ENSINO MÉDIO
SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO
Este livro é público - está autorizada a sua reprodução total ou parcial.
Governo do Estado do Paraná
Roberto Requião
Secretaria de Estado da Educação
Mauricio Requião de Mello e Silva
Diretoria Geral
Ricardo Fernandes Bezerra
Superintendência da Educação
Yvelise Freitas de Souza Arco-Verde
Departamento de Ensino Médio
Mary Lane Hutner
Coordenação do Livro Didático Público
Jairo Marçal
Depósito legal na Fundação Biblioteca Nacional, conforme Decreto Federal n.1825/1907,
de 20 de Dezembro de 1907.
É permitida a reprodução total ou parcial desta obra, desde que citada a fonte.
SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO
Avenida Água Verde, 2140 – Telefone: (0XX) 41 3340-1500
e-mail: dem@seed.pr.gov.br
80240-900 CURITIBA - PARANÁ
Catalogação no Centro de Editoração, Documentação e Informação Técnica da SEED-PR
Sociologia / vários autores. – Curitiba: SEED-PR, 2006. – 266 p.
ISBN: 85-85380-41-1
1. Sociologia. 2. Ensino médio. 3. Ensino de sociologia. 4. Teorias sociológicas. 5.
Instituições sociais. 6. Cultura. 7. Trabalho. 8. Ideologia. 9. Movimentos sociais. I. Folhas.
II. Material de apoio pedagógico. III. Material de apoio teórico. IV. Secretaria de Estado da
Educação. Superintendência da Educação. V. Título.
CDU 316+373.5
2ª. Edição
IMPRESSO NO BRASIL
DISTRIBUIÇÃO GRATUITA
Autores
Everaldo Lorensetti
Katya Cristina de Lima Picanço
Marilda Iwaya
Salvina Maria Ferreira
Sheila Aparecida Santos Silva
Valéria Pilão
Equipe Técnico – Pedagógica
Isabel Cristina Couto
Laura Jane R. Garbini Both
Marilda Iwaya
Assessora do Departamento de Ensino Médio
Agnes Cordeiro de Carvalho
Coordenadora Administrativa do Livro Didático Público
Edna Amancio de Souza
Equipe Administrativa
Mariema Ribeiro
Sueli Tereza Szymanek
Técnicos Administrativos
Alexandre Oliveira Cristovam
Viviane Machado
Consultora
Fátima e Silva de Freitas - UniBrasil
Colaboradora
Ana Maria da Silva
Consultor de direitos autorais
Alex Sander Hostyn Branchier
Revisão Textual
Luciana Cristina Vargas da Cruz
Renata de Oliveira
Projeto Gráfico, Capa Editoração Eletrônica
Eder Lima/Icone Audiovisual Ltda
Editoração Eletrônica
Icone Audiovisual Ltda
2007
Carta do Secretário
Este Livro Didático Público chega às escolas da rede como resultado
do trabalho coletivo de nossos educadores. Foi elaborado para atender
à carência histórica de material didático no Ensino Médio, como uma
iniciativa sem precedentes de valorização da prática pedagógica e dos
saberes da professora e do professor, para criar um livro público, acessível,
uma fonte densa e credenciada de acesso ao conhecimento.
A motivação dominante dessa experiência democrática teve origem na
leitura justa das necessidades e anseios de nossos estudantes. Caminhamos
fortalecidos pelo compromisso com a qualidade da educação pública e
pelo reconhecimento do direito fundamental de todos os cidadãos de
acesso à cultura, à informação e ao conhecimento.
Nesta caminhada, aprendemos e ensinamos que o livro didático não é
mercadoria e o conhecimento produzido pela humanidade não pode ser
apropriado particularmente, mediante exibição de títulos privados, leis
de papel mal-escritas, feitas para proteger os vendilhões de um mercado
editorial absurdamente concentrado e elitista.
Desafiados a abrir uma trilha própria para o estudo e a pesquisa,
entregamos a vocês, professores e estudantes do Paraná, este material de
ensino-aprendizagem, para suas consultas, reflexões e formação contínua.
Comemoramos com vocês esta feliz e acertada realização, propondo,
com este Livro Didático Público, a socialização do conhecimento e dos
saberes.
Apropriem-se deste livro público, transformem e multipliquem as suas
leituras.
Mauricio Requião de Mello e Silva
Secretário de Estado da Educação
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Aos Estudantes
Agir no sentido mais geral do termo significa tomar iniciativa,
iniciar, imprimir movimento a alguma coisa. Por
constituírem um initium, por serem recém-chegados e iniciadores,
em virtude do fato de terem nascido, os homens
tomam iniciativa, são impelidos a agir. (...) O fato de que o
homem é capaz de agir significa que se pode esperar dele
o inesperado, que ele é capaz de realizar o infinitamente
improvável. E isto, por sua vez, só é possível porque cada
homem é singular, de sorte que, a cada nascimento, vem
ao mundo algo singularmente novo. Desse alguém que é
singular pode-se dizer, com certeza, que antes dele não
havia ninguém. Se a ação, como início, corresponde ao fato
do nascimento, se é a efetivação da condição humana
da natalidade, o discurso corresponde ao fato da distinção
e é a efetivação da condição humana da pluralidade, isto
é, do viver como ser distinto e singular entre iguais.
Hannah Arendt
A condição humana
Este é o seu livro didático público. Ele participará de sua trajetória pelo
Ensino Médio e deverá ser um importante recurso para a sua formação.
Se fosse apenas um simples livro já seria valioso, pois, os livros registram
e perpetuam nossas conquistas, conhecimentos, descobertas, sonhos.
Os livros, documentam as mudanças históricas, são arquivos dos
acertos e dos erros, materializam palavras em textos que exprimem,
questionam e projetam a própria humanidade.
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Mas este é um livro didático e isto o caracteriza como um livro de ensinar
e aprender. Pelo menos esta é a idéia mais comum que se tem a respeito
de um livro didático. Porém, este livro é diferente. Ele foi escrito a
partir de um conceito inovador de ensinar e de aprender. Com ele, como
apoio didático, seu professor e você farão muito mais do que “seguir o livro”.
Vocês ultrapassarão o livro. Serão convidados a interagir com ele e
desafiados a estudar além do que ele traz em suas páginas.
Neste livro há uma preocupação em escrever textos que valorizem o
conhecimento científico, filosófico e artístico, bem como a dimensão histórica
das disciplinas de maneira contextualizada, ou seja, numa linguagem
que aproxime esses saberes da sua realidade. É um livro diferente
porque não tem a pretensão de esgotar conteúdos, mas discutir a realidade
em diferentes perspectivas de análise; não quer apresentar dogmas,
mas questionar para compreender. Além disso, os conteúdos abordados
são alguns recortes possíveis dos conteúdos mais amplos que estruturam
e identificam as disciplinas escolares. O conjunto desses elementos que
constituem o processo de escrita deste livro denomina cada um dos textos
que o compõem de “Folhas”.
Em cada Folhas vocês, estudantes, e seus professores poderão construir,
reconstruir e atualizar conhecimentos das disciplinas e, nas veredas
das outras disciplinas, entender melhor os conteúdos sobre os quais se
debruçam em cada momento do aprendizado. Essa relação entre as disciplinas,
que está em aprimoramento, assim como deve ser todo o processo
de conhecimento, mostra que os saberes específicos de cada uma
delas se aproximam, e navegam por todas, ainda que com concepções e
recortes diferentes.
Outro aspecto diferenciador deste livro é a presença, ao longo do texto,
de atividades que configuram a construção do conhecimento por meio
do diálogo e da pesquisa, rompendo com a tradição de separar o espaço
de aprendizado do espaço de fixação que, aliás, raramente é um espaço de
discussão, pois, estando separado do discurso, desarticula o pensamento.
Este livro também é diferente porque seu processo de elaboração e
distribuição foi concretizado integralmente na esfera pública: os Folhas
que o compõem foram escritos por professores da rede estadual de ensino,
que trabalharam em interação constante com os professores do Departamento
de Ensino Médio, que também escreveram Folhas para o livro,
e com a consultoria dos professores da rede de ensino superior que
acreditaram nesse projeto.
Agora o livro está pronto. Você o tem nas mãos e ele é prova do valor
e da capacidade de realização de uma política comprometida com o público.
Use-o com intensidade, participe, procure respostas e arrisque-se a
elaborar novas perguntas.
A qualidade de sua formação começa aí, na sua sala de aula, no trabalho
coletivo que envolve você, seus colegas e seus professores.
Ensino Médio
Apresentação
Conteúdo Estruturante: O Surgimento da Sociologia e Teorias
Sociológicas
Apresentação .............................................................................10
Introdução ..................................................................................12
1 – O surgimento da Sociologia............................................................17
2 – As teorias sociológicas na compreensão do presente ..........................31
3 – A produção sociológica brasileira ....................................................49
Conteúdo Estruturante: O Processo de Socialização e as Instituições
Sociais
Introdução ..................................................................................62
4 – A Instituição Escolar .....................................................................67
5 – A Instituição Religiosa ...................................................................83
6 – A Instituição Familiar......................................................................99
Sumário
Sociologia
Conteúdo Estruturante: Cultura e Indústria Cultural
Introdução ................................................................................118
7 – Diversidade Cultural Brasileira .......................................................123
8 – Cultura: criação ou apropriação? ...................................................143
Conteúdo Estruturante: Trabalho, Produção e Classes Sociais
Introdução ................................................................................158
9 – O processo de trabalho e a desigualdade social ...............................161
10 – Globalização..............................................................................171
Conteúdo Estruturante: Poder, Política e Ideologia
Introdução ................................................................................188
11 – Ideologia ..................................................................................191
12 – Formação do Estado Moderno......................................................207
Conteúdo Estruturante: Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
Introdução ................................................................................216
13 – Movimentos Sociais ...................................................................221
14 – Movimentos Agrários no Brasil .............................................. 235
15 – Movimento Estudantil ....................................................251
10 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
Apresentação
Compreender as características das sociedades capitalistas tem sido
a preocupação da Sociologia desde o início da sua consolidação como
ciência da sociedade no final do século XIX. Nesse período, o capitalismo
se configurava como uma nova forma de organização da sociedade
caracterizada por novas relações de trabalho. Essas mudanças
levaram os pensadores da sociedade da época a indagações e à elaboração
de teorias explicativas dessa dinâmica social, sob diferentes olhares
e posicionamentos políticos. Desde então, essa tem sido a principal
preocupação dessa ciência, qual seja, entender, explicar e questionar
os mecanismos de produção, organização, domínio, controle e poder,
institucionalizados ou não, que resultam em relações sociais de maior
ou menor exploração ou igualdade.
A sociedade globalizada assumiu tamanha complexidade e mostrase
por meios de tão diversas faces que tornou-se impossível à ciência
sociológica, ou mesmo à qualquer outra ciência, responder ou explicar
a toda problemática social que se apresenta hoje, sem correr o risco
de cair em simplificações banais.
É preciso termos humildade para perceber que a amplitude das transformações
sociais, políticas, culturais, econômicas e ecológicas que a sociedade
e o planeta estão vivendo, não nos permite explicações estreitas
ou sectárias, com pretensões de apropriar-se da verdade.
Por outro lado, pensamos que a complexidade e a amplitude que
caracterizam as sociedades contemporâneas, também não devem nos
intimidar ou amedrontar, mas sim, nos desafiar para o estudo, para a
pesquisa e para uma melhor compreensão e atuação política no mundo
em que vivemos.
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Sociologia
É, portanto, à partir dessa dupla perspectiva que apresentamos o Livro
Didático Público de Sociologia:
Com humildade, pois temos clareza de suas limitações. Os conteúdos
desenvolvidos foram escolhidos a partir das Diretrizes Curriculares
da disciplina, as quais foram discutidas em simpósios e encontros
envolvendo professores da área. Certamente muitos outros temas e
conteúdos poderiam estar presentes, por sua relevância e urgência, os
quais poderão ser contemplados em trabalhos futuros, ou mesmo serem
desenvolvidos pelos professores e alunos nas escolas.
Mas também com muito orgulho, pois trata-se do resultado de um
trabalho realizado coletivamente, por professores da rede pública de
ensino, os quais, lançando mão de seus conhecimentos teóricos, articulados
aos conhecimentos obtidos na prática escolar, ousaram escrever
para seus alunos reais, considerando suas dificuldades e necessidades.
Algumas pessoas chamam a isto como “tomar a história nas
mãos”, ou seja, encher-se de coragem e tornar-se sujeito na história.
É com esse espírito que desejamos que você abra as folhas desse
livro e inicie-se nos caminhos da sociologia. Você não encontrará respostas
prontas, tampouco receitas de como agir na sociedade para tornar-
se um cidadão bem-sucedido ou um bom consumidor, mas se defrontrará
com desafios que poderão levá-lo a refletir sobre o mundo
ao qual você pertence, e, quem sabe, contribuir para uma inserção crítica
e participativa na sociedade. Esteja certo de que estas são atitudes
de que precisamos para construção de uma sociedade cujas relações
apontam também para transformação social. Boa sorte!
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Apresentação
12 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
Aprendendo sociologia
éus! Aprender Sociologia deve ser muito complicado! Afinal, ciência
para se entender a sociedade? O que isto significa? Que agora
terei que me tornar cientista, vestir jaleco e tudo mais, para compreender
os fatos que estão à minha volta?
Bem, talvez você ao ler este texto esteja pensando exatamente como
mostram os questionamentos acima. Quem sabe em toda sua vida
como estudante você nunca ouviu falar na Sociologia e este esteja
sendo o seu primeiro contato com ela.
Se pelo menos parte do quadro que “desenhamos” acima se identifica
com o seu, o fato é que ele se identifica com o de muitas pessoas,
pois historicamente falando, a Sociologia, ciência que é voltada para
o pensamento e reflexão sobre a sociedade, foi sendo deixada de
ser lecionada nas escolas.
Hoje, porém, estamos ajudando a fazer uma nova história: a que insere
a Sociologia como ferramenta para nos ajudar a entender o mundo
em que vivemos.
Por exemplo, veja alguns aspectos da nossa sociedade aos quais a
Sociologia pode nos ajudar a ter maior compreensão:
Imagine como seriam suas respostas se alguém lhe fizesse as seguintes
perguntas:
— Por que há poucos negros nas universidades brasileiras?
— Por que o Brasil é visto como um país em desenvolvimento, para
não dizer atrasado, em relação aos países mais ricos?
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Sociologia
— Por que os negros são a maioria pobre do país?
— Por que o homem moderno cada vez mais se faz prisioneiro do
trabalho?
— Apesar de tanta riqueza produzida pelo trabalho no sistema capitalista,
por que se tem, em boa parte dos países, a maioria dos trabalhadores
em situação de pobreza?
Ora. Talvez você consiga dar boas respostas às perguntas acima,
apontando, inclusive, as origens dos problemas questionados, o que
seria muito desafiador e necessário. Mas, talvez outros, não tendo argumentos
para dar boas respostas, diriam:
“Bom, eu acho que...”.
Mas sabe... com certeza você já ouviu a frase:
“Quem acha, pode não saber muita coisa”, não é mesmo?
Pois bem. O que estamos propondo aqui é que todos podemos ir
além do que já sabemos, ou “achamos” saber, sobre nossa sociedade.
E o papel da Sociologia como disciplina é justamente nos ajudar
nesse sentido: a percebermos, por exemplo, que fatos considerados
naturais na sociedade, como a miséria de muitos, o enriquecimento de
poucos, os crimes, os suicídios, enfim, a dinâmica e a organização social
podem não ser tão naturais assim, como o Sol que a cada manhã
“nasce” naturalmente.
Os questionamentos apresentados acima, dentre outros, poderão
ser melhor esclarecidos pelas teorias, ou seja, “lentes” teóricas sociológicas
que nos ajudarão a ver nossa sociedade de maneira muito mais
crítica e com base científica.
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Introdução
14 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
Portanto, neste trabalho composto de três “Folhas”, queremos focar
dois aspectos fundamentais da Sociologia. O primeiro deles, seria
uma espécie de apresentação, isto é, mostrar como é que essa ciência
foi sendo constituída e se estabelecendo como tal.
Sobre este primeiro aspecto, construímos um “Folhas” que nos mostrará
os acontecimentos, as transformações sociais e científicas que ocorriam
no mundo quando a Sociologia começou a ser constituída como uma ciência,
uma disciplina, um saber, uma forma de pensar o mundo.
Para isso, recorreremos à História com a finalidade de descobrirmos,
além do contexto do surgimento da Sociologia, quem foram os
precursores desta disciplina, como o filósofo Augusto Comte e o sociólogo
Émile Durkheim, pensadores que empenharam-se em transformar
a Sociologia em um saber científico.
O segundo aspecto que trabalharemos aqui, representado nos “Folhas”
Dois e Três, focaliza algumas teorias da Sociologia que deram um
“outro olhar” sobre o mundo, trazendo a compreensão de que a sociedade
é construída e acionada a partir das motivações e intenções dos
homens, desmitificando a “naturalidade” de muitos fatos.
No “Folhas” Dois, dos clássicos da Sociologia trabalharemos as teorias
do francês Émile Durkheim, que apresenta uma visão funcionalista
da sociedade: para este autor, por exemplo, um suicídio, aparentemente
uma “loucura” individual, pode estar relacionado com a sociedade e
a “partes dela que não estejam funcionando”.
Max Weber será outro autor que veremos na continuidade deste
mesmo “Folhas”. Este pensador empenhou-se em compreender a sociedade
(por isso que a sua teoria é chamada de Sociologia Compreensiva)
a partir das pessoas que nela vivem, num enfoque micro social.
Pelo conceito dos tipos ideais de ação que ele propõe, ao compreendermos
as ações dos indivíduos, compreenderemos o macro social,
enfim, a sociedade.
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Sociologia
Ainda neste “Folhas” Dois trabalharemos com as teorias do alemão
Karl Marx, que apresenta duras críticas à sociedade capitalista, na qual
vivemos. Este autor representa a perspectiva crítica da Sociologia e nos
ajudará a olharmos as relações de trabalho de maneira a entender os
seus bastidores, isto é, o que motiva o mundo do capital e do lucro,
leitura obrigatória para quem deseja compreender o “porquê” do enriquecimento
de alguns, a miséria de outros e a existência da exploração
no mundo do trabalho.
Finalmente, no “Folhas” Três, nos preocuparemos em trabalhar as
teorias sociológicas desenvolvidas no Brasil, para entendermos um
pouco mais das bases da sociedade em que vivemos. Começaremos
por Euclides da Cunha, um dos autores que iniciaram o pensamento
sociológico no Brasil, passaremos por Gilberto Freyre e Caio Prado
Júnior, autores que se propuseram a entender a “formação” do povo
brasileiro, bem como a discutir quais seriam as causas dos supostos
“atrasos” da nossa nação. Na seqüência, trabalharemos com o sociólogo
Florestan Fernandes que procurou entender, dentre outros fatos, as
dificuldades do povo negro no Brasil, ou seja, os acontecimentos que
transformaram esse grupo na maioria menos privilegiada e pobre da
nação brasileira.
Todos os autores que procuramos trabalhar nestes “Folhas” foram
selecionados por atenderem à interpretação dos recortes (assuntos)
que elegemos para serem analisados e compreendidos. São autores
que acreditamos serem essenciais para começarmos nossa reflexão sobre
as sociedades de forma mais crítica e participativa.
Existem, porém, muitos outros autores que poderiam ser trazidos
para a discussão dos temas propostos aqui. Todavia, não sendo possível
trabalhar todos, apenas os que mencionamos e suas valiosas interpretações
serão trazidos para o nosso aprendizado e reflexão.
Uma boa leitura e conhecimento para você!
Introdução
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O SURGIMENTO DA
SOCIOLOGIA
Você é um privilegiado!
eitor: – Como assim, privilegiado?
O livro: – É, privilegiado! Você é um
deles!
Na sociedade, há pessoas privilegiadas.
Uma delas, por exemplo, pode
ser aquela que tem o poder de
governar e de conduzir os rumos da
sociedade, o que muitas vezes pode
não ser da maneira mais justa para
todos. Outro exemplo...
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Assis Chateaubriand - PR
18 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
Leitor: – Um outro...?
O livro: – Você mesmo é um, caro leitor!
Leitor: – Mas, eu?! Como?
O livro: – Simples! Seu privilégio está no fato do que você vai
adquirir agora: conhecimento! Você poderá avançar
no entendimento de como funciona a sociedade em
que você vive, conhecer como trabalham os demais
privilegiados (a elite social) e aumentar sua autonomia
de reflexão e de ação diante dos fatos que lhe cercam.
Sigamos adiante?
Mas o que é essa AUTONOMIA de que estamos falando?
Vamos lá! Vamos descobrir! Você vai entender o que estamos dizendo,
passo a passo.
Essa autonomia é quanto à sua maneira de pensar e de agir frente a
diversas situações. Muitas pessoas não sabem (e não se preocupam em
saber) como e por que determinadas coisas mexem com suas vidas.
Vamos pensar num exemplo bem simples para você entender: você
já viu uma TV que não “pega” direito? O que pode ser feito para se
resolver o problema do sinal?
Colocar palha-de-aço na antena resolveria?
Essa atitude, de pôr a palha-de-aço na antena, falando de tempos
passados, era algo muito mais comum do que hoje com as antenas parabólicas
e TVs a cabo, o que não significa que ninguém mais o faça.
Mas a palha-de-aço pode até resolver o problema, consideravelmente.
Outras vezes, porém, ela não será suficiente para acabar com o
defeito. Dependendo do sinal que a TV esteja recebendo.
O que seria a palha-de-aço?
Palha-de-aço = uma espécie de Senso Comum.
No caso da TV, um técnico resolveria melhor o problema do sinal
porque ele tem um conhecimento mais apurado daquilo que opera o
funcionamento da televisão. Provavelmente ele iria dar uma boa gargalhada
ao ver a palha-de-aço na antena, pois ele sabe que aquilo pode
se apenas um “remendo no rasgo”, ainda que em alguns casos resolva,
entende?
Resumindo: Então, o que seria um Senso Comum?
Poderíamos dizer que é uma resposta ou solução simples para o
cotidiano, geralmente pouco elaborada e sem um conhecimento mais
profundo.
O surgimento da Sociologia 19
Sociologia
O teólogo brasileiro e Doutor em Filosofia, Rubem Alves, em seu livro
Filosofia da Ciência, considera o senso comum como sendo aquilo
que não é ciência. De outra maneira, seria dizer que a palha-de-aço
na antena da TV não é algo científico, mas sim um “eu acho que funciona”
para o dia-a-dia das pessoas.
Mas existe uma lógica em pôr a palha-de-aço na antena. As pessoas
só não sabem qual é. E é por esse motivo, também, que Rubem Alves
diz que a ciência, na verdade, é um refinamento, ou melhoramento,
do senso comum.
O senso comum e a ciência nos dão respostas, ou inventam soluções
práticas para nossos problemas. A diferença é que a ciência é um
conhecimento mais elaborado.
“Eu acho que...” Fique sabendo!
Muitas vezes quando alguém começar
uma resposta com as palavras
“eu acho que...”, tal resposta pode
não chegar no centro real do problema
a ser entendido ou resolvido. O
que não significa, porém, que ela deva
ser rejeitada. Ela só precisa ser refinada.
Por exemplo, se alguém nos perguntasse
o motivo que leva a economia
de um país oscilar, nós poderíamos
dar uma resposta certeira, com
demonstrações, inclusive, mas também
poderíamos dizer apenas: “eu
acho que...”.
A exemplo da economia, existem
muitas outras coisas que acontecem na
sociedade e que nos atingem diretamente.
E para todas essas coisas seria
muito bom que tivéssemos curiosidade
para saber se aquilo que é mostrado
é realmente como é, entende?
E a Sociologia? Como vai aparecer
nessa conversa?
Para muitas pessoas, passar por debaixo de uma escada traz azar. Crenças como essa,
também podem ser um exemplo de senso comum.
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< Foto: João Urban
20 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
Contribuindo para que possamos entender um pouco mais o lugar onde
vivemos!
Veja, como já falamos, o senso comum não deve ser rejeitado.
O que estamos propondo é que você pode ir além desse conhecimento
comum, neste caso, sobre a sociedade.
Uma outra coisa que deve ser desmitificada é o termo cientista.
Confirmamos o pensamento de Rubem Alves quando diz que um cientista
não é uma pessoa que pensa melhor do que os outros. Rubem Alves
nos fala que a tarefa de refletir e de entender os porquês das coisas
cabe a todos nós, e que a idéia de que não precisamos pensar, porque
existem pessoas “melhores” para isto, é furada.
Avançar um pouco mais em relação a um conhecimento elaborado
e investigativo vai lhe trazer um entendimento mais claro sobre como
funciona a sociedade, dentre outras coisas.
Além do fato de que você terá maior autonomia para CONCORDAR
OU DISCORDAR POR SI PRÓPRIO sobre as questões que você
vive na sociedade.
Essa é a independência que queremos que você tenha: A DE REFLEXÃO.
E para começarmos a pensar: “ELITE SOCIAL”
Você já ouviu falar na existência dela na Sociedade? Pesquise e veja o que você consegue sobre
esse termo (em livros, revistas, pessoas que você conhece, etc.). Traga os seus registros para a classe.
Vamos iniciar uma discussão a partir do que sabemos, hoje, sobre a chamada elite. Por que ela é
considerada elite e como surgiu?
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O surgimento da Sociologia 21
Sociologia
Pensando em elites: NÓS PODEMOS VIVER DE FORMA ALIENADA?
E o que é ser alienado?
Veja: se não tivermos nossa independência de pensamento
e ação, ou seja, se não conseguimos refletir sobre
aquilo que vemos e ouvimos, ou se concordamos com tudo
o que acontece, então podemos estar vivendo de forma
alienada.
Segundo a filósofa brasileira Marilena Chauí, a alienação
acontece quando o homem não se vê como sujeito (criador)
da história e, nela, capaz de produzir obras.
Para o homem alienado, e segundo esta mesma visão, a
história e as obras produzidas nela são fatos estranhos e externos.
E, sendo estranhos, tal homem não os pode controlar, ficando
numa posição de dominado. Já o conhecimento pode nos fazer transformadores
da história, e não apenas espectadores dela.
Mais à frente retomaremos essa discussão sobre a alienação e a existência
de elites e o faremos com mais recursos para a nossa reflexão.
Conhecer e entender
(sobre a Sociologia) é preciso!
A Sociologia não é redentora ou solucionadora dos males sociais,
ou dos problemas intelectuais das pessoas. Ela surge como uma ciência
que vai fornecer novas visões sobre a sociedade.
Sua contribuição está no fato de nos dar referenciais para refletirmos
sobre as sociedades.
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Mais um pouco de prática inicial: “AUTONOMIA DE REFLEXÃO”.
Observe sua comunidade e traga para nossa aula uma relação dos “problemas sociais” que nela
existem. Vamos discutir a possível origem dos mesmos, a partir do que temos hoje, em termos de recursos
teóricos, para mais tarde podermos retomar essas questões.
ATIVIDADE
22 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
< www.koxkollum.nl/ beelden/aristoteles.htm
A ”Gênesis Sociológica”:
É importante...
Nesse início de trabalho, buscaremos conhecer como a Sociologia
surgiu, para depois sabermos como é que ela pode nos ajudar a entender
a sociedade, bem como os problemas levantados pela atividade
anterior. Vamos fazer um passeio pela história para encontrarmos suas
bases. Acompanhe:
Como tudo começou!
Apesar da ciência sociológica ser considerada nova, pois ela se
consolidou por volta do século XIX, a angústia de se entender as sociedades,
por sua vez, não é tão nova assim. Se olharmos para a Grécia
Antiga, vamos ver que lá já havia o desejo de se entender a sociedade.
No século V a.C, havia uma corrente filosófica, chamada sofista,
que começava a dar mais atenção para os problemas sociais e políticos
da época. Porém, não foram os gregos os criadores da Sociologia.
Mas foram os gregos que iniciaram o pensamento crítico filosófico.
Eles criaram a Filosofia (que significa amor ao conhecimento) e que,
por sua vez, foi um impulso para o surgimento daquilo que chamamos,
hoje, de ciência, a qual se consolidaria a partir dos séculos XVI e
XVII, sendo uma forma de interpretação dos acontecimentos da sociedade
mais distanciada das explicações míticas.
Foram com os filósofos gregos Platão (427-347 a.C) e Aristóteles
(384-322 a.C), que surgiram os primeiros passos dos trabalhos mais
reflexivos sobre a sociedade. Platão foi defensor de uma concepção
idealista e acreditava que o aspecto material do mundo seria um tipo
de fruto imperfeito das idéias universais, as quais existem por si mesmas.
Aristóteles já mencionava que o homem
era um ser que, necessariamente, nasce para
estar vivendo em conjunto, isto é, em sociedade.
No seu livro chamado Política, no
qual consta um estudo dos diferentes sistemas
de governo existentes, percebese
o seu interesse em entender a sociedade.
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Aristóteles
O surgimento da Sociologia 23
Sociologia
Já na Idade Média...
Séculos mais tarde, no período chamado de Idade Média (que vai
do século V ao XV, mas exatamente entre os anos 476 a 1453), houve,
segundo os renascentistas (que vamos conhecer mais à frente), um
período de “trevas” quanto à maneira de ver o mundo.
Segundo eles, havia um prevalecer da fé, onde os campos mítico
e religioso, tendiam a oferecer as explicações mais viáveis para
os fatos do mundo. Na Europa Medieval, esse predomínio religioso
foi da Igreja Católica
Tal predomínio da fé, de certo modo, e segundo os humanistas
renascentistas, asfixiava as tentativas de explicações mais especulativas
e racionais (científicas) sobre a sociedade. Não cumprir uma regra
ou lei estabelecida pela sociedade, poderia ser entendido como um
pecado, tamanha era a mistura entre a vida cotidiana e a esfera sobrenatural.
É claro que se olharmos a Idade Média somente pela ótica dos renascentistas
ela pode ficar com uma “cara meio tenebrosa”. Na verdade, ela
também foi um período muito rico para a história da humanidade, importante,
inclusive, para a formação da nossa casa, o mundo ocidental. Vale
a pena conhecermos um pouco mais sobre essa história.
E, na continuidade da história...
Tudo caminhava para o uso da razão
O predomínio, na organização das relações sociais, dos princípios
religiosos durou até pelos menos o século XV. Mas já no século XIV
começava a acontecer uma renovação cultural. Era o início do período
conhecido por Renascimento.
Os renascentistas, com base naquilo que os gregos começaram, isto
é, a questionar o mundo de maneira reflexiva (como já contamos anteriormente),
rejeitavam tudo aquilo que seria parte da cultura medieval,
presa aos moldes da igreja, no caso, a Católica.
O renascimento espalhou-se por muitas partes da Europa e influenciava
a arte, a ciência, a literatura e a filosofia, defendendo,
sempre, o espírito crítico.
Nesse tempo, começaram a aparecer homens que, de forma mais
realista, começavam a investigar a sociedade. A exemplo disso temos
Nicolau Maquiavel (1469-1527) que, em sua obra intitulada de O
Príncipe, faz uma espécie de manual de guerra para Lorenzo de Médici.
Ali comenta como o governante pode manipular os meios para a
finalidade de conquistar e manter o poder em suas mãos.
Obras como estas davam um novo olhar para sociedade,
olhar pelo qual, através da razão os homens poderiam dominar
a sociedade, longe das influências divinas.
http://www.epdlp.com/
fotos/rodin2.jpg
<
24 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
Era a doutrina do antropocentrismo ganhando força. O homem
passava a ser visto como o centro de tudo, inclusive do poder de inventar
e transformar o mundo pelas suas ações.
Além de Maquiavel, outros autores renascentistas, como Francis Bacon
(1561-1626), filósofo e criador do método científico conhecido por
experimental, ajudavam a dar impulso aos tempos de domínio da ciência
que se iniciavam.
Não perdendo de vista...
Estamos contando tudo isso para que você perceba que nem sempre
as pessoas puderam contar com a ciência para entender o mundo,
sobretudo o social, que é o queremos compreender.
Dessa maneira, muitas pessoas no passado, ficaram ‘presas’ principalmente,
àquelas explicações a respeito da realidade que eram baseadas
na tradição, em mitos antigos ou em explicações religiosas.
O Iluminismo
Já no século XVIII, houve um momento na Europa, chamado de
Iluminismo, que começou na Inglaterra e na França, mas que posteriormente
espalhou-se por todo o continente em que a idéia de valorizar
a ciência e a racionalidade no entendimento da vida social tornouse
ainda mais forte.
Uma característica das idéias do Iluminismo era o combate ao Estado
absoluto, ou absolutismo, que começou a surgir na Europa ainda
no final da Idade Média, no século XV, em que o rei concentrava todo
o poder em suas mãos e governava sendo considerado um representante
divino na terra, uma voz de Deus, a qual até a igreja, não raramente,
se sujeitava.
Com a ciência ganhando força, era, digamos, inviável o fato de voltar
a pensar a vida e a organização social por vias que não levassem
em conta as considerações da ciência em debate com as de fundo religioso.
Como por exemplo, imaginar os governantes como sendo representantes
sobrenaturais.
Nesse período, a continuada consolidação da reflexão sistemática
sobre a sociedade foi ajudada por autores como Voltaire (1694-1778),
filósofo que defendia a razão e combatia o fanatismo religioso; Jean-
Jacques Rousseau (1712-1778), que estudou sobre as causas das desigualdades
sociais e defendia a democracia; Montesquieu (1689-1755),
que criticava o absolutismo, e defendia a criação de poderes separados
(legislativo, judiciários e executivo), os quais dariam maior equilíbrio
ao Estado, uma vez que não haveria centralidade de poder na
mão do governante.
z
Nicolau Maquiavel
(1469-1527)
http://renascimento.clio.pro.br/
Figuras/maquiavel.JPG
<
O surgimento da Sociologia 25
Sociologia
Portanto, com a contribuição Iluminista...
A partir das teorias sobre a sociedade que no período Iluminista
surgiram, é que começa a ser impulsionada, ou preparada, a idéia da
existência de uma ciência que pudesse ajudar a interpretar os movimentos
da própria sociedade.
Consolidação do Capitalismo e a Revolução
Industrial!
Estamos mudando de assunto?
Mudando em parte, porém não estamos deixando de falar do surgimento
da Sociologia. Há outros elementos que a motivaram surgir.
As transformações na sociedade européia não estavam ocorrendo somente
no campo das idéias, como era o caso da consolidação da ciência
como ferramenta de interpretação do mundo, que vimos até aqui.
Há também a consolidação do sistema capitalista, culminando com a
Revolução Industrial, que ocorreu em meados do século XVIII, na Inglaterra,
gerando grandes alterações no estilo de vida das pessoas, sobretudo
nas das que viviam no campo ou do artesanato. Estes temas despertavam
o interesse de críticos da época.
Dessa maneira, quando a Sociologia iniciou os seus trabalhos, ela o
fez com base em pensadores que viram os problemas sociais ocasionados
a partir da crise gerada pelos fatos acima mencionados.
Acompanhe:
Recorrendo à História para entendermos...
Podemos dizer que o início do sistema capitalista se deu na chamada
Baixa Idade Média, entre os séculos IX e XV, na Europa Ocidental.
A partir do século XI, com as “cruzadas” realizadas pela Igreja Católica,
para conquistar Jerusalém que estava dominada pelos muçulmanos,
um canal de circulação de riquezas na Europa foi aberto.
O contato cultural e o comércio do ocidente com o oriente europeu
foram retomados via Mar Mediterrâneo. Com a movimentação de pessoas
e riquezas houve, na Europa Ocidental, o surgimento de núcleos
urbanos, conhecidos por burgos. Destes, ressurgiram as cidades, pois
existiam poucas naquele tempo.
As chamadas corporações de ofício, que eram uma espécie de associação
que organizava as atividades artesanais para ter acordo entre
os preços de venda e qualidade do produto, por exemplo, começaram
a aparecer a fim de regular o trabalho dos artesões que vinham
para as cidades exercer sua profissão. Aqui vemos que a idéia do lucro
se fortalecia.
z
Sistema capitalista:
A propriedade privada é
sua característica mais forte.
O capitalista é aquele que
a possui, isto é, a empresa
ou os meios de produção.
Os empregados são aqueles
que vendem sua força
de trabalho para o capitalista.
E o lucro, além da recuperação
do capital investido na
fabricação dos bens a serem
vendidos, é a meta deste sistema.
Distinção de classes:
embora não a única, a propriedade
ou não dos meios
de produção é a primeira e
mais importante condição
que separa os indivíduos em
diferentes classes sociais.
26 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
“Quase não existiam cidades...”
Descubra pela história o porquê do fato que acima é mencionado. Não lhe soa estranho? O que fez
com que isso ocorresse? Tal fato poderá se repetir algum dia em alguma sociedade? Vamos discutir
pensando o nosso mundo, hoje.
PESQUISA
Mais tarde, os europeus...
...começaram a explorar o comércio em termos mundiais, principalmente
depois dos séculos XV e XVI e das chamadas Grandes Navegações.
Por exemplo, com o descobrimento da América, muita riqueza
daqui era levada à Europa para a criação de mercadorias que seriam
vendidas nesse mercado mundial que estava surgindo. A idéia de uma
produção em série de mercadorias começava a surgir.
As antigas corporações de ofícios foram transformadas pelos comerciantes
da época em manufatura. O trabalho manufatureiro acontecia
com vários artesãos, em locais separados e dirigidos por um comerciante
que dava a eles a matéria-prima e as ferramentas. No final
do trabalho encomendado, os artesões recebiam um pagamento acertado
com o comerciante.
Mais à frente ainda, os comerciantes (futuros empresários capitalistas)
pensaram que seria melhor reunir todos esses artesãos num só lugar,
pois assim poderiam ver o que eles estavam produzindo. Além de
cuidar da qualidade do produto, o controle sobre a matéria-prima e ritmo
da produção poderia ser maior.
Foi então que surgiu a idéia da fábrica...
Um lugar com uma produção mais organizada, com a acentuação
da divisão de funções, onde o artesão ia deixando de participar do
processo inteiro de produção da mercadoria e onde passava a operar
apenas parte da produção. Desse ponto para a implantação das máquinas
movidas a vapor, restava somente o tempo da invenção das mesmas.
Quando o inventor escocês James Watt (1736-1819) conseguiu patentear
a máquina a vapor, em abril de 1784, ela veio dar grande impulso à
industrialização que se instalava, aumentando a produção, diminuindo os
gastos com mão-de-obra e aumentando o acúmulo de capital.
O surgimento da Sociologia 27
Sociologia
Fábrica de papel.
< Foto: Acervo Icone Audiovisual
Veja o quadro que se montava...
O sistema feudal da Europa Ocidental, estava sendo superado. Ele
não conseguiria suprir as necessidades dos novos mercados que se
abriam. O sistema capitalista, com base na propriedade privada e no
lucro, isto é, na acumulação de capital, estava sendo consolidado.
A partir da Revolução Industrial (século XVIII), as cidades da Europa
Ocidental começavam a se transformar em grandes centros urbanos
comerciais e, posteriormente, industriais. Muitas delas “inchadas” por
desempregados. O estilo de vida das pessoas estava se transformando
– para alguns de forma violenta e radical – como era o caso de muitos
camponeses que eram expulsos pelos senhores das terras que as cercavam
para criar ovelhas e fornecer lã às fábricas de tecidos.
Já no caso dos artesãos, esses “perdiam” sua qualificação profissional
e o controle sobre o que produziam, ou seja, de profissionais, passavam
a “não ter profissão”, pois a indústria era quem ditava que tipo
de profissional precisava ser. Não importava se fossem grandes artesãos,
só precisariam aprender a operar a máquina da fábrica. Se fosse
hoje, usaríamos o termo aprender a “apertar botões”. Dessa maneira,
como não tinham capital para ter uma produção autônoma e competir
com a fábrica, submetiam-se ao trabalho assalariado.
Sistema feudal:
Sistema social que existiu durante
e Idade Média. Com o
desaparecimento das cidades,
o comércio também desaparecia.
As bases econômicas
se centraram no campo,
nos feudos. Os feudos eram
grandes áreas de terras pertencentes
a um senhor. Dentro
deles havia as colônias de
servos que lavravam a terra.
Parte da produção era destinada
ao senhor da terra, e
parte era para os servos.
28 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
Burguesia:
As pessoas que moravam
nos núcleos urbanos (burgos),
eram identificadas
como
sendo
os burgueses. Mas
com o passar dos tempos,
essa denominação ficou apenas
para os que haviam enriquecido
com o comércio, sobretudo
os comerciantes e
banqueiros.
Novas e grandes invenções estavam sendo realizadas no campo
tecnológico, como as próprias máquinas a vapor das indústrias. O comércio
mundial estava aumentando cada vez mais. O mundo estava
“encolhendo”, em termos de fronteiras comerciais e ficando “europeizado”.
E em meio a isto, duas classes distintas emergiam: a composta pelos
empresários e banqueiros, chamada de classe burguesa, e a classe
assalariada, ou proletária.
A classe burguesa é aquela que ao longo do tempo veio acumulando
capital com o comércio e reteve os meios de produção em suas
mãos, isto é, as ferramentas, os equipamentos fabris, o espaço da fábrica,
etc., bem como o poder político. Já a classe proletária, sem capital
e expropriada dos meios de produção por meio de sua expulsão
dos feudos e das terras comuns, tornava-se fornecedora de mão-deobra
aos donos das fábricas.
Agora perceba comigo:
O quadro social na Europa Ocidental do período passava, então,
por transformações profundas, provocadas pela consolidação do sistema
capitalista, pela valorização da ciência contrapondo as explicações
míticas a respeito do mundo, pela abertura de mercados mundiais e
pelos conflitos derivados das condições de vida miseráveis dos operários,
confrontadas com o enriquecimento da classe burguesa. É em
meio a todas essas mudanças que a Sociologia começa a ser pensada
como sendo uma ciência para dar respostas mais elaboradas sobre os
novos problemas sociais.
A Sociologia e suas teorias, as quais vamos ver a seguir, se constituem
ferramentas de reflexão sobre a sociedade industrial e científica
que surgia. Vamos ver como elas refletem para entendermos os problemas
sociais e ajudar a encontrar soluções para os mesmos.
Com base no que vimos até aqui, associe...
Que relação há entre o sistema capitalista, a existência de uma elite na sociedade e o processo de
alienação?
Retomando os problemas que você levantou para a atividade da página 20, relacione-os com o estilo
de vida imposto pelo sistema capitalista.
ATIVIDADE
O surgimento da Sociologia 29
Sociologia
Referências:
ALVES, R. Filosofia da ciência. São Paulo: Ars Poética, 1996.
AZEVED , F. Princípios de Sociologia: pequena introdução ao estudo da sociologia
geral. 11ª ed. – São Paulo: Duas Cidades, 1973.
CASTRO, A. M. DIAS, Edmundo Fernandes. Contexto histórico do aparecimento
da sociologia. In.: Introdução ao pensamento sociológico. São Paulo:
Centauro, 2001.
CHAUI, M. S. O que é ideologia. São Paulo: Brasiliense, 1980.
MAQUIAVEL, N. O príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
MARX, K. O capital: crítica da economia política. Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 1994.
MARX, K; ENGELS, F. O manifesto do partido comunista. Rio de Janeiro: Paz
e Terra, 1998.
z
2
AS TEORIAS SOCIOLÓGICAS
NA COMPREENSÃO
DO PRESENTE
uito bem. Segundo os pensadores de tempos
atrás...”
