língua como da literatura, a Grécia, submetida ao domínio turco, não pôde acompanhar esse movimento, uma vez que não lhe era permitido possuir um idioma nacional. Apenas Creta, por ainda não ter caído sob o domínio turco, - o que vai ocorrer no século XVII - experimentou um desenvolvimento literário e cultural. Porém, apesar da total ausência de uma educação formal imposta pelo dominador turco e do conseqüente empobrecimento do vocabulário, quando se tratava de falar dos sentimentos e das experiências por que passavam os gregos em suas vidas, a língua adquiria não apenas uma grande riqueza vocabular, como também expressividade, flexibilidade, acuidade e harmonia, como podemos constatar nas Canções Populares, Dimotiká Tragoúdia (Δημοτικά Τραγούδια).

Influenciados pelo Iluminismo francês, e com a Grécia ainda submetida aos turcos, alguns intelectuais gregos que moravam no exterior resolveram empreender um esforço no sentido de recuperar culturalmente a Grécia. Porém, achavam que, para que se pudesse verificar um renascimento cultural em seu país, era necessário que se voltasse não só à cultura, como à língua antiga. A língua falada, na época, conhecida como romaíika (ρωμαίικα), - em oposição a elliniká (ελληνικά), a língua antiga,- foi, então, chamada dimotiki (δημοτική), isto é, língua do povo e o dialeto resultante desse desejo de volta ao passado recebeu o nome de katharévoussa (καθαρεύουσα), isto é, língua purificada, limpa. Com o fim da Revolução de 1821 e o estabelecimento do Estado grego, a katharevoussa se torna a língua oficial do governo, da religião, da educação e da imprensa.

A reação contra o cada vez maior arcaísmo da katharévoussa veio, em primeiro lugar, dos poetas, que diziam não poderem expressar seus sentimentos através de uma linguagem tão artificial, mas logo se estendeu aos escritores de modo geral. Tendo os escritores de seu lado, os demoticistas - aqueles que defendiam o uso indiscriminado da dimotikí - iniciaram uma luta para que se abolisse a katharévoussa definitivamente. Uma violenta reação a essa demanda não se fez esperar e, como os demoticistas pediam que a língua oficial da educação fosse a dimotikí, foi incluída uma cláusula na Constituição de 1911 declarando a katharévoussa a língua oficial do Estado e tornando passível de pena qualquer tentativa de reversão da situação.

Foi somente em 1976, através da Lei 309, que a dimotiki, já agora intitulada neoelinikí (νεοελληνική), se tornou a língua da educação e da administração pública e, em 1981, o governo socialista do PASOK (ΠΑΣΟΚ) introduziu o sistema monotônico, não apenas nas escolas, como também em todos os níveis administrativos e governamentais. Dava-se, assim, um fim a um sistema bilingual que tanto prejuízo causou, não só à comunicação entre autoridade e povo, como também ao próprio desenvolvimento intelectual do povo grego.

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