segunda-feira, 11 de abril de 2011

10071 - TRAGÉDIAS NAS UNIVERSIDADES AMERICANAS

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Como é possível?
Massacre em escola americana
deixa o país perplexo, mais uma
vez, com violência inexplicável




Alguma coisa muito errada, maligna, se esconde nas entranhas da sociedade americana. Quando vem à tona, todo o mundo se pergunta como é possível que horrores assim ocorram num país democrático, rico e poderoso como os Estados Unidos. Como entender as cinco horas de terror vividas na terça-feira passada dentro da escola de 2º grau Columbine, na pacata cidade de Littleton? Encapuzados e vestidos com casacões pretos, dois rapazes promoveram um banho de sangue, armados com pistola, fuzil automático, espingardas de caça e bombas caseiras. Eric Harris, de 18 anos, e Dylan Klebold, de 17, riam em êxtase enquanto aterrorizavam centenas de colegas sitiados na biblioteca, disparando à queima-roupa e arremessando explosivos. Treze mortos depois, Eric e Dylan se suicidaram.

Na recente escalada de crimes cometidos por alunos em escolas nos Estados Unidos – trinta mortes em um ano e meio –, nenhum massacre foi mais grave e sangrento do que esse. Pela extensão, o espetáculo macabro avançou um patamar no rol de explosões periódicas de insanidade. Volta e meia, malucos saem atirando contra multidões. Movidos por convicções obscuras, dois sujeitos deflagraram um atentado devastador contra um prédio do governo em Oklahoma City, em 1995, deixando 168 mortos. A onda, agora, são os crimes nas escolas.

Adolescentes desequilibrados, malucos com manias conspiratórias e outras anomalias não são, obviamente, exclusividade americana. Não se encontra em outros países, contudo, nada similar em termos de explosão gratuita de violência assassina. Quando uma dessas tragédias acontece, nunca há respostas fáceis para as perguntas que evocam. Desajuste social? Os jovens assassinos de Littleton pertenciam à classe média alta, moravam em típicos casarões americanos (a família de Dylan tem sete carros), estudavam numa das melhores escolas do Estado do Colorado, num lugar tranqüilo e saudável, a poucos minutos de Denver, uma cidade grande com tudo o que ela pode oferecer. Drogas? Não usavam. Desestruturação familiar? Eram filhos de casais estáveis (um pai geólogo, outro piloto condecorado da Força Aérea). Tinham irmãos, sem registro de conflitos nem problemas causados por excesso de permissividade no lar.

No curto passado dos dois existia um conflito com a lei – furto de aparelhos eletrônicos, que rendeu um curso de reeducação ministrado pela polícia do qual saíram elogiados – e algumas características banais. Eric e Dylan eram um tanto deslocados, fanáticos pelo satanismo de butique do roqueiro Marilyn Manson, pela chamada estética "gótica" e por videogames ultraviolentos. Às vezes se metiam em brigas e pertenciam a uma turminha cheia de pose, a Máfia do Casaco. Até aí, nada que os diferenciasse muito de tantos outros jovens num período da vida em que desafiar, nutrir fascínio pelo sombrio e deixar seduzir-se pela rebeldia não chegam a ser anomalias. Daí para a frente, tocam os sinais de alarme. Eles idolatravam Adolf Hitler. Em casa, guardavam armas e construíam explosivos de acordo com instruções disponíveis na internet. Deixaram mais de trinta bombas espalhadas pela escola, incluindo uma feita com bujão de gás que, teoricamente, poderia mandar o prédio pelos ares. Causa espanto que os pais não tenham percebido o arsenal se acumulando sob o teto de suas casas.

Professores e colegas também não aquilataram o perigo, mas para isso pode haver uma explicação. No ambiente ferozmente competitivo das high schools americanas, os alunos são virtualmente forçados a se agrupar de acordo com seu prestígio e seus talentos. No topo do microcosmo estão os atletas, os bons alunos com vaga garantida na universidade e as garotas bonitas. Eric e Dylan não se encaixavam em nenhuma casta e odiavam os atletas, que se divertiam em humilhá-los. Eles poderiam ter-se contentado em aderir a várias outras tribos de párias inofensivos. Preferiram as roupas negras, o visual morto-vivo, a iconografia nazista. Mesmo assim pareciam patéticos e "perdedores" (classificação pejorativa tipicamente americana). Ninguém os levava a sério. Nem imaginava que acumulassem uma carga de ressentimento tão devastadora.

O previsível, porém, é que gente muito desajustada nos Estados Unidos sempre consegue acesso desimpedido às armas de fogo. Calcula-se que existam hoje 200 milhões delas em mãos da população civil, quase uma por pessoa. Graças ao poderoso lobby pró-armas, é mais fácil para um adolescente comprar uma pistola do que uma cerveja. Com as vendas pela internet, não é difícil uma criança fazer sua encomenda. Empenhada em deblaterar contra "a doença social", "a decadência moral", "a má influência da televisão", a maioria dos políticos americanos evita discutir a fundo o controle de armas. No início de seu primeiro mandato, o presidente Bill Clinton tentou abordar a questão. Ao falar do massacre da semana passada, nem sequer a mencionou. Preferiu fazer uma previsão tristemente óbvia: "Há um grande número de outros garotos por aí que estão acumulando ressentimentos dentro de si, e fora do nosso alcance". Ou seja: vai acontecer de novo.










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