Nossa! Espere um pouco... Tempos atrás?
Essa moçada já não foi para o “andar de cima”?
Como é que eu posso pensar o meu mundo
hoje a partir de quem só viu o passado?
É possível?
Vamos ver se podemos...
Assis Chateaubriand - PR
32 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
Vamos começar por Auguste Comte (1798-1857), pois foi ele quem
criou o termo “sociologia” a partir da organização do curso de Filosofia
Positiva em 1839.
O que desejava Comte com esse curso? Ele pretendia fazer uma
síntese da produção científica, ou seja, verificar aquilo que havia sido
acumulado em termos de conhecimento bem como os métodos das ciências
já existentes, como os da matemática, da física e da biologia. Ele
queria saber se os métodos utilizados nessas ciências, os quais já haviam
alcançado um “status” de positivo, poderiam ser utilizados na física
social, denominada, por ele de Sociologia.
Este pensador era de uma linha positivista, o que quer dizer que
acreditava na superioridade da ciência e no seu poder de explicação
dos fenômenos de maneira desprendida da religiosidade, como era comum
se pensar naquela época. E tem mais... como positivista ele acreditava
que a ciência deveria ser utilizada para organizar a ordem social.
Na visão dele, naquela época, a sociedade estava em desordem, orientada
pelo caos. Devemos considerar que Comte vislumbrava o mundo
moderno que surgia, isto é, um mundo cada vez mais influenciado pela
ciência e pela consolidação da indústria, e a crise gerada por uma
certa anarquia moral e política quando da transição do sistema feudal
(baseado nas atividades agrárias, na hierarquia, no patriarcalismo) para
o sistema capitalista (baseado na indústria, no comércio, na urbanização,
na exploração do trabalhador).. Era essa positividade (instaurar
a disciplina e a ordem) que ele queria para a Sociologia.
Assim sendo quando Comte pensava a Sociologia, era como se fosse
uma “criança” sendo gestada, na qual colocava toda sua crença de
que poderia estudar e entender os problemas sociais que surgiam e reestabelecer
a ordem social e o progresso da civilização moderna. Ele
queria que a Sociologia estudasse de forma aprofundada os movimentos
das sociedades no passado para se entender o presente e, inclusive,
para imaginar o futuro da sociedade.
Percebeu? Olhando o passado para compreender o presente.
Os do “andar de cima”, e não só eles, nos ajudarão a ver melhor
o mundo que vivemos hoje.
Comte via a consolidação do sistema capitalista como sendo algo
necessário ao desenvolvimento das sociedades. Esse novo sistema,
bem como o abandono da teologia para explicação do mundo seriam
parte do progresso das civilizações. Já, os problemas sociais ou desordens
que surgiam eram considerados obstáculos que deveriam ser resolvidos
para que o curso do progresso pudesse continuar.
Portanto, a Sociologia se colocaria, na visão deste autor, como uma
ciência para solucionar a crise das sociedades daquela época. Mas
Comte não chegou a viabilizar a sua aplicação. Seu trabalho apenas
iniciou uma discussão que deveria ser continuada, a fim de que a Sociologia
viesse a alcançar um estágio de maturidade e aplicabilidade.
Auguste Comte
As teorias sociológicas na compreensão do presente 33
Sociologia
Você já reparou no lema da nossa bandeira? Tem alguma relação
com o pensamento de Comte? O Brasil pode ser visto como uma sociedade
que orienta-se pelo cumprimento da “Ordem e Progresso” inscritos
na nossa bandeira?
ATIVIDADE
Um pouco de História do Brasil: A Bandeira Nacional.
Símbolo nacional idealizado por Raimundo Teixeira Mendes e Miguel Lemos,
baseada na antiga bandeira do Brasil Império. Ela tremulou pela primeira
vez no dia 19 de novembro de 1889, na cidade do Rio de Janeiro.
Este dia ficou marcado como sendo o da sua adoção oficial. E hoje vemos
em nossos calendários que em todo 19 de novembro é comemorado o dia
da bandeira.
Bordada em pano de algodão suas estrelas foram projetadas por um
astrônomo. A inscrição ao centro substituiu o símbolo da “coroa” e foi um
resumo feito por Miguel Lemos, um de seus idealizadores, com base em
princípios positivistas de ordem e progresso.
< Acervo Icone Audiovisual
Continuando o trabalho iniciado por Comte, o de fazer da Sociologia
uma ciência, numa visão positiva, surge nessa história o sociólogo
francês Émile Durkheim (1858-1917). Dar à Sociologia uma reputação
científica foi o seu principal trabalho.
É a partir desse pensador que a Sociologia ganha um formato mais
“técnico”, sabendo o que e como ela iria buscar na sociedade. Com métodos
próprios, a Sociologia deixou de ser apenas uma idéia e ganhou
“status” de ciência.
Durkheim presenciou algumas das mais importantes criações da
sociedade moderna, como a invenção da eletricidade, do cinema, dos
carros de passeio, entre outros. No seu tempo, havia um certo otimismo
causado por essas invenções, mas Durkheim também percebia entraves
nessa sociedade moderna: eram os problemas de ordem social.
E uma das primeiras coisas que ele fez foi propor regras de observação
e de procedimentos de investigação que fizessem com que a Sociologia
fosse capaz de estudar os acontecimentos sociais de maneira
semelhante ao que faz a Biologia quando olha para uma célula, por
exemplo.
Émile Durkheim
34 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
Falando em Biologia nota-se que o seu objeto de estudo é a vida
em toda a sua diversidade de manifestações. As pesquisas dos fenômenos
da natureza feitas pela Biologia são resultantes de várias observações
e experimentações, manipuláveis ou não.
Já para a Sociologia, manipular os acontecimentos sociais, ou repeti-
los, é muito difícil. Por exemplo, como poderíamos reproduzir uma
festa ou um movimento de greve “em laboratório” e sempre de igual
modo? Seria impossível.
Os fatos sociais – objetos nas mãos
Mas Durkheim acreditava que os acontecimentos sociais – como os
crimes, os suícidios, a família, a escola, as leis – poderiam ser observados
como coisas (objetos), pois assim, seria mais fácil de estudá-los.
Então o que ele fez ? Propôs algumas das regras que identificam que
tipo de fenômeno poderia ser estudado pela Sociologia. A esses fenômenos
que poderiam ser estudados por uma ciência da sociedade ele
denominou de fatos sociais.
E as características dos fatos sociais são:
Coletivo ou geral – significa que o fenômeno é comum a todos os
membros de um grupo;
Exterior ao indivíduo – ele acontece independente da vontade individual;
Coercitivo – os indivíduos são “obrigados” a seguir o comportamento
estabelecido pelo grupo.
z
=
=
=
Para entender melhor, veja o exemplo de um fato social: o casamento
As pessoas pensam, em um dia, se casar. Salvo algumas exceções, pois não pensamos todos da
mesma forma, certo? Mas se fizermos uma pesquisa, veremos que a grande maioria das pessoas
deseja se unir a alguém.
< Foto: Icone Audiovisual.
As teorias sociológicas na compreensão do presente 35
Sociologia
Então podemos dizer que o casamento é um fato coletivo ou geral, pois
existe pela vontade da maioria de um grupo ou de uma sociedade.
Mas ainda que alguém não
queira se casar, a grande maioria
das pessoas vai continuar
querendo, não é mesmo?
Isso significa que o fato social “casamento” é exterior
ao indivíduo. O que quer dizer que ele se constitui
não como resultado das intenções particulares dos indivíduos,
mas como resposta às necessidades ou influências
do grupo, da comunidade ou da sociedade.
Outra coisa. Não é verdade que os mais velhos ficam nos “incentivando”
a casar? “Não vá ficar pra titia, heim!”, “Onde já se viu! Todo
mundo, um dia, tem que se casar!”. Com certeza você já ouviu alguém
dizendo isso.
Pois é. Esses dizeres nos levam a crer que o casamento também é
coercitivo, pois nos vemos “obrigados” a fazer as mesmas coisas que
fazem os demais membros do grupo ou da sociedade a que pertencemos.
Todo fato que reuna essas três características (generalização, exterioridade
e coerção) é denominado social, segundo Durkheim, e pode
ser estudado pela Sociologia. Quanto ao casamento, poderíamos estudar
e descobrir, por exemplo, quais fatores influem na decisão das
pessoas em se casarem e se divorciarem para depois se casarem novamente.
Perceba, então: Não apenas com o casamento...
Essas regras são da mesma maneira aplicadas ao trabalho, à escola,
à moda, aos costumes do nosso povo, à língua, etc.
O que é fato social?
Faça o exercício de localizar os fatos sociais a partir das características que Durkheim percebeu neles.
Recorte de jornais e revistas e traga para que a turma discuta se os fatos que você encontrou são
sociais e podem ser estudados pela Sociologia.
ATIVIDADE
Veja que interessante...
Para Durkheim, a sociedade só pode ser entendida pela própria sociedade.
As ações das pessoas não acontecem por acaso. A sociedadeas
influencia. Você concorda com isso? Veja o exemplo na página seguinte
e tire suas conclusões.
36 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
O Suicídio = Fato Social
O que leva uma pessoa a se suicidar? Loucura?
Durkheim utilizou sua teoria para explicar, por exemplo, o suicídio.
O que aparentemente seria um ato individual, para ele, estava ligado
com aquilo que ocorria na sociedade.
Esse pensador compreende a sociedade como um corpo organizado.
Assim como a Biologia que compreende o corpo humano e todas
suas partes em pleno funcionamento.
O médico Joaquim Monte, em seu livro “Promoção da qualidade de
vida” (1997) considera o corpo humano como sendo um “organismo
vivo concebido sob forma de uma estrutura que apresenta constituição
e função (um conjunto organizado de elementos bióticos de anatomia
e fisiologia). A estrutura do corpo humano representa a dimensão orgânica
da pessoa: a carne da qual somos constituídos (matéria orgânica
com suas características constitucionais e suas propriedades funcionais)
e que tem a potencialidade de reproduzir, nascer, maturar,
crescer, desenvolver, agir, adaptar, adoecer, sarar e morrer” (p. 257).
É de maneira semelhante que Durkheim entende a sociedade: com
suas partes em operação e cumprindo suas funções. E, caso a família,
a igreja, o Estado, a escola, o trabalho, os partidos políticos, etc.,
que são elementos da sociedade com funções específicas, venham a
falhar no cumprimento delas, surge no corpo da sociedade aquilo que
Durkheim chamou de anomia, ou seja, uma patologia. Assim, como no
corpo humano, se algo não funcionar bem, em “ordem”, significa que
está doente.
Dê uma olhada nas manchetes abaixo e reflita: o que leva esse fato
a ocorrer com muito mais freqüência no Japão do que aqui no Brasil,
ou em outro país?
Problemas financeiros e de saúde aumentam suicídios no Japão
23/07/2004 – 09h38 - data de publicação.
http://opt.zip.net/arch2004-07-18_2004-07-24.html - acesso em 20/mar/2005.
Nove morrem em suicídio coletivo no Japão
O5/02/2005 – 08h24 – data de publicação.
http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0%2C%2COI467123-EI294%2C00.html - acesso em 20/
Mar/2005
<
<
<
<
Andar em ‘desconformidade’ com o que seria tido como ideal na
sociedade pode ser fator altamente propício ao suicídio no Japão. Não
ser aprovado no vestibular ou se endividar podem ser exemplos de
‘desconformidade’ nessa sociedade.
As teorias sociológicas na compreensão do presente 37
Sociologia
A propósito desse tema, Durkheim verificou que existem três categorias
de suicídios. Analise-os:
Suicídio Altruísta: ocorre quando um indivíduo valoriza a sociedade
mais do que a ele mesmo, ou seja, os laços que o unem à sociedade
são muito fortes. Deixe-me lembrar você do ocorrido em 11 de
Setembro de 2001. Homens, em atos aparentemente “loucos”, pilotavam
aviões que se chocaram contra o World Trade Center em Nova
York, lembra? Para Durkheim, os agentes dessa aparente “loucura”
poderiam ser classificados como suicidas altruístas, pois se
identificavam de tal forma como o grupo Al Qaeda, ao qual pertenciam,
que se dispuseram a morrer por ele. Da mesma maneira
aconteceu com os kamikases japoneses durante a 2º Guerra Mundial
(1939-1945) e que, de certa forma, continua acontecendo com
os “homens-bomba” de hoje. Se você assistir ao filme “O Patriota”,
com Mel Gibson, poderá ver um exemplo de alguém que se dispôs
a morrer por uma causa que acreditava em relação ao seu país, no
caso, a Inglaterra.
Suicídio Egoísta: se alguém se desvinculasse das instituições sociais
(família, igreja, escola, partido político, etc.) por conta própria, para
viver de maneira livre, sem regras, qual seria o limite para essa
pessoa, uma vez que ninguém a controlaria? Pois é, segundo
Durkheim, a falta de redes de convívio ou limites para a ação poderia
levar a pessoa a desejar ilimitadas coisas. Mas caso tal pessoa
não consiga realizar os seus desejos, a frustração poderia levá-la a
um suicídio.
Suicídio Anômico: este tipo pode acontecer quando as partes do corpo
social deixam de funcionar e as normas ou laços que poderiam
“abraçar”(solidarizar) os indivíduos perdem sua eficácia, deixandoos
viver de forma desregrada ou em crise. Um exemplo disso pode
ser pensado quando, na nossa sociedade, uma família abandona o
filho, ou o idoso, ou o doente.
=
=
=
Pesquisa de dados
Procure na internet, jornais, livros ou revistas, a origem dos suicídios atuais para discutirmos à luz do
que pensa Durkheim. Verifique sua teoria analisando alguns fatos.
Qual a relação entre o corpo humano, estudado pela Biologia, e o corpo da sociedade, pensado
por Durkheim?
PESQUISA
38 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
E o mundo moderno para Durkheim?
A humanidade, para esse autor, está em constante evolução, o que
seria caracterizado pelo aumento dos papéis sociais ou funções. Por
exemplo, para Durkheim, existem sociedades que organizam-se sob a
forma de um tipo de solidariedade denominada mecânica e outras sociedades
organizam-se sob a forma de solidariedade orgânica.
As sociedades organizadas sob a forma de solidariedade mecânica
seriam aquelas nas quais existiriam poucos papéis sociais. Segundo
Durkheim, nessas sociedades, os membros viveriam de maneira semelhante
e, geralmente, ligados por crenças e sentimentos comuns, o que
ele chama de consciência coletiva. Neste tipo de sociedade existiria pouco
espaço para individualidades, pois qualquer tentativa de atitude “individualista”
seria percebida e corrigida pelos demais membros.
A organização de algumas aldeias indígenas poderiam servir de
exemplo de como se dá a solidariedade mecânica: grupos de pessoas
vivendo e trabalhando semelhantemente, ligados por suas crenças e
valores. Nesses grupos, se alguém começasse a agir por conta própria,
seria fácil perceber quem estaria “tumultuando” o modo de vida local.
Outro exemplo que pode caracterizar a solidariedade mecânica são os
mutirões para colheita em regiões agrárias ou para reconstruir casas
devastadas por vendavais e, ainda, são exemplos também as campanhas
para coletar alimentos.
Diferentemente das sociedades organizadas em solidariedade mecânica,
nas sociedades de solidariedade orgânica – típicas do mundo
moderno - existem muitos papéis sociais. Pense na quantidade de tarefas
que pode haver nas áreas urbanas, nas cidades: são muitas as funções
e atividades. Durkheim acreditava que mesmo com uma grande
divisão e variedade de atividades, todas elas deveriam cooperar entre
si. Por isso, deu o nome de orgânica (como se fosse um organismo).
Mas, nessas sociedades, diante da existência de inúmeros papéis
sociais, diminui o grau de controle da sociedade sobre cada pessoa. A
individualidade, sob menor controle, passa a ser uma porta para que a
pessoa pretenda aumentar, ainda mais, o seu raio de ação ou de posições
dentro da sociedade.
Uma das maiores expressões da anomia no mundo moderno, segundo
Durkheim, seria esta: o egoísmo das pessoas. E a causa desta
atitude seria a fragilidade das normas e controles sobre a individualidade,
normas e controles que nas sociedades de solidariedade mecânica
funcionam com maior eficácia
Qual seria, então, a solução para o mundo moderno, segundo
Durkheim?
As teorias sociológicas na compreensão do presente 39
Sociologia
Já que ele compara a sociedade com um corpo, deve haver algo nela
que não está cumprindo sua função e gerando a patologia (a anomia,
a doença). O corpo precisa de diagnóstico e remédio. Segundo
ele, a Sociologia teria esse papel, ou seja, o de encontrar as “partes”
da sociedade que estão produzindo fatos sociais patológicos e apontar
para a solução do problema. Durkheim chegou a fazer, para as escolas
francesas, propostas de valores tais como ‘o respeito da razão, da ciência,
das idéias e sentimentos em que se baseia a moral democrática’,
visando contribuir à restauração da ordem social naquela sociedade.
Uma outra maneira de ver a sociedade...
O pensamento do sociólogo que estudaremos
a seguir vai em direção diferente ao que
vimos até agora. Max Weber (1864-1920), ao
contrário de Durkheim e Comte, acreditou na
possibilidade da interpretação da sociedade
partindo não dos fatos sociais já consolidados
e suas características externas (leis, instituições,
normas, regras, etc). Propôs começar pelo indivíduo
que nela vive, ou melhor, pela verificação
das “intenções”, “motivações”, “valores” e “expectativas” que orientam
as ações do indivíduo na sociedade. Sua proposta é a de que os indivíduos
podem conviver, relacionar-se e até mesmo constituir juntos algumas
instituições (como a família, a igreja, a justiça), exatamente porque
quando agem eles o fazem partilhando, comungando uma pauta
bem parecida de valores, motivações e expectativas quanto aos objetivos
e resultados de suas ações. E mais, seriam as ações recíprocas (repetidas
e “combinadas”) dos indivíduos que permitiriam a constituição
daquelas formas duráveis (Estado, Igreja, casamento, etc.) de organização
social.
Weber desenvolve a teoria da Sociologia Compreensiva, ou seja,
uma teoria que vai entender a sociedade a partir da compreensão dos
‘motivos’ visados subjetivamente pelas ações dos indivíduos.
Uma crítica de Weber aos positivistas, entre os quais se encontrariam
Comte e Durkheim, deve-se ao fato de que eles pretendiam fazer da
Sociologia uma ciência positiva, isto é , baseada nos mesmos métodos
de investigação das ciências naturais. Segundo Weber, as ciências naturais
(biologia, física, por exemplo) conseguiriam explicar aquilo que estudam
( a natureza) em termos de descobrir e revelar relações causais
diretas e exclusivas, que permitiriam a formulação de leis de funcionamento
de seus eventos, como as leis químicas e físicas que explicam o
z
Max Weber
40 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
fenômeno da chuva. Mas a ciência social não poderia fazer exatamente
o mesmo. Segundo Weber, não haveria como garantir que uma ação ou
fenômeno social ocorrerá sempre de determinada forma, como resposta
direta a esta ou aquela causa exclusiva. No caso das Ciências Humanas,
isso ocorre porque o ser humano possui “subjetividade”, que aparece
na sua ação na forma de valores, motivações, intenções, interesses
e expectativas.
Embora esses elementos que compõem a subjetividade humana sejam
produtos culturais, quer dizer, produtos comuns acolhidos e assumidos
coletivamente pelos membros da sociedade, ou do grupo, ainda
assim se vê que os indivíduos vivenciam esses valores, motivações e expectativas
de modos particulares. Às vezes com aceitação e reprodução
dos valores e normas propostas pela cultura comum do grupo; outras
vezes, com questionamentos e reelaboração dessas indicações e até rejeição
das mesmas.
Decorre dessa característica (de certa autonomia, criatividade e inventividade
do ser humano diante das obrigações e constrangimentos
da sociedade) a dificuldade de se definir leis de funcionamento da ação
social que sejam definitivas e precisas.
Por isso, o que a Sociologia poderia fazer, seria desenvolver procedimentos
de investigação que permitissem verificar que conjunto de “motivações”,
valores e expectativas compartilhadas, estaria orientando a
ação dos indivíduos envolvidos no fenômeno que se quer compreender,
como uma eleição, por exemplo. Seria possível sim, prever, com algum
acerto, como as pessoas votarão numa eleição, pesquisando sua “subjetividade”,
ou seja, levantando qual é, naquela ocasião dada, o conjunto
de valores, motivações, intenções e expectativas compartilhadas pelo
grupo de eleitores em foco, e que servirão para orientar sua escolha eleitoral.
Esses pressupostos estão por detrás das conhecidadas “pesquisas
de intenção de voto”, bastante freqüentes em vésperas de eleições.
Vamos tentar ver isso na prática...
Segundo Weber, as pessoas podem atuar, em geral, mesclando quatro
tipos básicos de ação social. São eles:
A ação racional com relação a fins: age para obter um fim objetivo
previamente definido. E para tanto, seleciona e faz uso dos meios
necessários e mais adequados do ponto de vista da avaliação. O
que se destaca, aqui, é o esforço em adequar, racionalmente, os fins
e os meios de atingir o objetivo. Na ação de um político, por exemplo,
podemos ver um foco: o de obter o cargo com o poder que deseja
a fim de...Bom. Aí depende do político.
Agora, “dando um tempo” nas teorias, veja o que Weber pensa sobre
a política: ele nos fala no livro Ciência e Política – Duas vocações
=
As teorias sociológicas na compreensão do presente 41
Sociologia
(2002), que há dois tipos de políticos que por nós são eleitos. Acompanhe:
a) Os políticos que exercem essa profissão por vocação, ou seja, os
que têm o poder como meta para trabalhar arduamente em prol
da sociedade que os elegeu. Podemos dizer, em concordância com
Weber, que estes são os que vivem para a política, certo?
b) E os que são políticos sem vocação, ou seja, que olham para a política
como se fosse um “emprego” apenas. São aqueles que, uma
vez eleitos, geralmente se esquecem dos compromissos sociais que
assumiram, pouco fazem pelo social, trabalham apenas para manter-
se no poder a fim de continuar ganhando o salário. Weber diz
que estes são os que vivem da política.
Bem. Fechados os parênteses teóricos, voltemos aos demais tipos
de ação.
A ação racional com relação a valores, ocorreria porque, muitas vezes,
os fins últimos de ação respondem a convicções, ao apego fiel
a certos valores (honra, justiça, honestidade...). Neste tipo, o sentido
da ação está inscrito na própria conduta, nos valores que a motivaram
e não na busca de algum resultado previa e racionalmente
proposto. Por esse tipo de ação podemos pensar as religiões. Ninguém
vai a uma igreja ou pertence a determinada religião, de livre
vontade, se não acredita nos valores que lá são pregados. Certo?
Na ação afetiva a pessoa age pelo afeto que possui por alguém ou
algo. Uma serenata pode ser vista como uma ação afetiva para
quem ama, não é mesmo?
A ação social tradicional é um tipo de ação que nos leva a pensar
na existência de um costume. O ato de tomar chimarrão ou pedir a
benção dos pais na hora de dormir são ações que podem ser pensadas
pela ação tradicional.
Agora, entendendo a sociedade por Weber...
Muito bem. A idéia de Weber para se entender a sociedade é a seguinte:
se quisermos compreender a instituição igreja, por exemplo,
vamos ter que olhar os indivíduos que a compõem e suas ações. Provavelmente
haverá um grupo significativo de pessoas que agem do
mesmo modo, quer dizer, partilhando valores, desejos e expectativas
quanto à religião, o que resultaria no que Weber chama de relação social.
A existência da relação social dos indivíduos, ou seja, uma combinação
de ações que se orientam para objetivos parecidos, é que faz
compreender o ‘porquê’ da existência do todo, como neste próprio
exemplo da igreja. É assim que, as normas, as leis e as instituições são
formas de relações sociais duráveis e consolidadas.
=
=
=
42 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
Quanto ao sistema capitalista e mundo moderno...
O que pensa Weber?
Uma contribuição relevante de Weber, neste caso, é demonstrar
que a montagem do modo de produção capitalista, no ocidente europeu,
principalmente, contou com a existência, em alguns países, de
uma ‘pauta’ de valores de fundo religioso que ajudou a criar entre certos
indivíduos, predisposições morais e motivações para se envolverem
na produção e no comércio de tipo capitalista.
Os tipos de ação, para Weber, sempre serão construções do pensamento,
isto é, suposições teóricas baseadas no conhecimento acumulado,
que o sociólogo fará para se aproximar ao máximo daquilo que
seria a ação real do indivíduo nas circunstâncias ou no grupo em que
vive. Com esse instrumento, o sociólogo pode avaliar, na análise de
um fenômeno, o que se repete, com que intensidade, e o que é novo
ou singular, comparando-o com outros casos parecidos, já conhecidos
e resumido numa tipologia.
Por exemplo, se há alguém apaixonado que você conheça, qual seria
o tipo ideal de ação desta pessoa? A afetiva! Assim sendo, seria “fácil”
prever quais seriam as possíveis atitudes desta pessoa: mandar flores
e presentes, querer que a hora passe logo para estar com ela(e),
sonhar acordado e coisas do tipo. E assim poderíamos entender, em
parte, como se forma a instituição família. Uma coisa liga a outra.
Outro exemplo. Pode ser que alguém perto de você nem pense em
querer se apaixonar para não atrapalhar os estudos. Sua meta é a universidade
e uma ótima profissão. Então, o que temos aqui? Uma ação
racional! Para esta pessoa nem adiantaria mandar flores ou “torpedos”,
certo? O que não significa que não possamos tentar, não é mesmo?
< Foto: João Urban
As teorias sociológicas na compreensão do presente 43
Sociologia
Para relembrar...
O Calvinismo tem sua origem
nas idéias protestantes
pregadas por João Calvino
(1509-1564) que, a
exemplo de Martinho Lutero
(1483-1546), fundador
da Igreja Luterana, rompeu
com os ensinamentos
da Igreja Católica. Na intensa
busca do conhecimento
bíblico, os calvinistas tornaram-
se altamente moralistas
(puritanos) e muito disciplinados.
Também criam que
os homens eram predestinados
à salvação.
Para lembrar...
Budismo: Sidarta Gautama
– o Buda – (563a.C-486a.
C) foi o fundador do Budismo,
uma religião e filosofia
que surgiu na Índia e que
tem como moral a preservação
da vida e a moderação,
além de praticar o ensino de
boas ações, purificação e treino
da mente (meditação). Os
budistas não crêem que há
um Deus criador de todas as
coisas.
Para lembrar...
Confucionismo: Filosofia criada
pelo pensador chinês
Kung-Fu-Tzu – o Confúcio –
(551a.C – 479a.C). Tal filosofia
tem quatro pilares: a religião,
a política, a pedagogia
e a moral.
Buda
< Foto: Icone Audiovisual.
Na crença dos calvinistas, os homens já nasceriam predestinados à salvação
ou ao inferno, embora não pudessem saber, exatamente, seu destino
particular. Assim sendo, e para fugir da acusação de pecadores e desmerecedores
do melhor destino, dedicavam-se a glorificar Deus por meio
do trabalho e da busca do sucesso na profissão.
Com o passar dos tempos, essa idéia de que a predestinação e o
sucesso profissional seriam indícios de salvação da alma foi perdendo
força. Mas o interessante é que a ética estimuladora do trabalho disciplinado
e da busca do sucesso nos negócios ganhou certa autonomia
e continuou a existir independente da motivação religiosa.
Para Weber, ser capitalista é sinônimo de ser disciplinado no que
se faz. Seria da grande dedicação ao trabalho que resultaria o sucesso
e o enriquecimento. Herança da ética protestante, válida também para
os trabalhadores.
Mas por que os católicos e as outras religiões orientais não tiveram
parte nesta construção capitalista analisada por Weber?
Porque a ética católica privilegiava o discurso da pobreza, reprovando
a pura busca do lucro e da usura e não viam o sucesso no trabalho
como indícios de salvação e nem como forma de glorificar a Deus,
como faziam os calvinistas. Assim sendo, sem motivos divinos para dedicarem-
se tanto ao trabalho, não fizeram parte da lista weberiana dos
primeiros capitalistas.
Quanto às religiões do mundo oriental, a explicação seria de que
essas tinham uma imagem de Deus como sendo parte do mundo secular,
ao contrário da ética protestante ocidental que o concebia como
estando fora do mundo e puro. Assim sendo, os orientais valorizavam
o mundo, pois Deus estaria nele. O Budismo e o Confucionismo são
exemplos do que falamos. E daí a idéia e a
prática de não se viver apenas para o trabalho,
mas sim de poder aproveitar tudo o
que se ganha pelo trabalho com as coisas
desta vida, entende?
Em relação ao mundo moderno (científico),
Weber demonstrava um certo pessimismo
e não encontrava saída para os problemas
culturais que nele surgiam, assim como
para a “prisão” na qual o homem se encontrava
por causa do sistema capitalista.
Antes da sociedade moderna, a religião
era o que motivava a vida das pessoas e
dava sentido para suas ações, inclusive ao
trabalho. Mas com o pensamento científico
tomando espaço como referencial de mundo,
certos apegos culturais – crenças, formas
de agir – vindos da religiosidade fo44
O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
Contrapondo...
No que difere o raciocínio de Weber em relação ao de Durkheim sobre a maneira de ver a sociedade?
Justifique.
Como Durkheim e Weber nos auxiliam a compreender o sistema capitalista e o mundo moderno?
ATIVIDADE
Seguindo para mais um clássico da Sociologia:
A crítica da sociedade capitalista.
Vamos falar agora de quem também viu a consolidação da sociedade
capitalista e fez uma forte crítica a ela. O alemão, filósofo e economista
Karl Marx (1818–1883), foi um dos responsáveis, se não o maior
deles, em promover uma discussão crítica da sociedade capitalista que
se consolidava, bem como da origem dos problemas sociais que este
tipo de organização social originou.
E veja, também, que interessante. Para ele “a história de todas as sociedades
tem sido a história da luta de classes”.
Mas como assim, lutas de classe? Quais são elas?
Nas sociedades de tipo capitalista a forma principal de conflito
ocorre entre suas duas classes sociais fundamentais: a burguesia versus
o proletariado.
Você se lembra que comentamos no primeiro “Folhas” como foi
que surgiu a chamada burguesia e por que ela ficou conhecida assim ?
Pois bem, segundo Marx, a burguesia foi tendo acesso, a partir da atividade
comercial à posse dos meios de produção, enriqueceu e também
passou a fazer parte daqueles que controlavam o aparelho estatal,
o que acabou, por fim funcionando, principalmente como uma espécie
z
Karl Marx
ram confrontados. O problema que Weber via era que a ciência não
poderia ocupar por completo o lugar que a religião tinha ao dar sentido
ao mundo.
Se, em contextos históricos anteriores, o trabalho poderia ser motivado
pela religião, como foi explicado anteriormente, e agora não é
mais, devido à racionalização do mundo, por que, então, o homem se
prende tanto ao trabalho?
Porque o sistema capitalista – da produção industrial em série e
da exploração da mão-de-obra – deixou o homem ocidental sem uma
“válvula de escape”. Preso, agora ele vive do e para o trabalho.
As teorias sociológicas na compreensão do presente 45
Sociologia
de “escritório burguês”. Com esse acesso ao poder do aparelho estatal,
a burguesia foi capaz de usar sua influência sobre ele para ir criando
leis que protegessem a propriedade privada (particular), condição indispensável
para sua sobrevivência, além de usar o Estado para facilitar
a difusão de sua ideologia de classe, isto é, os seus valores de interpretação
do mundo.
Enquanto isso, a classe assalariada (os proletários), sem os meios
de produção e em desvantagem na capacidade de influência política
na sociedade, transforma-se em parte fundamental no enriquecimento
da burguesia, pois oferecia mão-de-obra para as fábricas, (as novas
unidades de produção do mundo moderno).
Marx se empenhava em produzir escritos que ajudassem a classe
proletária a organizar-se e assim sair de sua condição de alienação.
Alienado, segundo Marx, seria o homem que não tem controle sobre
o seu próprio trabalho, em termos de tempo e em termos daquilo
que é produzido, coisa que o capitalismo faz em larga escala, pois o
tempo do trabalhador e o produto (a mercadoria) pertencem à burguesia,
bem como a maior parte da riqueza gerada por meio do trabalho.
Falando em lucro...
O objetivo do sistema capitalista, como modo de produção, é justamente
a ampliação e a acumulação de riquezas nas mãos dos proprietários
dos meios de produção. Mas de onde sai essa riqueza? Marx diria
que é do trabalho do trabalhador.
Ideologia:
Segundo Marx e Engels, o
termo se encaixa na tradução
de “falsa consciência”,
ou seja, um conjunto
de idéias falsas que justificavam
o domínio burguês
e camuflava a existência
da dominação desta classe
sobre a classe trabalhadora.
< Foto: João Urban
46 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
Veja um exemplo. Quantos sofás por mês um trabalhador pode fazer?
Vamos imaginar que sejam 15 sofás, os quais multiplicados a um
preço de venda de R$ 300,00 daria o total de R$ 4.500,00.
E quanto ganha um trabalhador numa fábrica? Imagine que seja uns
R$ 1.000,00, para sermos mais ou menos generosos.
Bem, os R$ 4.500,00 da venda dos sofás, menos o valor do salário
do trabalhador, menos a matéria-prima e impostos (imaginemos
R$ 1.000,00) resulta na acumulação de R$ 2.500,00 para o dono
da fábrica.
Esse lucro Marx chama de mais-valia, pois é um excedente que
sai da força de cada trabalhador. Veja, se os meios de produção pertencessem
a ele, o seu salário seria de R$ 3.500,00 e não apenas
R$ 1.000,00.
Então podemos dizer que o trabalhador está sendo roubado? Não
podemos dizer isso, pois o que aqui exemplificamos é conseqüência
da existência da propriedade privada e de os meios de produção nas
mãos de uma classe, a burguesia.
Para entender a sociedade, por Marx
Devemos partir do entendimento de que as coisas materiais fazem
a sociedade acontecer. De outra maneira, seria dizer que tudo o que
acontece na sociedade tem ligação com a economia e que ela se transforma
na mesma medida em que as formas de produção também se
transformam. Por exemplo, com a consolidação do sistema capitalista,
toda a sociedade teve que organizar-se de acordo com os novos moldes
econômicos.
Marx também via o homem como aquele que pode transformar a
sociedade fazendo sua história, mas enfatiza que nem sempre ele o faz
como deseja, pois as heranças da estrutura social influenciam-no. Assim
sendo, não é unicamente o homem quem faz a história da sociedade,
pois a história da sociedade também constrói o homem, numa
relação recíproca. Entendeu?
Vamos tentar explicar melhor. As condições em que se encontram a
sociedade vão dizer até que ponto o homem pode construir a sua história.
Por essa lógica podemos pensar que a classe dominante, a burguesia,
tem maiores oportunidades de fazer sua história como deseja,
pois tem o poder econômico e político nas mãos, ao contrário da
classe proletária que, por causa da estrutura social, está desprovida de
meios para tal transformação. Para modificar essa situação somente
por intermédio de uma revolução, pois assim a classe trabalhadora pode
assumir o controle dos meios de produção e tomar o poder político
e econômico da burguesia.
Para Marx, a classe trabalhadora deveria organizar-se politicamente,
isto é, conscientizar-se de sua condição de explorada e dominada
por meio do trabalho e transformar a sociedade capitalista em socialista
por intermédio da revolução.
Socialismo:
Pressupõe uma sociedade na
qual os meios de produção
pertençam a todos os seus
membros. Para tal, o sistema
capitalista deveria ser superado,
deixando de existir a propriedade
privada e passando a existir
a “propriedade coletiva”.
As teorias sociológicas na compreensão do presente 47
Sociologia
Referências:
COMTE, A. Sociologia [organização e tradução de Evaristo de Morais Filho] São Paulo: Ática, 1978.
DURKHEIM, É. Sociologia [organizador da coletânea: Albertino Rodrigues]. São Paulo: Ática, 1978.
_______________. Da divisão social do trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
_______________. As regras do método sociológico. Tradução. Maria Isaura Pereira de Queiroz. São Paulo:
Cia. Editora Nacional, 1974.
_______________. O suicídio. 6. Ed. Lisboa: Presença, 1996.
MARX, K. O capital: crítica da economia política. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.
__________. O manifesto do partido comunista: Karl Marx e Friedrich Engels; tradução de Maria Lúcia Como:
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.
__________. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
MONTE, J. Promoção da qualidade de vida. Curitiba: Letras, 1997.
SELL, C. E. Émile Durkheim. In.: Sociologia Clássica: Durkheim, Weber e Marx – 3ª ed. – Itajaí: Ed. Univali,
2002.
WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. 11ª.Ed. São Paulo: Pioneira, 1996.
___________. Ciência e Política: duas vocações – coleção: A obra-prima de cada autor. São Paulo: Martin
Claret, 2002.
___________. Sociologia [organizador da coletânea: Gabriel Cohn]. São Paulo: Ática, 1979.
Pesquisado em: http://www.estadao.com.br Acesso em: 19.03.05
Pesquisado em: http://www.wikipedia.org/ Acesso em 14.10.05
z
Pensando como Marx...
Como a teoria de Marx nos ajuda a entender a sociedade contemporânea?
A pobreza no Brasil e no mundo pode ser pensada como sendo uma das conseqüências do sistema
capitalista? Por quê?
No que Marx diferencia-se dos demais autores vistos até aqui?
ATIVIDADE
3
A PRODUÇÃO
SOCIOLÓGICA
BRASILEIRA
— E o Brasil?
— O Brasil? Como assim? O que tem ele?
— Mas é isto mesmo o que queremos saber...
— O que tem o Brasil?
fato é que até aqui vimos apenas teorias
sociológicas “importadas”.
Mas será que tais teorias, de pensadores
que não viveram a realidade deste que é
gigante pela própria natureza, belo, forte,
um impávido colosso, e que tem um futuro
que espelha sua enorme grandeza, podem dar
contar de explicar o que acontece por aqui?
AMARELO na SOCIOLOGIA?
1Colégio Estadual Chateaubriandense.
Assis Chateaubriand - PR
50 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
Bom, antes de estudarmos a produção sociológica brasileira, gostaria
de mencionar, bem rapidamente, uma idéia que pode nos ajudar a
pensar sobre um aspecto muito importante: a escolha das teorias para
refletirmos sobre a sociedade.
Vamos imaginar que durante a leitura destes textos você se identificou
muito com os elementos que Karl Marx nos fornece para interpretação
da sociedade, isto é, pela lógica econômica e material.
Mas veja. Será que a teoria marxista, apenas, seria suficiente para
entender todas as questões sociais, como por exemplo, o movimento
feminista, a união de casais homossexuais, os suicídios dos homensbomba,
as religiões, etc.?
Bem, o que estamos querendo transmitir com essa reflexão é que,
o ideal, é não termos posturas doutrinárias quanto à teoria que mais
gostamos, como se fosse uma espécie de “verdade absoluta”, não aceitando,
portanto, a contribuição que outras teorias podem nos dar para
o trabalho de reflexão sobre a sociedade.
Portanto, o que devemos fazer é exercitar uma “conversa” com as
mesmas para, então, elegermos a teoria que seja mais adequada à situação
que queremos entender. Ok?
E falando em teorias...
A Sociologia no Brasil...
Podemos dizer que a Sociologia brasileira começa a “engatinhar” a
partir da década de 1930, vindo a se fortalecer nas décadas seguintes.
Apesar de alguns autores da sociologia dizerem que não há uma
data correta que marca o seu começo em solo brasileiro, essa época
parece ser a mais adequada para se falar em início dos estudos sociológicos
no Brasil.
Quando dizemos “data mais adequada”, é porque as produções literárias
que surgem a partir dessa década (1930) começam a demonstrar
um interesse na compreensão da sociedade brasileira quanto à sua
formação e estrutura.
Mas note não estamos afirmando que antes da data acima ninguém
havia se proposto a entender nossa sociedade. Antes da década de
1930 muitos ensaios sociológicos sobre o Brasil foram elaborados por
historiadores, políticos, economistas, etc. No entanto, na maioria destes
trabalhos, os autores apresentavam a tendência de escrever sobre
raça, civilização e cultura, mas não tentavam explicar a formação e a
estrutura da sociedade brasileira.
A partir de 1930, surge no Brasil um período no qual a reflexão sobre
a realidade social ganha um caráter mais investigativo e explicativo.
z
A produção sociológica brasileira 51
Sociologia
Esse caráter mais investigativo e explicativo foi impulsionado pelos
muitos movimentos que estimularam uma postura mais crítica sobre o
que acontecia na sociedade brasileira. Dentre alguns destes movimentos
estão o Modernismo, a formação de partidos (sobretudo o partido
comunista) e os movimentos armados de 1935.
Movimentos como esses, de alguma forma, traziam transformações
de ordem social, econômica, política e cultural ao país, e despertavam
o interesse de pensadores em dar explicações a tais fenômenos. Aos
poucos a Sociologia passa a constituir-se como uma forma de reflexão
sobre a sociedade brasileira. Veja como isso aconteceu:
Movimento Modernista:
Lutava para que as regras
vigentes sobre a arte e a literatura
deixassem de “engessar”
a produção brasileira. A
intenção do movimento era
que os moldes internacionais
não sufocassem o que viesse
a ser arte com um jeito
nacional. A Semana de Arte
Moderna de 1922, em SP,
foi uma espécie de marco da
independência da arte brasileira.
Partido Comunista: Fundado
em 25 de Março de
1922, tinha o ideário de criar
uma cultura socialista no Brasil.
Com base em teóricos
como
o alemão Karl Marx, inauguraram
uma maneira de se
fazer política voltada aos interesses
do proletariado.
Movimentos armados de
1935: Também conhecidos
como o “Levante Comunista”.
Tiveram como protagonistas
o Partido Comunista
(PCB) e os Tenentes de esquerda
do exército brasileiro.
Alguns de seus projetos e lutas
eram pelo fim do imperialismo
e pela existência de
uma ditadura democrática.
Apesar de vencidos, serviram
para que o PCB ficasse
conhecido e ganhasse maior
força no cenário brasileiro.
Ver indicação de filme correspondente
no final deste trabalho.
Fases da sua implantação
Dividindo os acontecimentos da implantação da Sociologia no Brasil
como ciência, em fases, ou em geração de autores, de acordo com
o sociólogo brasileiro Otávio Ianni (1926-2003), destacamos aqui três
delas, as quais se complementam:
A fase “A” da implantação da Sociologia no Brasil:
A primeira geração da Sociologia brasileira seria composta por
aqueles autores que se preocuparam em fazer estudos históricos sobre
a nossa realidade, com um caráter mais voltado à Literatura do que para
a Sociologia.
Desta geração de autores, queremos destacar Euclides da Cunha
(1866-1909). Cunha nasceu no Rio de Janeiro, foi militar engenheiro,
além de ter estudado Matemática e Ciências Físicas e Naturais. Porém,
o que gostava de fazer, como profissional, era o jornalismo.
Em 1895, abandonou o Exército e começou a trabalhar como correspondente
do jornal “O Estado de São Paulo”. Nessa função foi enviado
para a Guerra de Canudos, no interior da Bahia, de onde surgiu
sua maior contribuição à Sociologia brasileira: o livro Os Sertões.
Se analisarmos este livro pelo enfoque literário, podemos perceber
que Cunha faz, usando seus conhecimentos de Ciências e Físicas Naturais,
relatos sobre como era a terra e a paisagem de Canudos. Também
faz a descrição dos homens que ali viviam, ou seja, os sertanejos,
nos quais percebe que, ao contrário do que pensava antes de conhecê-
los, eram fortes e valentes, ainda que a aparência dos mesmos não
demonstrasse isso.
Por fim, Cunha descreve a guerra, isto é, como foi que o governo
da época conseguiu acabar com o que considerava ser uma revolução
que reivindicava a volta do sistema monárquico no Brasil. Na verdade
z
52 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
Antonio Conselheiro (o líder da Revolução de Canudos) e seus seguidores
apenas defendiam seus lares, sua sobrevivência.
“É que estava em jogo, em Canudos, a sorte da República...” Diziam-no
informes surpreendedores; aquilo não era um arraial de bandidos truculentos
apenas. Lá existiam homens de raro valor – entre os quais se nomeavam
conhecidos oficiais do exército e da armada, foragidos desde a Revolução
de Setembro, que o Conselheiro avocara ao seu partido.” (CUNHA, 1979: 250).
Olhando mais pelo lado sociológico, podemos perceber que Cunha
estava fazendo revelações quanto à organização da República que estava
sendo consolidada. Canudos era um retrato de uma sociedade republicana
que não conseguia suprir as necessidades básicas de seu povo.
Coisa que Antonio Conselheiro, com sua maneira missionária de
ser, acreditava e lutava para acontecer, pois...
“...abria aos desventurados os celeiros fartos pelas esmolas e produtos
do trabalho comum. Compreendia que aquela massa, na aparência inútil,
era o cerne vigoroso do arraial. Formavam-na os eleitos, felizes por terem
aos ombros os frangalhos imundos, esfiapados sambenitos de uma penitência
que lhes fora a própria vida; bem-aventurados porque o passo trôpego,
remorado pelas muletas e pelas anquiloses, lhes era a celeridade máxima,
no avançar para a felicidade eterna”. (CUNHA, 1979: 132 ).
Após duas tentativas sem sucesso de “tomar” Canudos – pois os
sertanejos tornavam difícil a vida dos soldados, por conhecerem muito
bem a caatinga sertaneja – o governo federal republicano deixou
de subestimar a força daquelas pessoas que se uniram a Conselheiro.
Convocou para uma terceira expedição batalhões armados de vários
estados brasileiros e promoveu uma grande guerra e matança naquela
região, em prol da República.
A observação de Euclides da Cunha e as revelações que faz quanto
à sociedade brasileira em Os Sertões, transforma esta obra em um dos
referenciais de início do pensamento sociológico no Brasil.
Guerra de Canudos
(1897): Aconteceu numa
abandonada fazenda no interior
da Bahia que tinha o
nome de Canudos. As tropas
federais massacraram
milhares de pessoas que
viviam naquele lugar tendo
por líder um beato chamado
Antonio Conselheiro
o qual, a partir de 1890,
começou a ajuntá-los pregando
esperança para os
que foram esquecidos pelo
governo republicano. Conselheiro
era visto, pelo governo,
como sendo um líder
perigoso e contrário à
consolidação da República.
Por isso o objetivo da
guerra.
Ver indicação de filme no
final do trabalho.
Pesquisa para reflexão.
Faça uma pesquisa, a exemplo de Euclides da Cunha, a respeito dos problemas sociais do seu cotidiano,
por exemplo, na área da educação, saúde, transporte coletivo, moradia etc. Escolha pelo menos
duas áreas para sua pesquisa e, após o levantamento dos dados, apresente suas conclusões sobre
as ações do poder público com relação ao que você investigou.
PESQUISA
A produção sociológica brasileira 53
Sociologia
A fase “B” da implantação da Sociologia no Brasil:
Numa segunda fase de geração de autores, a preocupação em se fazer
pesquisas de campo, que é uma característica das pesquisas sociológicas,
começa a ser levada em conta.
Existem vários autores desta geração que poderíamos referenciar,
como Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda,
Fernando de Azevedo, Nelson Wernek Sodré, Raymundo Faoro, etc.
No entanto, vamos nos fixar em dois deles, os quais podem ser vistos
como clássicos do pensamento social brasileiro: Gilberto Freyre e Caio
Prado Júnior.
Gilberto Freyre foi o autor de Casa Grande & Senzala (1933), livro no
qual demonstrou as características da colonização portuguesa, a formação
da sociedade agrária, o uso do trabalho escravo e, ainda, como
a mistura das raças ajudou a compor a sociedade brasileira.
Freyre foi um sociólogo que nasceu em Pernambuco no ano de
1900 e, no desenvolver de sua profissão, criou várias cátedras de Sociologia,
como na Universidade do Distrito Federal, fundada em 1935.
Freyre faleceu em 1987.
Quando escreveu Casa Grande & Senzala tinha 33 anos e, anti-racista
que era, inaugurou uma teoria que combatia a visão elitista existente
na época, importada da Europa, a qual privilegiava a cor branca.
Segundo tal visão racista, a mistura de raças seria a causa de uma formação
“defeituosa” da sociedade brasileira, e um atraso para o desenvolvimento
da nação.
Freyre propõe um caminho inverso. Em Casa Grande & Senzala ele
começa justamente valorizando as características do negro, do índio e
do mestiço acrescentando, ainda, a idéia de que a mistura dessas raças
seria a “força”, o ponto positivo, da nossa cultura.
Este autor forneceu, para o seu tempo, uma nova maneira de ver a
constituição da nacionalidade brasileira, isto é, o Brasil feito por uma
harmoniosa união entre o branco (de origem européia), o negro (de
origem africana), o índio (de origem americana) e o mestiço, ressaltando
que essa “mistura” contribuiu, em termos de ricos valores, para a
formação da nossa cultura.
Veja alguns trechos de sua obra a este respeito:
“Um traço importante de infiltração de cultura negra na economia e na vida
doméstica do brasileiro resta-nos acentuar: a culinária” (FREYRE, 2002)
“Foi ainda o negro quem animou a vida doméstica do brasileiro de sua
maior alegria.”(FREYRE, 2002)
“Nos engenhos, tanto nas plantações como dentro de casa, nos tanques
de bater roupa... carregando sacos de açúcar... os negros trabalhavam
sempre cantando.” (FREYRE, 2002).
54 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
No entanto, vale ressaltar aqui que Gilberto Freyre tinha um “olhar”
aristocrático e conservador sobre a sociedade brasileira, pois além de
justificar as elites no governo, sua descrição do tempo da escravidão
em Casa Grande & Senzala adquire uma conotação harmoniosa, ele não
via conflitos nessa estrutura.
Mas se para Gilberto Freyre era um erro pensar que a mistura das raças
seria um atraso para o Brasil, há um outro autor que se propôs a verificar
qual seria e onde estaria a origem do atraso da nação brasileira.
Estamos falando de Caio Prado Júnior. Este autor vai nos fornecer
uma visão muito mais crítica sobre a formação da nossa sociedade. Veja
por quê.
Enquanto Gilberto Freyre fazia uma análise conservadora da formação
da sociedade brasileira, Caio Prado recorria à visão marxista, isto
é, partindo do ponto de vista material e econômico para o entendimento
da nossa formação.
Caio Prado Júnior nasceu em 1907 e faleceu em 1990. Formou-se em
direito e, de forma auto-didata, leu e tomou para si os ideais de Marx,
o que o fez uma pessoa comprometida com o Socialismo.
Caio Prado também era uma espécie de “contra-mão” do Partido
Comunista Brasileiro no seu tempo, pois um dos militantes daquele
partido, Octávio Brandão (1896-1980), havia escrito um livro na década
de 1920, chamado Agrarismo e Industrialismo no qual apresentava a
tese de que o atraso do Brasil, em termos econômicos, estava no fato
dele ter tido um passado feudal. E esta tese continuou a ser defendida
pelo PCB com o historiador Nelson Wernek Sodré (1911-1999), que
interpretava o escravismo, no Brasil Colonial, como uma característica
do feudalismo.
É por essa razão que Caio Prado era contrário ao Partido Comunista,
pois a idéia de que no passado o Brasil havia sido feudal era “importada”
do marxismo oficial, da Europa, e que na sua opinião, não
funcionava aqui. E, para Caio Prado, a prova disso estaria no fato de
que no sistema feudal o servo não era considerado uma mercadoria,
coisa que ocorria aqui com os escravos, o que denota uma característica
do sistema capitalista (e não feudal) no que tange à análise da
mão-de-obra.
No seu livro Formação do Brasil Contemporâneo, publicado em 1942,
Caio Prado apresenta a tese de que a origem do atraso da nação brasileira
estaria vinculada ao tipo de colonização a que o Brasil foi submetido
por Portugal, isto é, uma colonização periférica e exploratória.
Traduzindo para melhor compreendermos... Caio Prado explica
que Portugal teve grande contribuição no “nosso atraso” como nação,
pois o centro do capitalismo, na época do “descobrimento” do Brasil,
Nelson Wernek Sodré
A produção sociológica brasileira 55
Sociologia
estava na Europa, o que fazia com que as riquezas daqui fossem levadas
para lá. Este tipo de organização econômica foi denominado de
primária e exportadora, pois os produtos extraídos das monoculturas
brasileiras, nos latifúndios, eram exportados para os países que estavam
em processo de industrialização.
Segundo Caio Prado, a América era vista pelos europeus como sendo
“...um território primitivo habitado por rala população indígena incapaz de
fornecer qualquer coisa de realmente aproveitável. Para os fins mercantis
que se tinham em vista, a ocupação não se podia fazer como nas simples
feitorias comerciais, com um reduzido pessoal incumbido apenas do negócio,
sua administração e defesa armada; era preciso ampliar estas bases,
criar um povoamento capaz de abastecer e manter as feitorias que se fundassem
e organizar a produção dos gêneros que interessassem ao seu comércio.
A idéia de povoar surge daí, e só daí”. (PRADO JÚNIOR, 1942: 24).
As teses desse autor rompem com as análises dos autores que antes
dele apresentaram um pensamento conservador restrito, isto é, de
reprodução daquilo que estava posto na sociedade brasileira e, conseqüentemente,
sem a intenção de apresentar propostas para sua transformação.
Assim sendo, segundo a visão de Caio Prado, Gilberto Freyre, em
Casa Grande e Senzala, pode ser considerado “conservador”. Veja porque:
a) seus escritos nos levam a pensar que a miscigenação acontecia
sempre de maneira harmoniosa. Mas e a relação entre os senhores
brancos e suas escravas negras, por exemplo? Se verificarmos relatos
da história veremos que as negras eram forçadas a terem relações
sexuais com eles, o que é bem diferente de harmonia.
b) sobre os problemas sociais da época, Freyre não apresenta nenhuma
proposta para a solução dos mesmos, ou para a transformação
da sociedade.
Para Caio Prado Júnior, os pontos “a” e “b” mencionados acima demonstram
a postura conservadora de Gilberto Freyre, pois transparece
um certo conformismo com a situação em que se apresentava a sociedade.
Conformismo que pressupõe continuidade, sem transformação.
Segundo Caio Prado Júnior podemos dizer que a colonização portuguesa contribuiu para o nosso
subdesenvolvimento, certo? Pesquise a história de alguns outros países que também foram “colonizados”.
Procure analisar a forma dessas “colonizações”. Em seguida, verifique se é verdadeira a tese de
que exploração ocasiona necessariamente subdesenvolvimento.
PESQUISA
56 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
E a fase “C” da implantação da Sociologia no Brasil:
Já a partir dos anos de 1940 novos sociólogos começam a aparecer
no cenário brasileiro.
Esta terceira geração é formada por sociólogos que vieram de diferentes
instituições universitárias, fundadas a partir de 1930 e inauguram
estilos mais ou menos independentes de fazer Sociologia.
Dessa forma, e progressivamente, a intelectualidade sociológica no
Brasil começa a ganhar corpo. Também começam a surgir estilos ou
tendências, o que fez com que surgissem diferentes “escolas” de Sociologia
em São Paulo, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte
e em outros lugares.
Dos autores que fazem parte dessa terceira geração, podemos citar
Oliveira Viana, Florestan Fernandes, Guerreiro Ramos, dentre
vários outros. Mas vamos nos deter na obra do sociólogo paulista
Florestan Fernandes (1920-1995), importante nome da Sociologia crítica
no Brasil.
Qual é a proposta de Sociologia que ele apresenta?
Florestan Fernandes foi um sociólogo que fez um contínuo questionamento
sobre a realidade social e das teorias que tentavam explicar
essa realidade. O objetivo deste autor foi de, numa intensa busca
investigativa e crítica, ir além das reflexões já existentes.
Florestan Fernandes tinha como metodologia “dialogar”, de maneira
muito crítica, com a produção sociológica clássica, com os autores
citados no Folhas 02. Mas veja, o diálogo não se dava somente com
aqueles autores, pois a lista de clássicos, principalmente modernos, é
bem extensa.
Florestan também mantinha contínuo diálogo com o pensamento
crítico brasileiro. Autores como Euclides da Cunha e Caio Prado Júnior,
os quais vimos anteriormente, fazem parte de sua lista de interlocutores.
O diálogo com esses autores foi fundamental para o seu trabalho
de análise dos movimentos e lutas existentes na sociedade, principalmente
aquelas travadas pelos setores populares.
Um outro aspecto de sua maneira crítica de fazer Sociologia foi a
sua afinidade com o pensamento marxista, principalmente sobre o modo
de analisar a sociedade, o que se constituiu numa espécie de “norte”
crítico orientador de seu pensamento.
As transformações sociais que ocorreram a partir de 1930 no Brasil
foram, também, uma espécie de “motor” para os trabalhos de Florestan.
Mas não apenas para ele, pois como já mencionamos, essas transformações
serviram de impulso para os trabalhos sociológicos no Brasil
como um todo. E isso se deu principalmente a partir de 1940, pois
essas transformações se intensificaram muito por causa do aumento da
industrialização e da urbanização.
< www.scielo.br/img/revistas/ ea/v9n25/25a02f1.gif
Florestan Fernandes
A produção sociológica brasileira 57
Sociologia
Algumas das conseqüências da urbanização, inclusive gerada pela
migração de pessoas que, vindas do campo, procuravam trabalho nas
indústrias das grandes cidades, foram o surgimento de problemas de
falta de moradia, desemprego e criminalidade. Essas situações emergentes,
logicamente, tornavam-se temas para a análise sociológica.
Para finalizar, vale ressaltar que a Sociologia crítica que Florestan
inaugura também tinha o “olhar” voltado aos mais diversos grupos e
classes existentes na sociedade. Algumas de suas pesquisas com grupos
indígenas e sobre as relações raciais em São Paulo, por exemplo,
tiveram o mérito de fornecer explicações que se contrapunham às explicações
dadas pelas classes dominantes da sociedade brasileira.
Contrapondo os autores...
Com base nos autores que vimos até aqui, construa uma argumentação que diferencie um autor dito
“conservador” de um autor “revolucionário”.
ATIVIDADE
Para exemplificarmos a forma do trabalho sociológico de Florestan...
Veja que interessante:
Uma de suas pesquisas, sobre os negros em São Paulo, demonstrada
no livro A integração do negro na sociedade de classes, de 1978, vai auxiliar
nossa explicação. Nesse trabalho, Florestan analisa como os negros
foram sempre situados à margem na nossa sociedade.
Na presente obra podemos perceber as seguintes características sociológicas
de Florestan:
a) O interesse em explicar fatos relativos aos setores populares da sociedade,
neste caso, os negros. Florestan queria saber como se deu
o processo que colocou esse grupo “à margem” na sociedade brasileira.
E, mais, queria uma interpretação diferente daquelas que as
elites da sociedade forneciam a este respeito.
b) Ele se filia ao pensamento crítico brasileiro ao afirmar que o negro
não era um problema para a nação. Inclusive desenvolve a idéia de
que os negros sempre foram agentes participantes das transformações
sociais do país, ainda que de maneira menos privilegiada que
os brancos.
c) Faz uma crítica à sociedade capitalista que não “absorveu” os negros,
que, segundo as elites da sociedade, encontravam-se em iguais condições
em relação aos brancos e, inclusive, em relação aos inúmeros estrangeiros
que chegavam ao Brasil para viverem e trabalhar.
58 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
Hum... Iguais condições? Será?
Imagine só... De um dia para outro todos os negros, os que antes
foram de maneira desumana tratados como “coisas” e úteis apenas para
o trabalho, tornaram-se livres para atuarem nas empresas e comércio
da época, se é que assim podemos chamar os empreendimentos
daquele tempo, isto é, em 1888.
Os negros tentaram, mas “...viram-se repudiados, na medida em que
pretenderam assumir os papéis de homem livre com demasiada latitude
de ingenuidade, num ambiente em que tais pretensões chocavam-se com
generalizada falta de tolerância, de simpatia militante e de solidariedade.”
(FERNANDES, 1978: 30-31).
Afinal, quem é que daria emprego a um homem que “até ontem à
tarde” era não mais que um pertence de alguém, isto é, um utensílio
de um senhor?
E se você fosse um patrão na época da Abolição, daria trabalho a
tal pessoa em sua loja?
Hoje, no Brasil, ainda podemos encontrar muitos problemas quanto
à aceitação da diversidade cultural, apesar dos muitos movimentos
que combatem a desigualdade racial e social nas mais diversas áreas
da sociedade. Esses problemas são, na verdade, heranças de um passado,
que fora muito pior.
Vamos “voltar” no tempo e tentar imaginar a cena de um negro, recém-
liberto, pedindo emprego. Talvez o diálogo fosse esse:
A produção sociológica brasileira 59
Sociologia
Ora veja, ainda que o discurso das elites privilegiasse a liberdade
dos negros, eles não tinham condições de igualdade na concorrência
com os brancos,
“como não se manifestou nenhuma impulsão coletiva que induzisse os
brancos a discernir a necessidade, a legitimidade e a urgência de reparações
sociais para proteger o negro (como pessoa e como grupo) nessa fase
de transição, viver na cidade pressupunha, para ele, condenar-se a uma
existência ambígüa e marginal.” (FERNANDES, 1978: 20).
Segundo Florestan, para os negros e os mulatos apenas duas portas
se abriam, pois...
“vedado o caminho da classificação econômica e social pela proletarização,
restava-lhes aceitar a incorporação gradual à escória do operariado urbano
em crescimento ou abater-se penosamente, procurando no ócio dissimulado,
na vagabundagem sistemática ou na criminalidade fortuita meios
para salvar as aparências e a dignidade de “homem livre. (FERNANDES, 1978:20).
Portanto, pela interpretação de Florestan, a inexistência de um plano
de incorporação do negro, elaborado pela sociedade que o libertou,
com estratégias de aceitação social dos mesmos, foi fator importante
que contribuiu para sua marginalidade social.
Olhando para o resultado.
Primeiro faça uma pesquisa em órgãos como o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
– e verifique qual é a situação do negro em termos econômicos e educacionais em relação ao branco.
Após a coleta dos dados, “trabalhe” com seus colegas os resultados, relacionando-os com as teorias
de Florestan Fernandes sobre os negros.
PESQUISA
Sugestão de filmes:
“Guerra de Canudos”, 1997, BRASIL, Direção: Sérgio Rezende
“Olga”, 2004, BRASIL, Direção: Jayme Monjardim
z
=
=
60 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociológicas
Ensino Médio
REFERÊNCIAS:
CUNHA, E. Os sertões – Campanha de Canudos. 29ª ed. Rio de Janeiro:
Francisco Alves, 1979.
FERNANDES, F. Fundamentos da explicação sociológica – 3ª ed. Rio de Janeiro:
LTC, 1978.
____________________. A integração do negro na sociedade de classes. São
Paulo: Ática, 1978.
FREYRE, G. Casa grande e senzala. 46ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2002.
GOMES, C. A educação em perspectiva sociológica. São Paulo: EPU, 1985.
IANNI, O. Sociologia da Sociologia – o pensamento sociológico brasileiro. 3ª
ed., São Paulo: Ática, 1989.
PRADO JÚNIOR, C. Formação do Brasil contemporâneo. 23ª ed. São Paulo:
Brasiliense, 2000.
MOREIRA, M. A vida dos grandes brasileiros – Cândido Portinari. Cajamar:
Três, 2001.
VIANNA, M. A. G. Revolucionários de 35: sonho e realidade. São Paulo: Companhia
das Letras, 1992.
z
ANOTAÇÕES
A produção sociológica brasileira 61
Sociologia
ANOTAÇÕES
62
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
que você acha de obedecer regras, de cumprir ordens,
de seguir caminhos que já foram preestabelecidos para você?
É provável que você e muitos de seus colegas digam que
não gostam de obedecer regras, e alguns cheguem mesmo a
afirmar com uma pontinha de orgulho que só fazem aquilo que gostam
ou que têm vontade...
Pois saibam que não é bem assim que as coisas acontecem. Mesmo
que você se considere um rebelde, você está muito mais dentro da
ordem que imagina, principalmente se você é um aluno devidamente
matriculado no Ensino Médio, e está lendo este texto na escola ou
em sua casa.
Por que estamos falando disso?
Para dizer que vivemos numa sociedade totalmente institucionalizada,
ou seja, vivemos “imersos” em instituições sociais, portanto, somos
continuamente levados a realizar coisas que não escolhemos, e na
maioria das vezes as realizamos “naturalmente”, sem questionar de onde
e de quem partiu aquela idéia ou aquela ordem.
Todo o nosso pensamento e nossa ação foram aprendidos e continuam
constantemente sendo construídos no decorrer de nossa vida.
Muito do que fazemos foi pensado e estabelecido por pessoas que
nem existem mais. Desde o momento de nosso nascimento até a nossa
morte estamos sempre atendendo às várias expectativas dos vários
grupos que participamos.
Por isso, nosso objetivo com este estudo é colocá-lo em contato
com algumas instituições sociais muito presentes e atuantes em nossa
sociedade, mais especificamente três: a escola, a religião e a família.
Colocar em contato quer dizer conhecer um pouco das origens históricas
das instituições, ou como foram construídas pelas diversas sociedades
ao longo do tempo; perceber as transformações que foram sofren-
I
n
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d
u
ç
ã
o
63
Sociologia
do e como se configuram hoje, conhecer as diversas possibilidades de
leitura oferecidas pela Sociologia, e, principalmente, nos enxergarmos
como parte integrante dessas instituições. Não como uma peça num tabuleiro
de um jogo, mas como sujeitos atuantes e com capacidade de
mudar as regras do jogo quando considerarmos necessário.
Nossa intenção ao propor este tema de estudo vai muito além da
simples informação de conteúdos da Sociologia, avalizados pelos grandes
nomes dessa ciência. Pretendemos que você, com auxílio dos instrumentais
teóricos da Sociologia, possa compreender a dinâmica da
sociedade contemporânea, aprenda a questionar as “verdades” que lhe
são colocadas, e possa inserir-se de forma crítica e criativa nas diversas
instituições sociais que compõem o sistema social.
Vamos pontuar alguns aspectos destas três instituições: família, escola
e religião.
Nascemos todos em algum lugar da sociedade: num bairro de periferia,
num edifício no centro da cidade, numa favela, num condomínio
fechado, e pertencemos quase sempre a algum tipo de família. É
dentro da família que aprendemos os primeiros valores do grupo e da
sociedade a que pertencemos. Os pais (ou aqueles que cumprem este
papel), criam e provêm os filhos de condições para a subsistência e
esperam desses respeito e obediência. A sociedade espera que os pais
trabalhem e tenham uma vida honesta, às mães cabe o amor incondicional,
capaz de fazê-las abrir mão da própria vida para ver a felicidade
de seus filhos. Isso pode parecer um pouco exagerado, mas, às vezes,
a caricatura de uma situação nos permite enxergá-la melhor.
Bem, crescemos ouvindo que a família é um lugar “sagrado”, que
devemos respeitar nossos pais, que tanto sacrifícios fizeram por nós.
Crescemos ouvindo que é o bem mais importante de um homem, e
quando finalmente crescemos, “desejamos” formar outra família, porque
é isto que esperam de nós. Mas se não agirmos dessa forma espe-
Introdução
64
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
rada, se não nos transformarmos no pai trabalhador, na “mãe santa”,
no filho respeitoso? Se escolhermos outro caminho e outros valores? Aí
sofreremos o que a Sociologia chama de coerção social – significa que
seremos coagidos e pressionados pelo grupo familiar e pelas pessoas
próximas desse, a retomar os valores preestabelecidos.
É o grupo familiar que também vai nos indicar os caminhos escolares
e profissionais. Para algumas famílias, percorrer toda a carreira escolar
sem interrupção é algo indiscutível, e desviar-se deste caminho
previsto pode ser traumático. Novamente não escolhemos, mas as escolhas
já estão feitas. Quase sempre fazemos o que é esperado.
Passemos agora para a escola. Essa instituição ensina-nos novos padrões
de comportamento, ou reforça aqueles que já trazemos de nossa
classe social e tenta nos fazer acreditar que somos todos iguais, porque
podemos nos sentar igualmente nas carteiras escolares. Mas tão
logo os alunos percebem que para haver igualdade é necessário mais
do que um lugar na escola, começam as reações contrárias à ordem.
São as chamadas questões disciplinares.
A escola valoriza a ordem, a disciplina, o bom rendimento. Os adolescentes
vêem neste momento de suas vidas a oportunidade de rebelar-
se contra os padrões de comportamento estabelecidos, de agredir
tudo que representa autoridade, de desprezar o que não atende a seus
interesses imediatos...
Há uma outra instituição social com a qual você provavelmente
também convive. Caso tenha sido batizado ou iniciado em alguma religião
em sua infância, e tenha crescido seguindo os ensinamentos de
sua igreja, você desenvolveu o que se chama de pensamento sagrado.
I
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o
65
Sociologia
Você explica fenômenos da vida e da morte de acordo com os preceitos
de sua fé. Você conhece os rituais de sua igreja e respeita, ou ao
menos sabe o significado das principais datas religiosas. Se, em algum
momento de sua vida, você resolver se desligar de sua religião, esteja
certo de que sofrerá forte pressão de seu grupo religioso, o qual muito
o indagará a respeito de sua decisão, e mais do que isso, fará tudo
para demovê-lo de sua decisão.
Com esses exemplos é possível perceber o quanto as instituições
direcionam nossas ações, às vezes de forma tão sutil que não percebemos
que as situações vivenciadas cotidianamente são em sua maioria
reproduções de antigas instituições sociais.
Também será possível que um dia você chegue à conclusão de que
uma ou todas as instituições não são assim tão importantes para a sua
vida. Você verá sobre isto nos Folhas a seguir, que em diversos momentos
da história, alguns grupos sociais e alguns indivíduos negaram
a necessidade da autoridade, fosse esta política, familiar, religiosa, educacional
ou qualquer outra. Acreditavam na capacidade de auto-governo
do ser humano, na liberdade e na autonomia de pensamento. Aliás,
hoje é possível encontrar em diversas partes do mundo, inclusive no
Brasil, pessoas que vivem em comunidades alternativas, que negam os
valores do pensamento dominante, e constróem suas próprias regras,
com base na visão que têm da sociedade e do planeta.
Mas para chegar até isso, e quem sabe superar este modelo de sociedade
e de instituições sociais a que estamos sujeitos hoje, é preciso
muito estudo e a construção de projetos coletivos. E é isto que estamos
lhe propondo nestes textos que se seguem.
Introdução
4
A INSTITUIÇÃO
ESCOLAR
ouvisse ou lesse esta notícia?
Ficaria feliz por ver-se
livre desta obrigação? Ficaria
preocupado, pois você
já ouviu falar que sem escolas
temos poucas chances
na vida? Ficaria triste,
pois é na escola que você
encontra seus amigos?
1Departamento de Ensino Médio – Curitiba – SEED/PR
68
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
Pois é, a escola já faz parte de sua vida diária. Você já cursou oito anos
do Ensino Fundamental, está cursando o Ensino Médio, e talvez esteja
pensando em ingressar em algum curso superior para seguir uma carreira.
Você pode mesmo ser considerado um vitorioso do sistema escolar, uma
vez que muitos dos seus colegas que iniciaram a 1ª série com você, não
chegaram à 8ª série, e daqueles que chegaram ao fim do Ensino Fundamental,
muitos não prosseguiram no Ensino Médio, pois não tiveram condições
de arcar com as despesas e exigências da escola.
Sim! Pois estudar exige esforço e também custa caro! São cadernos,
livros, roupas, transportes, etc. Em nosso país, são poucas as famílias
que conseguem arcar com os estudos de seus filhos.
Segundo dados do censo escolar, realizado pelo INEP
(Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos), em 2004, ingressaram
no Ensino Fundamental 26.614.310 alunos, enquanto
no Ensino Médio ingressaram apenas 9.169.357 alunos.
A notícia apresentada no início do texto pode parecer absurda, mas
< Ivan Illich
< http://www.altraofficina.it/ivanillich/Prima.htm
já houve um cientista da educação que propôs uma “sociedade sem
escolas”. Seu nome era Ivan Illich. Illich (1926-2002) era russo, e afirmava
que “(...) a obrigatoriedade da educação escolar é uma invenção
relativamente nova, e não há porque aceitá-la como se fosse algo inevitável”
(GIDDENS, 2005:413).
Lembre-se, no entanto, que a inexistência de escolas não significa
a inexistência de educação. Esta última existe em todas as
sociedades humanas e são muitos os meios disponíveis para o
seu acesso. Estudaremos sobre isto mais à frente.
Retornando a Illich, suas idéias nos sugerem a pensar sobre
a origem das escolas. A partir de quando, e por que, esta instituição
passou a fazer parte do cotidiano de algumas sociedades?
A escola, tal como conhecemos hoje, intitulada pelos historiadores
da educação como Escola Moderna, começou a se configurar
em fins do século XVI e ao longo do século XVII.
Antes disso, nas sociedades antigas e medievais, já havia a preocupação
com a educação de seus jovens, os quais estudavam ou individualmente,
sob a orientação de um mestre, ou em pequenos grupos,
independentes de idade ou seriação. Adultos e crianças freqüentavam
a mesma classe durante o tempo que desejassem ou precisassem,
e isso não era considerado um problema. As teorias da psicologia da
aprendizagem, que estabelecem etapas para o desenvolvimento humano,
virão muitos anos depois.
Mas a escola moderna organiza-se inicialmente com características que já
conhecemos bem:
a preocupação em separar os alunos em classes seriadas, de acordo
com a faixa etária;
=
69
Sociologia
A Instituição Escolar a divisão sistemática dos programas de acordo com cada série;
os níveis de estudos passam a ter um encadeamento: a escola elementar
(ler, escrever e contar), com a escola média ou profissional
e os estudos superiores;
o tempo para o estudo e para o cumprimento dos programas para
uma determinada série também passam a ser preestabelecidos.
Não será mais o ritmo de aprendizado do aluno que dirá de quanto
tempo ele necessita para aprender, mas sim o ritmo imposto pela
instituição.
Outros elementos muito comuns em nossa prática escolar também
passaram a ser utilizados, como o registro das aulas, o controle de freqüência
(chamada), a elaboração de textos simplificados para cada
disciplina (livros didáticos). Junto com isso teremos maior rigor disciplinar,
com a criação de normas e regimentos de conduta. Enfim, são
práticas que têm a função de organizar, disciplinar e controlar, e que hoje
nos parecem naturais e quase imutáveis.
=
=
=
Mas atenção! Um dos principais objetivos do estudo da Sociologia é auxiliá-
lo a “desnaturalizar” os fatos sociais, a desconstruir alguns conceitos
que, de tão repetidos que foram, parecem ser os únicos verdadeiros.
Desnaturalizar a instituição escolar significa saber que ela foi pensada
e construída por pessoas como professores, religiosos ou governantes
que tinham interesses e necessidades próprias daquele momento histórico.
E que, antes desse modelo escolar, existiram outras formas criadas
pelas sociedades para transmitirem às suas crianças e jovens os
saberes necessários para a vida social. Portanto, cabe a nós e às próximas
gerações também pensarmos e construirmos escolas que estejam
mais próximas de nossas necessidades e nossos sonhos!
Quais fatores contribuíram para o aparecimento e desenvolvimento das
escolas? Foram muitos os fatores. No momento, vamos comentar sobre o contexto
histórico que favoreceu o nascimento desta instituição.
As revoluções burguesas, principalmente a inglesa (séc.XVIl) e a
francesa (séc. XVIIl), vão encerrar definitivamente o feudalismo e inaugurar
um novo modo de produção – o capitalismo. A burguesia, classe
social em ascensão, irá conceber uma nova doutrina social ou uma
nova ideologia para o capitalismo que se denominará liberalismo. Os
< Foto: João Urban
70
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
princípios do liberalismo são: o individualismo, a propriedade, a liberdade,
a igualdade e a democracia. Explicando os princípios:
A doutrina do individualismo coloca no esforço individual
toda a responsabilidade para que as pessoas atinjam o sucesso
ou o progresso, desconsiderando as condições econômicas e
sociais nas quais estejam vivendo. Para o liberalismo, os indivíduos
serão tão mais livres quanto menor for a ação do Estado,
ou seja, o Estado não deve interferir e despender recursos para
serviços públicos.
Quanto ao princípio da propriedade, significa que todos têm direito
à propriedade desde que se esforcem e trabalhem para isso.
A igualdade, como é tratada no liberalismo, não se refere à
igualdade social, mas sim à igualdade perante a lei. Já devem
ter ouvido a frase: “Todos são iguais perante a lei”. Pois é, mas
em relação às desigualdades sociais, a conversa é outra. Os liberais
consideram natural que existam pobres e ricos, uma vez
que nem todas as pessoas são talentosas ou esforçadas da mesma
forma.
A democracia, defendida pelos liberais, resume-se à democracia representativa,
isto é, o direito de todos escolherem seus representantes
políticos. No entanto, democracia é mais do que isto, é o direito de
usufruirmos igualmente os bens produzidos em nossa sociedade.
Outro importante movimento que se desenvolve à partir do século
XVII, foi a chamada “revolução científica”. A filosofia, e as ciências
físicas, químicas e matemáticas sofrem um grande desenvolvimento e
há uma supervalorização do pensamento racional e científico. O filósofo
e matemático René Descartes (França,1596 – 1650) é considerado o
fundador desta doutrina.
Observe que não fica difícil estabelecer relações entre a doutrina liberal,
o pensamento racionalista e o surgimento da escola moderna, tal
como essa foi descrita anteriormente.
Descartes
(1596-1650)
Agora pensando bem, será que é possível identificar alguns dos princípios do liberalismo e do pensamento
racionalista na organização e na prática da escola contemporânea? Reflita sobre o seu dia-adia
escolar e produza um pequeno texto sobre o assunto.
ATIVIDADE
Vocês viram até aqui uma breve história da instituição escolar, organizada
de forma mais ou menos semelhante em grande parte das sociedades.
Mas... E as sociedades sem escolas?
71
Sociologia
A Instituição Escolar 1º os conhecimentos são acessíveis a todos os membros da sociedade;
2º a transmissão da cultura faz-se cotidianamente, sem a utilização
de recursos ou técnicas pedagógicas;
3º como se tratam de sociedades iletradas, a comunicação dos saberes
ocorre oralmente. Aliás, a palavra oral possuía tanto prestígio
quanto a linguagem escrita possui em nossa sociedade;
4º a educação não é privilégio das crianças e jovens, uma vez que
os membros da comunidade estão continuamente nos papéis
de aprendizes e de mestres.
Retomando a idéia inicial desse texto, que apontava como quase
absurda a possibilidade da extinção das escolas, temos que tomar conhecimento
da existência das sociedades “desescolarizadas”, ou seja,
sociedades que existiram e ainda existem sem a presença das instituições
escolares.
Nessas sociedades, assim como na nossa, a educação é elemento
fundamental de socialização e de manutenção do próprio grupo. Nessas,
a herança cultural e os saberes necessários para a sobrevivência e
a convivência são transmitidos por meio da educação informal. A palavra
informal nos revela que a educação acontece, mas sem a necessidade
de escolas, salas de aulas, notas, provas, recuperação de estudos,
etc e etc. A escola é a própria vida, e os professores são todos aqueles
que têm experiências e conhecimentos significativos à comunidade.
Florestan Fernandes (1920-1995), importante nome da Sociologia
brasileira, estudou os povos Tupinambás, e sua pesquisa nos permite
conhecer alguns elementos que caracterizam a educação das sociedades
tribais:
Os Tupinanbás foram os primeiros
povos que tiveram
contato com os portugueses,
quando teve início a colonização.
Habitavam o litoral
brasileiro e foram muito utilizados
na exploração do paubrasil
Escola de aldeia Guarani < Foto: João Urban <
72
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
Três importantes valores perpassam a educação dos tupinambás: a
tradição, o valor da ação e o valor do exemplo.
A tradição possui um valor sagrado; significa que os conhecimentos
produzidos pelos antepassados devem ser respeitados religiosamente,
sem questionamentos.
O valor da ação está relacionado à máxima do “aprender fazendo”,
ou seja, todos os membros da comunidade devem estar engajados
em todas as atividades sociais (resguardadas somente as diferenças
sexuais).
O valor do exemplo refere-se à imitação. Cabia aos adultos a responsabilidade
de pensar e agir de acordo com os modelos legados pelos
antepassados para servirem de exemplo aos mais jovens, assegurando
assim a permanência das tradições.
É possível perceber que nessas sociedades existia um grande respeito
entre todos os membros do grupo, pois as pessoas mais velhas
eram especialmente valorizadas pelas experiências e saberes acumulados
ao longo dos anos vividos.
Seria possível uma sociedade sem escolas hoje?
No tipo de sociedade em que vivemos hoje, que são chamadas de
“complexas”, uma educação informal nos moldes das sociedades tribais
seria muito difícil de acontecer. As áreas do conhecimento se diversificaram
em demasia, e avançam rapidamente. A ciência, a tecnologia,
as artes e outras áreas se desenvolvem numa velocidade que nem
mesmo os especialistas conseguem acompanhar. Imaginar que tudo
poderia ser apreendido informalmente por todos seria irreal!
No entanto, existem muitas pessoas que têm buscado educação em
lugares diferentes destes que chamamos de escola. As telecomunicações
e a informática têm ofertado diversos cursos nos vários níveis de
ensino e em várias áreas de interesse, e têm atraído pessoas que desejam
atualizar-se, ou mesmo iniciar-se em alguma profissão. Se esta modalidade
de educação poderá vir a substituir a escola, no futuro, ainda
não sabemos. Mas tudo indica que a escola, essa nossa velha conhecida,
ainda tem um longo tempo de vida.
Pesquisar em sua cidade instituições/empresas que oferecem cursos à distância – as modalidades
de curso, materiais utilizados, público-alvo e resultados obtidos.
pesquisa
73
Sociologia
A Instituição Escolar < Foto: João Urban
Provavelmente você já percebeu que a escola não é o lugar que
mais agrada aos jovens de sua idade. Freqüentar a casa dos amigos,
andar pelas ruas, ir às baladas, trabalhar ou ficar à toa parecem coisas
bem mais agradáveis e interessantes. Por que isto ocorre? Ora, adquirir
novos conhecimentos, vivenciar experiências que nos auxiliem na
compreensão de nosso mundo e nos façam sentir integrantes na construção
da cultura das sociedades, são atitudes que fazem parte da natureza
humana. Sem a curiosidade, a vontade de aprender e de buscar
formas diferentes para realizar suas tarefas cotidianas, certamente não
teríamos saído da idade da pedra, não teríamos desenvolvido a tecnologia,
as ciências, as artes, enfim, em todas as áreas, o ser humano não
cessa a busca por novas alternativas que visem a melhora da qualidade
de vida. Você poderá dizer que isso ocorre por interesses de mercado.
Certo. No entanto, isso não quer dizer que não seja necessário estudo,
pesquisa, persistência, disciplina...
Para nos auxiliar na reflexão a respeito da função disciplinadora
da escola, podemos recorrer às idéias de um filósofo francês – Michel
Foucault (1926-1984). Este pensador realizou estudos comparativos
entre algumas instituições como prisões, conventos, quartéis e
escolas, buscando desvelar suas semelhanças no que se refere aos aspectos
de organização e controle. Para Foucault, mais importante do
que um poder centralizador e visível, são os “pequenos” poderes que
abarcam todo o espaço social, e dos quais não conseguimos escapar,
porque estão dispersos. É o espaço físico, o mobiliário, as regras, os
olhares vigilantes, as ameaças e as punições agindo sempre no sentido
de controlar nossos corpos e nossas consciências, de nos fazermos
“úteis”, “dóceis”, treinados para a obediência.
74
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
Mas o que isto tem a ver com a escola?
A escola é criada (como já vimos anteriormente), num contexto de
grande valorização da ciência, e de preocupação com a formação de
um “novo homem”, adequado às novas regras e aos novos princípios.
Sua função disciplinadora, normatizadora, desde o início é muito clara,
quase inerente. Mas seu papel de levar às novas gerações os conhecimentos
necessários para a vida social também jamais foi negado. Ainda
hoje se perguntarmos a uma criança, por que ela vai à escola, a resposta
será: “Para aprender...” Mas aprender o quê? E para quê?
Aprender para nos tornarmos “civilizados”?
Aprender para nos tornarmos obedientes e conformados?
Aprender para acreditarmos e aceitarmos que escola não é para
mim, mas sim para os “outros”?
Aprender que aprender é repetir o livro e as palavras do professor?
Aprender que estudar é difícil e cansativo?
Desde o seu início a instituição escolar tornou-se objeto de estudo
privilegiado de filósofos, sociólogos, psicólogos e pedagogos. Mais
recentemente, outros profissionais como médicos, arquitetos, historiadores,
entre outros, também têm dedicado suas pesquisas à escola e à
educação. Você, como aluno, não tem idéia da polêmica que cerca a instituição
e a educação escolar. Este lugar, aparentemente tão banal, tem
sido alvo de debates acirrados e os resultados apresentados em muitos
livros, revistas e discutidos em congressos pelo mundo inteiro.
Para que você compreenda melhor isto que estamos falando, vamos
apresentar algumas teorias explicativas sobre a organização e o
funcionamento escolar desenvolvidos por sociólogos que se dedicavam
a este tema:
Teorias crítico-reprodutivistas: estas teorias partem do princípio
de que a escola é uma instituição que, por meio de suas práticas, conhecimentos
e valores veiculados, têm contribuído para a reprodução
das desigualdades da sociedade de classe em que vivemos.
Os sociólogos franceses, Pierre Bourdieu (1930-2002) e Jean-Claude
Passeron (1930- ), são representantes desta teoria, e acompanhar
seus pensamentos pode ajudar-nos a compreendê-la. No interior de
uma sociedade de classes existem diferenças culturais. As elites possuem
um determinado patrimônio cultural constituído de normas de
falar, de vestir-se, de valores, etc. Já as classes trabalhadoras (ou dominadas,
como são identificadas pelos autores) possuem outras características
culturais, diferentes, não inferiores, pois têm lhes permitido sua
manutenção enquanto classe. A escola, por sua vez, ignora estas diferenças
sócio-culturais, selecionando e privilegiando em sua teoria e
prática as manifestações e os valores culturais das classes dominantes.
Com essa atitude, ela favorece aquelas crianças e jovens que já domi75
Sociologia
A Instituição Escolar nam este aparato cultural. Para estes, a escola é realmente uma continuidade
da família e do “mundo” do qual provêm. A escola somente
reforça e valoriza conhecimentos que estes já trazem de casa.
Já para os jovens filhos das classes trabalhadoras, a escola representa
uma ruptura. Seus valores e saberes são desprezados, ignorados, e
ela necessita quase que reiniciar sua inserção cultural, ou seja, aprender
novos padrões ou modelos de cultura. Dentro dessa lógica, é evidente
que para os estudantes filhos das classes dominantes alcançar o
sucesso escolar torna-se bem mais fácil do que para aquelas que têm
que “desaprender” uma cultura para aprender um novo jeito de pensar,
falar, movimentar-se, enfim, enxergar o mundo, inserir-se neste e
ainda ser bem-sucedido. Bourdieu chama isso de “violência simbólica”,
ou seja, o desprezo e a inferiorização da expressão cultural de um
grupo por outro mais poderoso econômica ou politicamente, faz com
que esse perca sua identidade e suas referências, tornando-se fraco, inseguro
e mais sujeito à dominação.
Perceberam que estes autores fazem uma crítica ao sistema escolar?
Afirmam que a escola está organizada para servir apenas a alguns grupos
da sociedade, aqueles que já trazem de casa uma bagagem cultural
semelhante a da escola.
Essa é uma forma de olhar a escola! Agora vejamos outra:
Teoria funcionalista – Émile Durkheim (1858–1917) é um dos representantes
do pensamento conservador. Sua teoria faz a defesa da
ordem social dominante, do chamado “status quo”. Não menciona a
necessidade de mudanças, reformas ou muito menos revoluções.
Seguindo a linha de pensamento de Durkheim, a escola, assim
como as demais instituições sociais, têm a função de imprimir
sobre as novas gerações valores morais e disciplinares que visam
à perpetuação da sociedade tal como ela está organizada
quanto à ordem e no respeito aos poderes dominantes.
Durkheim trata a sociedade como se essa fosse uma entidade
externa aos indivíduos, acima dos conflitos sociais, das lutas
por interesses diversos. A sociedade é assim entendida como um
corpo harmônico, com valores e à qual só nos resta a adaptação.
Pois bem! Para Durkheim a escola não é alvo de críticas, pois funciona
adequadamente à sociedade na qual está inserida. Para ele, todos
os indivíduos e instituições têm uma função a cumprir, que uma
vez, bem desempenhada contribuirá para o progresso e à harmonia
social. Os conflitos sociais não resultam das desigualdades provindas
da sociedade de classes, mas são espécies de “doenças”, e como tais
devem ser “tratadas”.
Esta é uma outra forma de olhar para a sociedade e para a escola!
< Émile Durkheim (1858–1917)
< http://www.soc.cmu.ac.th/~chaiwat/mf_home.html
76
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
Faça uma entrevista com três colegas de sua escola, levantando elementos das teorias estudadas
até aqui: Foucault, Bourdieu e Durkheim. Que características dessas análises estão presentes em sua
escola?
ATIVIDADE
O conhecimento dessas teorias nos ajuda a compreender o fracasso
escolar, este fenômeno que anualmente exclui centenas de jovens da
escola. Se formos verificar a origem social destes alunos que não conseguiram
concluir seus estudos, verificaremos que pertencem às classes
menos favorecidas economicamente, e cujos hábitos culturais estão
mais distantes dos padrões oficiais. No entanto, temos que estar atentos
ao fato de que as teorias nos ajudam a melhor compreender como
e porquê as coisas acontecem de uma determinada forma, mesmo que
esta forma esteja desagradando ou prejudicando muita gente, como é
o caso da escola, arriscaríamos dizer. Mas nenhuma teoria sociológica
consegue dar conta de explicar toda a realidade educacional.
São formas de olhar para esta realidade!
Corremos sérios riscos ao tentarmos “encaixar” a realidade aos modelos
teóricos, se nos fixarmos somente nas teorias e não prestarmos
atenção às diferenças e às peculiariedades. Estes são alguns riscos:
1º O pensamento imobilista – ou seja, se a escola existe somente para
reproduzir a sociedade desigual que aí está, então nada podemos
fazer senão nos adequarmos a esta situação. Esta atitude passiva
em nada contribui para desenvolvermos as atitudes críticas e
criativas necessárias à criação de um outro modelo de escola.
2º A generalização – acreditar que todas as escolas são iguais. Que
todas têm a mesma organização pedagógica, a mesma interpretação
das leis, a mesma ideologia, as mesmas práticas. Ainda bem
que isso não é verdade! Vários são os fatores que contribuem para
a construção da cultura de cada escola: sua localização espacial
e temporal, sua arquitetura, e principalmente seus sujeitos – professores,
alunos, diretores, funcionários – verdadeiros autores da
educação escolar. A forma como essas pessoas relacionam-se no
dia-a-dia escolar, criam e assimilam regras, selecionam e aplicam
conteúdos não está necessariamente condicionada às normas oficiais,
mas muito mais às preferências pessoais, às opções políticas,
às histórias de vida, às formas de pensar e agir próprias daquele
grupo, que podem ser mais ou menos coesas.
77
Sociologia
A Instituição Escolar O direito à educação pública
e gratuita foi assegurado
na Constituição de
1988, e refere-se somente
ao Ensino Fundamental
(pré à 8ª série). O Ensino
Médio ainda não está garantido
a todos pela lei.
Perceber a escola dessa forma, em suas peculiaridades e diferenças
nos permite ver possibilidades de ação e de mudanças nessa instituição
em que passamos tantos anos.
< Foto: João Urban
Vamos então para uma outra forma de olhar para a escola!
A escola pública, universal e gratuita é um direito garantido pela
Constituição Nacional. É uma conquista da sociedade, resultado de
muita luta de professores, estudantes, pais e de todos aqueles que se
importam com a justiça e com a igualdade social. Mas ao mesmo tempo
que é um direito, a educação é obrigatória; ou seja, o Estado tem a
obrigação de oferecer escola e os pais ou responsáveis têm o dever de
matricularem e manterem seus filhos menores na escola, sob pena de
serem punidos até mesmo com a perda da guarda destes.(Art. 22 e 24
do Estatuto da Criança e do Adolescente.
Parece contraditória essa idéia de algo ser direito mas ao mesmo
tempo ser um dever, no entanto, as contradições que cercam essa instituição
não param aí.
A escola é uma instituição regida por normas estabelecidas por grupos
externos a esta. No caso da escola pública brasileira, é o Poder Público
quem exerce essa função. A escolas particulares também prestam
contas ao Poder Público, assim como às entidades que as mantêm.
Por exemplo, as escolas confessionais possuem normas que são ditadas
pelas organizações religiosas a que estão ligadas.
Mas além das normas ditadas exteriormente, as escolas possuem uma
dinâmica interna, como foi falado acima, que lhes permite criar seu próprio
sistema de normas e valores, sua própria “cara”, ou o que pesquisadores
da educação denominam hoje de “cultura escolar”. Vamos buscar
entender como essa “cultura escolar” pode constituir-se a nosso favor.
78
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
As escolas são ambientes tensos e permeados de conflitos, o que
não deve ser considerado um problema, uma vez que sua população
é absolutamente heterogênea: possui origens sociais distintas, assim
como diferentes idades, bagagens culturais, visões e projetos de vida.
No entanto, algo aproxima essa população: todos procuram essa instituição
com um interesse semelhante, qual seja, o de lá sair “melhores”
do que quando entraram. Em melhores condições de enfrentar a
vida, com mais conhecimentos e preparo para prosseguir os estudos
ou buscar uma profissão. Algumas vezes esses objetivos são atingidos,
outras não. Para conseguirmos fazer com que nossos objetivos,
buscados nesta instituição escolar, coincidam com sua prática, é necessário
o esforço e o trabalho conjunto de todos aqueles que a constituem,
no sentido da construção de uma escola democrática, participativa
e que integre-se às nossas vidas.
Para construirmos esta escola podemos buscar inspiração nas
idéias de grandes educadores que dedicaram suas vidas ao estudo
e à experimentação de formas de educação que tornam as pessoas
mais livres, responsáveis, criativas e com autonomia de pensamento.
Estes educadores são chamados pela pedagogia de “educadores progressistas”,
o que significa que suas propostas educacionais apontam
no sentido de uma ruptura com os valores criados e reforçados pela
sociedade capitalista (submissão, competição, individualismo), e no
estímulo e reforço de valores que podem contribuir para fazermos
nossa vida uma experiência diária de solidariedade e, talvez, coletivamente,
podermos projetarmos uma nova ordem social. Estes valores
são a cooperação, a criatividade, a tolerância, o respeito ao outro
e ao planeta.
Conhecido no mundo todo, Paulo Freire (1921–1997) representante
da filosofia da libertação, é considerado um dos mais importantes
educadores da atualidade. Suas obras e experiências se espalharam
pelo mundo principalmente porque após o golpe militar de 1964,
que instaurou a ditadura brasileira, Freire foi exilado do Brasil, vivendo
e trabalhando primeiramente no Chile, e depois em vários lugares
como Genebra, na Suíça, países africanos, como Cabo Verde, Angola,
São Tomé e Príncipe, e Nicarágua, na América Central. Por onde
passou, Paulo Freire deixou sua marca de educador comprometido
com as classes oprimidas. Quando retornou ao Brasil, após a ditadura,
retomou suas atividades na universidade, assumiu cargos políticos
e continuou a escrever para aqueles que sonham e acreditam que a
< Paulo Freire (1921–1997) educação e o mundo podem ser para todos e não só para alguns.
< http://www.paulofreire.org
79
Sociologia
A Instituição Escolar Educação, para Paulo Freire, antes de mais nada, tem a ver com
conscientização.
Vamos entender o que ele quer dizer com isso. Partindo do princípio
de que vivemos numa sociedade dividida em classes, temos alguns
grupos que estão na situação de domínio, de poder, e outros (a grande
maioria), que vivem à mercê das ordens e decisões tomadas pelos
primeiros, numa situação de opressão. Ser oprimido significa não somente
estar subjugado economicamente, mas principalmente não ser
respeitado em suas manifestações culturais (valores, linguagem, religião,
etc), não ter voz na sociedade (suas insatisfações e suas propostas não
são ouvidas), e não considerar-se sujeito de sua história. A condição de
oprimido é muito complexa porque esse, muitas vezes, não se percebe
como tal, ou pior, se percebe e considera como “natural” o fato de
existirem os que mandam e os que são mandados (visão fatalista), também
muitas vezes considera-se mesmo inferior e “merecedor” do lugar
que ocupa na sociedade.
A educação conscientizadora, proposta por Paulo Freire, tem a tarefa
de ao mesmo tempo conscientizar criticamente o educando de sua posição
social e mobilizá-lo internamente para a luta pela transformação da
sociedade. Portanto, a educação assim entendida, reveste-se de um caráter
essencialmente político. Ou seja, além do estudo, do conhecimento,
da aquisição de habilidades, a escola tem papel fundamental na construção
de sujeitos autônomos, críticos, em condições para lutar pela superação
das desigualdade e pela transformação da sociedade.
Este é o sentido da Pedagogia da Libertação – contribuir para a criação
de homens e mulheres “livres” – abertos para a vida, para o novo,
para um fazer e refazer permanente na busca do mundo que fará a todos
mais felizes, e não somente alguns.
Algumas pessoas criticam Paulo Freire, acusando-o de utópico ou
sonhador. A elas, ele mesmo responde:
“(...) Não há amanhã sem projeto, sem sonho, sem utopia, sem esperança,
sem o trabalho de criação e desenvolvimento de possibilidades que viabilizem
a sua concretização. O meu discurso em favor do sonho, da utopia,
da liberdade, da democracia é o discurso de quem recusa a acomodação e
não deixa morrer em si o gosto de ser gente, que o fatalismo deteriora (FREIRE,
2001: 86).
80
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
Referências:
ARANHA, M. L.A História da educação. São Paulo: Moderna,1996.
BOURDIEU, P.; PASSERON, J.C. A reprodução: elementos para uma teoria
do sistema de ensino. São Paulo: Francisco Alves, 1975.
BRANDÃO,C.R. O que é educação. São Paulo: Brasiliense, 1982.
CAMBI, F. História da educação. São Paulo: Editora UNESP,1999.
CÂNDIDO, A. A estrutura da escola. In: PEREIRA, L.; FORACHI, M. (org.)
Educação e sociedade: leituras de sociologia da educação. São Paulo: Ed.
Nacional,1976.
CHARLOT, B. Relação com o saber, formação dos professores e globalização:
questões para educação hoje. Porto Alegre: Artmed, 2005.
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988.
DURKHEIM. E. Educação e sociologia. 6ª ed. Trad. Lourenço Filho. São Paulo:
Melhoramentos, 1965.
ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE – Publicado no “Diário Oficial”
da União, de 16 de julho de 1990.
z
Realizar um ensaio fotográfico sobre a sua escola. Fotografar aspectos da arquitetura, a forma de utilização
das paredes (imagens e símbolos), o mobiliário, as pessoas – alunos, professores, funcionários,
visitantes. Procure perceber como estes se sentem e como se relacionam entre si e com o espaço escolar.
Você vai descobrir coisas que nunca havia visto. A câmera fotográfica nos possibilita um olhar de
redescoberta do que imaginávamos conhecido!
Proponha uma exposição das fotografias na escola, acompanhadas de pequenos textos sobre as
impressões que as imagens causaram a vocês.
Ler e debater em sala a obra sugerida:
“A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir”, de Rubem Alves, que relata
uma bela experiência educativa, que já existe há vinte e cinco anos em Portugal, e que nos comprova a
possibilidade de uma escola que ensina na prática, o verdadeiro sentido da palavra cidadania.
Os filmes abaixo também podem auxiliá-lo a repensar a educação que você “recebe”, e a escola
que você conhece:
“Sarafina” – o som da liberdade (1993, África do sul, direção: Darrel James)
“Nenhum a menos” (1999, China, direção: Zhang Yimou)
“De volta para casa” (1989, E.U.A, direção:Zhang Yimou)
“A corrente do bem” ( 2000, E.U.A, direção Mimi Leder)
“Sociedade dos poetas mortos” (1989, E.U.A, direção: Peter Weir)
“Professor profissão perigo” (1996, França, Gérard Lauzier)
pesquisa
81
Sociologia
A Instituição Escolar FERNANDES, F. A educação numa sociedade tribal. In: PEREIRA, L.; FORACHI,
M.(org.) Educação e sociedade: leituras de sociologia da educação. São
Paulo: Ed. Nacional, 1976.
FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão; trad. Lígia M. Pondé
Vassallo. Petrópolis: Vozes, 1983.
FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 8ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.
_________ Pedagogia dos sonhos possíveis; ARAÚJO, A. M.(org,), São Paulo:
Ed. UNESP, 2001.
GIDDENS, A. Sociologia. 6ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2005.
PETITAT, A. Produção da escola/produção da sociedade: análise sócio-histórica
de alguns momentos decisivos da evolução escolar no ocidente. Porto
Alegre: Arte Médicas, 1994.
ZNANIECKI, F. A escola como grupo instituído. In: PEREIRA, L.; FORACHI,
M.(org.) Educação e sociedade: leituras de sociologia da educação. São Paulo:
Ed. Nacional, 1976.
Internet:
www.inep.gov.br – censo escolar – acesso em 16/09/2005.
z
5
A INSTITUIÇÃO
RELIGIOSA
ou se nos fosse dado o poder de saber
o dia de nossa morte? Como agiríamos? O
que pensaríamos? Para muitos, a consciência
de nossa finitude, a certeza de que somos
mortais, levaria a repensar nossos valores,
nossos atos cotidianos, nossas preocupações,
as quais, numa situação como a colocada
acima, ganhariam outra dimensão.
Os versos citados acima pertencem à música
“E o mundo não se acabou” do compositor
Assis Valente (1908-1958), e foram inspirados
numa notícia divulgada nas rádios do país
no ano de 1938.
Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
Por causa disso a minha gente lá de casa começou a
rezar... (Assis Valente)
1Departamento de Ensino Médio – Curitiba – SEED/PR
84
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
A notícia era uma brincadeira (é claro), mas o fato provocou a preocupação
e agitação da população do país que teve as mais variadas
reações, desde gastar todo o dinheiro, até praticar atos considerados
insanos...
“Beijei na boca de quem não devia
Dancei um samba em traje de maiô” (Assis Valente)
Talvez nem seja necessário pensar no fim do mundo, ou na própria
morte, mas o simples fato de ficar “frente a frente” com a perda de alguém
muito querido, comover-se com as catástrofes que levam à morte
de milhões de pessoas ou com o drama cotidiano dos doentes e famintos
que passam a vida somente em busca de alimento, e morrem
ignorando totalmente as possibilidades que a vida pode nos oferecer,
sejam situações que certamente levam muitos de nós a pensar sobre o
sentido da vida, sobre as razões de nossa existência, sobre os motivos
que fazem cada um de nós termos vidas tão diferentes.
Estas são questões que incomodam a humanidade desde os mais
remotos tempos, muito antes dos filósofos gregos colocarem as clássicas
questões: De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos? Para
que viemos?
A busca dessas respostas motivou-nos a desenvolver o que podemos
chamar de pensamento sagrado, ou seja, nossa imaginação e inteligência,
movidas pela curiosidade, levou-nos a criar histórias que
nos explicam e aquietam nossas angústias sobre os mistérios acerca da
criação de todo o universo, e sobre o destino que nos espera. É claro
que a ciência também se encarregou de buscar estas respostas, mas
trataremos disto mais a frente.
Segundo Marilena Chauí, filósofa brasileira, o “sagrado opera o encantamento
do mundo” (Chauí,1998: 297), ou seja, essa forma de pensamento
nos remete a um mundo povoado de seres sobrenaturais com
poderes ilimitados que nos observam, nos recompensam, nos castigam,
nos auxiliam, etc. Em todas as culturas conhecidas, vamos encontrar
sinais do sagrado. Não importa se são seres naturais dotados de
poderes sobrenaturais – a água, o fogo, o vento, se animais – o cordeiro,
a vaca, a serpente, se seres com forma humana – santos, heróis, ou
seres imaginários – anjos, demônios. Em outros casos não há deuses,
mas práticas, regras ou rituais com dimensões sagradas. Exemplificando:
para alguns povos indígenas o Sol e a Lua são considerados sagrados,
para os hindus, a vaca é um animal digno de idolatria, os judeus
não cultuam deuses, mas têm seus dogmas, assim como os budistas,
que transformam todo o universo em entidade sagrada.
Juntamente com o desenvolvimento do pensamento sagrado, são
criados os “locais sagrados”, templos, igrejas, sinagogas, terreiros, mes85
Sociologia
A Instituição Religiosa
quitas, os céus, que são os lugares estabelecidos para as celebrações,
as homenagens, os sacrifícios, enfim são os lugares em que as pessoas
se reúnem ou aos quais se dirigem mentalmente, para reafirmarem
suas crenças, celebrarem seus rituais. Observe que para algumas religiões,
em alguns momentos históricos, esses locais tornam-se verdadeiros
símbolos de poder, como as catedrais medievais.
< Ritual de benção de alimentos
< Foto: João Urban
O que são os rituais?
Os rituais são atos repetitivos, que rememoram o acontecimento
inicial da história sagrada de determinada cultura. É fundamental na
celebração do ritual que as palavras e os gestos sejam sempre os mesmos,
pois trata-se de uma reafirmação dos laços entre os humanos e
os deuses. Quem já presenciou uma cerimônia de casamento da Igreja
Católica conhece de antemão as palavras e os gestos que serão ditos
e praticados pelo padre e pelos noivos. Trata-se de um ritual de passagem,
da vida de solteiro para a vida de casado. Os rituais são realizados
para agradecermos graças recebidas, para pedirmos ajuda, para
desculpar-nos por atos considerados incorretos, assim como para sermos
aceitos numa religião, ou nos despedirmos da vida.
Outra importante característica das religiões são os dogmas – verdades
irrefutáveis que são mantidas pela fé. Um dogma jamais pode
ser questionado, ou colocado em dúvida. Por exemplo: a transformação
do vinho e do pão em sangue e corpo de Cristo.
Este conjunto de símbolos sagrados, que inclui o pensamento religioso,
somado aos locais e rituais sagrados formará um sistema religioso,
ou uma religião.
z
86
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
“a religião é uma obra humana através da qual é construído
um cosmo sagrado” (BERGER apud FILORAMI&PRANDI, 1999: p.267).
Em sua definição, Berger contempla tanto o aspecto transcendental
quanto o cultural (obra humana).
Prosseguindo nesse raciocínio, cabe a explicação etimológica da
palavra religião. A partir de um pensamento de Santo Agostinho o qual
nos propõe que liguemos nossa alma a um único Deus, temos hoje a
associação da palavra religião a “religar”. Ligar o que a quê? Ligar o
mundo sobrenatural, sagrado, ao mundo humano, ou profano, fazer-nos
crer (e este é um aspecto fundamental da religião: a fé), que nós mortais
não estamos sozinhos no universo, que há um sentido para a vida, e que
cabe a cada um de nós tentarmos descobrir a que viemos.
São muitas as definições propostas a este termo. Por tratar-se de um
aspecto ao mesmo tempo amplo, multifacetado e que envolve a subjetividade
humana, torna-se quase impossível chegar-se a algum consenso.
No entanto, escolhemos para este texto uma pequena definição
de Peter Berger, sociólogo norte-americano:
< Foto: João Urban
Em resumo, consideramos que esta seja uma das formas de compreendermos
o pensamento religioso:
A religião como uma forma de alimento às nossas esperanças, como
uma força que nos impulsiona em direção a construção daquilo
que consideramos justo, ético e ideal. A crença de que em última instância,
algo ou alguém irá nos socorrer, que não estamos abandonados
à própria sorte, pode nos dar a força necessária para prosseguirmos
em nossa aventura pela vida! A religião pode também nos ensinar
87
Sociologia
A Instituição Religiosa
a conviver com nossos conflitos interiores e aceitarmos o que é inevitável,
caso contrário, a vida se tornará inviável. Talvez elevar o pensamento
ao Céu possa colocá-lo à altura de nossos desejos.
Mas por que estudar a religião, e suas várias manifestações?
Antes de tudo porque não vivemos isolados no mundo. Estamos
em contato contínuo com as mais diversas culturas do planeta! Já há
muito tempo a antropologia nos alertou sobre os riscos e os prejuízos
que o pensamento etnocêntrico causaram à humanidade. Quantas
culturas arrasadas, quantos povos destruídos e dominados em virtude
da ignorância e da arrogância de outros, mais poderosos economicamente.
Hoje, é inadmissível termos este tipo de atitude, qual seja, a
de olharmos com superioridade para povos com culturas diferentes da
nossa, julgarmos como inferiores comportamentos culturais que nos
parecem “estranhos” ou exóticos. Conhecer as diferentes religiões que
se espalham por nosso país e pelo mundo afora, possibilita-nos abrirmos
os olhos para o mundo, ou melhor, conhecermos outras dimensões
para se compreender e explicar a vida e o universo. Veremos que
o mundo é muito maior do que imaginamos e muito mais fascinante
depois de conhecermos as histórias que buscam dar significado às
nossas existências.
Uma segunda forma de compreensão do pensamento religioso é percebêlo
como instrumento de dominação, de intolerância, e que ao extremo pode
chegar ao fanatismo religioso.
No Brasil, temos hoje o respeito e a tolerância pelas mais diversas
religiões. Não somos obrigados a seguir uma única religião, como
ocorre em alguns países. Inclusive a Constituição Nacional nos assegura
a liberdade de credo e de culto segundo o art.5º, cap.I, inciso VI.
Isso significa que, ao nascermos, quase sempre seguimos a religião de
nossa família, mas que ao longo da vida podemos escolher uma nova
religião, ou mesmo optarmos pelo ateísmo.
Essa conquista, no entanto, foi obtida por meio de muita luta e de
muita opressão. Relembrando um pouco da história de nosso país, vamos
chegar aos povos nativos que aqui habitavam. Estes povos, assim
como ocorre em uma parte das sociedades ditas “primitivas”, tinham o
pensamento religioso como eixo central de suas vidas, o sagrado permeando
todas as relações e explicando todos os acontecimentos da comunidade.
Tinham, portanto, seus deuses, seus rituais, que davam significado
à sua existência. A chegada dos europeus, povos de tradição
católica, na condição de colonizadores, provocou um verdadeiro massacre
cultural.
Os padres jesuítas, representantes do catolicismo, iniciaram, no Brasil,
na primeira metade do século XVI, sua obra de catequização, impondo
novos valores e uma visão de mundo aos curumins, que em na88
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
Mas por que a Igreja Católica possui tanto poder?
A origem deste poderio da Igreja Católica pode ser encontrado no
fim do Império Romano do Ocidente, com a legalização do cristianismo
no ano 313. A partir daí, o progresso do cristianismo se acelerou,
< Cracóvia
< Foto: João Urban
da correspondiam à cultura daqueles povos.
A visão eurocêntrica fazia-os crer que os indígenas, apesar de estarem
situados numa escala inferior de humanidade, se comparados aos
europeus, ainda assim poderiam ser cristianizados e salvos com intervenção
de um religioso que lhes encaminhasse para a fé.
Logo em seguida, com o processo de colonização, povos africanos
foram trazidos como escravos e consigo carregam também seus cultos,
suas crenças, seus rituais, enfim sistemas religiosos estruturados
há muito tempo. No Brasil, essas pessoas foram tratadas como mercadorias,
como coisas, e portanto, suas crenças também foram desprezadas,
ou pior, proibidas. Mais tarde houve a vinda de outros povos
europeus e asiáticos que imigraram em busca de terras e trabalho. Junto
com seus sonhos, trazem também suas religiões, as quais buscaram
preservar, como forma de manterem-se unidos e mais fortes numa terra
tão estranha a seus hábitos culturais.
No entanto, mesmo com todas essa variedade religiosa, as leis brasileiras
declaravam o catolicismo como a religião oficial do país. Aliás,
a Igreja Católica, no Brasil sempre teve um poder muito grande, não
somente em seu âmbito, mas também nas questões políticas nacionais
e regionais. Até o advento da República, Estado e Igreja legislavam
em conjunto, decidindo os rumos da nação. Ainda no período Vargas
(1930 – 1945), vamos encontrar fortes influências dos chamados setores
católicos na política nacional.
89
Sociologia
A Instituição Religiosa
A Inquisição era um verdadeiro
tribunal que julgava e
condenava as pessoas que
considerava hereges. Qualquer
um que questionasse as
idéias e as práticas da Igreja
poderia ser levado aos tribunais
do Santo Ofício.
chegando ao seu auge na Idade Média européia. Nesse período da história,
a Igreja Católica reinou absoluta, decidindo os destinos dos reinos
e dos indivíduos. Todos eram obrigados a professar a mesma religião,
e aqueles que não obedecessem seriam duramente castigados.
Foi um tempo de muito terror e mentiras. Qualquer ato ou sinal que
contrariasse os rígidos preceitos da Igreja eram considerados heresia
ou feitiçaria, motivos para perseguições e castigos.
< Foto: Nego Miranda
< México
Muitos séculos se passaram, e somente no século XVI, veremos o
poder da Igreja Católica ser abalado, com o Movimento da Reforma
Religiosa. A Reforma constituiu-se num rompimento da Igreja Católica
e teve como conseqüência religiosa o surgimento de novas igrejas
– conhecidas como protestantes (luteranismo, calvinismo). O conflito
tem início quando Martinho Lutero (1484–1546), monge alemão rompe
com o Papa porque discordava de algumas práticas da Igreja, como
a venda de indulgências, de relíquias e cargos.
A partir do Iluminismo, teremos o acirramento do conflito entre ciência
e religião. Galileu Galilei (1564–1642) foi obrigado pela Igreja a
negar sua teoria (heliocentrismo), caso não desejasse sofrer as penas
da Inquisição. O Iluminismo introduziu formas inéditas de ver o mundo,
que até então era percebido somente em termos religiosos, e esta
nova visão estava associada a uma nova classe social que se insurgia
contra o poder aristocrático. Neste período (séc.XVIII), a religião está
associada ao poder aristocrático. Portanto, é fácil perceber que a luta
contra o pensamento religioso transformou-se numa luta política, contra
os representantes deste pensamento conservador.
É neste contexto histórico (séc.XIX), que alguns teóricos da Sociologia
iniciam seus estudos sobre a religião. Karl Marx (1818 -1883),
90
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
Escolha um ritual religioso que você conhece, descreva-o e aponte os elementos de coesão, solidariedade
social e reafirmação de valores do grupo religioso a que este pertence.
ATIVIDADE
Marx muitas vezes foi citado como um crítico mordaz da religião,
devido principalmente à sua famosa frase: “a religião é o ópio do povo”
(MARX, 1991: 106). Mas veremos que isto não é bem assim. Marx foi um
grande pensador e crítico do sistema capitalista. Suas análises e críticas
estão focadas no lucro, na mais-valia, na divisão da sociedade entre
burguesia e proletariado, na luta de classes. Portanto, suas principais
preocupações estavam focadas nas condições materiais das vidas
das pessoas, na concretude do sistema. Para ele, a forma como a sociedade
se organiza para produzir os seus bens materiais, ou seja, a forma
Émile Durkheim (1858 -1917) e Max Weber(1864 -1920) mais uma vez
nos auxiliam nesta tarefa da Sociologia de analisar contextualmente e
desnaturalizar as relações sociais. Chegam a conclusões distintas em
suas análises e reflexões sobre as funções da religião nas sociedades.
No entanto, num aspecto é possível observar a convergência entre os
três pensadores: são unânimes em anunciar o previsível fim da religião.
Afirmam que com o desenvolvimento das sociedades industriais,
a religião tenderia a perder espaço para outras atividades sociais. Ou
seja, a modernização e a industrialização levaria ao que a Sociologia
denomina de processo de secularização.
É!! Parece que se equivocaram! Caso contrário não estaríamos neste momento
gastando nossas horas com esse estudo.
Para Durkheim, a religião teria a função de fortalecer os laços de
coesão social, e contribuir para a solidariedade dos membros do grupo.
Por isso, as cerimônias e os rituais ganham uma grande importância,
uma vez que são estes momentos que possibilitam o encontro dos
fiéis e a reafirmação de suas crenças. Durkheim iniciou e baseou suas
análises em uma pesquisa realizada com os povos aborígenes australianos,
na qual abordava a prática do totemismo. Um totem é um objeto
sagrado, um símbolo do grupo, venerado nas cerimônias ritualísticas. Pode
ser uma planta, um animal, ou objeto, que por possuir, em sua origem, um
significado especial para o grupo, adquire o caráter de sagrado. A utilização
do termo Totem está restrito às religiões chamadas “elementares”
ou simples. Reafirmando, podemos concluir que para Durkheim, a religião
possui unicamente a função de conservar e fortalecer a ordem
estabelecida. De forma alguma pode ser associada a questões de poder
político ou ideológico.
“A secularização representa
o processo por meio do qual
a religião perde sua influência
sobre as diversas esferas
da vida social”. (GIDDENS,
2005, p. 437)
91
Sociologia
A Instituição Religiosa
de organização do trabalho vai exercer forte influência sobre a forma
como as pessoas pensam. Este pensar é representado pelo conjunto de
valores e conhecimentos impostos pelo Estado e pela religião. Em seu
texto “A questão judaica”, escrito em 1844, Marx discute a respeito do
papel desempenhado por estas instituições no sentido de controlarem
e modelarem o pensamento social.
Para Marx, a sociedade civil só terá condições de alcançar a liberdade,
ou a “emancipação humana” quando tiver condições de participar
efetivamente das decisões políticas do Estado, e por conseguinte
alcançar a verdadeira democracia. Mas atenção! Entenda-se democracia
não somente em sentido político/eleitoral, como nos ensinaram os
liberais do século XVIII, mas sim em seu sentido pleno, como igualdade
na distribuição dos bens socialmente produzidos e materializados na forma
de direitos sociais.
Por esse motivo, podemos afirmar que para Marx, a grande transformação
deveria acontecer no modo da sociedade produzir e distribuir
seus bens, assim como na presença de um Estado que atendesse
aos interesses coletivos, pois uma vez construída uma sociedade justa
e igualitária, não haveria mais necessidade das pessoas sonharem com
um mundo ideal, ou um paraíso. “Ópio do povo” significa que o povo
projeta em seus deuses e no mundo sobrenatural a vida que deseja ter
aqui na Terra. Esta forma de pensar leva à resignação, a aceitação das
condições de nossa vida como um destino que não pode ser modificado.
Mas Marx demonstra grande compreensão pela manifestações religiosas
quando afirma: “a religião é o coração
de um mundo sem coração” (MARX, 1991:106), ou
seja, a religião é o único refúgio, o único consolo
para aqueles a quem a vida é muito dura
e ingrata.
Essa é mais uma forma de compreendermos a
religião. Que nos leva à acomodação, à submissão,
à aceitação de nosso lugar na sociedade sem questionamentos
como nos sugere o ensinamento “é
mais fácil um camelo passar num buraco da agulha
que um rico entrar no reino dos céus”.
Pesquise a música “Procissão”, do compositor Gilberto Gil. Interprete seus versos apontando os elementos
de submissão e acomodação estudados acima.
ATIVIDADE
< Foto: João Urban
92
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
Weber foi um grande estudioso da religião. Empreendeu análises
comparativas entre as religiões orientais e ocidentais, com o objetivo
de compreender as razões do desenvolvimento do capitalismo na Europa.
Concluiu que o mundo oriental não oferecia condições para este
tipo de organização econômica devido aos seus sistemas religiosos
(que veremos adiante), os quais pregavam valores de harmonia com o
mundo, de passividade em relação às condições de existência, ao contrário
das religiões cristãs que incentivavam o trabalho e a prosperidade.
Em sua obra “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, Weber
desenvolve um interessante estudo em que demonstra o quanto
os protestantes (em especial os calvinistas) contribuíram para o desenvolvimento
do capitalismo. Esses possuíam um forte espírito empreendedor
baseado na crença de que com o trabalho estariam servindo a
Deus. O enriquecimento e o sucesso material eram sinais de favorecimento
divino.
Esses são, portanto, três possíveis olhares sociológicos sobre a instituição
religiosa.
Como já comentamos anteriormente, saber da existência e conhecer
outras religiões, além de ampliar nosso universo cultural e nos
ensinar a respeitar a diversidade cultural, leva-nos principalmente a
compreender melhor nossa própria religião. Sim, porque só nos percebemos
como construtores de cultura na medida em que conhecemos a
cultura do outro. Quando só conheço o meu mundo este se torna “natural”,
ou o único possível!
Importa ressaltar, antes de conhecermos o quadro das religiões, a
existência de uma postura filosófica denominada Ateísmo. Surge na antigüidade
greco-romana e ganha maior espaço à partir do século XVIII,
com o surgimento das teorias anarquistas, liberais e socialistas. Consiste
na total ausência de explicação divina para a vida.
Vamos, em seguida, apresentar as principais religiões que podemos
encontrar espalhadas por todo o mundo. Apenas citaremos e apontaremos
algumas características de cada uma delas. O interesse e a curiosidade
de vocês poderá levar à pesquisa e ao aprofundamento sobre
o assunto.
Religiões originárias do Extremo-Oriente
Taoísmo
Baseia sua doutrina num livro chamado “Tao Te Ching” – o livro do
Tao (ordem do mundo) e do Te (força vital), escrito presumivelmente
pelo filósofo chinês Lao Tsé, no séc. VI a. C. O Taoísmo prega a passividade
para se alcançar o Tao, ao contrário do confucionismo que propõe
o conhecimento. Para Lao Tsé, o mundo ideal era aquele das antigas
aldeias, onde a simplicidade e a ingenuidade criariam as condições
propícias para o perfeito equilíbrio entre o Tao e o Te.
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93
Sociologia
A Instituição Religiosa
Xintoísmo
Trata-se da antiga religião oficial do Japão. Originariamente não
possuía um fundador, doutrinas nem dogmas. Estrutura-se por intermédio
de um conjunto de mitos e ritos que estabelecem o contato com
o divino e explicam a origem do mundo, do Japão e da família imperial
japonesa. O universo xintoísta é povoado por milhares de deuses,
denominados kamis – que se manifestam na forma de rios, montanhas,
flores, seres humanos, animais, etc. Kami também pode ser traduzido
por espírito, sendo o culto aos ancestrais uma das práticas mais importantes
do xintoísmo.
Hinduísmo
São surpreendentes a permanência no tempo e a complexidade
desta religião, que perdura há aproximadamente 6 mil anos, e compõe-
se de tão grande variedade de cultos e práticas religiosas, que
pode ser considerada como um grande conjunto formado por várias
pequenas religiões. Mas algumas características unem todos os hinduístas,
quais sejam: o sistema de castas, a adoração às vacas e a crença
no carma. A organização da sociedade em castas parte do princípio de
que os indivíduos vêm ao mundo já ocupando um lugar na hierarquia
social, como resultado de suas encarnações nas vidas passadas. Portanto,
este deve cumprir com resignação a função que lhe coube, porque
um viver com pureza pode resultar como “prêmio”, uma vida futura
numa casta superior. As quatro castas do hinduísmo são: 1º. – os
sacerdotes (brâmanes), 2º. – guerreiros, 3º. – agricultores, comerciantes
e artesãos e 4º. – os servos. Um quinto grupo que não é considerado
casta são os párias. Cada casta tem suas próprias regras de condutas e
suas próprias regras religiosas.
A vaca é considerado um animal sagrado, um símbolo da vida, porque
ela supre tudo que é necessário à sobrevivência humana, portanto,
não é permitido matá-la.
Budismo – criado na Índia, pelo príncipe Sidarta Gautama
O Buda (o iluminado), por volta do séc.
VI a.C.. Este é tratado pelos adeptos do budismo
como um guia espiritual, e não um deus.
Importa ressaltar que Buda era absolutamente
contra o sistema de castas existente na Índia.
Segundo o budismo, o ser humano está
condenado à reencarnação após cada morte,
e a enfrentar novamente os sofrimentos do
mundo (lei do carma). Para encerrar este constante
ciclo, deve-se buscar o estado da perfeita
iluminação, ou nirvana. Este estado é alcançado
por intermédio da meditação e da contem- < Foto: IconeAudiovisual
94
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
plação, que corresponde à negação dos desejos – fonte de todos os
sofrimentos.
Confucionismo
Foi a doutrina oficial da China durante quase dois mil anos (do séc.II
ao início do séc. XX). Criada pelo filósofo Confúcio (Kung Fu Tzu), seus
ensinamentos apontam no sentido da busca do caminho do Tao – que seria
o equilíbrio e a harmonia entre o universo, a natureza e o indivíduo.
Para alcançar este caminho é necessário o conhecimento e a compreensão,
os quais são obtidos por meio do estudo do passado, da tradição. A
respeito da vida após a morte, Confúcio não ousava comentar, uma vez
que ainda não havíamos compreendido o que é a vida na Terra.
Religiões de origem africana
Citaremos aqui somente as principais religiões afro-brasileiras presentes
hoje no Brasil, não esquecendo de que, na África, encontraremos uma
grande variedade de religiões – as religiões tradicionais ou tribais.
Candomblé
Originário da África, o candomblé chegou ao Brasil junto com os
primeiros escravos africanos, entre os séc. XVI e XVII. Seus deuses
são chamados de Orixás e representam as principais nações africanas
de língua iorubá. Suas cerimônias são realizadas em língua africana,
acompanhadas de cantos e sons de atabaques. Como esta forma de religião
era proibida no Brasil, seus adeptos associaram seus deuses a
santos católicos, criando o que se conhece como sincretismo religioso.
Os deuses do candomblé dão proteção às pessoas, mas não determinam
como essas devem agir, e não castigam caso essas cometam algo
considerado incorreto para a sociedade.
Umbanda
É uma religião brasileira, resultado da
fusão de duas religiões africanas: a cabula
e o candomblé, e de crenças européias.
O universo para os umbandistas é
habitado por entidades espirituais – os
guias, que entram em comunicação com
as pessoas por intermédio dos iniciados,
ou médiuns. Os guias assumem formas
como o caboclo, a pomba-gira, o preto
velho e outros. A umbanda se propagou
por todas as regiões do Brasil, e é freqüentada
por pessoas de todas as classes
sociais e todas as origens étnicas.
z
< Foto: João Urban
< Ritual de Umbanda
95
Sociologia
A Instituição Religiosa
Religiões originárias do Oriente-Médio
As religiões comentadas abaixo adotam a prática do monoteísmo,
ou seja, o culto a um único Deus.
Judaísmo
É a mais antiga da três grandes religiões monoteístas, sendo suas
origens encontradas há aproximadamente 1.OOO anos a.C. A palavra
judeu deriva de Judéia, parte de uma região do antigo reino de Israel.
Os judeus crêem num único Deus, onipotente, o qual estabeleceu com
eles um pacto, uma aliança. Por isso, consideram-se “o povo escolhido
por Deus”. O livro sagrado dos judeus é a Bíblia judaica, ou Torá, que
corresponde ao Antigo Testamento dos cristãos, porém organizada de
uma forma um pouco diferente.
A vida dos judeus é regida por normas rígidas estabelecidas por
Deus. O não-cumprimento dos deveres com Deus e com seus semelhantes
implicará em castigos divinos.
Cristianismo
Tem origem no séc.I, na região ocupada
hoje pelos atuais Estados de Israel e territórios
palestinos. Seus primeiros adeptos são os seguidores
de Jesus Cristo e de seus apóstolos.
A doutrina cristã nos ensina que Deus envia à
Terra, seu filho Cristo – o salvador, o qual foi
morto a favor dos homens que estavam distanciado-
se de Deus. Na sua ressurreição Jesus
oferece às pessoas a possibilidade de salvação
eterna após a morte, caso essas aceitem seguir
seus preceitos de amor a Deus e aos seus semelhantes.
O cristianismo segue a Bíblia, que
se divide em Antigo e Novo Testamento. Algumas
vertentes do cristianismo são apresentados
a seguir:
Igreja Católica Romana
Igreja Ortodoxa
Igreja Anglicana
Igreja Luterana
Igreja Presbiteriana
Igreja Metodista
Igreja Batista
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< Aparecida - SP
< Foto: João Urban
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Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
Igreja Pentescostais: Congregação Cristã no Brasil
Assembléia de Deus
Evangelho Quadrangular
Deus é Amor
Igrejas Neopentecostais: Igreja Universal do Reino de Deus, entre outras.
Cristianismo de fronteira: Mórmons
Adventistas
Testemunhas de Jeová
Islamismo
Sua origem baseia-se nos ensinamentos do profeta Maomé, assim
como ocorre com o cristianismo. A palavra islã significa submeter-se.
Seu deus é chamado Alá, e seus seguidores são conhecidos como muçulmanos
(em árabe Muslim, aquele que se subordina a Deus). O livro
sagrado do islamismo é o Alcorão, sendo seus principais ensinamentos:
onipotência de Deus e a necessidade de bondade, generosidade e justiça
entre as pessoas. A maioria dos muçulmanos está concentrada no
norte e no leste da África, no Oriente Médio e no Paquistão.
Após elencarmos todo este numeroso rol de religiões e suas subdivisões
em igrejas, que aliás não termina aqui, se você pesquisar, certamente
encontrará outras ramificações destas religiões ou seitas isoladas
e provavelmente você ficará surpreso com a quantidade e a diversidade
de manifestações religiosas existentes no mundo. Este quadro constitui-
se no que se chama de pluralismo religioso,
e certamente nos coloca importantes
questões sociológicas, que não poderão ser
aprofundadas neste momento, mas sobre as
quais vale a pena pensar:
A lógica do mercado que nas últimas décadas
do século XX invadiu todas as esferas
da vida humana nas sociedades capitalistas
não poupou as religiões. Por isso, temos
que estar atentos aos “espertalhões”, que se
aproveitam dos sofrimentos e falta de perspectivas
das pessoas para vender sua “mercadoria”
e ganhar adeptos que favorecerão
seus “negócios”.
O desenvolvimento industrial levaria a uma
perda da influência das religiões, diziam os
teóricos
do séc. XIX. A ciência avançou vertiginosamente
no último século, e as religiões,
por sua vez, ganharam uma abrangência e diversidade
nunca antes conhecidas. É importante
observar o papel dos meios de comunicação
na difusão de mensagens religiosas,
que chegam prontas em nossas casas.
=
=
< Foto: João Urban
< Mesquita em Curitiba - PR
97
Sociologia
A Instituição Religiosa
Não importam suas crenças religiosas, não importa se você é ateu.
Mas importa que você não espere o mundo acabar para lembrarse
da experiência da vida, do presente, que se acaba e recomeça a
cada dia.
=
Escolher três religiões e realizar uma visita aos seus “lugares sagrados” (mesquita, igreja, sinagoga,
terreiro, templo). Marcar uma entrevista com o líder religioso, e elaborar um roteiro, contemplando questões
referentes à história da religião, suas principais práticas e rituais e seus ensinamentos fundamentais.
Se for possível, fotografar, para organizar uma exposição em sua escola.
ATIVIDADE
Sugestões de filmes:
“A letra escarlate”,1995,E.U.A,direção: Roland Joffé
“Em nome de Deus”, 2002,Inglaterra, direção: Peter Mullan
“Lutero”, 2003, Alemanha/E.U.A, direção: Eric Till
“O corpo”, 2001, E.U.A., direção: Jonas MC Cord
“Tenda dos Milagres”, 1977, Brasil, direção: Nelson Pereira dos Santos
“O nome da Rosa”, 1986, Alemanha/França/Itália, direção: Jean Jacques Annaud.
“A missão”, 1986, Inglaterra, direção: Roland Joffé
Referências:
ALVES, R. O que é religião. 17 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.
CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1998.
DURKHEIM, É. Religião e conhecimento In: Sociologia. 2ª ed. São Paulo: Ática,1981.
FILORAMO,G.; PRANDI,C. As ciências das religiões. São Paulo: Paulus,1999.
GAARDER, J.; HELLERN,V.; NOTAKER, H. O livro das religiões. São Paulo: Companhia das Letras,
2005.
GEERTZ, C. A Interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1973.
GIDDENS, A. Sociologia; 6ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2005.
MARX, K. A questão judaica. 2ª ed. São Paulo: Moraes, 1991.
MARX, K. Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel. In: A questão judaica. 2 ed. São Paulo: Moraes,
1991.
ORTIZ, R. Iluminismo e religião. In: Revista Religião e Sociedade. São Paulo: Vozes, mar/1986.
PRANDI, R. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
RAMINELLI,R. Imagens da colonização: a representação do índio de Caminha a Vieira. Rio de Janeiro:
Zahar,1996.
WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo.15ª ed. São Paulo: Biblioteca Pioneira
de Ciências Sociais. 2000.
z
=
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=
=
z
6
A INSTITUIÇÃO
FAMILIAR
dure, posto que é chama”.
(Vinicius de Moraes).
“Qualquer maneira de amor
vale a pena”. (C. Velozo).
“Desde que João se foi
em busca de trabalho...
Maria cria sozinha
seus filhos...”
“A família era muito mais
um núcleo econômico... os
laços afetivos não importavam”.
< Fotos: João Urban
1Departamento de Ensino Médio – Curitiba –SEED/PR
100
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
Algumas das imagens apresentadas anteriormente têm a ver com
sua idéia de família? Ou melhor, com a idéia que você construiu a respeito
de família? Sim? Não? Talvez?
Será que há algo em comum entre as imagens?
É! Pensar sobre família não é algo fácil! Pois são muitas as referências
que temos sobre essa instituição.
A primeira idéia provavelmente está ligada à nossa própria família –
aquela na qual nascemos ou na qual fomos criados. Mas à medida que
crescemos e vamos saindo do nosso “mundinho”, começamos a observar
que as pessoas vivem em grupos familiares diferentes do nosso.
Vemos a família dos vizinhos, dos amigos da rua, dos colegas da escola,
das novelas da TV, dos comerciais de margarina... Isto sem mencionar
outros lugares, distantes ou não muito do nosso, e outros tempos
históricos, nos quais as famílias eram e são ainda muito mais diferentes
que as nossas conhecidas.
Frente a isso somos levados a pensar: que instituição tão estranha é
essa! Ao mesmo tempo que parecem tão semelhantes, são, por sua vez, tão diferentes!
Veja por exemplo as imagens da primeira página. O que há de semelhante
entre a imagem 4 (família patriarcal) e a imagem 2 ( mãe com
seus filhos)? Será que o sentimento que une o casal 1 é o mesmo que
une as pessoas da imagem 4? Aliás, que sentimentos unem os membros
de uma família? Amor, afeto, respeito, cumplicidade? Muitas vezes
sim. Mas certamente não foi e não é sempre assim. Algumas vezes
as pessoas se unem para formar uma família por questões econômicas,
outras vezes, por tradição, ou para obedecer regras impostas pela so-
< Foto: João Urban
< Família Bojan
101
Sociologia
A Instituição Familiar
< Foto: João Urban
ciedade. Ou seja, nem sempre é o amor, como estamos acostumados a
pensar, o responsável pelas uniões conjugais, e nem sempre é o amor
que mantém unidas as famílias.
Bem, até aqui já deu para perceber que quando se fala de família
não há consenso, ou seja, não há chance de chegarmos a um modelo
considerado melhor ou pior, certo ou errado. E qual é o significado
desta instituição para nós? Para alguns, família é conforto, para outros
é tormento. Para alguns é segurança, para outros é prisão. Alguns psicólogos
vêem na família a origem de todos os nossos traumas – problemas
que carregamos ao longo de nossa vida, e dos quais muitas vezes
não conseguimos identificar as causas. O senso comum e a religião
nos ensinam que a família é a célula-mãe da sociedade, imprimem-lhe
um caráter quase sagrado, e tentam nos convencer de que todos temos
que amar e preservar a família, caso contrário as gerações não se
perpetuam... a escola já há algum tempo vem culpando e responsabilizando
a família, caso o aluno não se saia bem nos estudos...
E nós, como ficamos no meio disso tudo que se afirma? Amamos,
odiamos, permanecemos, fugimos, destruímos ou construímos? Já encontramos
nossa família pronta quando nascemos, mesmo que se constitua
unicamente de nossa mãe. Por isso, os sociólogos afirmam que essa
é primeira instituição social à qual pertencemos. Aquela da qual recebemos
os primeiros valores e as primeiras impressões sobre a vida e sobre
o mundo. Muito do que somos e do que pensamos é resultado da forma
como fomos criados em nossos anos iniciais, nessa pequena instituição.
Fazendo um parênteses, cabe lembrar das crianças orfãs ou abandonadas,
as quais são encaminhadas para orfanatos e que, portanto,
recebem um tipo diferenciado de valores e de educação. E as crianças
cuja moradia é a rua? Algumas vezes elas possuem uma casa, mas preferem
ou são obrigadas a permanecer nas ruas, a fim de garantir seu
próprio sustento e mesmo de algum adulto que as explora. Quais são
seus valores, e como o mundo chega aos seus olhos?
102
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
Nos orfanatos e abrigos as crianças recebem, além de cuidados básicos
para sua saúde e educação, valores que estão mais ligados à vida
em coletividade, crescem, portanto, aprendendo a viver cooperativamente,
dividindo direitos e obrigações. No entanto, se podemos afirmar
que valores como solidariedade, senso de justiça e autonomia são
aprendidos por meio de relações de cooperação, estas devem ser tecidas
com muito amor e afeto, sentimentos nem sempre fáceis de se desenvolverem
em instituições que abrigam um grande número de crianças.
Quanto às crianças que vivem nas ruas, além de tudo que sabemos
sobre os constantes riscos a que estão sujeitas, como a violência
das drogas, dos crimes, da prostituição infantil e mesmo de assassinatos,
temos hoje interessantes pesquisas apontadas pela psicóloga Sílvia
Helena Koller, professora da UFRGS, que “...sustentam que crianças
em situação de rua apresentam características psicológicas sadias,
apesar do cotidiano adverso que enfrentam na hostilidade da rua. A
rua gera altos níveis de stress, testando constantemente sua vulnerabilidade
emocional, social e cognitiva. Todavia, também, exige permanentemente
que elas apresentem estratégias de adaptação e de resistência
à situação adversa e que põe em risco a sua segurança e sobrevivência”.
(KOLLER, 2000: 67). Este é um dado importante para revermos nossos
preconceitos.
É provável que você já tenha ouvido a frase: “A vida imita a arte”.
Ou será: “A arte imita a vida”? Pois vejamos o que nos diz o poeta Chico
Buarque de Holanda a respeito de casamentos, famílias, mães e filhos...
Quando trata de casamentos e vida familiar é possível perceber,
nos versos de Chico Buarque, sentimentos como a opressão, o conformismo
e a “mesmice”, em que podem tornar-se o cotidiano familiar.
As canções “Cotidiano” (1971) e “O casamento dos pequenos burgueses”,
exemplificam alguns destes aspectos: “Todo dia ela faz tudo sempre
igual/ Me sacode às seis horas da manhã/ Me sorri um sorriso pontual/ e me
beija com a boca de hortelã...”, e assim a música prossegue, repetindo palavras,
num ritmo constante e repetitivo, no qual as ações se sucedem
de modo sempre previsível. A música não nos sugere paixão nem tampouco
ódio entre os cônjuges. Apenas descreve a rotina diária de um
casal, que pode significar segurança como também um certo tédio como
preferirem aqueles que a lerem.
Já em “O casamento dos pequenos burgueses”, é evidente a hipocrisia
das relações que se mantêm somente para salvar as aparências, e
o conseqüente sofrimento daqueles que aceitam uma vida sem sabor,
ou será sem amor?
103
Sociologia
A Instituição Familiar
“Ele faz o macho irrequieto
E ela faz crianças de monte
Vão viver sob o mesmo teto
Até secar a fonte...”
Mas Chico não é só pessimismo quando trata de casamentos. Em
sua música “Valsinha” (1971), ele aponta a possibilidade das pessoas
se “reencontrarem”, mesmo após muitos anos de convívio, e poderem
reconstruir a vida com que um dia haviam sonhado, ao som de uma
valsa de ritmo suave: “Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre
chegar/ Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava
olhar/ E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar/ e
nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar...
E finalmente: E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a
se abraçar.”
Quando trata das relações entre mãe e filhos, Chico Buarque demonstra
tamanha sensibilidade, que quase imaginamos ser ele o protagonista
das histórias. No samba “O meu guri”(1984), podemos compreender
o orgulho da mãe, cujo filho tudo faz para vê-la feliz, e esta
prefere não ver o que não lhe convém.
< Foto: João Urban
“Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, cardeneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar,...”
Já em ”Angélica” (1978) chega a nos angustiar o desespero e o sofrimento
da mãe que tem o seu filho “roubado” pela ditadura militar, que
se traduz numa melodia triste e desesperançosa:
104
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
“No sinal fechado
Ele vende chiclete
Capricha na flanela
E se chama Pelé
Pinta na janela
Batalha algum trocado
Aponta um canivete
E até
Dobra a Carioca, olerê
Desce a Frei Caneca, olará...”
“Quem é esta mulher
Que canta sempre este estribilho
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar...”
Também o menino de rua, ou o menor abandonado é mostrado em
“Pivete” com toda a crueldade que a vida lhe reservou. Sua vida acontece
num único fôlego e tem um ritmo acelerado, como o próprio poema
de Chico e Francis Hime. Seu mundo é a cidade grande, que ele
domina como ninguém. Seus ídolos – Pelé, Ayrton Senna e Mané Garrincha
– expressam os sonhos tão distantes e quase inacessíveis da
maioria dos brasileiros. Este menino, cuja mãe, cujo pai e irmãos também
estão em algum lugar, que não se chama lar ou família é um menino
apenas, que luta para sobreviver, do jeito que a vida lhe ensinou:
< Foto: João Urban
Mas agora voltemos ao centro de nossa questão. Por que estudamos
sobre a família? Que objetivos tem a sociologia ao propor o estudo
deste assunto?
Certamente não pretendemos chegar a nenhum consenso, a nenhuma
verdade única, como também não iremos lhes apresentar um belo
modelo familiar a ser seguido. Nosso objetivo neste caso é problema-
Pesquise outras músicas e poemas que abordem relações familiares, da forma como vimos no texto
acima. Procure imagens que correspondam aos textos pesquisados. Monte cartazes e apresente à
turma.
pesquisa
105
Sociologia
A Instituição Familiar
tizar! Sim, problematizar para que possamos nos situar melhor na sociedade,
compreender nossa origem social e as implicações daí decorrentes,
e a partir disso podermos escolher e encontrar nosso lugar no
mundo, mantendo os vínculos familiares que nos forem importantes e
abandonando sem culpa aqueles que nos fazem mal.
E como faremos esta problematização? Primeiramente conhecendo
como a Sociologia define e classifica as organizações familiares.
Após, teremos contato com os resultados de algumas pesquisas antropológicas
que ilustram a respeito da diversidade familiar encontrada
pelo mundo afora. Finalmente, discutiremos sobre as mudanças pelas
quais passam as famílias nas sociedades contemporâneas e as alternativas
buscadas pelos grupos humanos, na tentativa de encontrar formas
mais harmoniosas e saudáveis de se viver. Então, conseguiremos relativizar
a respeito desta questão, ou seja, não nos utilizarmos somente
do ponto de vista individual para analisar uma situação (neste caso
a familiar), mas podermos vê-la a partir de outros referenciais teóricos
e sociais.
Vamos a alguns conceitos:
Família é um agrupamento de pessoas cujos membros possuem entre si laços
de parentesco, podendo ou não habitarem a mesma casa. Por exemplo,
um pai separado continuará fazendo parte da família de seu filho (mas
não de sua ex-mulher), embora esteja morando em outra casa. Quando
uma família é composta por pai, mãe e filhos, ela é chamada de
família nuclear. Quando outros parentes, como avós ou tios convivem
com o casal e seus filhos, temos o que se chama de família extensa.
Os laços de parentesco são estabelecidos a partir da consangüinidade
ou do casamento. Os casamentos ou uniões conjugais podem ser
classificados basicamente de duas formas: monogâmicos – é a união de
um homem ou de uma mulher com um único cônjuge; e poligâmicos –
que é a união de um homem ou uma mulher com mais de um cônjuge.
No mundo ocidental, a poligamia é ilegal, embora os meios de comunicação
e a literatura vez ou outra nos relatem casos de pessoas que vivem
conjugalmente com mais de um marido ou mais de uma esposa.
Na perspectiva da Sociologia Funcionalista (Durkheim, Parsons), a
família nuclear é considerada uma unidade fundamental para a organização
da sociedade, pois detém as funções de transmitir às crianças
as regras básicas da sociedade, bem como de proporcionar estabilidade
emocional a seus membros. Mas, para estes sociólogos a grande importância
da família refere-se à divisão de tarefas, que permite que um
dos adultos saia para trabalhar enquanto o outro cuida da casa e dos
filhos. Hoje, esta interpretação é considerada conservadora, pois pressupõe
que a divisão das tarefas domésticas é um dado natural. Da mesma
forma, as funções referentes à educação dos filhos, antes atribuídas
somente à família, são cada vez mais divididas com outras instituições
106
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
como o Estado, a escola e creches, além da forte influência exercida
pelos meios de comunicação.
Muito bem! Após estas informações básicas vamos ao que interessa
mais especificamente no pensamento sociológico. Ou seja, indagar,
questionar, desconstruir o que parece “normal”, ou “natural”, ir na contra-
mão de verdades repetidas anos a fio, romper com o que é aparente,
e buscar o que está oculto, o que não é visível aos olhos da maioria,
mas que pode ser apreendido pelos olhos curiosos da Sociologia.
Desenvolvendo esta forma de olhar, nosso estudo ganhará sentido e
perceberemos a sua importância em nossas vidas. Quem sabe nosso
objeto de estudo possa até tornar-se Sujeito, com todas as prerrogativas
que lhe cabe!
Então, vamos à primeira pergunta:
Há algo mais intrinsecamente ligado a nós do que a nossa família? É
provável que não. No entanto, por que tão poucas vezes paramos para
refletir sobre este assunto? Uma das respostas pode estar ligada aos
ensinamentos que recebemos da ciência e da escola, que nos dizem
que as coisas que estão longe de nós é que são importantes, como os
afluentes do rio Nilo ou a dinastia do reino Franco, ao passo que a nossa
história, nossas inquietações não são dignas de estudo e pesquisa.
Talvez este seja um dos motivos que nos leva a crer que o mundo em
que vivemos não nos pertence, e assim pouco importa que nossos direitos
sejam roubados e que nossas vidas sejam somente objeto de estudo
para pesquisadores bem intencionados.
Então pessoal! Vamos continuar pensando:
Será que a família sempre se organizou desta forma nuclear – pai, mãe
e filhos? Observe que sempre começando pelo pai. Por que será?
Será que as regras para o casamento são iguais em todas as sociedades?
Você sabe por exemplo, que uma das regras na nossa sociedade
é de que não podemos casar com os nossos irmãos ou irmãs.
Será que esta instituição chamada família sempre existiu?
Será que a forma de organização familiar, como nós conhecemos
hoje, é uma necessidade dos grupos humanos?
As respostas são: Não. Não. Não e não! Portanto, vamos às explicações:
a complexidade que cerca as formas de organizações familiares
é semelhante à profusão de sentimentos que estas nos despertam,
como foi colocado nas primeiras páginas deste texto. Os exemplos de
famílias que conhecemos e que parecem quase eternos são apenas algumas
das muitíssimas possibilidades de agrupamentos familiares conhecidos
na história. Antropólogos como Lewis Morgan (1818 - 1881),
Bronislaw Malinowski (1884 - 1942), Claude Lévi-Strauss (1908 - ), ou
cientistas sociais como Friedrich Engels (1820 - 1895), entre outros,
buscaram em suas pesquisas as várias combinações criadas pelo ser
humano para se organizarem socialmente.
107
Sociologia
A Instituição Familiar
Primeiramente é preciso esclarecer que não há uma escala evolutiva
das sociedades humanas que caminharam das famílias poligâmicas
para as monogâmicas. Essas duas formas básicas de casamento sempre
coexistiram em toda a história da sociedade humana, o que indica
que não há relação de superioridade ou inferioridade entre elas. Inclusive
em alguns grupos sociais verificou-se a existência de ambas no
mesmo tempo histórico.
Seria correto afirmar que a família é uma instituição que surge das
necessidades naturais do ser humano (a procriação, por exemplo), ou
seria também uma construção cultural, embasada em regras e valores?
Esta é uma questão com muitas respostas. O que se sabe, à partir de
inúmeros estudos antropológicos é que podemos encontrar, mesmo nos
mais remotos grupos humanos, regras que autorizam ou proíbem alguns
tipos de união. Por exemplo, não se casar com o irmão, ou com o tio.
Esta prática é chamada de incesto. Portanto, uma relação incestuosa seria
uma relação proibida, ou negada, numa dada sociedade.
Conclui-se daí, que quando o ser humano estabelece tais regras,
ele está procurando expandir seu pequeno grupo, sair de sua família
biológica.
Vamos a alguns exemplos de agrupamentos familiares distintos dos
nossos conhecidos: os iroqueses (tribos norte-americanas), estudados
por L. Morgan, consideram como seus filhos não somente os seus próprios,
mas também os de seus irmãos, os quais também o chamam de
pai. Os filhos de suas irmãs, por sua vez, são tratados como sobrinhos.
A iroquesa, por sua vez, considera como seus filhos aqueles provenientes
de sua irmã, enquanto os filhos de seus irmãos são chamados
de sobrinhos. Essas denominações implicam numa série de deveres e
de obrigações de cada um dos membros, e que irão configurar o sistema
social desses agrupamentos.
Estamos acostumados hoje com o fato de cada filho ter apenas um
pai e uma mãe, no entanto, em muitas sociedades é comum que cada
filho tenha vários pais e várias mães. Nos casos em que seja praticada
a poligamia (pelos homens) e a poliandria (pelas mulheres), os
filhos de um e de outros são considerados comuns, e responsabilidade
de ambos.
B. Malinowski, em suas pesquisas com os nativos das ilhas Trobriand,
um arquipélago de coral situado a nordeste da Nova Guiné,
denominados papuamelanésia, verificou que estes constituem-se numa
sociedade matrilinear. Isto quer dizer que a mãe é a referência para
o estabelecimento das relações de parentesco, e de descendência,
assim como cabem às mulheres as maiores responsabilidades nas atividades
econômicas, cerimoniais e mágicas. O pai, mesmo acompanhando
o crescimento dos filhos, é considerado simplesmente como
o marido de sua mãe, não estabelecendo nenhum vínculo maior com
estes.
Família de indios tupinambás, em
gravura de Teodore de Bry, do livro
de Jean de Léry.
<
< enciclopédia Grandes Personagens da Nossa História, Ed. Abril, S.Paulo/SP, 1969, vol. I
108
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
As famílias matrilineares estiveram presentes durante muito tempo
em diferentes lugares do mundo, e, segundo F. Engels, o desmoronamento
deste tipo de organização familiar está relacionado com a prática
do escravismo. O escravismo nas sociedades antigas é decorrência
de vitórias ou derrotas nas guerras entre as tribos. Com a vitória,
o homem apoderava-se das terras, rebanhos, prisioneiros (futuros escravos),
da direção da casa e da mulher, que aos poucos torna-se servidora
do homem. Temos aí o gérmem da família patriarcal – aquela
em que o homem, o pai, é senhor absoluto de todos que vivem sob
o seu domínio. Este, o chefe, permanece vivendo em poligamia, enquanto
sua mulher e os outros membros de sua família devem-lhe total
fidelidade.
< Família Xavier de Miranda
< Acervo: Nego Miranda
Em sua origem latina, a palavra família provém de Famulus, que
significa escravo doméstico, e família é o conjunto dos escravos pertencentes
a um mesmo homem. O direito romano conferia ao pai o direito
de vida e morte sobre todos que viviam sob suas ordens – esposa,
filhos, escravos. Para Marx, “(...)a família moderna contém em seu
germe, não apenas a escravidão como também a servidão, pois, desde
o começo, está relacionada com os serviços da agricultura. Encerra em
miniatura todos os antagonismos que se desenvolvem, mais adiante,
na sociedade e em seu Estado”. (Marx apud Engels,1978: 62), ou seja,
a desigualdade e a opressão da sociedade de classes capitalistas.
Podemos encontrar exemplos de família patriarcal muito próximos
de nossa história, no período denominado Brasil Colônia. O protótipo
da família patriarcal brasileira é a família latifundiária, embora este modelo
possa ser encontrado também nos meios urbanos, entre classes
109
Sociologia
A Instituição Familiar
de não-proprietários de terras, como profissionais liberais, comerciantes,
militares, etc. No momento de organizarem suas famílias não havia
dúvida de que cabia ao pai o papel principal e determinante de todas
as outras relações entre mãe, filhos e empregados.
Na família patriarcal o pai é o grande proprietário: das terras, dos bens
e das pessoas que habitam suas terras, não importando se estes estão ligados
por laços sangüíneos ou não. O pai concentra todas as decisões, sejam
referentes aos destinos da terra ou das pessoas, como o chefe de um
clã. E todas as ações giram em torno da manutenção da propriedade. Este
tipo de organização familiar faz com que esta se volte somente para si
mesma, para seus próprios interesses, sendo a sociedade e o Estado instâncias
secundárias. Não há a preocupação com a formação de cidadãos,
mas somente de parentes ou agregados preparados para servir aos interesses
do patriarca. As mulheres (esposa e filhas), são figuras quase invisíveis
deste tipo de sociedade. Saem pouquíssimas vezes de casa (geralmente
em festas religiosas), não aparecem para os visitantes, são proibidas
de estudar, envelhecem cedo, pois casam-se ainda meninas (em torno dos
13 – 14 anos), têm vários filhos, praticamente não fazem exercícios (têm
escravas para todos os afazeres domésticos). Os maridos para as filhas são
escolhidos pelo pai, sendo o principal critério o volume de posses do pretendente.
Muitas vezes estas eram obrigadas a casarem-se com homens
muito mais velhos, mas já estabelecidos economicamente.
Os filhos, homens, tinham outras funções: ao mais velho cabia herdar
e administrar a propriedade paterna, ao segundo cabia seguir a
carreira eclesiástica. Constituía-se em motivo de orgulho e quase uma
obrigação toda família “de bem”, formar um padre. O terceiro filho deveria
prosseguir os estudos na capital ou na Europa, tornando-se “doutor”,
provavelmente bacharel em direito ou médico.
Este modelo de família nuclear e patriarcal tornou-se ao longo da
história do Brasil sinônimo de honra e respeitabilidade, seguido não só
pelas classes mais abastadas, mas também pelas classes médias.
Gilberto Freye, sociólogo brasileiro, estudioso da formação da sociedade
patriarcal brasileira, assim resume a importância da família colonial:
“A família, não o indivíduo, nem tampouco o Estado nem nenhuma companhia
de comércio, é desde o século XVI o grande fator colonizador no
Brasil, a unidade produtiva, o capital que desbrava o solo, instala as fazendas,
compra escravos. Bois, ferramentas, a força social que se desdobra
em política, constituindo-se na aristocracia mais poderosa da América. Sobre
ela o rei de Portugal quase reina sem governar”. (FREYRE, 2001: 92).
Este tipo de organização familiar exerceu profunda influência na
formação social e cultural da população brasileira. O poderio do homem,
resultou em atitudes como o machismo, a subserviência da mulher,
a educação diferenciada de meninos e meninas, o preconceito e
110
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
A instituição familiar é essencialmente dinâmica, e este dinamismo
tornou-se muito visível na segunda metade do século XX, não só no
Brasil mas em praticamente todo o mundo ocidental.
A família tradicional foi adquirindo contornos nunca antes imaginados.
As novas configurações da família levaram a sociedade, e inclusive
os cientistas sociais, a anunciarem a falência desta instituição social.
Mas não era o fim, e sim a prova da imensa capacidade criativa
do ser humano de adequar-se a novas necessidades e novos valores.
Os movimentos feministas que se iniciaram na década de 1950 na Europa,
e logo chegaram ao Brasil, a entrada da mulher no mercado de
trabalho, a mudança de valores na criação dos filhos, a quebra de tabus
como a virgindade, a criação da pílula anticoncepcional, que propicia
maior controle da mulher sobre seu corpo, os movimentos hippies
(1960), que pregam o amor livre, a instituição do divórcio (1977)
são alguns dos fatores que irão contribuir para as novas configurações
de família.
A pesquisadora brasileira Elza Berquó, emprega em seus estudos
uma nova terminologia: a de arranjos familiares, para denominar estas
situações que refletem concepções de vida e estratégias de sobrevivência.
Vejamos algumas destas permanências e mudanças. A família nuclear
ainda predomina na sociedade brasileira, apesar do número de
filhos ter diminuído consideravelmente. Se em 1940, a média era de
6,2 filhos por mulher, em 1991, caiu para 2,5. O número de divórcios
e separações aumentou, como também o das uniões conjugais não-ledesrespeito
contra empregados domésticos, mesmo quando estes não
são mais necessariamente escravos.
Trata-se de um modelo forte, que sem dúvida impregnou o pensamento
cultural brasileiro, mas que não impediu o desenvolvimento de
outras formas de organização familiar.
A reprodução de modelo autoritário e machista de família traz como uma de suas mais tristes conseqüências
a violência doméstica, que constitui-se no abuso físico de um membro da família contra outro
ou outros. As principais vítimas são as crianças e as mulheres.
Realize uma pesquisa em jornais e na Delegacia da Mulher (se possível), ou delegacia de seu município,
levantando casos de violência doméstica.
Discuta com a turma sobre as diversas causas que levam a estas situações de violência no sentido
de repensarmos as atuais relações e não reproduzi-las no futuro.
Convide um especialista no assunto para debater com a turma.
pesquisa
111
Sociologia
A Instituição Familiar
galizadas. Muitos jovens hoje desejam “experimentar” a vida de casados
antes de legalizar a união. Outros optam pela união livre, ou “viver
juntos”, sem a preocupação de “prestar contas” à sociedade ou à
Igreja. Apesar do número de pessoas casadas ser majoritária no cenário
matrimonial, por outro lado têm decrescido as taxas de uniões legais
(em 1979 atingia 7,83, e em 1994, passou a 4,96).
Outro tipo de arranjo que tem crescido nos últimos anos é o de famílias
monoparentais – quando um dos cônjuges vive com os filhos,
com a presença ou não de outros parentes na mesma casa. Neste tipo
de arranjo há um predomínio das mulheres chefes de família (em
1995 representavam 89,6%, em relação à 10,4% de homens na mesma
situação). Essas mulheres são hoje predominantemente separadas ou
divorciadas, o que não ocorria na década de 1970, quando eram principalmente
viúvas. São muitos os fatores que contribuem para esta prevalência
das mulheres chefes de famílias. Junto com o aumento do número
de separações e divórcios, temos, historicamente, o fato de que
as chances de recasamento das mulheres no Brasil são mais baixas que
as dos homens, seja pelo fato do número de mulheres ser superior ao
número de homens, seja pela tradição masculina de se casar com mulheres
mais jovens. Outro fator refere-se à mortalidade masculina que
é superior e mais precoce do que entre as mulheres, resultando, portanto,
em muito mais viúvas do que viúvos (hoje a expectativa de vida
entre os homens está em ascenção). Cabe também lembrar o aumento
do número de mães solteiras nos últimos anos.
Um aspecto que caracterizou durante muito tempo este arranjo familiar
e que hoje está se modificando, era seu atrelamento com a situação
econômica da mulher. A pobreza parece estar nas causas e nas
conseqüências desta situação de comando da família pela mulher.
É muito mais freqüente encontrarmos nas camadas populares mulheres
solteiras, viúvas ou separadas. A falta de dinheiro atinge de formas
diferentes homens e mulheres. O homem tende muito mais a atitudes
como sair de casa em busca de alternativas de trabalho – muitas
vezes parte para outras terras e nunca mais retorna; acabando por perder
o rumo de casa. Os conflitos constantes com a esposa devido às
dificuldades em manter a família, algumas vezes chegam à violência,
e também os levam a desistir, a abandonar o barco, ou o lar; isto sem
contar os acidentes, sejam de trabalho, de trânsito, ou brigas de rua,
que atingem muito mais os homens.
Essas são algumas justificativas para o alto número de mulheres chefes
de família entre as camadas populares. Mas essa situação está se modificando,
e pode-se observar que o crescimento desse tipo de arranjo
familiar tem atingido também mulheres das camadas médias. Essas cada
vez mais têm obtido independência financeira suficiente para não manterem
casamentos desequilibrados e instáveis. A antiga preocupação em
não desfazer a família para manter as aparências tem deixado de existir.
< Foto: João Urban
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Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
Todas essas mudanças apontadas acima têm resultado em importantes
modificações nos padrões de comportamento dos membros das
famílias. A mulher, uma vez que desempenha papel fundamental no
orçamento familiar, não aceita mais submeter-se aos desmandos do
marido. Os filhos, por sua vez, conquistam mais voz e espaço para opinar
e, principalmente, decidir os rumos da própria vida. A hierarquia
tão presente nas famílias tem aos poucos sido substituída por relações
mais democráticas. Se há meio século podíamos afirmar que a instituição
familiar se sobrepunha ao indivíduo, ignorando sua vida privada
e seus anseios, hoje o indivíduo tem mais condições de impor suas
vontades no núcleo familiar, seja qual for sua posição. E permanece
na família se esta lhe oferecer segurança, afeto e, principalmente, não
interferir em sua vida privada. Caso contrário este irá procurar outros
espaços e outras formas de relacionamento social.
Falamos até aqui de famílias de sociedades tribais e de sociedades
capitalistas. Mas se pesquisarmos a respeito de sistemas sociais distintos
do capitalismo, como o socialismo e o anarquismo, iremos conhecer
formas muito interessantes de conceber a instituição familiar.
Os adeptos do pensamento anarquista colocam-se contra todo e
qualquer tipo de poder autoritário, que tenha como objetivos regulamentar
e controlar a vida do indivíduo. Propõem portanto, a abolição
do Estado e do governo, não importando quais fossem as suas formas;
da Igreja, de qualquer credo religioso; do exército, das prisões, das escolas,
tal como são organizadas, e também da família.
Não eram contrários à existência da família, mas críticos da família
legal, submetida aos desmandos da lei, do Estado e da Igreja. Os anarquistas
criticavam principalmente o tratamento dado à mulher dentro
do casamento e da família. A mulher tratada como propriedade do homem,
como animal doméstico, submissa às vontades e caprichos dos
filhos.
Numa sociedade libertária, homens e mulheres teriam os mesmos
direitos e deveres, e jamais a vida conjugal e familiar poderia ser embasada
na autoridade de um dos cônjuges. Segundo Malatesta “(...)homens
e mulheres na condição de seres humanos igualmente livres poderão, no
futuro, celebrar uniões amorosas livremente, sem qualquer ingerência
Pesquisar em sua cidade ou bairro formas de constituição familiar diferentes, indagando sobre: número
de membros da família, idade de cada um, relação de parentesco entre eles, número de pessoas
que trabalham.
Após, montar com a turma um quadro geral contemplando todas as situações encontradas pela turma.
pesquisa
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Sociologia
A Instituição Familiar
< Foto: João Urban
legal ou clerical, e o casamento consumado com base exclusivamente no
amor recíproco deverá durar tanto quanto dure o amor”. (Malatesta apud Luizzetto,
1987: 84.) Portanto, o movimento anarquista não colocava-se contra a família
natural, mas sim da família legal, “(...)fundada sobre o direito civil
e sobre a propriedade, ao passo que o casamento religioso e civil seria
substituído pelo casamento livre”. (idem, p. 91).
A literatura paranaense e brasileira oferece algumas obras que descrevem e analisam a construção
e a convivência numa comunidade anarquista que existiu entre 1890 e 1894, em Palmeira, sudeste do
Paraná. Foi denominada de Colônia Cecília, e partiu da iniciativa de um engenheiro italiano – Giovani
Rossi. Alguns dos livros que tratam deste tema são: O anarquismo da Colônia Cecília, de Newton Stadler
de Souza (Civilização Brasileira), “Um amor anarquista”, de Miguel Sanches Neto (Ed. Record, 2005) e “A
Colônia Cecília – uma aventura anarquista na América” (Ed. Anchieta, 1942).
“Colônia Cecília, 2 de janeiro de 1893
...Se estes episódios conspiram contra nosso experimento, o amor livre foi enfim posto em prática, e logo vocês
receberão mais notícias desta grande experiência. Estamos enfim mudando os possessivos, também no
amor não existe mais o meu e sim o nosso, e com isso nos tornarmos efetivamente anarquistas – o anarquista
que defende sua mulher é tão reacionário, tão feroz e tão implacável quanto o pior dos capitalistas defendendo
seus milhões... ”Giovanni Rossi. (Trecho de uma das cartas de G.Rossi enviada a companheiros da Itália.
In SANCHES NETO, Um amor anarquista, 2005: 33).
Pesquise como foi a organização dessa colônia, principalmente no aspecto familiar, e procure entender
os motivos que levaram ao seu fim.
ATIVIDADE
114
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
Pois bem pessoal! Novamente falamos do amor como um sentimento
que permeia as relações familiares. Lembram-se da imagem do casal
da primeira página? “Que seja eterno enquanto dure...” o que lhe parece?
Romântico e inconseqüente? Ou verdadeiro e responsável? Além
dos jovens heterossexuais que buscam este tipo de casamento hoje,
também não podemos omitir o crescente número de relacionamentos
estáveis entre casais homossexuais. Estes casamentos estão quase
sempre calcados na confiança e no compromisso mútuo, uma vez que
poucos países reconhecem a legalidade destas uniões.
Os grupos organizados de homossexuais têm obtido importantes
conquistas referentes à adoções de filhos e à permissão da utilização
de técnicas de inseminação artificial. Essas conquistas são o anúncio
do aumento da tolerância por parte da sociedade e do Estado, assim
como da consolidação de valores como o respeito às diferenças.
Mais um indicativo de mudanças na organização da sociedade refere-
se à opção que muitas pessoas fazem hoje de viverem sozinhas.
Viver sozinho não tem mais o caráter negativo que tinha anos atrás. O
indivíduo que vivia sozinho era considerado anti-social, infeliz ou solitário.
Hoje, muitas pessoas optam por viver sozinhas para garantir a
privacidade, e poder escolher os momentos mais apropriados para estabelecer
contatos com amigos e familiares.
O modo de vida imposto pelas sociedades contemporâneas exige
que estejamos constantemente nos relacionando com um grande
número de pessoas (no trânsito, na escola, no trabalho, no comércio,
etc.), o que se torna extremamente desgastante e cansativo. Este pode
ser um dos motivos que levam algumas pessoas a refugiarem-se e buscarem
novas energias na solidão, recusando o cotidiano familiar, que
também impõe regras e exige atenção.
< Foto: João Urban
115
Sociologia
A Instituição Familiar
Não estamos falando aqui da famosa “solidão em meio à multidão”,
da sensação de sentir-se sozinho mesmo estando cercado de pessoas,
uma vez que estas pessoas não estão nem um pouco preocupadas se
você vive ou deixa de existir. Também não estamos falando dos relacionamentos
impessoais via Internet, que nos dão a falsa sensação de
que não estamos sozinhos. Estas são situações que podem, inclusive,
levar a doenças, como a depressão, e às quais estamos sujeitos se não
estivermos atentos e não soubermos reagir contra valores da sociedade
contemporânea que nos são constantemente impostos como o individualismo
e a competição, por exemplo.
Enfim, para concluirmos este assunto, sobre o qual ainda há muito
o que se discutir, cabe-nos novamente repetir que no âmbito deste tema
– a família – não há verdades absolutas e muito menos modelos a
serem seguidos obrigatoriamente.
Podemos ter vindo de famílias mais rígidas, mais repressoras e controladoras
de nossos pensamentos e ações. Assim, como podemos ter
vindo de famílias mais abertas, equilibradas ou mesmo permissivas. É
claro que estas condições nos deixam marcas, às vezes difíceis de serem
superadas, mas o que importa é que a cada dia conquistamos mais
liberdade para escolhermos a forma de convivência familiar que melhor
se aproxima de nossas necessidades e desejos.
Não somos mais obrigados a casar para responder às expectativas
sociais, a ter filhos para provar que podemos ser pais ou mães, ou conviver
com pessoas que não mais nos agradam. Podemos mudar nossas
opções iniciais, e repensar nossa vida familiar de acordo com o nível
de maturidade que estivermos vivendo.
Desde que não nos maltratemos, e, mais do que isso, não façamos sofrer
em demasia aqueles que um dia amamos (ou assim pensamos), estejam
certos que “qualquer maneira de amor vale a pena” (C.Velozo).
< Foto: João João Urban
116
Ensino Médio
O Processo de Socialização e as Instituições Sociais
Sugestões de filmes
“A família”, 1986, Itália/França, direção: Etore Scola
“Parente é serpente”, 1992, Itália, direção: Mário Monicelli
“A excêntrica família de Antônia”,1995, Holanda, direção Marleen Gorris
“Eu, tu, eles,” 2000, Brasil, direção: Andrucha Waddington
“Ana e os lobos”, 1972, Espanha, direção: Carlos Saura
Músicas citadas
Valsinha – C. B. de Holanda, 1971.
O meu guri – C. B. de Holanda/ Francis Hime, 1984.
Cotidiano – C. B. de Holanda, 1971.
Casamento dos pequenos burgueses – C. B. de Holanda,
Angélica – C.B. de Holanda/Miltinho, 1978.
Referências:
AZEVEDO, F. de. A cultura brasileira. Parte III – A transmissão da cultura.
RJ. E. UNB/Ed. UFRJ. 1996, 6ª ed.
BERNARDI, B. Introdução aos estudos etno-antropológicos. Trad. A C.
Mota da Silva. Milão, Franco Angeli Editore. 1974.
BERQUÓ, E. Arranjos familiares no Brasil: uma visão demográfica. In:
SCHWARCZ, L. (org.), História da vida privada no Brasil v.4; SP: Companhia
das Letras, 1998.
ENGELS, F. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
FREYRE, G. Casa-grande & senzala – introdução à história da sociedade
patriarcal no Brasil –1. Rio de Janeiro: Record, 2001.
GIDDENS, A. Sociologia. 4ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2005.
KOLLER, S. H. Resiliência e vulnerabilidade em crianças que trabalham
e vivem na rua. In: Educar em revista, Curitiba, PR: Ed. da UFPR,
n.15, 1999.
LUIZZETTO, F. Utopias anarquistas. São Paulo: Brasiliense, 1987.
z
z
z
117
Sociologia
A Instituição Familiar
MALINOWSKI, B. A vida sexual dos selvagens; trad. de Carlos Sussekind;
Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982.
MORGAN, L. A sociedade primitiva I; Portugal/Brasil: Ed. Presença/Livraria
Martins Fontes, 1980.
PROST, A.; VICENT,G. (org.). História da vida privada 5: da Primeira
Guerra a nossos dias. São Paulo: Companhia da Letras, 1992.
STRAUSS. C. L. O olhar distanciado; São Paulo, Martins Fontes,
1983.
ANOTAÇÕES
118
Ensino Médio
Introdução
De onde vêm as Culturas e por que é
importante estudá-las?
A Sociologia é uma das áreas de conhecimento das Ciências Sociais
que estuda, de maneira científica, fugindo do senso comum e dos
“achismos”, a sociedade. Assim também é a Ciência Antropológica.
Mas você leitor pode se perguntar: Se já existe a Sociologia, que estuda
a sociedade e nos ensina a também sermos “cientistas”, pessoas
que saibam refletir sobre as questões sociais e ter ação frente à sociedade,
para que outra ciência?
Ora, a vida do homem em sociedade é tão complexa que, durante
a história, muitos se dedicaram a entender, explicar e a dar soluções a
muitas questões da sociedade, incluindo as questões culturais. Tais explicações
deveriam ser “certas”, tudo passa a ser explicado pelas Ciências.
Isso ocorreu no cenário mundial, principalmente, no final do século
XVII e início do século XIX.
Mas a cultura pode ser estudada cientificamente?
Pois é, pode sim! Foram muitos os estudiosos que tiveram a preocupação
de se dedicar à elaboração de uma área específica das Ciências
Sociais para desvendar os mistérios e encantos das diferentes culturas
existentes entre os povos. Foi então que a Antropologia entrou
em cena. O nome parece estranho, não é? Tradicionalmente, foi a Antropologia
que primeiro estabeleceu métodos científicos para estudar
os fenômenos culturais.
Você sabe por que as Ciências em geral necessitam de instrumentais
teóricos e metodológicos para poder desenvolver suas pesquisas,
estudos e resoluções de problemas? O agrônomo, por exemplo, antes
z
Introdução
119
Sociologia
de indicar certo tipo de agrotóxico ao agricultor, deve ter a precaução
de “verificar” qual a doença que a planta tem. E, como ele estudou, sabe
os métodos científicos para analisar a planta, pois tem as condições
preestabelecidas para não errar na investigação e no diagnóstico.
Assim também é com relação à análise dos fenômenos sócio-culturais.
Veremos nas páginas seguintes, alguns dos fundamentos teóricos
(as idéias científicas) e dos métodos de estudos que foram criados para
dar conta de analisarmos e compreendermos a dimensão da vida cultural
das diferentes sociedades.
No primeiro “Folhas” abordaremos como se projetam as relações
sociais cotidianas a partir da diversidade cultural brasileira. À luz das
teorias antropológicas, analisaremos uma questão fundamental que
atinge a vida de todo brasileiro, a nossa identidade nacional.
Entender como ao longo da história fomos construindo nossa identidade
nacional em todo o processo de colonização pelo qual passamos
nos permitirá analisar questões como, diferenças étnicas: preconceito
racial e étnico, “cotas” para negros em universidades e em
concursos públicos, etc.
No segundo “Folhas” refletiremos sobre a dinâmica pela qual a CULTURA
vem passando, desde o advento da Revolução Industrial e todo
o processo de industrialização que vem ocorrendo a partir do século
XX. Se antes o alvo primordial da Antropologia era o estudo de povos
desconhecidos e toda a questão das diferenças, agora, nas sociedades
ainda mais “complexas” e desiguais, ela se preocupará também em explicar
os novos rumos da dinâmica cultural.
O alvo passa a ser o uso da cultura.
Uso da CULTURA? Sim, é o mercado de bens culturais de consumo. A
cultura como mercadoria. Como mecanismo social de controle. Veremos
que isso ocorre quando uma classe social se apropria de um as-
S
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C
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O
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G
I
A
120
Ensino Médio
Introdução
pecto da cultura e o transforma em produto padronizado para atingir
toda a massa. Você consegue imaginar uma manifestação cultural folclórica
transformada em mercadoria? Ou ainda, uma música ser “usada”
como uma maneira de repúdio ou “imposição” de atitudes e interesses
de classes?
Todos estes temas e outros que não serão abordados diretamente
são questões com as quais convivemos todos os dias. Algumas
vezes até passam despercebidas no nosso cotidiano. Outras vezes, são
motivos de alegria, festas, entretenimento, etc. Mas, como nem tudo
são rosas, a cultura também pode levar o homem e sua sociedade a
uma série de conflitos sociais, principalmente, em meio à diversidade
cultural.
Convido você leitor, a mergulhar nas páginas seguintes e a conhecer
mais do funcionamento da dinâmica sócio-cultural e a autenticidade
das diferentes culturas, pois, conhecer e compreender os valores
culturais que nos cercam nos levará, também, a sermos pessoas conscientes
e com a capacidade de refletir sobre os diferentes problemas
que são originados pelas visões de mundo que os grupos e as classes
sociais reproduzem cultural e cotidianamente ao longo da história.
Introdução
121
Sociologia
S
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C
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A
7
DIVERSIDADE
CULTURAL BRASILEIRA
brasileiro?
1Colégio Estadual Senador Teotônio Vilela –
Ensino Fundamental, Médio e Profissionalizante – Assis
Chateaubriand – PR
124
Ensino Médio
Cultura e Indústria Cultural
Costumamos dizer e ouvir que somos o povo brasileiro! Que vivemos
no país do futebol e do carnaval. Pelo menos é assim que nos vêem
os outros povos, na maioria das vezes. Contudo, quando somos indagados
e questionados sobre nossa identidade nacional, ou seja, que
povo realmente somos e, qual o sentido da nossa formação enquanto
nação, ficamos na maior “crise de identidade”.
Ora, como definir quem realmente somos em meio à diversidade
cultural?
A questão é: como viemos, enquanto povo e nação ao longo da
história, construindo nossa identidade nacional? Mas, será que temos
mesmo uma única e autêntica identidade nacional?
Quando falamos em identidade, logo pensamos em quem somos.
Vêm à nossa mente os nossos “dados pessoais”, ou seja, a cidade onde
nascemos, a data de nascimento, nossa filiação, que são os nomes
de nossos pais, uma foto registrando nossa fisionomia, nossa impressão
digital, uma assinatura feita por nós mesmos.
E que ainda contém um número de registro geral, que permite sermos
identificados, não como pessoas, com suas devidas características,
mas como um número em meio a tantos outros. E o mais interessante,
está ali registrado para todo mundo ver, a nossa nacionalidade, a que
nação e povo pertencemos.
Caro leitor, o que o seu documento de identidade significa para você?
Já havia parado para pensar nisso? O nosso documento de identidade
nos dá algumas informações sobre quem somos.
Alguns de nós temos condições de reconstruir a árvore genealógica
e saber toda a nossa história a partir da constituição familiar ao
longo das gerações que foram formadas.
125
Sociologia
Diversidade Cultural Brasileira
Você tem condições de reconstruir a árvore genealógica de sua família?
Proposta de trabalho: Monte a árvore genealógica de sua família descrevendo as características socioeconômicas
e culturais de cada geração. Depois, compare as características de cada geração relacionando
com a conjuntura social (a situação) de cada época. Com a construção genealógica feita
apresente em sala de aula, comparando as realidades sociais de cada grupo familiar.
ATIVIDADE
O objetivo de construir a nossa árvore genealógica é o de verificar
as características socioeconômicas e culturais de nossas famílias em cada
período da história. A partir daí, descobrir, além de características físicas,
entender como a nossa cultura foi construída ao longo da história,
com o passar de gerações.
Que legal! Além de podermos descobrir as características físicas
e de personalidade que herdamos de nossos antepassados, podemos
reconstruir a trajetória histórica cultural de nossas famílias. E a partir
dos dados históricos, entendermos a herança social e todo nosso legado
cultural.
Um exemplo desse processo social de transmissão de cultura é a
educação ou criação familiar. A cada geração vai se transmitindo, ou
melhor, ensinando aos filhos e jovens certos conhecimentos e valores
morais adquiridos pela geração mais velha.
Quando falamos em nação ou sociedade, não é diferente. Podemos
descobrir como a nossa nação e nós, enquanto povo, fomos constituídos.
Saber, por exemplo, quais as características culturais que podemos
encontrar na formação e depois no desenvolvimento da nossa sociedade
brasileira. E mais, podemos conferir se a sociedade brasileira ainda
está refletindo tradicionalmente as mesmas características culturais
de quando foi formada!
Entender como tudo começou, nos levará a compreender a grande
diversidade cultural que caracteriza nosso país! Já que a cultura é um
dos instrumentos de análise e compreensão do comportamento humano
social, podemos nos questionar: “E eu, o que eu tenho com tudo isso?
Será que a diversidade cultural do meu país me atinge diretamente
ou somente de forma indireta?”
A cultura faz parte da totalidade de uma determinada sociedade, nação
ou povo. Essa totalidade é tudo o que configura o viver coletivo.
São os costumes, os hábitos, a maneira de pensar, agir e sentir, as tradições,
as técnicas utilizadas que levam ao desenvolvimento e a interação
do homem com a natureza. Ou seja, é tudo mesmo! Tudo que diz
respeito a uma sociedade.
Herança social e legado
cultural: são processos
de transmissão cultural,
que ocorrem ao longo
da história, nos quais as gerações
mais velhas transmitem
às gerações mais jovens
a cultura do grupo.
126
Ensino Médio
Cultura e Indústria Cultural
Muitos sociólogos e historiadores brasileiros, a partir do século XIX,
buscaram explicar a formação do povo brasileiro, caracterizado pela diversidade
cultural, enquanto uma nação. E o olhar de alguns desses autores
foi exclusivamente dedicado ao aspecto cultural. O legado cultural
que herdamos dos povos que se misturam deu origem aos brasileiros.
Bom, todos nós sabemos, nem que seja um pouquinho, da história
da colonização do nosso país.
Se alguém chegar a você e disser:
- O Brasil foi colonizado pelos egípcios!
Logo você irá franzir a testa e, dando uma boa aula de história do
Brasil, irá dizer:
- Não, não! Fomos colonizados primeiramente pelos europeus, especificamente
pelos portugueses e espanhóis. Temos também uma
marcante presença dos africanos, que foram trazidos para cá como escravos
e os indígenas que aqui já viviam... depois, por volta de 1870
em diante, é que imigraram muitos outros povos, como os italianos,
alemães e holandeses, em busca de trabalho e de uma vida melhor e
promissora no Brasil!
Pois bem, é isso mesmo! Somos um povo que surgiu de uma grande
confluência! Miscigenados! Ou seja, o povo brasileiro foi formado,
a princípio, a partir de uma miscigenação, que foi a mistura de basicamente
três “raças”, quais sejam: o índio, o branco e o negro. Vamos
entender o que é raça, etnia e cultura.
O conceito de etnia distingue-se do conceito de raça e cultura. Etnia
é um conceito associado a uma referência e/ou origem comum de um
povo. Ou seja, são grupos que compartilham os mesmos laços lingüísticos,
intelectuais, morais e culturais.
Embora possuam uma mesma situação de dependência de instituições
e organização social, econômica e política, não constitui ainda em
uma nação, mas apenas um agrupamento étnico. Etnia é, portanto, um
conceito diferente de raça e cultura.
São exemplos de grupos étnicos, entre outros, os índios xavantes
e javaés do interior de Goiás, que são reconhecidos pelo etnômino de
tapuios. Hoje habitam no Parque Nacional do Xingu, em número extremamente
reduzido.
Já a cultura é tudo que as diferentes raças e as diferentes etnias possuem
em matéria de vida social, o conjunto de leis que regem o país, a
moral, a educação-aprendizagem, as crenças, as expressões artísticas e literárias,
costumes e hábitos, ou seja, é a totalidade que abrange o comportamento
individual e coletivo de cada grupo, sociedade, nação ou povo.
O termo raça significa dizer que há grupos de pessoas que possuem
características fisiológicas e biológicas comuns. No entanto, o uso do
termo raça acaba classificando um grupo étnico ou sociedade, levando
também à hierarquização.
Etnia: grupo de indivíduos
originados de uma ascendência
comum e que compartilham
uma mesma cultura.
Raça: Os primeiros estudos
Antropológicos sobre o
homem buscaram explicar
a diferença entre a humanidade
pelas suas características
fisiológicas e biológicas,
herança das Ciências
Naturais (Biologia), que até
o século XVIII e XIX classificava
a humanidade por
meio da seleção natural e
organização genética.
127
Sociologia
Diversidade Cultural Brasileira
Como se todos nós, seres humanos, fôssemos postos em uma grande
escadaria, e em ordem de classificação e hierarquização pelo grau
de importância das características físicas de cada grupo étnico; os mais
importantes ficariam no topo e assim iria descendo até chegar nos menos
importantes. Contudo, qual raça ou grupo étnico pode dizer que é
melhor ou mais desenvolvido que outro?
Muitas críticas a esse pensamento foram levantadas, principalmente
no final do século XIX, pois tais concepções ajudaram a reforçar a
discriminação e o preconceito e, conseqüentemente a legitimação das
desigualdades sociais. Apesar de todas as críticas, ainda é possível observar
que nos séculos XIX e XX houve um retorno de práticas racistas
como, por exemplo, a eugenia e estudos do genoma, que foram muito
defendidas por estudiosos adeptos às teorias evolucionistas sobre o
progresso físico e comportamental do homem.
< Foto: João Urban
Tais teorias concebiam que determinadas raças e etnias deveriam
ser conservadas, por serem modelos de pureza, de superioridade, etc.
Contudo, outras que não se enquadrassem nos modelos estabelecidos,
ou que fossem, pela situação social que viviam, vítimas de doenças ou
epidemias tornavam-se um perigo para o progresso da humanidade e
não deveriam existir. Podemos tomar como um exemplo claro deste
pensamento, o apartheid ocorrido na África do Sul nos anos de 1948
a 1991, quando toda a população negra foi obrigada a seguir normas
e regras rígidas com relação ao convívio social, trabalho, etc., além de
toda a forma de violência e discriminação sofrida.
128
Ensino Médio
Cultura e Indústria Cultural
Etnicidade: é a mobilização
política e social de determinados
grupos étnicos
em prol de seus direitos e
valores do grupo, na defesa
de sua identidade sociocultural.
Ou ainda, quem não se lembra do genocídio dos judeus ou mais
conhecido como o Holocausto dos Judeus, durante a II Guerra Mundial?
O pensamento ideológico que estava por trás daquele terrível ato
que exterminou cerca de 6 milhões de judeus, que não eram reconhecidos
como seres humanos, era a idéia de superioridade da “raça ariana”
alemã. A perseguição e o extermínio dos nazistas alemães contra
os judeus ficou conhecido na história por anti-semitismo, uma forma
de repudiar tudo o que era contrário à ideologia nazista.
Quando olhamos os três grupos étnicos que se miscigenaram no
Brasil Colônia, séculos XVI e XVII, com suas características biológicas
específicas e também sócio-culturais, suas tradições, vemos como fizeram
toda a diferença no processo de colonização e formação do povo
brasileiro, diferentemente de outras colonizações empreendidas pelo
mundo.
Nosso país é uma “aquarela” de grupos étnicos! Constituída por
meio da colonização (século XVI) e depois, pelas imigrações por volta
dos séculos XVIII e XIX. Temos então uma pluralidade de identidades,
caracterizada pelas diferenças. Por conta dessa variedade de identidades,
povos e tradições, os diferentes grupos étnicos fizeram com que
ocorressem em nosso país, um processo chamado de etnicidade.
Etnicidade... O que é isso? Na nossa vida social cotidiana, muitas vezes,
deparamos-nos com notícias de grupos étnicos lutando e reivindicando
algo na sociedade, tanto no âmbito econômico ou político, como
ocorre com os índios e os negros. As várias etnias indígenas se unem
em prol da luta pelos direitos de suas terras. Não se trata de direitos à
igualdade de distribuição de renda ou de Reforma Agrária, mas, sim da
posse legítima que os índios têm das suas reservas de terras.
Outro exemplo de etnicidade e mobilização é a luta pela igualdade
de oportunidades no trabalho e na educação, distribuição de renda,
contra a discriminação étnica-racial (racismo), etc., que os negros
travam no Brasil.
As cotas, termo que também faz parte das chamadas Políticas Afirmativas,
são medidas positivas, que buscam reparar ou minimizar o racismo
e a exclusão social que afetam os negros e descendentes retirando
as oportunidades de ingresso nas universidades e nos concursos
públicos.
POLÍTICAS AFIRMATIVAS OU AÇÕES AFIRMATIVAS: “São estratégias
destinadas a estabelecer a igualdade de oportunidades, por meio de medidas
que compensem ou corrijam as discriminações resultantes de práticas
ou sistemas sociais. Têm caráter temporário, são justificadas pela existência
da discriminação secular contra grupos de pessoas e resultam da vontade
política de superá-la”. (SUPLICY, 1996: 131).
O que pregavam os nazistas:
queriam a qualquer custo
tornar a Alemanha uma
nação Nacionalista-socialista,
sob o governo ditador de
Adolf Hitler, mas composta
por uma única raça, a “raça
ariana”, considerada superior
às demais.
129
Sociologia
Diversidade Cultural Brasileira
Você já ouviu essa pergunta:
Quando questionado sobre isso, o
que você responde?
Já parou para pensar que a sua identidade
é de BRASILEIRO, independente de
que etnia seus avós ou pais fazem parte?
Vamos entender isso?
É muito comum vermos um americano
encher o peito e dizer: “sou um norte-americano!”
Vemos em suas palavras e postura o orgulho
de sua nacionalidade! Contudo, não é raro, vermos
entre nós brasileiros e muitas vezes nós mesmos,
dizermos de cabeça baixa que somos brasileiros...
Mas, logo dizemos: “Ah, mas sou descendente
de... poloneses... alemães... portugueses...
espanhóis... italianos... holandeses... japoneses...” e, alguns mais
“corajosos” dizem: “sou descendente de africanos... indígenas...”, não
De que descendência
você é?
< Foto: João Urban
O Brasil é conhecido como o país de
maior número de negros e afrodescendentes
depois do Continente Africano, no entanto,
o racismo que muitas vezes aparece “camuflado”,
estabelece uma grande distância entre
estes e as suas efetivas e plenas participações
na vida social.
Vamos investigar como a população de sua
comunidade ou bairro “encara” o processo da
etnicidade. Realize uma entrevista com cinco
pessoas perguntando o que pensam sobre as
reivindicações de alguns grupos étnicos brasileiros.
Compare os resultados da pesquisa com
o texto acima e discuta com os colegas em sala
de aula.
pesquisa
130
Ensino Médio
Cultura e Indústria Cultural
que a proposta aqui seja a da “negação” das descendências e origens.
Mas, que possamos refletir e ter um bom entendimento da nossa pluralidade,
uma das maiores riquezas de nosso país.
< Foto: João Urban
Veja bem! Todos os grupos étnicos que imigraram para o Brasil a
partir dos séculos XVIII e XIX foram muito importantes no desenvolvimento
da nação e ajudaram a dar um colorido especial ao país. O
problema é quando “desprezamos” as nossas raízes, as nossas origens,
as pessoas que primeiro formaram aquilo que viríamos a ser no futuro:
“os brasileiros”.
O que realmente acontece conosco? Parece que a “crise de identidade”
paira entre os brasileiros. Não nos reconhecemos como uma nação
e não nos valorizamos como outros povos, o nosso país, a nossa
gente, as nossas tradições e a nossa multiforme e colorida diversidade
cultural como um todo. Costumamos tão somente exaltar alguns aspectos
ou traços da nossa cultura. Essas questões nos levam a pensar
qual o verdadeiro problema ou impasse que nos impede de dizer com
orgulho que somos brasileiros.
O que a História nos relata sobre isso?... Quais as “raízes” culturais do
nosso Brasil que nos faz ser como somos hoje?
Durante o processo de colonização pelo qual passou parte do mundo,
a partir do século XV, foi deixada uma forte marca de etnocentrismo.
Ora, o etnocentrismo é a atitude de superioridade e desprezo que
um grupo social, uma sociedade ou um povo tem em relação a outros
grupos. Com a descoberta do Novo Mundo e suas gentes, tornou-se
necessário conhecer o outro, o diferente. As interações sociais provenientes
do contato com este Novo Mundo, foram marcadas por conflitos,
caracterizados nas formas de genocídios e etnocídios.
131
Sociologia
Diversidade Cultural Brasileira
No “Folhas” anterior tratamos da discussão do genocídio. Lembrase?
Pois então, as interações sociais do Novo Mundo foram marcadas
por conflitos, caracterizados nas formas de genocídios e etnocídios.
Interação social... o que é isso? Interação é uma palavra muito usada
hoje em dia. É comum para nossa geração ouvir, falar e viver em interação.
Por via de regra, a internet é um grande exemplo de interação.
Conectado à rede mundial de computadores e comunicação eu, você
e tantos outros passamos a repartir, trocar ou associar não somente informações,
mas também várias e diferentes ações. Com a reciprocidade
de ações sociais passamos, então, a interagir com outros indivíduos
ou grupos sociais.
Hoje, em pleno século XXI, torna-se necessário entendermos o processo
histórico de formação do povo brasileiro,sem negar a origem histórica da
maioria da nossa população!
Muitos antropólogos, sociólogos e historiadores brasileiros pesquisaram
e discutiram o processo de formação do povo brasileiro. Gilberto
Freyre (1900-1987), por exemplo, defendeu a idéia de que a interação
social entre negro, branco e índio foi harmoniosa. Em seu famoso
livro intitulado Casa-Grande & Senzala (1933), Freyre relata que foi por
meio da miscigenação que houve um equilíbrio entre, principalmente,
o negro e o branco. As relações sociais baseavam-se no trabalho escravo,
no poder e mando do senhor de engenho e na família patriarcal,
características da colonização portuguesa no Brasil, na qual o convívio
era caracterizado pela harmonia e o equilíbrio entre o senhor patriarca
e os escravos.
< Mapa da Casa-Grande. In: FREYRE, G. Casa-Grande e Senzala. Rio de Janeiro: Record, 2000.
132
Ensino Médio
Cultura e Indústria Cultural
OPA!!
É interessante tomarmos nota: No “Folhas” sobre
as Teorias Sociológicas você encontrará as
definições sobre o que vem a ser sociedade para
cada um dos principais autores clássicos da
Sociologia.
E você, já se viu numa situação de interação
social conflituosa?
Em algum grupo que você participa já surgiram
conflitos de idéias, de interesses, de tradições...
de culturas?
É interessante saber que o contato interétnico é um fenômeno que
não ocorreu somente no período das colonizações, ainda ocorre, a
ocupação por parte de alguns grupos, como por exemplo, os madeireiros,
garimpeiros, e etc., em territórios indígenas, assim como pela
utilização do trabalho manual dos índios.
A situação de conflito, como já sabemos, decorre do sentimento e
da atitude etnocêntrica, que foi uma característica do pensamento evolucionista,
apoiando o empreendimento colonialista pelo mundo.
Você sabe como esses povos eram chamados?
Ah... eram selvagens, considerados sem a menor condição de raciocínio,
servindo somente ao trabalho braçal. Não precisavam pensar,
calcular ou programar. Serviam de braços e pernas para seus senhores.
No entanto, houve resistência dos índios, como é o caso dos Guaranis
que habitavam parte do que é hoje o Paraguai e o estado do Paraná e,
os Carijós que habitavam o litoral paranaense.
Tanto os colonizadores espanhóis quanto os portugueses empreenderam
grandes preamentos de índios com o objetivo de os forçarem ao
trabalho nos engenhos de açúcar, como no desmatamento para a expansão
e ocupação das terras, entre outras atividades no Brasil Colônia.
O contato e a interação social entre o índio e o branco foi, e ainda
hoje é, de altos e baixos. De amizade e de inimizade, de concordância
e de não-concordância, de uma cultura ser mais valorizada que a outra
e se sobrepor a esta.
Uma das conseqüências do contato foi um forte processo de mudança
cultural, sofrida pelos povos nativos no Brasil e no mundo. Todos
nós já sabemos a história de como os índios foram “desprezados”
e muitos deles exterminados pelos colonizadores. Mas, quando o tráfico
negreiro passou a ser mais rentável, os índios foram trocados por
braços e pés mais ágeis e fortes, que foram os escravos africanos. Contudo,
não podemos esquecer que cada povo ou grupo tem a sua própria
maneira de organização social, que é vinculada à sua cultura, à
sua forma de ver o mundo e a si mesmo.
Muitos grupos indígenas foram cruelmente extintos. Dados do acervo
da “ANAÍ–Associação Nacional de Apoio ao Índio” (1983), e pe-
Preamentos: aprisionamentos
em massa dos índios,
que eram deslocados
de uma região do país para
outra como escravos.
Mudança cultural: é a
junção de duas ou mais culturas
que em contato se alteram,
em que alguns traços
culturais de ambas são
mudados e agregados outros
traços culturais. Ocorre
aí uma mudança cultural,
a incorporação de outros
costumes que são aceitos
e convencionados socialmente.
133
Sociologia
Diversidade Cultural Brasileira
los dados levantados pela Secretaria de Estado da Cultura relatam que
os Xetá, grupo indígena que habitava o noroeste paranaense, conhecida
como a floresta tropical da Serra de Dourados, nas proximidades
do município de Cruzeiro do Oeste, ao noroeste do estado do Paraná,
conseguiram viver de forma mais isolada em suas terras até o início
do século XX.
Gradualmente, mas num curto espaço de tempo, o índice de extinção
deste grupo foi notório. Tendo sido retirados de suas terras e com
isso negado o seu direito de posse, sofreram perseguição e morte, doenças
e fome. Hoje, 2005, o número de Xetá foi reduzido a seis pessoas.
Motivo? Ora, nada mais, nada menos que a colonização cafeeira
calculada e empreendida por colonos em busca de riquezas e prosperidade
nas maravilhosas terras férteis do Brasil da década de 1950.
Fonte: CD-Rom “Quem são os Xetá?” da Secretaria de Estado da Cultura, resultado da pesquisa antropológica e histórica
de Vladimir Kozák, 2000.
<
Aproximadamente dos dez milhões de índios que havia aqui antes
da colonização, restam apenas 345 mil índios, espalhados em 215 sociedades
indígenas (dados levantados pela FUNAI – Fundação Nacional
do Índio, acesso em 08 de set. e 20 de out. de 2005).
OPA!!
Tomemos nota: Você pode pesquisar sobre as
ações da Funai (Fundação Nacional do Índio)
no site: www.funai.gov.br e, a partir deste endereço
eletrônico obter mais informações sobre a
realidade indígena no Brasil.
Como ilustração para melhor compreensão
do contato interétnico entre brancos e índios,
assista ao filme: “A Missão” (Direção: Roland Joffé
Inglaterra, 1986, 121 min.).
134
Ensino Médio
Cultura e Indústria Cultural
Você tem idéia do número de índios que habita o seu Estado? Realize uma pesquisa nas instituições
responsáveis pela questão indígena, via internet ou filmes e documentários e verifique como está atualmente
a situação dos índios em seu Estado. Com os dados anotados produza um texto refletindo sobre
as várias formas de etnocídios sofridos pelos nativos que aqui habitavam e sua realidade atual.
ATIVIDADE
E os negros...?
Bom, os negros foram uma solução para o “problema” da não “domesticação”
do índio ao trabalho exploratório e com isso à escassez de
mão-de-obra escrava. Sabemos que os negros que vieram para o Brasil
eram de diferentes tribos africanas, cada uma com sua própria cultura.
Como os índios, os negros africanos também sofreram adaptações
e mudanças culturais, ou melhor, foram incorporados às regras dos colonializadores
europeus.
A discussão sobre a escravidão dos negros no Brasil, desde os séculos
XVIII, XIX e início do XX, foram convergentes em muitos estudos
brasileiros. Como vimos antes, a exemplo de Gilberto Freyre, que considerava
harmoniosa a convivência entre negros e brancos, outros autores
diziam totalmente o contrário. Florestan Fernandes, por exemplo,
em seu livro A integração do negro na sociedade de classes (1978), analisa
o processo de exclusão social que os negros sofreram.
Mesmo depois da abolição da escravatura em 1888, houve um forte
movimento que colocava como negativa a presença e influência dos
negros no povo brasileiro. Acusavam a mistura racial como um fator de
desequilíbrio na formação social e cultural, impedindo a unidade nacional
e o desenvolvimento da nação.
A mestiçagem era fortemente condenada por alguns segmentos da
sociedade brasileira da época, que desejavam e diziam ser necessário o
embranquecimento da população. A vinda de muitos imigrantes europeus
pode ser considerada como um dos elementos ideológicos de embranquecimento
da população, atraídos pela propaganda de prosperidade,
riquezas e uma vida nova no país promissor chamado Brasil.
Bom, mas continuando com a análise sociológica de Florestan Fernandes,
ele afirma que o negro sempre foi ativo na sociedade brasileira,
participou de todas as transformações sociais pelas quais o país
passou desde a sua Independência. Quando houve a transição do trabalho
escravo para o trabalho livre, os negros passaram a concorrer
com os outros trabalhadores nas cidades.
Assim, acabaram nas ruas ou concordavam com as precárias ofertas
de trabalho. Sabe por que isso ocorreu? A cidade não absorveu todos
< Foto: João Urban
135
Sociologia
Diversidade Cultural Brasileira
os negros, que agora perambulavam pelas ruas, muitos mendigando, à
mercê da própria sorte ou, partiam para o interior para realizar trabalhos
manuais, pois na cidade havia os trabalhadores estrangeiros que
já eram acostumados aos moldes capitalistas de trabalho.
Veja! A sociedade brasileira, após a abolição, “(...) largou os negros
ao seu próprio destino, deitando sobre seus ombros a responsabilidade
de se reeducar e de se transformar para corresponder aos novos
padrões e idéias de homem criado pelo advento do trabalho livre, do
regime republicano e capitalista” (FERNANDES, 1978: 20). Então, aprofunda-se
aí, a marginalização do negro na sociedade brasileira capitalista e excludente.
Acostumados ao trabalho escravo, manual e arcaico, não tinham
uma organização de vida baseada nos moldes da organização
do trabalho que surgia.
Mas, você pode dizer: Como os negros eram ativos então? Ativos porque
já faziam parte da sociedade brasileira, tinham um papel social,
embora de maneira desigual.
O antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro (1922–1997), em O povo brasileiro,
a formação e o sentido do Brasil, defende a importância dos primeiros
negros no contexto da formação do povo brasileiro. Seriam
“(...) agentes de europeização que difundiriam a língua do colonizador
e que ensinaria aos escravos recém-chegados às técnicas de trabalho,
as normas e valores da subcultura que se via incorporado” (RIBEIRO, 1995:
116). Serviram muito bem enquanto mão-de-obra escrava, que necessariamente
levantou na força de seus braços o que hoje temos e somos,
mas não foram contados como pioneiros ou como se dizem hoje, cidadãos
honorários, importantes.
Por muitas vezes a literatura brasileira traz a figura do negro seguindo
um estereótipo elaborado pelo branco e esta condição o aprisionou
nas teias do preconceito até os dias de hoje. As histórias infantis,
os contos, fizeram ao longo da história uma narrativa do negro, associando-
o a tudo que é ruim, feio e perigoso. O negro e sua condição
de escravo virou um mito. Algo que não representava a realidade, mas
uma fantasia, como se o negro não tivesse feito parte da história real
do processo de miscigenação e da formação do povo brasileiro.
Monteiro Lobato (1882-1948), romancista e contista autor de livros
infantis, construiu em suas obras um tipo ideal de povo brasileiro.
Descreveu bem o distanciamento e a mitificação que muitas
vezes a nossa sociedade tem do negro em relação à sua realidade e
ao mesmo tempo denunciava em seus contos a crueldade e a violência
da escravidão. Lobato cria então tipos raciais do brasileiro, mostrando
aspectos negativos e positivos do povo negro e caboclo, por
meio de personagens como o Jeca, que era um “CABOCLO, espécie
de homem baldio, seminômade, inadaptável à civilização, mas que
vive à beira dela na penumbra das zonas fronteiriças” (LOBATO,1956 apud
MORAES, 1997: 103).
Monteiro Lobato
ww.artelivre.net/Imagens/
al_monteiro_lobato.jpg
<
136
Ensino Médio
Cultura e Indústria Cultural
É no Sítio do Pica-Pau Amarelo, lugar inventado por Lobato e presente
em diversas obras suas, que ganham destaque por sua singeleza,
honestidade, bom humor, por exemplo, Tia Anastácia e Tio Barnabé,
considerados por ele como representantes do povo brasileiro. Apesar
disso, a figura do mulato e do negro continuou, na geração de Lobato
e na realidade social da época, considerada de menor valor que a figura
do branco.
Para além de 1900, a situação do negro na sociedade de classes só
andava de mal a pior. Assim, como em Os Sertões (1902), de Euclides
da Cunha, Lobato, em seus contos, denunciava a condição degradante
do caboclo, do mestiço e do negro na época das grandes fazendas
cafeeiras.
Cunha (1866-1909), ao percorrer os sertões nordestinos, denunciava
o preconceito e o abandono de um povo que poucas vezes era contado
como brasileiro. Em determinados momentos e processos históricos,
como diria Lobato, serviam para votar:
“O fato mais importante de sua vida é sem dúvida votar no governo. Tira nesse dia da arca a roupa
preta do casamento, sarjão furadinho de traça e todo vincado de dobras; entala os pés num alentado
sapatão de bezerro; ata ao pescoço um colarinho de bico e, sem gravata, ringindo e mancando, vai pegar
o diploma de eleitor às mãos do chefe Coisada, que lho retém para maior garantia da fidelidade partidária.
Vota. Não sabe em quem, mas vota. Esfrega a pena no livro eleitoral, arabescando o aranhol de
gatafunhos a que chama “sua graça”. Se há tumulto, chuchurreia de pé firme, com heroísmo, as porretadas
oposicionistas, e ao cabo segue para a casa da chefe, de galo cívico na testa e colarinho sungado
para trás, a fim de novamente lhe depor nas mãos o “diploma” (LOBATO, 1997: 92-93).
Quando a sociedade brasileira reconhece que o Jeca Tatu não era
preguiçoso e vadio, já que assim era considerado devido à sua mestiçagem,
e por conta do abandono do povo caipira, Jeca e seus companheiros
começam a virar motivo de preocupação e eram agora deba-
< Foto: João Urban
137
Sociologia
Diversidade Cultural Brasileira
tes nacionais. Como resolver a questão, de quem era a culpa de tantos
transtornos, que num primeiro momento eram causados tão somente
pelo povo caipira que não tinha se adaptado à sociedade rica e civilizada?
Jeca Tatu passou a ser o Zé Brasil, homem simples e pobre. Seus
problemas seriam solucionados se tivesse umas terrinhas para plantar
e viver sua vida, quem sabe como um ilustre fazendeiro.
A figura do negro continuava sofrendo o preconceito e discriminação.
Em Negrinha, Lobato retrata a violência com que os negros eram
tratados. A negrinha, personagem que caracterizava a vida de uma
criança negra, órfã, sofria constantemente os maus tratos de sua senhora,
mesmo em tempos de abolição.
A menina descrita no conto servia a uma senhora fazendeira, como
uma lembrança do tempo em que o trabalho e todos tipos de afazeres
eram realizados pelos negros escravos. Assim descreve Lobato:
“Dona Inácia estava azeda... e disse à Negrinha:
– Traga um ovo.
Veio o ovo. Dona Inácia mesma pô-lo na água
a ferver; e de mãos à cinta, gozando-se na prelibação
da tortura, ficou de pé uns minutos, à espera.
Seus olhos contentes envolviam a mísera criança
que, encolhidinha a um canto, aguardava trêmula
alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou
a ponto, a boa senhora chamou:
– Vem cá!
Negrinha aproximou-se.
– Abra a boca!
Negrinha abriu a boca, como o cuco, e fechou
os olhos. A patroa, então, com uma colher, tirou da
água “pulando” o ovo e zás! Na boca da pequena.
E antes que o urro de dor caísse, suas mãos amordaçaram-
na até que o ovo arrefecesse. Negrinha
urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas só.
Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo...
... E a virtuosa dama voltou contente da vida
para o trono, a fim de receber o vigário que chegava.
‘Ah, monsenhor! Não se pode ser boa nesta
vida... Estou criando aquela pobre órfã, filha da
Cesária – mas que trabalheira me dá!’ ‘A caridade
é a mais bela das virtudes cristãs, minha senhora,
murmurou o padre’. ‘Sim, mas cansa...’” (LOBATO,
1956: 3-12).
138
Ensino Médio
Cultura e Indústria Cultural
Ai, não é de se estranhar na estrutura social brasileira um forte e arraigado
sentimento etnocentrista!
Darcy Ribeiro, por exemplo, prefere dizer que o produto final e real
da colonização, foi a formação de um povo-nação, repleto de uma
diversidade cultural, característica da miscigenação, que ocorreu em
nosso país. Segundo o autor, a nação ficou dividida em grandes grupos
étnicos e nos chama a atenção de que não há um Brasil, mas “os
brasis”. O Brasil sertanejo, caboclo, crioulo, caipira e gaúcho... Onde a
perda de identidade do branco, do negro e do índio (no processo de
miscigenação) fez surgir “o brasileiro”! Povo “misturado”, ora não definido!
Sim, mas apesar de todas as diferenças: brasileiro! Não podendo
haver o abandono, diagnosticado por Euclides da Cunha, na separação
do Brasil do “litoral” e Brasil do “sertão”.
Para sua melhor compreensão sobre a formação do povo brasileiro, faça uma análise das obras de
Roberto Da Matta “O que faz o Brasil, Brasil?” e de Euclides da Cunha “Os Sertões”, que escreveram
sobre o processo de colonização e a formação do nosso povo. Depois, relate em sala de aula, as análises
que eles fizeram sobre a formação do povo brasileiro, na perspectiva da miscigenação.
ATIVIDADE
Sabe por que nós mesmos temos essa atitude etnocêntrica arraigada, que
nos leva a não aceitar, dentro de nossa própria sociedade, determinados grupos
étnicos? Temos uma consciência “contaminada”!
Hum, complicou? Vamos descomplicar e, entender o que é essa tal
de consciência nas relações sociais.
O antropólogo Levi-Strauss nos ajuda a entender que a nossa vida
social é “moldada” pelas estruturas sociais. As nossas relações sociais
são “determinadas” por modelos (que são um conjunto de idéias préelaboradas,
chamadas por este autor de “estruturas”). As estruturas sociais
são como modelos sociais! Agimos na sociedade, na nossa vida
cotidiana, obedecendo de forma “inconsciente” a esses modelos. E assim,
ocorre o que disse Durkheim, somos “condicionados” na nossa maneira
de vestir, pensar, agir...
Ou seja, a “consciência” é aquilo que conseguimos ver e realizar, isso
ocorre nas nossas relações sociais. Uma pessoa que discrimina outra
por sua cor, ou ainda grupos étnicos que não aceitam outro grupo
étnico, estão tendo tal atitude por causa do “inconsciente”, que são as
estruturas da sociedade, as idéias que a sociedade faz das pessoas de
cor, ou dos grupos étnicos que não são valorizados na sociedade.
Nossa sociedade brasileira foi estruturada na não-compreensão e
não-aceitação de sua diversidade... Eis aí o motivo da nossa crise de
Estruturas sociais: Tem
uma relação direta com a
infraestrutura, que é a base
material e econômica da
sociedade e da superestrutura,
que são o conjunto de
idéias, valores, leis, religião
que ideologicamente organizam
a vida social.
139
Sociologia
Diversidade Cultural Brasileira
identidade. Muitos de nós não queremos parecer conosco mesmos!
Preferimos pensar que outras nações e culturas são melhores que a
nossa! E assim reproduzimos, em nossas relações sociais, atitudes de
discriminação ou etnocêntricas!!
Mas, contudo, o discurso simplista e conformista, de atribuir ao inconsciente
(as estruturas sociais), as atitudes preconceituosas, muitas
vezes oculta a ideologia que persiste ainda hoje em nossa sociedade
de que as diferenças raciais, étnicas e culturais são o motivo do nãodesenvolvimento
e progresso da nação.
Nosso país é rico em toda a sua diversidade, não se constitui, então,
em “problema” a miscigenação e nem tão pouco as imigrações que
aqui se firmaram e formou o Brasil. Presenciamos, hoje, muitos “entraves”
econômicos e políticos que não têm em sua gênese relação com
as questões raciais e étnicas.
Assista ao filme “Um ato de coragem” (Direção: Nick Cassanvetes, EUA, 2002, 118min.). A partir da
análise do filme e do texto acima sobre a denúncia das condições de vida do negro no período da escravidão
e da realidade do preconceito “camuflado” em nossa sociedade, monte uma dramatização retratando
esta realidade. Depois, escreva um texto crítico sobre a discriminação étnica e as desigualdades
de oportunidades no Brasil.
ATIVIDADE
REFERÊNCIAS:
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CUNHA, E. Os sertões. São Paulo: Ática, 1902.
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FERNADES, F. A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Ática,
1978, Vol. I e II.
FREIRE-MAIA, N. Brasil: laboratório racial. Rio de Janeiro: Vozes, 1973.
FREYRE, G. Casa-grande & senzala. Rio de Janeiro: Record, 2000.
GONÇALVES, M. M. T.; AQUINO, Z. T.; SILVA, Z. B.(Orgs.) Antologia escolar
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LARAIA, R. B. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 2005.
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Nacional, 1976.
z
140
Ensino Médio
Cultura e Indústria Cultural
LOBATO, M. Contos (extraídos de Urupês). Curitiba: Pólo editorial do Paraná,
1997.
LOBATO, M. Negrinha. São Paulo: Brasiliense, 1956.
MAGGE, Y. REZENDA, Claudia Barcellos. (Orgs.) Raça como retórica: a construção
da diferença. Rio de Janeiro: Civilização Brasiliense, 2001.
MORAES, P. R. Bodê de. “O Jeca e a cozinheira: raça e racismo
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POUTGNAT, P.; STREIFF-FERNART, J. Teorias da etnicidade. São Paulo:
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OLIVEIRA, R. C. O índio e o mundo dos brancos. São Paulo, Ed. Pioneira,
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RIBEIRO, D. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo,
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SUPLICY, M. “Novos paradigmas nas esferas de poder”. In: Revista: Estudos
feministas. IFCS/UFRJ PPCPIS/NFRJ, Vol. 4, nº 1/96.
SANT´Anna, Darli Machado e CUNHA, Lúcia Helena de Oliveira (orgs.). Índios
do Paraná. AVAÍ – Associação Nacional de Apoio ao Índio, Curitiba, 1983.
ANOTAÇÕES
141
Sociologia
Diversidade Cultural Brasileira
ANOTAÇÕES
8
CULTURA: CRIAÇÃO OU
APROPRIAÇÃO?
chamado cabresto?
1Colégio Estadual Senador Teotônio Vilela –
Ensino Fundamental, Médio e Profissionalizante – Assis
Chateaubriand - PR
144
Ensino Médio
Cultura e Indústria Cultural
O cabresto é utilizado como um instrumento para guiar o cavalo, a
mula, o jumento, etc. Serve para pôr freio nos animais ou ainda, para
governar suas ações de tal modo que façam o que queremos. Tais atitudes
de dominar e governar as ações “alheias” não acontece somente
com relação aos animais.
Socialmente, há mecanismos de controle que visam dominar e guiar
as ações dos indivíduos ou de uma coletividade. No “Folhas” anterior
compreendemos o porquê da diversidade cultural em nosso país. Agora,
vamos entender mais um pouco da dinâmica cultural, não somente
no âmbito nacional, mas analisaremos também como a cultura foi se
tornando um mecanismo de controle social e um vivo e próspero “objeto”
de comercialização.
Bom, mas a cultura pode ser um cabresto?
E aí, deu um nó na sua cabeça? Ficou confuso? Vamos esclarecer!
Lembra-se do período iluminista? Nos séculos XVII e XVIII, a Europa
passava por profundas transformações sociais. A burguesia estava em
ascensão, o regime absolutista e aristocrático estava declinando. O momento
era o da busca da liberdade, o homem procurava em si mesmo
explicação para sua vida e para a sociedade, não necessitava ou
não queria mais as explicações religiosas e místicas. O científico, ou
seja, tudo o que é testado pela experiência do próprio homem, passou
a ter VALOR.
Com o estabelecimento do capitalismo, o modo de vida burguês
passa a ser dominante, fortemente influenciado pelos ideais iluministas.
As obras artísticas e literárias e, principalmente, as artes plásticas
começam a representar ou “impulsionar” os valores desta nova classe,
assim como o seu requintado estilo de vida.
Voltando à Idade Média, as manifestações culturais literárias e artísticas
Barrocas que tratavam os valores religiosos e artísticos, assim como
o modelo de vida do absolutismo e do poder da Igreja sobre a vida
das pessoas é substituído e entra em cena o Arcadismo. Este se opondo
ao “velho” modo de vida religioso começou a se basear nos ideários
iluministas, representando por meio da pintura, da música, da literatura
e da arquitetura, o domínio da razão, que se expandia por toda
a Europa. Entrando nos séculos XVII e XVIII, a burguesia nascente deste
período mergulha nestes novos ideários, descobre que pode usufruir
uma vida refinada e culta, porque reafirmava enquanto classe dominante
seus valores e modo de vida.
Mas você pode dizer: “A cultura tem tudo a ver com as obras literárias e
artísticas!” E tem mesmo! Mas, além de vermos a arte e a literatura dos
povos, apenas, como uma manifestação ou expressão cultural, é necessário
para fazermos uma análise da sociedade, entendermos como
a cultura foi se tornando ao longo da história, diferenciada e “usada”
pelo sistema capitalista para acumulação e reprodução de capital.
Diferença entre a Literatura
Barroca e o Arcadismo
e suas funções sociais: O
Barroco foi uma manifestação
artística de Contra-reforma
que investia na volta
de uma intensa religiosidade
em detrimento ao movimento
Humanista. Já o
arcadismo herdeiro do período
Iluminista, expressava
as manifestações artísticas
baseadas no novo estilo
de vida e visão de mundo
da alta burguesia insatisfeita
com o absolutismo.
145
Sociologia
Cultura: criação ou apropriação?
A relação entre burguesia e o que é considerado culto nos leva a
pensar que existem diferenças culturais, ou melhor, diversas expressões
culturais, entre os diferentes grupos ou classes sociais. A cultura
de cada grupo, sociedade, povo ou nação, tem sua própria lógica que
expressa a maneira de ser e viver dos indivíduos.
Mas como a burguesia por exemplo conseguiu se “apropriar” dos
saberes e conhecimentos intelectuais e científicos? Nos “Folhas” sobre
as Instituições Sociais, vemos como as diferentes sociedades transmitem
seus valores culturais. Em sociedades mais complexas como a nossa,
a transmissão de conhecimentos é de maneira sistemática.
Ora, desde que a educação passou a ser institucionalizada, ou seja,
quando se passou a ensinar os valores, costumes, saberes científicos
e os procedimentos técnicos acumulados historicamente, que nada
mais é do que a cultura da sociedade, a escola passa a ser o lugar
onde as pessoas recebem esses saberes. No entanto, as possibilidades
de acesso aos saberes, que são universalizados, ocorrem de maneira
diferenciada.
Você já parou para pensar quais os saberes necessários ou básicos
para a sobrevivência, na sociedade capitalista, principalmente para
uma pessoa da classe trabalhadora? Quem já não ouviu a frase “estuda
menino para ser alguém na vida, ter um trabalho...”. Vemos um grande
contingente da população brasileira não ter acesso aos conhecimentos
ofertados nos bancos escolares para terem a chance de “ter-se dado
bem na vida”. E, o que sabem é considerado como “arcaico”, ou
seja, ultrapassado.
Ora, as sociedades capitalistas têm em sua gênese a dominação como
forma de se impor e um dos meios de legitimação é a cultura. Portanto,
quem tem o acesso dos meios institucionais, como a educação,
os meios de comunicação de massa, etc., consegue, de um certo modo,
ditar algumas “regras” na sociedade.
Mas, para entendermos as diferenças entre a cultura popular e erudita,
devemos também analisar, além das relações sociais de poder, de
Pesquise em sua cidade como está a oferta de trabalho que exija o Ensino Médio e Superior e quais
são as funções que cada nível de ensino pode ocupar. Verifique também se sua escola tem a porcentagem
de alunos que assim que terminam o Ensino Médio ingressam na universidade em busca de “aprimoramento
pessoal” para o trabalho. Apresente os resultados em sala de aula.
pesquisa
146
Ensino Médio
Cultura e Indústria Cultural
mando e controle social, como ao longo da história o chamado refinamento
pessoal ajudou a reforçar as diferenças entre as classes sociais.
A idéia de refinamento pessoal compreende a aquisição de conhecimentos,
a apropriação das normas lingüísticas da escrita, adquiridos
na escola e universidades, lembrando que não se trata de um conhecimento
qualquer, mas algo elaborado, sistematizado e reconhecido pela
sociedade, no sentido de levar as pessoas a serem “cultas” e “civilizadas”.
Esse também pode ser alcançado pelo convívio com pessoas
“refinadas”, como por exemplo, a visitação e experiência com obras de
arte consideradas Belas-artes.
Na Europa, desde os séculos XIV e XV, quando findava a Baixa Idade
Média, cultura era sinônimo de civilização e conhecimento expresso
pelas classes dominantes e dito civilizadas, que ainda não era a burguesia,
mas sim a aristocracia. Ou seja, ter cultura era ser uma pessoa
“culta”, detentora da razão e do conhecimento das coisas. Por conta
disso, os valores culturais eruditos são associados à expansão colonizadora.
De novo a idéia de que é necessário “civilizar” para o desenvolvimento
e progresso das sociedades.
Para alguns autores, como os da escola de Frankfurt, importante
Instituto para a Pesquisa Social criado em 1924 na Alemanha, Walter
Benjamin (1892-1940), Max Horkheimer (1895-1973) e Theodor Wiesengrund
Adorno (1903-1969), a cultura popular seria um meio de resistência
da classe dominada às imposições da dominante.
O que ocorreu foi que, até o século XIX, “chique” mesmo era as
pessoas portarem-se como os europeus, tudo nas casas burguesas era
importado, faziam parte da última moda européia. Hoje, o “chique” é
consumirmos o que é da última moda, mas no final do século XIX e
início do XX, com o advento do que se chama cultura de massa e os
diferentes modismos, houve certo “enjoamento” daquilo que era erudito.
E não foi somente isso, a busca pela liberdade de expressão também
contribuiu para a ocorrência de algumas mudanças culturais. A
partir daí, o que era produzido e criado pelo povo foi apropriado pelos
meios de comunicação.
Bom, mas que dizer do carnaval então? É uma festa popular? Embora
o carnaval seja uma festa para todos, acaba, por conta da apropriação
da indústria cultural e dos meios de comunicação de massa,
sendo transformado em um espetáculo. O carnaval brasileiro, segundo
DaMatta (1984: 75) em seu livro O que faz o Brasil, Brasil?, possibilita o
encontro dos grupos e das classes sociais, das diferentes etnias. Constitui-
se numa festa para todos. A troca de papéis sociais é comum, a
vida diária, de casa ao trabalho, de muitas pessoas é mudada. Se a sociedade
segrega e uniformiza a festa de carnaval, para quem participa,
cria “(..) um cenário e uma atmosfera social onde tudo pode ser trocado
de lugar (...)”.
147
Sociologia
Cultura: criação ou apropriação?
O operário que em dias normais passa pelas ruas movimentadas
vestindo seu simples uniforme e nem é notado, pode, no carnaval se
fantasiar de um rei, aparecer na TV, ser reconhecido e admirado por
um grande número de pessoas, pela sua destreza e agilidade de passos
e coreografias ou simplesmente pela imagem que representa.
Faça uma análise do carnaval na nossa sociedade, com base no texto de DaMatta:
“Mas que coisa milagrosa! [...] Carnaval, pois, é inversão porque é competição numa sociedade
marcada pela hierarquia. É movimento numa sociedade que tem horror à mobilidade, sobretudo à mobilidade
que permite trocar efetivamente de posição social [...] Por tudo isso, o carnaval é a possibilidade
utópica de mudar de lugar, de trocar de posição na estrutura social. De realmente inverter o mundo
em direção à alegria, à abundância, à liberdade e, sobretudo, à igualdade de todos perante a sociedade.
Pena que tudo isso só sirva para revelar o seu justo e exato oposto...” (DaMatta, 2000:78).
a) O autor apresenta o carnaval como uma possibilidade de troca de papéis sociais e também nos leva
a perceber seu caráter contraditório frente aos problemas sociais que enfrentamos. Com base
no texto acima, discuta com os colegas levantando quais as contradições que o autor nos sugere
quando fala das “possibilidades utópicas” do carnaval.
ATIVIDADE
No Brasil, por conta das desigualdades socioeconômicas existentes,
a classe trabalhadora, embora se constitua na maioria da população,
não tem acesso a todas as manifestações culturais, tais como
o teatro, óperas, educação de qualidade, etc. Por conta desta situação,
numa interpretação de Carlos Rodrigues Brandão, autores como
< Foto: João Urban
148
Ensino Médio
Cultura e Indústria Cultural
Gramsci (1891-1937) consideram que, quando essas classes se manifestam
com suas tradições culturais, estão de certa forma resistindo à
cultura dominante e passam a lutar pelo que acreditam ser seu modo
de vida, algo que faz parte de sua maneira de ver o mundo, de se expressar,
de se reconhecer como classe.
A partir da discussão acima, podemos analisar a Literatura de Cordel
no Brasil, veremos que esta, por ser uma literatura feita pelo povo,
denunciando suas condições de vida e sua forma de ver o mundo, se
constitui numa resistência por parte do povo de manter suas tradições
culturais. Inspirada nos pliegos sueltos ou Folhas Soltas da Espanha e
Portugal, a Literatura de Cordel ou os Folhetos, em nosso país, originou-
se e desenvolveu-se tradicionalmente no nordeste brasileiro, configurando
a expressão e manifestação cultural daquele povo.
A Literatura de Cordel no Brasil é um exemplo de expressão cultural
que não sofreu tanto o processo de apropriação por parte da indústria
cultural. Ou seja, não foram substituídos pelos meios de comunicação,
mas convivem com o rádio e a TV. Os cordelistas ou repentistas
espalhavam notícias e, ainda hoje, são um forte meio de comunicação
com teores informativos, jornalísticos e entretenimento.
Os temas são geralmente populares difundindo a arte e a literatura
folclórica, é o tipo de manifestação em que o povo ora canta, ora expressa
na escrita com vocabulários próprios e regionais os costumes,
as crenças ou personagens reais e imaginários, que configuram o seu
cotidiano e são expostos em fios de barbante e colocados à venda.
Como a história de Lampião e sua companheira Maria Bonita, Padre
Cícero, Cangaceiro, etc., que são personagens históricos do sertão nordestino.
O nordeste foi palco da difusão da Literatura de Cordel, pois
era um ambiente social cuja diversidade étnica, muito contribuiu para
as formas de comunicação literária e poesia popular.
Lampião e Maria Bonita: Lampião (Virgulino
Ferreira da Silva) foi um dos líderes mais famosos
dos cangaceiros, tornou-se uma figura mitológica
e lendária no nordeste, muito admirado
pelo povo. Embora tendo praticado atos considerados
imorais num período de sua vida pelo
sertão, recebeu do governo federal da época a
patente de oficial para lutar juntamente com os
militares contra a Coluna Prestes. Sua companheira
era Maria Bonita, que também o acompanhava
em suas lutas, ambos foram mortos em
1938 e suas cabeças apresentadas ao povo
nordestino e depois postas no museu local.
< (Fonte: HORTA, 2004. Adaptado de: O grande livro do folclore).
149
Sociologia
Cultura: criação ou apropriação?
Como a cultura é constantemente recriada pelos indivíduos em sociedade,
tendo um caráter dinâmico, não é diferente com as expressões
das obras da Literatura de Cordel. Os repentistas criam suas canções
e histórias a partir da realidade social, muitas vezes denunciando
a miséria e a fome nordestina, os acontecimentos políticos, a vida difícil
dos trabalhadores rurais e urbanos, etc. Como podemos ler no
fragmento do folheto O testamento de Getúlio, de José Gomes, que os
assinava com o pseudônimo de Cuíca de Santo Amaro, cidade onde
nasceu:
[...] Deixo ao povo brasileiro
Os quais me tinham amizade
Elas!... as Leis Trabalhistas
Para a sua liberdade
Deixo ela para o povo
Antes de ir pra a eternidade.
Deixo a todo trabalhador
Igualdade de condições
Isto é... o direito
Que também tem os patrões
E o Ministério do Trabalho
Pra castigar os Tubarões.
Deixo o cofre da Nação
Lá no Rio de Janeiro
Para os candidatos
E pra todo marreteiro
Que pelas eleições
Gastaram o seu dinheiro.
< (Fonte: Batista. 1977:231).
Com base no fragmento acima, produza um cordel a partir de sua realidade.
ATIVIDADE
Gramsci (1891 – 1937), apud Brandão, diz que para todos os seus
seguidores, o folclore é uma cultura de classe. (1982, p. 101). Ou seja,
é a partir da realidade da luta de classes que se dá no cotidiano das
pessoas, que esse tipo de obra literária expressa o saber do povo. Um
saber baseado no senso comum, mas que reflete uma visão de mundo.
Existe diferença entre a Cultura Popular e o Folclore?
É interessante sabermos que sempre houve uma divergência entre
os estudiosos e os próprios folcloristas. A “queixa” é a que, para os folcloristas,
o Folclore é uma manifestação cultural tradicional do povo para
o povo, são seus costumes nos contos e canções populares. Contudo,
o termo Folclore surgiu em meados do século XIX e ganhou força
quando, em 1846, o inglês William Thoms (1803-1885) inventou o termo
folk-lore, (folk = povo e lore = saber, então, o “saber do povo”).
Antonio Gramsci: filósofo
e político italiano, um
dos fundadores do partido
comunista italiano. Como teórico
marxista defendia a hegemonia
da classe .
150
Ensino Médio
Cultura e Indústria Cultural
Brandão em seu livro, O que é Folclore, discute sobre a dificuldade
de se conceituar e diferenciar os termos Folclore e Cultura Popular.
Mas, apresenta que no caso brasileiro, foi em 1950, com a intenção de
efetivar as pesquisas e o estudo sobre as manifestações populares, na
Carta de Folclore Brasileiro, redigida no I Congresso Brasileiro de Folclore,
que pela primeira vez se buscou definir o que era o Folclore, e
como tal fenômeno se expressa:
“Constituem o fato folclórico as maneiras de pensar, sentir e agir de
um povo, preservadas pela tradição popular e pela imitação, e que não
sejam diretamente influenciadas pelos círculos eruditos e instituições
que se dedicam ou à renovação e conservação do patrimônio científico
e artístico humano ou à fixação de uma orientação religiosa e filosófica”
(BRANDÃO, 1982: 31). Foto: João Urban <
< Festa da Cavalaria de São Benedito - Aparecida - SP
Cultura popular e folclore são dois termos que, para muitos antropólogos,
inclusive para Brandão, possuem o mesmo significado, pois,
não são formas culturais estáticas e irreversíveis, mas que fazem parte
das construções sociais, e por isso é dinâmica. No Brasil, vão além dos
ritos, característicos das culturas africanas e indígenas, configuram também,
a religiosidade, as danças, os pratos típicos de diferentes regiões,
vivências e costumes regionais e tradicionais do povo.
Mas o que as pessoas comuns de nossa sociedade, que na maioria das vezes
não são folcloristas e nem estudiosas dos fenômenos sócio-culturais, dizem
de suas próprias tradições?
151
Sociologia
Cultura: criação ou apropriação?
Faça uma pesquisa em sua cidade para conhecer as manifestações de cultura popular. Depois,
entreviste pessoas que participam desses grupos questionando o que as tradições lhes representam.
Com os dados em mãos e com base no texto acima, produza um texto sobre essas manifestações culturais
do cotidiano de sua cidade.
Pesquisa
Bom, você deve estar pensando: O que toda essa história de folclore, cultura
popular e erudita tem a ver com dominação e controle social?
Ao manter a sua própria expressão cultural, a classe popular trabalhadora
está se opondo à cultura dominante e oficial, fazendo com que
as tradições populares permaneçam não somente no imaginário das
pessoas, mas tornando-as cada vez mais reais em seu cotidiano.
Por outro lado, a grande tendência de padronização cultural está
fazendo com que as expressões culturais populares caiam no esquecimento
ou quando muitas vezes é vista pelo próprio povo e a sociedade
em geral, como uma cultura “pitoresca”. Uma outra crítica levantada
com relação à padronização, é que quando as expressões culturais
populares são planejadas, possuindo datas e regras para acontecerem,
já não estão mais no controle e organização do povo para si mesmo
no seu cotidiano.
O folclore torna-se nesse processo um instrumento de manipulação
e controle social quando deixa de ser uma manifestação popular
e passa a servir de “apaziguamento” entre grupos e classes sociais, como
por exemplo, o carnaval, as festas religiosas, superficialmente demonstram
uma integração harmônica das classes. Mas que na realidade
cotidiana vivem em conflitos sociais.
E o comércio, onde ele entra nesta dinâmica sócio-cultural?
Na diferença entre os dois aspectos da cultura entram em cena a produção,
a magia e a sedução da INDÚSTRIA CULTURAL...
Provavelmente você já ouviu falar em Indústria Cultural. A indústria
cultural foi um termo criado por Adorno e Horkheimer, autores da
escola de Frankfurt, que referenciavam este fenômeno ao que também
conhecemos como “cultura de massa”, ou seja, a produção em larga
escala de elementos da cultura. Ela é um dos frutos do sistema capitalista
em que vivemos.
Com o estabelecimento do capitalismo, as cidades vão se transformando
em pólos industriais e de importância social. Com isso, a população
urbana aumenta e se torna o alvo do mercado e seus integrantes
se transformam em consumidores em potencial, o que é conseqüência
152
Ensino Médio
Cultura e Indústria Cultural
de um barateamento da mercadoria industrializada, produzida em série.
O mercado, em geral, se dinamiza, atingindo até a esfera cultural
que, também, passa a ser transformada em mercadoria.
Você já se perguntou por que os hábitos e até os padrões de beleza sempre
mudam? Com a propagação da cultura de massa entra em cena um
novo padrão de beleza, uma nova estética que influencia o gosto das
pessoas. E com o estabelecimento do capitalismo e da sociedade moderna,
isso veio a se transformar mais ainda. As cidades passam a ficar
cheias, são multidões que, de alguma maneira, estão aprendendo um
novo estilo de vida, o urbano.
O sistema de capital percebe que uma massa emerge e, mais ainda,
percebe que além de se produzir mercadorias de consumo geral para
essa massa, poderia ser possível produzir, também, e em larga escala,
elementos da cultura, transformando-os em mercadorias. Daí o termo
cultura de massa ou para as massas, pois a partir do momento que
se produz em série para o consumo do povo em geral, para existir um
novo padrão de significações na visão de mundo, no que as pessoas
pensam, sentem e agem.
Sabe aquela propaganda na TV que lhe deixou com uma vontade
de tomar um refrigerante bem gelado, em pleno dia de verão?
Ou...
Aquele belíssimo carro, aquela casa dos seus sonhos, as roupas da
última moda...
Os celulares de última geração...
Hum... São tantas as emoções e opções expostas e impostas pela
mídia!
< Foto: João Urban
153
Sociologia
Cultura: criação ou apropriação?
Realmente são muitas as opções, no entanto... Tudo o que é produzido
pela indústria cultural custa dinheiro, ou seja, podemos “comprar”
se tivermos as condições financeiras.
E o capital, onde ele entra em tudo isso? Bom, este por sua vez se
apropria das expressões culturais, que podem ser: os jornais, livros, filmes,
peças teatrais, músicas, tudo o que possa expressar a cultura de
determinado grupo social. E então, ele a transforma em produto para o
consumo fazendo com que a dicotomia entre popular e erudito quase
se anule, pois a indústria cultural visa a compra e venda de tudo que
ela produz, não importando se a burguesia está consumindo um CD de
música Funk, originado e tocado nos bailes da periferia.
Quando falamos em cultura e, principalmente em cultura de massa
e indústria cultural a coisa não é diferente. O que sempre vai estar em
jogo é a manipulação dos valores e padrões estéticos visando ao controle
das massas. Contudo, as classes sociais podem ter suas percepções
e visões de mundo e também propagá-las.
Quem não se lembra ou já ouviu falar da Ditadura Militar no Brasil
(1964-1985)? Assim que os militares tomaram o poder com atitudes autoritárias
passaram a controlar não somente os assuntos políticos e econômicos,
mas também as outras esferas sócio-culturais, censurando todo tipo
de manifestação artística que eram contrárias ao regime autoritário.
Jovens artistas como Edu Lobo, Chico Buarque de Holanda, Geraldo
Vandré, Geraldo Azevedo dentre outros, fizeram parte do movimento
oposicionista de esquerda nos anos sessenta e setenta que se
expressava culturalmente por meio da música. Tal movimento se constituiu
numa contracultura, que mobilizou jovens e intelectuais do mundo
ocidental, durante os anos 60 e 70, que proclamava uma nova maneira
de pensar independente dos valores sócio-culturais e dominantes
da época.
No Brasil, especificamente com a produção da música popular brasileira,
a MPB, surgiu um novo tipo de música que denunciava a opressão
frente às atrocidades do autoritarismo da época. Cantava um grito
à liberdade! No Folhas sobre Movimentos Sociais você pode ver, detalhadamente,
como o movimento estudantil se articulava e, em especial
a participação de alguns destes compositores e cantores.
Como diz Renato Ortiz (1947- ) em Cultura brasileira e identidade
nacional, o que está por trás das manifestações populares não é pura e
simplesmente uma visão de mundo, “(...) mas um projeto político que
utiliza a cultura como elemento de sua realização... significa função
política dirigida em relação ao povo”. (ORTIZ, 2003:72). Ou seja, as manifestações
culturais populares podem se constituir em um projeto político,
engajadas numa luta por diferentes reivindicações. Na atualidade ainda
há vários cantores e grupos musicais que expressam em suas canções
a realidade social, denunciando questões como: a crise política, a corrupção,
a fome e a miséria da maioria da população brasileira.
Curiosidade:
A música popular “sertaneja”
tem suas letras baseadas
na coletividade rural.
Já a música popular urbana
dos grandes centros possui
vários gêneros conforme a
identidade cultural regional
dos grupos sociais.
Já que estamos falando em
música... vamos dar um
mergulho em algumas produções
artísticas musicais e
entender como os segmentos
da sociedade podem se
apropriar da arte para manifestar
suas aspirações e
idéias: a chamada Arte engajada.
Contracultura ou anticultura:
termo originário
da imprensa norte-americana,
que significa oposição
expressa de diferentes
maneiras a algo estabelecido.
Ou ainda, é uma crítica
radical ao sistema social e
cultural em vigor.
154
Ensino Médio
Cultura e Indústria Cultural
Vamos entender como Chico Buarque e Geraldo Vandré utilizaram as composições rítmicas para
expressarem suas mensagens a partir de suas músicas, para “fugir” da censura do Regime Militar: “Pra
não dizer que não falei das flores” e “Roda-viva”. Leia as estrofes abaixo e resolva as questões:
Roda-viva, de Chico Buarque (1967):
Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
Pra não dizer que não falei das flores, de
Geraldo Vandré (1968):
Pelos campos a fome em grandes plantações
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão
Vem, vamos embora que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição:
De morrer pela pátria e viver sem razão...
a) Procure entender como os autores construíram suas canções, identificando quais as relações há entre:
o contexto histórico (realidade social), o conteúdo das letras e o ritmo que caracterizam este tipo
de música.
b) Relacione as músicas com a atual realidade social e cultural de nosso país, identificando suas críticas
válidas para a realidade brasileira. Monte um grupo de alunos e apresentem essas questões em
sala de aula.
Qual o ritmo de música que você “curte”?
Temos à nossa disposição vários estilos musicais com diferentes ritmos,
organizados por diversas durações e intensidade de movimentos.
Os compositores combinam nos trechos das músicas um ou mais ritmos
que fazem com que as mesmas expressem em todas as suas características,
tanto a mensagem como a emoção contida nas letras. Grande
parte das músicas produzidas durante o regime militar por militantes
de esquerda e opositores ao autoritarismo, eram construídas por composições
rítmicas e várias outras estratégias para passar despercebidas
pela censura do período.
Ao ouvir uma música somos atraídos não somente pelos conteúdos
das letras, mas também, às suas características rítmicas, melódicas
e harmônicas. Há quem goste de ritmos constantes e lentos, como
a valsa, por exemplo, ou ainda ritmos rápidos e fortes, como do samba,
rock, etc.
ATIVIDADE
155
Sociologia
Cultura: criação ou apropriação?
E as novelas e o cinema?
Você já percebeu como algumas pessoas não perdem um capítulo
da novela, principalmente aquelas que conseguem atingir grande número
de telespectadores? Tanto as novelas como o cinema são criações
dos meios de comunicação a serviço do capital, pois não é feito pelas
pessoas, como eu e você e tantas outras que os assistem. Os filmes,
por exemplo, reproduzem acontecimentos como o holocausto dos judeus
na Segunda Guerra Mundial, mas o interesse de tal produção cinematográfica,
além de contar a história, é se utilizar dela como meio
de sobrevivência e reprodução de capital.
Após a Revolução Industrial do século XVIII, tudo virou objeto de
consumo, como vimos acima, tudo pode ser transformado em produto.
Não só a cultura popular é difundida e disseminada. Até a própria
sinfonia de Mozart, os quadros da Monaliza e Santa Ceia, de Leonardo
da Vinci e obras de importantes artistas, como as do brasileiro Cândido
Portinari, são reconhecidamente de origem erudita. Isto é, o que antes
era encontrado somente em museus ou em casa dos ricos, passaram a
entrar em casas simples, de pessoas de baixa renda, ou produzidas em
série estampadas em camisetas de marcas comuns.
Contudo, por mais que os filmes e programas televisivos não apresentem
um caráter enriquecedor para o conhecimento humano, sua
crítica radical deve ser repensada, pois é possível encontrar diversas
programações que trazem uma qualidade de produção e de informações,
possibilitando às pessoas questionar a si e a sociedade na qual
vivem.
E aí, quais as vantagens e desvantagens da indústria cultural?
Pensar a indústria cultural como vantajosa, é dizer que a partir dela
mesma e dos meios de comunicação de massa, uma parcela da população,
que sempre esteve alheia a fontes de informações, passa a ter
possibilidade de maior acesso a tais fontes informativas, o que contribui
para uma maior informação do público.
Outro argumento é o fato de que, pela indústria cultural, os diferentes
gostos e culturas poderiam ser vistos e encarados de maneira mais
sensível e abrangente. Ou seja, os meios de comunicação poderiam es-
Pesquise sobre os valores sócio-culturais e padrões tanto de beleza como de consumo que a TV
transmite. Debatam em sala de aula tais padrões, questionando se estes condizem com a realidade da
população, especificamente do seu bairro. Depois, monte um documentário, fotografado ou filmado,
que pode ser apresentado para os demais alunos do colégio.
pesquisa
156
Ensino Médio
Cultura e Indústria Cultural
tar trabalhando com a temática do multiculturalismo, aproximando os
diferentes, culturalmente falando, e diminuindo os entraves causados
por tais distinções e preconceitos culturais.
Mas nem tudo parece ser bom...
O lado desvantajoso da indústria cultural é seu caráter coercitivo
que se caracteriza na imposição à padronização, pondo em igual patamar
todas as diferentes manifestações culturais, ou seja, vende uma
imagem de “harmonia” de cultura única, descaracterizando as diferenças.
Outro argumento é quanto à criação de uma falsa necessidade de
consumo pelas propagandas, como já discutimos acima. Além de desestimular
o público a pensar e refletir a respeito do que vê, uma vez
que tudo é traduzido em forma de entretenimento, informação rápida
e pronta, torna-se um meio de comunicação alienante, pois a maioria
do público em geral que somente tem acesso às “informações-relâmpago”
é geralmente passivo e não consegue refletir com clareza de detalhes
sobre os acontecimentos sociais.
Portanto, devemos ter a consciência de que os produtos veiculados
na mídia são, em sua maioria, criados por grupos poderosos e que visam
a lucratividade. Essa linha de raciocínio nos leva a imaginar a necessidade
de continuar com o processo da industrialização da cultura,
porém, não se deve perder a noção da existência da dominação,
ou seja, que há grupos que desejam manipular as massas a comprarem
tudo o que vêem e a viverem da maneira que eles, os donos do
capital, querem.
A indústria cultural, com suas vantagens e desvantagens, pode ser caracterizada
pela transformação da cultura em mercadoria, com produção
em série e de baixo custo, para que todos possam ter acesso. É uma
indústria como qualquer outra, que deseja o lucro e que trabalha para
conquistar o seu cliente, vendendo imagens, seduzindo o seu público
a ter necessidades que antes não tinham.
Podemos nos posicionar frente à indústria cultural? A indústria cultural,
característica da sociedade contemporânea, deve ser pensada quanto
ao seu papel. Torna-se necessária uma reflexão sobre que valores culturais
estão sendo veiculados na mídia e a quem eles servem. Uma atitude
otimista quanto à cultura de massa pode existir, porém uma atitude
crítica deve permear os processos de transmissão e assimilação das
informações veiculadas.
Você se sente alienado pelas maciças propagandas que apelam para
o consumismo exacerbado? Vamos analisar como a população encara esta
situação?
Multiculturalismo:
É a existência de diferentes
e múltiplas culturas. O
termo multiculturalismo é
atualmente muito discutido
quando o assunto são políticas
culturais, democracia e
cidadania, como, por exemplo,
acesso à educação de
qualidade e a todas as manifestações
culturais, independente
das diferenças étnicas
e culturais.
157
Sociologia
Cultura: criação ou apropriação?
Entreviste 5 pessoas de sua comunidade ou bairro, monte um questionário sobre a renda familiar, os
utensílios domésticos e eletrônicos em geral que possuam em suas casas, as despesas com alimentação,
vestuário e saúde e o acesso às diferentes manifestações culturais, tais como: teatro, cinema, música,
educação, etc. Depois, com base no texto acima, monte um painel sobre a realidade da população
frente aos apelos consumistas.
ATIVIDADE
Referências:
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1983.
BATISTA, S. N. Antologia da Literatura de Cordel. 1ª ed. Natal: Fundação José
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COELHO, T. O que é indústria cultural. 15ª ed. São Paulo: Editora Brasiliense,
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DAMATTA, R. O que faz o Brasil, Brasil. Rio de Janeiro: Editora Rocco,
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HORTA, C. F. M. M. (Coord.). O grande livro do folclore. Belo Horizonte: Editora
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MARX, K. O capital: crítica da economia política. Rio de Janeiro: Bertrand
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PANELAS, O. Introdução e seleção de Maurice Van Woensel. In: Biblioteca
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PEREIRA, C. A. M. O que é contracultura. 7ª ed. São Paulo: Brasiliense,
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TINHORÃO, J. R. Cultura popular – temas e questões. 1ª ed. São Paulo: Editora
34 Ltda, 2001.
SEMPRINI, A. Multiculturalismo. São Paulo: Ática, 2000.
z
158
Ensino Médio
Quando você está caminhando nas ruas observa tudo o que há ao
seu redor? Casas, ruas, estradas, prédios, carros, ônibus, pessoas.... Você
sabia que tudo isto existe porque o ser humano para sobreviver
age sobre a natureza, modificando-a e assim estabelece relações com
os outros seres humanos? Como? Bem, isto é a vida social. Quando as
pessoas vão ao trabalho, elas se relacionam com os outros colegas de
trabalho, com a chefia, com o patrão. Na escola, elas se relacionam
com os outros alunos, com a direção, funcionários e professores. Se
entendermos estas relações dentro de um conjunto formado por todos
os seres humanos vamos ter a Sociedade.
Está claro que ela é formada pelas pessoas, que por sua vez vão
formular leis, regras, instituições, formas diferentes de produzir os objetos,
de governar os países, organizar os Estados.
Como podemos entendê-la já que ela é tudo isto? De uma forma
científica, isto é dentro de um pensamento racional mas também variado
com uma multiplicidade de interpretações. Este pensamento é a Sociologia.
É ela que nos ajuda a entender as relaçoes de trabalho dentro
da sociedade que vivemos: a sociedade capitalista.
Então para entender o capitalismo devemos recorrer à Sociologia? Sim,
mas não sozinha. Junto com a História, a Geografia, a Economia, a Filosofia
ela vai construindo uma explicação sobre o que ocorre com os seres
humanos quando ao ir para o trabalho e para a escola, como citamos acima,
eles vão se relacionando. Mas, se vivemos em mundo com guerras,
exploração e desigualdade, pobreza e riqueza, como é que podemos afirmar
que estamos nos relacionando? E se estabelecemos estas relações, como
sabemos que vamos poder mudá-las, ou que vamos mantê-las?
Para responder a estas questões, dentro da Sociologia, existe um
conjunto de temas e de teorias que são estudados pelos pensadores, e
que vão revelando as respostas destas indagações.
Entre estes, temos a questão do Trabalho, da Ideologia e da Globalização.
São temas que estão ligados entre si, se considerarmos que fazem parte
daquele conjunto formado pelos seres humanos, que é a sociedade. Então
a Sociologia estuda a sociedade ao se preocupar com estes assuntos?
Sim!. E considerando que a história da Sociologia está relacionada com o
surgimento e desenvolvimento do capitalismo, vamos ver que ela, ao analisar
estas problemáticas, criou um conhecimento acerca do mundo, e dos
homens e mulheres que nele moram, trabalham e estudam.
Para ajudar a entender como a Sociologia faz esta análise, e possamos
compreender como esta dinâmica se desenvolve, estes dois “Folhas”
foram elaborados.
I
n
t
r
o
d
u
ç
ã
o
Introdução
159
Sociologia
O primeiro Folhas trata da questão do trabalho dentro da sociedade
capitalista, como ele permite o desenvolvimento de um processo
de exploração desta ação criativa. Isto é, a existência das classes sociais
faz desta atividade uma ação marcada pela desigualdade. Esta desigualdade
não se revela no momento em que os objetos são produzidos
mas sim, no momento em que os trabalhadores vão consumir o
que é necessário para sua sobrevivência. Esta produção não resolve
somente problemas materiais como comida e moradia, mas questões
subjetivas, como o conhecimento, os sentimentos. Como você irá ler,
segundo a música “Comida” cantada pelos Titãs, “(...) não queremos
somente comida, mas também diversão e arte”.
Procuraremos entender que os seres humanos para sobreviver retiram
da natureza a matéria-prima para produzir objetos necessários ao
seu consumo. Esta ação é denominada trabalho. Ela é uma atividade
que cria e criou tudo que a humanidade possui, desde a Pré-história
até a atualidade, no século XXI. Criou os remédios para combater os
vírus, como criou prédios – como os que existem no Japão, que acompanham
as oscilações que os tremores de terras causam. Criou, tanto
uma estação espacial, onde vivem cientistas, que fazem pesquisas relativas
a uma possível sobrevivência no espaço, como as armas atômicas
que dizimaram tantas pessoas. Cria as músicas, os filmes, os livros.
É de fato uma ação criadora.
A questão é saber se esta produção é decidida por aqueles que a
executam, ou se está nas mãos daqueles que são proprietários das máquinas,
das ferramentas, da matéria-prima.
O segundo Folhas trata do fenômeno da globalização e de como e
quando ela passou a ser dinâmica, dominante no capitalismo neste final
do século XX e começo do século XXI. A globalização modificou a
relação do Estado com a sociedade e a forma de organização da produção
dos objetos necessários à sobrevivência. Vai observar também
que se a globalização abre as fronteiras dos países, vai deixar o Estado
refém dos interesses das corporações e dos organismos internacionais
como o FMI (Fundo Monetário Internacional).
São dois Folhas que irão ajudar a entender o funcionamento do capitalismo,
a partir da explicação sociológica que existem sobre os temas.
Queremos uma saída para tantos problemas, estudar a sociedade
em que vivemos, para sabermos refletir sobre eles, já que a reflexão
pode ser uma alternativa para começar a desvendá-los.
Boa leitura e bom estudo!
S
O
C
I
O
L
O
G
I
A
9
O PROCESSO DE
TRABALHO E A
DESIGUALDADE
SOCIAL
A gente quer comida, diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída para qualquer parte
(...)
A gente não quer só comida
A gente quer a vida como a vida quer”
COMIDA – Arnaldo Antunes,
Marcelo Fromer e Sérgio Britto.
<
ocê já escutou os versos acima e já
parou para pensar sobre o que podemos
fazer para ter tudo isto? Ou
melhor, o que você, sua família, e seus
amigos fazem para ter acesso a tudo isto?
1Colégio Estadual Professor José Guimarães – Curitiba - PR
162
Ensino Médio
Trabalho, Produção e Classes Sociais
Odisséia foi a aventura que
Ulisses ou Odisseu realizou
para voltar para casa, cheia
de problemas – mortes de
amigos, de familiares, falta de
comida, encontro com ciclopes,
chuvas, ventos, questionamentos
sobre o poder dos
Deuses e também da própria
existência do ser humano
– enfim uma história relatada
por Homero, poeta
grego a quem é atribuída a
autoria desta história e da Ilíada.
São histórias que servem
para que se resgate na História
da Humanidade o período
homérico da Antigüidade
Clássica.
Sabemos que para viver temos que ter comida, água potável, roupas
e uma moradia segura. Mas sabemos também que na sociedade
capitalista o caminho para ter o acesso à “comida, diversão e arte” não
é nada fácil, é uma verdadeira odisséia. Então, como é possível suprir
estas necessidades básicas?
Se “(...) a gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer
parte(...)”, o que fazemos afinal, para conseguirmos garantir e resolver
estas questões? O que você faz?
Agora, como estão nos versos da música, queremos ter a garantia
que as chamadas questões materiais – a comida, a água potável, as
roupas adequadas para cada tipo de estação, a casa com segurança –
e as questões subjetivas – sentimentos, desejos, gostos – sejam resolvidas.
Temos aqui, portanto, duas questões essenciais: o que é imediato
ou básico são necessidades materiais do ser humano; o que é subjetivo
são necessidades imateriais. Mas esta preocupação não é somente
uma preocupação particular, mas de todas as sociedades ao longo da
história humana. Como “(...) a gente não quer só comida (...)”, estas
duas necessidades devem ser resolvidas, e na busca destas soluções,
novas necessidade vão surgindo. Assim, o contorno do nosso cotidiano
vai sendo desenhado na medida em que as soluções de todos os tipos
vão se realizando. Para pensar sobre isso, vejamos como a Sociologia
pode nos auxiliar.
O pensador alemão Karl Marx (1818-1883) afirmou que, para resolver
as suas necessidades básicas, o ser humano vai se apropriando da
natureza, estabelecendo relações com outros seres humanos, pensando
sobre a sua vida e criando novas e novas necessidades. Como isso
é possível? Imagine que você tem que construir um banco de praça e
a matéria-prima é de “segunda mão”. Tendo o material, o que mais é
necessário para construir o banco? Bem, o conhecimento de como fazê-
lo, e de como utilizar o material reciclável e as ferramentas. Temos,
portanto:
(1) você – um SER HUMANO;
(2) o CONHECIMENTO;
(3) a natureza que já foi modificada, a MATÉRIA-PRIMA;
(4) e os INSTRUMENTOS – máquinas, ferramentas e utensílios.
São necessários todos estes elementos juntos para que o banco seja
construído. Temos uma unidade que permite que você produza ou
melhor construa o banco. Esta unidade é o que chamamos de PROCESSO
DE TRABALHO.
Foi com este processo que a humanidade construiu tudo o que
existe na vida: ferramentas, máquinas, a matéria-prima transformada
ou não (um exemplo disto é o ferro encontrado bruto na natureza,
transformado em aço para a fabricação de tratores, ônibus, geladeiras,
bicicletas), os prédios, os estádios de futebol, as escolas, as ruas e es-
=
=
=
=
163
Sociologia
O processo de trabalho e a desigualdade social
tradas, os ônibus espaciais... enfim um conjunto imenso de coisas. Se
isolarmos o conhecimento, as ferramentas e a matéria-prima e retirarmos
você da construção do banco, vamos observar que o banco não
será construído. Então consideramos você – o ser humano – o principal
elemento desta unidade. Isto porque é você quem vai dar asas à imaginação
(pois não é só de pão que vive o homem) e construir e transformar
tudo que o cerca.
Então, seguindo o raciocínio anterior, sabemos que para viver temos
que resolver problemas de ordem material e básica como comer,
beber, vestir e morar. Mas como nos indica a música não é só disto que
vivemos. Ir ao cinema, sair com os amigos, ir ao futebol, participar das
festividades na família, exercitar e exercer nossa sensibilidade e gosto
por um tipo de roupa, de música, de filme, de time de futebol, de professor,
e de amigo fazem parte desta busca de resoluções. Para isto, os
seres humanos vêm modificando a natureza e tudo ao seu redor, até a
nós mesmos. Já sabemos que o ser humano é o principal elemento do
processo de produção.
Se acompanhamos os jornais vamos perceber que as ações não caminham
para a resolução das necessidades materiais e imateriais. A
destruição do planeta e de outros seres humanos ocorrem indiscriminadamente
em quase todos os lugares do mundo. Isto é o que em Sociologia
foi chamado de contradição, por Karl Marx, pensador alemão
já citado anteriormente neste texto: a não-resolução das necessidades
humanas mesmo tendo condições para fazê-lo. São problemas que a
humanidade não resolveu desde que o gênero homo começou a dominar
o planeta.
Você sabe que nesta caminhada do ser humano, para resolver estas
necessidades, ele desenvolve ligações com os outros seres humanos e
várias formas de organizações sociais vão surgindo. Seguindo este ra-
Pegue qualquer objeto do seu dia- a- dia e pesquise:
1. Qual é a matéria-prima utilizada? Ela é bruta ou já foi processada?
2. Explique que tipo de conhecimento está envolvido na fabricação deste objeto: artístico, científico, filosófico?
3. Quais ferramentas foram utilizadas? Quem esteve envolvido na sua fabricação? Explique como.
4. Faça uma conclusão considerando a importância deste objeto para o seu cotidiano. Explique se ele
é fundamental ou secundário.
pesquisa
164
Ensino Médio
Trabalho, Produção e Classes Sociais
ciocínio, é a unidade entre o ser humano, o conhecimento, os instrumentos
e a matéria-prima, que possibilita a relação como o mundo natural
e a criação do mundo social modificado. Vamos tentar entender
como se desenvolvem estas ligações.
Quando o homem se espalhou pelo mundo, saindo da África e
convivendo, segundo as recentes pesquisas da Paleoantropologia, com
outras espécies do gênero, criou laços com os membros do seu grupo.
Estes laços se estreitaram, ficando cada vez mais fortes, pois enfrentar
a natureza – clima, vegetação, relevo, animais selvagens – revela-se
uma aventura difícil e perigosa. Por isso, a união para garantir a existência
passa a ser o elemento principal para continuar vivendo. Essas
ligações são denominadas de relações sociais. Estamos vendo que, no
início do processo de surgimento das primeiras formas de organização
social estas relações eram coletivas.
Então, o que significa dizer que essas relações eram coletivas?
Imagine que você e seus amigos estão perdidos na floresta Amazônica
e não conhecem o território, e necessitem fabricar instrumentos
e utensílios. O mundo natural parece ameaçador e com certeza vocês
buscarão ficar unidos, dividir igualmente a comida, a água, os cuidados
com aqueles que estão doentes e com medo. Querem resolver tudo
para que todos fiquem bem. Então, unidos, zelarão para que o grupo
consiga sobreviver em um ambiente inóspito para o forasteiro. É muito
importante observar que no processo de transformação da natureza, o
homem vai modificando
o espaço natural
considerando as suas
capacidades e as ferramentas
que possui.
É uma combinação
e uma escolha entre
a capacidade humana
de transformação e
aquilo que ele vai encontrar
na natureza. O
que resulta desta relação
é uma nova realidade
que continua a
ser explorada. Veja na
proposta de trabalho
a seguir como isto é
possível.
O homem moderno ou o
homo sapiens sapiens surgiu
segundo os estudos da
Paleantropologia há mais ou
menos 200 mil anos. Espalhou-
se pelo mundo há pelos
menos 50.000 anos. Segundo
as polêmicas relacionadas
como as novas descobertas
de fósseis, existe também a
possibilidade de que o homo
sapiens tenha convivido
com outras espécies do
gênero. Esta teoria faz parte
das discussões do processo
de transformações biológicas
e de apropriação da natureza
que deram origem ao homem
moderno. O momento
desta apropriação é denominado
de Paleolítico – ou Idade
da Pedra Lascada.
165
Sociologia
O processo de trabalho e a desigualdade social
Então, no início da existência da humanidade (40.000 a.C.), havia
uma relativa igualdade entre os membros de um mesmo agrupamento
social. Relativa porque do ponto de vista das questões básicas de sobrevivência
todos têm acesso a eles. Ao mesmo tempo estas sociedades
eram hierarquizadas tanto com a divisão sexual do trabalho quanto com
as demarcações etárias. Como sabemos disto? É só observarmos os povos
indígenas brasileiros, antes da chegada dos europeus (século XIV da
Era Cristã). A forma de organização e de resolução dos problemas de sobrevivência
destes povos é exemplo deste período quando havia a necessidade
de agir coletivamente, para enfrentar a natureza.
Veja, os indígenas que habitam o Parque Nacional do Xingu e os
Bosquínamos da África setentrional. Atualmente, são exemplos deste
período (quando havia a igualdade descrita acima – 700.000 a.C. a
40.000 a.C.) em que, ao resolver suas necessidades básicas, o ser humano
o fazia coletivamente. Com o aprimoramento dos instrumentos
e dos utensílios, e um controle maior sobre a natureza, com a agricultura
e a domesticação dos animais, passa a existir em algumas regiões
e entre alguns povos o acúmulo de alimentos. As casas são melhoradas
para garantir um abrigo mais seguro e as roupas também acompanham
estas mudanças com a utilização de novas matérias-primas para
a sua confecção. Essas alterações acompanham a ocupação do espaço
geográfico fazendo com que deixem de ser nômades e se transformem
em povos sedentários. A Geografia, a História e a Sociologia são as Ciências
que vão pensar o processo de trabalho interpretando como este
se desenvolve nesta busca do ser humano de resolução das necessidades
materiais e subjetivas.
O Parque Nacional do Xingu
fica localizado no Norte do
Brasil, entre os estados do
Amazonas e Pará, e que abriga
mais de 14 etnias, como
os Kamaiurá, Kuikuro, Matipu,
Mehinako, Trumai, Karabi,
Suyá, entre outros.
Faça uma pesquisa e veja se ainda hoje existem regiões inóspitas além desta descrita acima, e pense
como você e seu grupo agiriam para sobreviver. Para isto você deve:
1. Localizar a região e indicar qual é o tipo da paisagem;
2. descrever como garantiriam a água;
3. descrever como garantiriam a segurança;
4. descrever como garantiriam os alimentos;
5. descrever como garantiriam a saúde;
6. descrever como garantiriam a locomoção.
pesquisa
166
Ensino Médio
Trabalho, Produção e Classes Sociais
O armazenamento da água e alimentos fica mais aprimorado com a
utilização da cerâmica como matéria-prima. O aperfeiçoamento da navegação
e a utilização da roda e do transporte acompanham este ritmo.
É importante frisar que estas transformações não são lineares nem evolutivas.
Elas são desiguais e acompanham a forma utilizada por cada
povo na sua região na ocupação do espaço e na criação da sociedade.
Não podemos achar que todos fizeram da mesma maneira. Ao contrário,
a forma de ocupação e o processo cultural revelam como cada povo
enfrentou a natureza e foi resolvendo suas necessidades básicas.
As formas mais apuradas de solução dos problemas imediatos: comer,
beber, vestir e morar, na medida em que são resolvidos acabam
criando outras e novas necessidades. Assim, locais onde é possível
guardar os alimentos e a água vão sendo construídos para que estes
sejam utilizados nos momentos de escassez, que são freqüentes e fazem
com que as contradições (Lembra? A não-resolução das primeiras
necessidades) assombrem os seres humanos. Vai ser necessário que alguns
cuidem deste acúmulo e da sobra do que foi produzido ou consumido.
Estes que vão cuidar do que todos produziram vão criar um grupo de
segurança para auxiliá-los nesta nova tarefa. Este corpo de segurança, provavelmente
são os mais fortes ou os que já tinham a tarefa de serem os
guerreiros do grupo. Temos aqui um conjunto de pessoas que se desliga,
se afasta daqueles que estão produzindo o necessário para a sobrevivência
de todos. Você pode perguntar: quando isso ocorreu?
Essas mudanças ocorrem na passagem do Neolítico para o surgimento
da sociedade desigual (III milênio antes da Era Cristã), quando
vai existir a propriedade e esta não vai ser coletiva. Este distanciamento
em que alguns vão viver do TRABALHO que outros executam,
permitiu o surgimento da desigualdade entre os seres humanos dentro
da mesma sociedade. Essa desigualdade foi se aprofundando e as decisões
sobre a distribuição do que foi produzido passam a ser realizadas
por estes, que vão se tornando donos/proprietários das terras, dos
animais, das ferramentas...
Como isso é possível? Imagine que você está trabalhando no campo
e as pessoas que cuidam do armazenamento observam que se não
for estipulada uma cota de consumo para cada família, não terão comida
suficiente para o próximo período de escassez. Então devem, para
garanti-la, criar punições para aqueles que não cumprirem o que foi
determinado. Que tipo de punição? Algo como ter que trabalhar em
dobro, dar os seus animais, dar as ferramentas que utilizam – daí, para
trabalhar tem que utilizar as ferramentas de outros. Viu como começou
a propriedade do que chamamos meios de produção – ferramentas,
matérias-primas, os galpões e prédios.
A forma de divisão da sociedade em que uns são proprietários dos
meios de produção – ferramentas, matérias-primas, conhecimentos – e
No estudo da História, vamos
observar esta passagem
como o surgimento do período
conhecido como modo de
produção escravista e também
do modo de produção
asiático; eles se desenvolveram
em regiões diferentes do
planeta. O modo de produção
asiático, também conhecido
como tributário e hidráulico
encontrada no Oriente
próximo– Egito e Mesopotâmia,
Índia, Extremo Oriente, e
em algumas sociedades Précolombianas
em diferentes
épocas. Já o modo de produção
escravista encontrado
na Antigüidade Clássica, ou
seja – Grécia e Roma.
167
Sociologia
O processo de trabalho e a desigualdade social
outros são somente proprietários da força de trabalho – energia gasta no
dia-a-dia e o conhecimento de como executar a sua tarefa no processo
produtivo – é a base para o que chamamos de sociedade capitalista.
Esta diferença entre os seres humanos vão marcar as relações sociais
que passaram a estabelecer a partir do fortalecimento das duas classes
sociais: os donos dos meios de produção e os proletários. Podemos,
assim, buscar no passado da humanidade muitas das explicações para
a situação complicada que é a busca do emprego hoje.
As soluções se inscrevem no plano daquilo que chamamos de conquistas
da humanidade; mas não podemos esquecer o que chamamos de
contradições. São elas que vão marcar estas conquistas e nos alertar para
perguntar sobre o principal elemento do trabalho que é o ser humano.
Bem, voltando às questões do início do texto, vamos ver que a humanidade,
para resolver as questões materiais e subjetivas (ter “comida,
diversão e arte”) vai construindo o seu cotidiano, e que este já foi predominantemente
coletivo, mas se modificou com a transformação da natureza.
Surge a desigualdade entre os seres humanos e essa, por sua vez,
vai marcar o dia-a-dia da sociedade.
Assim, o que não podemos esquecer é que, na medida em que a
humanidade vai se apropriando da natureza, modifica o espaço que a
cerca e desenvolve não só ações criativas, mas também destrutivas – o
aquecimento global – conseqüência do desmatamento, da poluição pelo
dióxido de carbono, pela poluição de rios e solos, pela retirada de minerais
de maneira predatória– sem citar a matança de animais e a destruição
do seu hábitat.
E é justamente por isso que não podemos desejar somente a comida,
pois junto dela deve vir a água potável, a vestimenta adequada, a
casa segura, o acesso ao conhecimento, às artes, à Filosofia. Tudo o
que foi criado pelo ser humano com a intenção de resolver os problemas
para viver, e também as soluções para os problemas como os indicados
acima relacionados com as ações destrutivas. Pense sobre as
soluções que podem ser dadas para resolver estas novas questões – a
destruição da natureza, que estão diretamente ligadas às necessidades
materiais e subjetivas apontadas no início e nas indagações finais da
música “Comida” referenciada no texto.
Neste texto você leu sobre
a transformação da natureza
a partir do processo
de trabalho realizado ao longo
da história da humanidade,
na busca de resolver suas
necessidades básicas. Já
o emprego é esta ação que
chamamos de trabalho; ela é
a atividade remunerada, que
os trabalhadores assalariados
executam durante a jornada
de trabalho no dia-a-dia.
Pesquise três diferentes processos de trabalho e demonstre como ocorre a modificação da natureza
e as relações entre os homens nesta transformação. Faça um painel para cada um deles e apresente
para a sala.
pesquisa
168
Ensino Médio
Trabalho, Produção e Classes Sociais
Pense nos versos da música e elabore uma lista das necessidades materiais e subjetivas. Relacione
essas necessidades com o processo de trabalho a partir do que foi tratado neste texto.
ATIVIDADE
Foto
Essa busca de saídas para resolver as contradições entre produção
e escassez – de alimentos, de água, de moradia, de escolas, de segurança,
de saúde, de lazer.... de acesso à “diversão e arte” – transforma
o ser humano em um ser que supera limites. Assim, uma indagação deve
permanecer quando olhamos os problemas e vemos a dor e o sofrimento
de muitos: “Você tem fome de quê?”
Podemos fazer uma lista interminável de necessidades materiais e
subjetivas que não foram resolvidas, mas com certeza o item Justiça
deve aparecer. Sabia que a idéia (e, portanto uma necessidade subjetiva)
de justiça é uma construção humana? Muitas vezes para resolvermos
questões materiais, nós recorremos a uma questão subjetiva, como
a justiça. Então para sobreviver, o ser humano construiu tudo que
temos – transformando a natureza, construindo relações sociais e também
elaborando discussões complexas sobre as necessidades subjetivas.
Leia nos versos da música e perceba como eles formam uma unidade:
“(...)bebida é água /comida é pasto / você tem sede de quê? /
você tem fome de quê? / a gente não quer só comida /a gente quer comida,
diversão e arte”(...) !!!!
< Foto: João Urban
169
Sociologia
O processo de trabalho e a desigualdade social
Referências:
ALBORNOZ, S. O que é trabalho. São Paulo: Brasiliense, 1989.
ANTUNES, R. (Org.) A dialética do trabalho. Escritos de Marx e Engels. São
Paulo: Expressão popular, 2004.
_________________ & SILVA, M.A.M. (Orgs). O avesso do trabalho. São Paulo:
Expressão popular, 2004.
HARRY B. Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século
XX. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
KURZ, R. Os últimos combates. Petrópolis: Vozes, 1997.
MARX, K. Manuscritos econômicos-filosóficos. Lisboa: Edições 70, 1989.
__________ Miséria da filosofia. São Paulo: Liv. Ed. Ciências Humanas, 1982.
__________ Salário, preço e lucro. São Paulo: Abril Cultural, 1982.
__________ A Ideologia alemã. São Paulo: Hucitec, 1996.
__________ Manifesto do Partido Comunista. URSS: Edições Progresso, 1987.
MARCUSE, H. A ideologia da Sociedade Industrial o homem unidimensional.
Rio de Janeiro: Zahar editores, 1982.
POCHMANN, M. O emprego na globalização. São Paulo: Boitempo, 2002.
Filmes:
Segunda-feira ao sol.(Las Lunes al sol. 2002. Espanha, direção Fernando
Leon de Aranoa).
A guerra do fogo (1981, França/Canadá, direção: Jean-Jaques Annud)
Peões (2004, Brasil, direção Eduardo Coutinho).
Ilha das Flores (1989, Brasil, direção Jorge Furtado). Acesso à internet: www.
portacurtas.com.br
Tempos modernos (1936, direção Charles Chaplin)
Música:
Comida - Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto.
z
z
=
=
=
=
=
z
=
10
GLOBALIZAÇÃO
onde são fabricados os produtos
que são consumidos no seu
dia-a-dia? Já olhou a etiqueta da
sua camiseta ou a sola do seu tênis
e viu a procedência de cada um deles?
Ou já observou estas lojas que vendem
produtos a preços baixos e identificou
a origem de cada um?
Já ouviu falar ou já utilizou a Internet? Notou
que as comunicações se aceleraram e uma
pessoa na sua escola neste instante pode se
comunicar com outro estudante de outra escola,
em outro continente? Se isto ocorre entre
estudantes, pense o que está ocorrendo no
mundo dos negócios?
1Colégio Estadual Professor José Guimarães – Curitiba - PR
172
Ensino Médio
Trabalho, Produção e Classes Sociais
A rapidez da internet parece uma ação meio mágica,
além das relações que os indivíduos estabelecem no cotidiano.
Veja que a internet imprime uma velocidade à vida cotidiana
como se todos fossem ficar com mais tempo livre para
o lazer. Será que realmente é assim, no cotidiano das pessoas
que trabalham e necessariamente precisam da internet
como instrumento de trabalho? Você conhece alguém que
aumentou ou que diminuiu a sua jornada em função desta
“mágica”? Com ela parece que o mundo ficou menor, ou
mais Global?
Por exemplo, já reparou na roupa e
nos acessórios que os jovens de outros
lugares do mundo usam? Não é da mesma
marca que o seu tênis, o seu celular, a sua televisão?
No cinema, as estréias são mundiais, o
que significa que você e os habitantes de outras regiões
do globo podem assistir ao filme em uma curta diferença
de tempo.
E o que tudo isto têm haver com você? Você consome produtos, utiliza
a internet, vai ao cinema... parece que tem muito!. Mas para entendermos
o quanto ela interfere na sua vida vamos entender porque é que
ficamos com a impressão de que o mundo ficou menor ou mais global.
Para isso vamos começar lendo os trechos das notícias que seguem:
Gênova – Cerca de 20.000 policiais
patrulhavam a cidade italiana de Gênova
e seus arredores enquanto cerca de
50.000 pessoas realizavam nesta quinta-
feira, às vésperas do início da cúpula
do Grupo dos Oito (G-8), o primeiro de
uma série de protestos contra a globalização
e de maneira geral contra as políticas
do Primeiro Mundo em relação aos
países mais pobres.
Foi um evento pacífico contra as restrições
aos imigrantes. Em tom festivo,
os participantes carregavam cartazes e
gritavam palavras de ordem. Ambientalistas
seguravam enormes balões verdes
e uma banda tocava música.
Mas a tensão aumentou no norte
da Itália por causa de três falsas suspeitas
de bomba, uma em Milão, outra em
Florença e uma em Turim. A polícia italiana
permanece em alerta máximo e
mantém rígido controle nos 27 postos
fronteiriços do país. (...)
Grupos de imigrantes da África e da
América Latina lideravam o cortejo, alguns
carregando bandeiras de Colômbia,
Argentina e Peru. Havia cartazes
com as mais diversas reivindicações,
como a de integrantes da comunidade
curda na Europa, pedindo a libertação
do líder rebelde Abdullah Ocalan e “paz
no Curdistão”.
< www.estadão.com.br
< Foto: Icone Audiovisual
Aumenta tensão às vésperas da cúpula do G-8
173
Sociologia
Globalização
Polícia e manifestantes
contra a OMC (Organização
Mundial do Comércio) voltaram
a se enfrentar nas ruas
de Hong Kong neste sábado,
no dia dos confrontos
mais violentos desde o início
da reunião da organização,
na terça-feira (13). As principais
entradas do centro de
convenções onde acontece
a reunião foram trancadas e
guardadas por grupos de policiais.
Os grupos de manifestantes
são formados principalmente
por agricultores sulcoreanos
e ativistas de países
do sudeste asiático e europeus
que se opõem à liberalização
do comércio global.
De acordo com a rede de
TV local, cerca de 30 pessoas
ficaram feridas. A polícia, no
entanto, informou que o confronto
deixou cinco feridos,
incluindo um policial.
Cerca de 10 mil ativistas
antiglobalização estão em
Hong Kong para protestar
contra a reunião da organização,
que tenta chegar a um
acordo sobre a liberalização
do comércio mundial. Dos
manifestantes, 2.000 são fazendeiros
sul-coreanos, considerados
o grupo asiático
que mais se opõe à abertura
do comércio agrícola.
(...)
A manifestação começou
de forma pacífica, com os manifestantes
levando rosas e
balões amarelos, nos quais se
lia o slogan “Não, não OMC”.
O aumento no número de
ativistas, no entanto, levou alguns
deles, mais próximos às
barreiras, a empurrar alguns
policiais.
(...)
< Folha Online
Com a leitura dos trechos das notícias acima você pôde perceber
que existem reuniões entre os representantes dos países ricos, em alguns
lugares do mundo e que existem pessoas que são contra elas. Se
você leu com atenção observou que essas pessoas se reúnem para protestar
contra o G-8., FMI, OMC. São siglas que vão aparecer nos noticiários
de jornais e são relativas à globalização. Globalização novamente!
O que isto tem a ver com a sociedade em que vivemos?
Bem, vivemos numa sociedade capitalista que está organizada a
partir da valorização do capital, isto é, a riqueza que é propriedade do
capitalista. Esta é empregada no processo produtivo – novas tecnologias,
novas matérias-primas, novas fábricas – e possibilita que um novo
acúmulo de riqueza/capital seja gerado. Este acúmulo ocorre a partir
da extração da mais-valia que pode ser absoluta quando o trabalho se
estende em jornadas longas ou além da jornada estipulada legalmente, ou relativa
que é gerada pela produção de mais produtos via a utilização de novas
tecnologias que intensificam a produção.
Polícia bloqueia acesso a local de reuniões da OMC em Hong Kong
FIQUE DE OLHO
Como é esta riqueza que o capital emprega? Entenda que todo trabalhador
para executar suas atividades é contratado por um número X de horas
que é a sua jornada de trabalho. Dentro desta jornada o que ele produz paga
o seu salário, a matéria-prima, os impostos, água, luz, telefone, transporte
da matéria-prima, do objeto produzido e às vezes do próprio trabalhador. Vamos
supor que isto ocorra com metade das horas trabalhadas. A outra metade
das horas, em que o trabalhador continua trabalhando é o lucro do patrão.
174
Ensino Médio
Trabalho, Produção e Classes Sociais
O funcionamento desta sociedade em que se produz muitos objetos
que serão consumidos não é harmônico. É uma sociedade que tem
um desenvolvimento baseado em contradições – problemas que a humanidade
ainda não resolveu, como a fome entre as populações carentes
em quase todas as regiões do mundo. Estas contradições podem
gerar crises para o funcionamento da sociedade.
Crise? Você sabe o que é uma crise? Já ouviu alguém dizer que está
em crise? Observe que quando a pessoa afirma isso, ela está querendo
dizer que existem problemas que precisam de soluções, mas que estão
difíceis de serem encontradas. E o que isso tem a ver com os problemas
que a sociedade capitalista encontra para funcionar?
Bem, desde os anos 70, o mundo capitalista vive uma crise que tem
como estopim o aumento do barril do petróleo estipulado pela Organização
dos Produtores e Exportadores de Petróleo – OPEP. Como o petróleo
é a forma de energia dominante no capitalismo, tanto que o seu
controle pode significar a invasão de países e a morte de seres humanos,
o aumento do seu preço traz problemas para os capitalistas, pois
encarece tudo o que é produzido, impulsionando a diminuição do lucro
dos capitalistas.
Esta crise foi caracterizada pelos economistas, geógrafos e sociólogos
em geral como uma crise de superprodução. Uma crise de superprodução
ocorre quando o capital empregado não tem retorno para o
capitalista, nem como forma de valor (extração da mais-valia), como
também de consumo, pois este não acompanha o excesso de oferta de
produtos. Isto ocorre quando se produz mais do que se consome, gerando
desemprego, o que diminuiu o consumo.
Para resolver essa crise, que se aprofundou nos anos de 1973 e
1974 e atingiu todos os países que necessitavam de petróleo para manter
a produção de objetos, as soluções foram interessantes para os capitalistas:
diminuir o número de trabalhadores, utilizar novas formas de
E isto gera a mais-valia, isto é um valor a mais, que é o lucro do capitalista.
Por exemplo, em uma jornada de oito horas, quatro horas trabalhadas todos
os dias no mês pagam os custos com a produção; as outras quatro horas em
que o trabalhador continua trabalhando é a mais-valia.
Pesquise sobre o que foi a famosa Crise de 1929 e faça uma lista de acontecimentos relacionados
com ela relativos ao desenvolvimento da Sociedade Capitalista, nos EUA e no Brasil.
pesquisa
175
Sociologia
Globalização
organizar a produção e a utilização de novas tecnologias; diminuir as
taxas a serem pagas ao Estado.
Tendo em vista que esta crise, que tem nos anos 70 o seu ápice,
impossibilitava que o capitalismo internacional (indústrias, bancos estrangeiros
e os organismos internacionais) o FMI e o Banco Mundial
mantivessem a sua taxa de lucro semelhante ao pós guerra (após 1945
quando houve um crescimento da economia), a saída capitalista foi a
abertura de mercados, a reestruturação produtiva e a instalação de governos
neoliberais. Vamos entender cada um destes itens.
Segundo o pensador Robert KURZ (1997), a globalização significou
uma perda para os trabalhadores e aquelas pessoas excluídas do mercado
de trabalho, seja ele o mercado formal – com a carteira assinada,
seja o informal – sem carteira e sem benefícios. Ela significa não a modernização,
mas um aprisionamento do Estado aos interesses das grandes
corporações e dos organismos multinacionais. Neste processo, o
Estado vai liberando a fronteira econômica do país para que as empresas
estrangeiras se instalem com isenção de taxas – água, luz, impostos
– e com a adequação de uma infra-estrutura que possibilita a chegada
de matérias-primas e o escoamento da produção – via estradas, portos
e aeroportos. Aliado a isso, há uma abertura de mercado aos produtos
estrangeiros, que passam a competir com os produtos nacionais. Neste
processo, as pessoas menos favorecidas são prejudicadas, pois o Estado,
ao diminuir o investimento em programas e projetos sociais, impossibilita
que justamente aqueles que mais precisam tenham acesso
aos serviços públicos.
Além da diminuição (veja que estamos destacando uma diminuição
e não extinção) do poder do Estado, com o processo de globalização,
os blocos econômicos intensificam as tarefas como: a
abertura comercial e a possibilidade das empresas globalizadas de
utilizarem a mão-de-obra mais barata que possa existir neste conjunto
de países regionalmente fronteriço. É o caso do MERCOSUL,
do NAFTA e da proposta da ALCA. (Estas siglas estão definidas no
fim do texto).
Faça uma pesquisa sobre as guerras que envolvem o controle sobre o petróleo, confeccionando
um mapa com datas e os países envolvidos nestas disputas, não esquecendo de demonstrar como tudo
isto terminou.
pesquisa
176
Ensino Médio
Trabalho, Produção e Classes Sociais
Os blocos econômicos são reuniões de países que possuem relações
econômicas e uma proximidade geográfica – veja o exemplo do
MERCOSUL – e se organizam para realizar uma abertura comercial
mais intensa das suas fronteiras alfandegárias e sociais. A existência
dos Blocos Econômicos foi uma das saídas do capitalismo à crise dos
anos 70, e impõem sobre os trabalhadores no mundo, e no caso da
ALCA, sobre os trabalhadores de todo o continente americano, a possibilidade
de perder direitos trabalhistas com as mudanças neoliberais
(ver neste texto sobre Neoliberalismo e Estado). Essa organização intensifica
a circulação de capital – da extração da mais-valia, pois pode
se deslocar instalando fábricas nas regiões onde a mão-de-obra é mais
barata e com uma organização sindical inexistente ou mais enfraquecida.
Essa circulação aumenta a exploração sobre os trabalhadores e a
transforma em uma exploração continental.
A globalização cria uma ilusão de que vivemos a era de um progresso
sem limites, e esconde assim a sua forma exploratória (o aumento
da exploração do trabalho, com as empresas circulando, se
instalando e desinstalando sem se preocupar com o ônus social) e destrutiva
(ao estabelecer junto com as políticas neoliberais uma forma de
retirar dos trabalhadores a seguridade que as leis trabalhistas proporcionam).
Em 2002, foi realizado no Brasil um plebiscito sobre a ALCA.
Você teve conhecimento do seu resultado? Pesquise em sites relacionados
com o movimento social e popular sobre este resultado e reflita
sobre o que os brasileiros pensam sobre esta questão.
FIQUE DE OLHO
Já leu nos jornais sobre migrantes ilegais tentando entrar nos países buscando melhores condições de
vida; isto ocorre com brasileiros e mexicanos tentando entrar nos EUA, com bolivianos tentando entrar no
Brasil, chineses e africanos tentando entrar na Europa. Em relação a isso, duas questões são importantes
para que possamos pensar: por que não conseguem ficar no seu país? O que ocorre nos países de origem
que os impede de ficar e trabalhar, ter família, estudar, ter acesso ao lazer? A outra questão é como estas
pessoas são tratadas nestes países em que tentam entrar? Essa situação só tem se agravado com o processo
de globalização em que, como diz o pensador citado acima, Robert Kurz, neste processo os trabalhadores,
em todas os lugares do mundo, vêm perdendo. Acompanhe as notícias sobre essas migrações
e não esqueça que todos somos seres humanos e devemos ser tratados com respeito.
Pesquise sobre as seguintes questões relativas ao Mercosul:
Quais os produtos que são comercializados entre estes países.
Se existem taxas, e qual é o valor aproximado, para a entrada de produtos dos países do Mercosul
e no Brasil.
=
=
pesquisa
177
Sociologia
Globalização
A organização do trabalho
Entre os anos do pós-guerra (Segunda Guerra Mundial e os anos 70)
a organização do trabalho na fábrica estava baseada nas idéias de J. Ford
(1863-1947) e F. Taylor (1856-1915). Ford era dono da fábrica norte-americana
Ford e Taylor era um engenheiro que trabalhava na Fábrica Midvale
Steel Company. Eles foram os responsáveis, cada um a sua maneira,
por estabelecerem medidas para um controle sobre os trabalhadores,
no cotidiano da fábrica. A compreensão de Henry Ford, conhecida como
a proposta fordista, estava baseada na seguinte premissa: ”(...) para
um consumo em massa uma produção em massa (...)”. Para isso, a produção
deveria ser organizada de maneira a impedir desperdício de tempo
do operário na execução das tarefas. Para que isso ocorra o trabalho
deveria ser partido em várias funções e o trabalhador executaria somente
uma função. Para que haja continuidade entre estas tarefas parceladas,
criou-se uma esteira rolante, na qual os objetos vão sendo produzidos
na medida em que os trabalhadores executam a sua função um
ao lado do outro. Para que não ocorressem interrupções nesta “linha de
montagem”, Ford propôs a padronização das peças.
Já as idéias de Frederick Taylor, conhecida como a proposta taylorista,
estavam baseadas nas seguintes questões, em que deveria haver:
a separação entre quem planeja a atividade de produção de um objeto
e quem de fato vai executá-la;
um processo de seleção de operários que sejam adequados para o
trabalho, sem que tenham um perfil rebelde, capaz de questionar
as regras na seleção dos trabalhadores;
um controle sobre o tempo e sobre o movimento que o trabalhador
leva para executar uma atividade. Esse controle deveria ser realizado
pela chefia utilizando um cronômetro, medindo a ação deste
operário.
z
=
=
=
< Linha de montagem
< Foto: João Urban
178
Ensino Médio
Trabalho, Produção e Classes Sociais
Essas idéias já estavam sendo aplicadas na Ford, no início do século
XX. Mas é somente com o pós-guerra que há uma disseminação desse
sistema pelo mundo, atingindo até as fábrica rivais da Ford como a
General Motors e a Chrysler. (GOUNET, T. 2002).
Assim, uma questão deve ser respondida: como é que foram produzidos
os carros a partir da crise que afetou a produção capitalista mundial?
Para responder a essa questão veja o que se segue:
Os anos 70 foram marcados pela crise do petróleo (1973) o que impulsionou
a crise de superprodução e uma mudança na forma de organização
da produção, e na intensificação do processo de globalização
da economia. As mudanças na forma de organização da produção
significaram um reordenamento das funções cotidianas nas fábricas e
a utilização de novas tecnologias – acelerando a utilização da robótica
na linha de montagem. A indústria automobilística foi a primeira a
passar por essas mudanças.
Veja que na organização fordista a produção ocorreu primeiro nas
fábricas de automóveis e depois se dissemina pela sociedade; isso
ocorre pelo complexo industrial e de serviços que estão ao longo da
cadeia produtiva da indústria automobilística que é muito extenso e
atinge a produção industrial como um todo. A produção do aço, do vidro,
das borrachas e outras fibras, tintas, estofamento, peças e acessórios,
propaganda, financiamentos, pontos de venda e revenda, postos
de combustíveis, enfim, uma amplitude que atinge todas as esferas da
economia da sociedade.
< Foto; João Urban
179
Sociologia
Globalização
Essas mudanças possibilitaram que uma outra forma de organização
da produção, mais enxuta, que produzia de acordo com a demanda
do mercado, passasse a ser utilizada como uma das saídas para resolver
a crise da sociedade na esfera produtiva. É o padrão toyotista
que tem origem na fábrica japonesa Toyota, nos anos 50, e se diferencia
do Fordismo nos seguintes aspectos:
enquanto o fordismo produzia em massa; o toyotismo produzia na
medida em que ocorre uma procura por determinado modelo de
automóvel;
o trabalho parcelar e individualizado passa a conviver com o trabalho
em equipe, em que as máquinas vão sendo utilizadas pelo grupo
de trabalhadores responsáveis que vão operando várias máquinas.
Essa característica intensifica um processo de convencimento
do trabalhador, quando das mais diversas formas – reuniões, jornais
internos, premiações – ele é instigado a “vestir a camisa da empresa”,
e passa a achar que faz parte de uma equipe e que é capaz
de participar efetivamente do processo. Esse convencimento
não aponta que as decisões sobre o que vai ser produzido, quem
vai ser demitido, em qual região do mundo a fábrica vai se instalar,
não passa pelo seu crivo;
o trabalho deixa de ser especializado em uma única tarefa e passa
a ser feito por um operador preparado para realizar mais de uma
função dentro do processo produtivo;
o planejamento da produção é adequado à demanda e a produção
de mais de um modelo e automóvel pode ser realizada na mesma
fábrica, o que é diferente do fordismo, quando se produz somente
um modelo de automóvel.
=
=
=
=
< Foto: Nego Miranda
180
Ensino Médio
Trabalho, Produção e Classes Sociais
FIQUE DE OLHO
A diminuição de funções e a utilização de máquinas mais sofisticadas têm
diminuído a oferta de emprego com carteira assinada e, assim, aumentado
o número de pessoas trabalhando sem carteira assinada. Se o Estado diminui
a fiscalização sobre o que ocorre na sociedade, como uma das propostas
Neoliberais, cada vez mais vamos ter pessoas trabalhando sem garantia
de direitos. Estes direitos não podem ser vistos como privilégios de alguns,
mas como uma conquista que deve ser estendida e ampliada para todos os
trabalhadores.
Mas fundamentalmente, o toyotismo permite que a fábrica funcione
comum número menor de funcionários ao ser comparada com o fordismo,
já que é possível que um operário realize mais de uma função. Na
Toyota, por exemplo, um operário pode operar mais de cinco máquinas
e ao atuar com outros operários, passa a realizar funções que antes eram
da chefia. Isso diminui as funções, possibilitando um “enxugamento” no
processo produtivo. (GOUNET, 2002).
Neste processo de desenvolvimento do capitalismo, a globalização
assume uma dinâmica interessante quando há o encontro entre o que é
global, e o que é local. Neste caso, em muitos lugares temos a tradição
se defrontando com uma dinâmica que modifica as características ou
que as remodelam. A instalação das montadoras de automóveis na região
metropolitana de Curitiba são um exemplo de relação global e local.
Elas se instalam e há um conjunto de mudanças na região que modificam
hábitos e costumes, como a busca intensa dos trabalhadores da
região de realizarem cursos que os habilitem ao trabalho nestas fábricas.
Por isso, nesta região, aumentaram as ofertas de cursos e faculdades voltados
à capacitação industrial, à informática e às línguas estrangeiras.
A sociedade capitalista é organizada a partir de leis, da ideologia,
das instituições, que vão se desenvolvendo na medida em que os seres
humanos vão atuando sobre elas e vice-versa. Como vivemos em
uma sociedade capitalista, estas leis estão determinadas pelos interesses
daqueles que dominam a sociedade: os capitalistas. Em contrapartida
existem aqueles que se organizam em movimentos sociais e que
estão contrários a esses interesses. Neste embate, entre quem domina
e quem é dominado, o Estado – uma instituições com muitas ramificações
– aparece para as pessoas como além deste conflito, como se
fosse um juiz.
Esta aparência reside na concepção disseminada na sociedade de
que o Estado é uma entidade acima dos seres humanos como se fosse
superior aos interesses das classes sociais. Mas ele não é, pois é administrado
por pessoas que representam os interesses dominantes, fi-
Os governos são formados
por pessoas que são
eleitas (existem governos não
eleitos como foram os sucessivos
governos militares entre
os anos de 1964 e 1984
no Brasil) para administrarem
o Estado com uma proposta
política. O Estado Moderno
surge durante os processos
revolucionários dos
séculos XVII e XVIII. Alvo de
polêmicas constantes dentro
do pensamento filosófico e
sociológico, vai-se consubstanciar
em um complexo de
leis, instituições, os três poderes
– legislativo, executivo
e judiciário – sendo também
representado pela idéia de
nação com um território com
fronteiras, idioma, moeda,e
cultura.
O governo não é o Estado;
ele é o conjunto de
propostas políticas que determinado
grupo de pessoas,
organizadas nos partidos
políticos, vai executar quando
está administrando o Estado.
As propostas políticas
são realizadas vias os programas
assistenciais, educacionais,
econômicos.
181
Sociologia
Globalização
cando para os dominados a tarefa de denunciar essa situação e tentar
mudar o Estado e a sociedade. Isso fica observável quando entendese
que esta ação aparece no Estado via políticas governamentais, isto
é, via governo.
A concepção de Estado demonstrada acima, como um conjunto de
instituições, é diferente da concepção Marxista (baseada nas idéias do
pensador Karl Marx) que entende o Estado como um aparelho, ou um
instrumento a serviço da dominação capitalista, formado por aparelhos
repressores e ideológicos.
Lendo o texto ao lado você observa duas idéias que são rivais sobre
o funcionamento da sociedade capitalista. É muito importante você
entender a existência destas duas concepções, e analisar que o Estado
é um conjunto complexo de instituições, mas que essas instituições
são administradas por pessoas, que vão representar os mais variados
interesses na sociedade. Sendo este um complexo de instituições, vamos
compreender que existe uma dinâmica no funcionamento do Estado
que vai variar na medida em que variam as pessoas e as propostas
que elas utilizam para governar.
Assim, entenda primeiro, que o Estado não é uma entidade que está
acima dos interesses dos seres humanos. E segundo que ele pode
ser modificado na medida em que as políticas adotadas impulsionam
mudanças no conjunto de instituições que o constituem, modificandoo.
Essas políticas têm como objetivo central, diminuir a influência do
Estado sobre a economia, a sociedade, a cultura. Como será que essas
políticas são compreendidas na atualidade do final do século XX e começo
do século XXI? Vejamos.
Segundo o historiador inglês Perry Anderson (1995), o Neoliberalismo
tem uma história que remonta os anos posteriores a Segunda
Guerra Mundial quando um grupo de pensadores neoliberais se organizou
e elaborou um conjunto de medidas, tais como: liberar o Estado
das questões sociais e coletivistas que segundo estes pensadores são
onerosas para os cofres públicos; liberar as fronteiras comerciais de taxas
que dificultassem as relações comerciais internacionais; controlar
a emissão da moeda; modificar as leis que controlam o Estado no que
diz respeito à Previdência, às leis trabalhistas, aos impostos, à propriedade
intelectual, às empresas e instituições públicas e a relação com o
movimento sindical; a estas modificações na lei damos o nome de Reforma
do Estado.
Estas idéias passaram a ser aplicadas nos países na década de 1970
e têm significado a diminuição da presença do Estado na sociedade,
na economia, na cultura. Essa diminuição vai encontrar na Reforma do
Estado a sua legitimação. Precisamos entender o que é a Reforma do
Estado: é uma mudança nas leis, que liberam ou diminuem a presença
do Estado na fiscalização das questões trabalhistas; no cuidado com a
escola e com a saúde pública; no cuidado com os aposentados; com a
infraestrutura – estradas, portos, aeroportos. A solução dada por aque-
Estado intervencionista:
(europeu)
“Partidos de Massas, sindicatos
fortes e rápido crescimento
eleitoral marcaram
este reformismo no Norte.
(...) Embora indústrias selecionadas
tenham sido
estatizadas em alguns países
(Grã-Bretanha e Áustria
foram os casos mais
significativos), a propriedade
pública não estava entre os
seus objetivos básicos.
A marca registrada da socialdemocracia
no Norte foi a
edificação de welfare
states, com pleno emprego e
amplos serviços sociais. As
formas e a abrangência destes
serviços variavam de país
para país, e os resultados
raramente se deviam apenas
a iniciativa socialdemocrata.”
(ANDERSON, 1996:10).
Estado neoliberal:
“O modelo inglês foi, ao mesmo
tempo, o pioneiro e o
mais puro. Os governos Tatcher
contraíram a emissão
monetária, elevaram a taxa
de juros, baixaram drasticamente
os impostos sobre os
rendimentos altos, aboliram
controles sobre fluxos financeiros,
criaram níveis de desemprego
massivos, aplastaram
greves, impuseram uma
nova legislação anti-sindical
e cortaram gastos sociais. E
finalmente(...) se lançaram
num amplo programa de privatização,
começando por
habitação pública e passando
em seguida a indústrias básicas
como o aço, a eletricidade,
o petróleo, o gás e a
água. (ANDERSON, 1995:12).
182
Ensino Médio
Trabalho, Produção e Classes Sociais
les que defendem o Neoliberalismo é a privatização dos órgãos e serviços
que estão sob a tutela do Estado.
O Neoliberalismo é uma retomada, no século XX e XXI, da proposta
liberal, defendida por John Locke (1632-1704), no século XVII. Locke,
pensador inglês afirma que os homens são livres e iguais entre si,
na medida em que não existe uma desigualdade natural. Tudo está ao
acesso de todos, não devendo nada regular o acesso aos bens. Assim,
operários e capitalistas como proprietários, cada um à sua maneira, de
qualidades diferentes podem trocá-las como se fosse uma troca entre
iguais, entre seres livres, não devendo o Estado se colocar entre eles.
No pensamento liberal, o trabalhador pode escolher entre trabalhar
para este ou para aquele patrão, de acordo com a sua conveniência,
pois ele é livre para escolher. É aqui que entra o pensamento marxista
para fazer a crítica a esta questão e desvendar o papel do Estado, como
representante dos interesses capitalistas.
Na grande maioria das vezes o trabalhador não pode escolher a tarefa,
o salário e muitas vezes para quem vai trabalhar. Há na sociedade
dividida em classes a hegemonia da classe dominante no controle
da organização do trabalho, do Estado, da economia, da cultura. Essa
hegemonia é a própria dominação que os capitalistas exercem sobre
os trabalhadores e sobre o conjunto da sociedade, o que impede que
os indivíduos possam escolher incondicionalmente para quem vão trabalhar.
As pessoas que trabalham já devem ter ouvido, quando pedem um
aumento de salário ou melhores condições de trabalho, que se não estiverem
satisfeitas, podem pedir a conta, pois existem pessoas que trabalhariam
por um salário menor. Essa pressão faz com que as pessoas
muitas vezes aceitem a imposição hegemônica do patrão.
< Foto: João Urban
183
Sociologia
Globalização
O Neoliberalismo, como uma reedição das idéias liberais, vêm modificando
a relação do Estado com a sociedade. Por exemplo, no Brasil
ocorreu a privatização de estradas com a cobrança de pedágio; do
Sistema Brasileiro de Telecomunicações; dos bancos estaduais, como o
Banestado (Banco do Estado do Paraná); da CSN, Companhia Siderúrgica
Nacional, empresa que produz aço para a indústria de bens duráveis
– como carros, eletrodomésticos.
Desta lista o que você concluiu? Já parou para pensar como ficará
a situação daqueles que não podem ter acesso ao serviço de telefonia,
luz, água, gás, escola, saúde, sem que o Estado financie e garanta
o acesso de todos às conquistas tecnológicas e sociais? São questões
importantes que envolvem a adoção por parte dos governos, das políticas
neoliberais, e que dizem respeito à sua existência.
FIQUE DE OLHO
Você tem conhecimento sobre a situação da saúde pública no Brasil?
Hospitais lotados, com pessoas morrendo nas filas sem atendimento, funcionários
com salários atrasados, lixo nos corredores. Daí alguns podem pensar,
então por que não vender, já que não consegue cuidar? Veja que a saúde já
está sendo vendida com a existência dos planos privados que cobram taxas
altíssimas e nem sempre atendem nas situações de risco de vida. Mas a pergunta
que devemos fazer é: e como ficam aqueles que não podem pagar?
Existem pessoas que fecham os olhos para isto porque conseguem pagar
planos caros e não se importam com o que ocorre com os outros indivíduos.
Será que esta atitude corresponde a uma atitude humanista e solidária?
Existe uma questão muito importante nesta
discussão de globalização e neoliberalismo. Não
podemos ficar com “raiva” do que é estrangeiro
e passarmos a praticar atos preconceituosos, atos
de xenofobia – preconceito contra os estrangeiros.
O problema central é que a globalização e
o neoliberalismo passaram a ser mundiais e atingem
os trabalhadores e as populações mais pobres
do mundo todo. As manifestações contra a
globalização apontam, como está nos textos jornalísticos
do começo deste “Folhas”, para ações
globais na defesa dos mais pobres, dos trabalhadores,
contra o trabalho infantil, contra o tráfico
de crianças e mulheres, contra a prostituição infantil
em todo o mundo. Você sabia, por exemplo,
que existem os homeless (sem casa ou semteto)
nos países europeus e nos EUA?
A globalização também significou o aumento
das contradições do capitalismo em todos
os países (essas contradições são os pro-
Caminhada contra a ALCA II Fórum Social. Diponível em: http://www.mst.
org.br/multimidia/gfotos/II%20FSM/2forum1.htm
<
184
Ensino Médio
Trabalho, Produção e Classes Sociais
Os movimentos anti-globalização
Os primeiros anos do século XXI são palco para um conjunto de
manifestações que possuem várias reivindicações, mas com uma característica
que as unifica: são globais. Ocorrem às vezes em épocas distintas,
em vários países, principalmente como uma resposta às reuniões
do G-8, da OMC e de outros fóruns de discussão internacional do
capitalismo que reúnem somente os representantes dos governos.
O Fórum Social Mundial que se reuniu quatro vezes em Porto Alegre,
no Brasil e uma vez em Mumbai, na Índia, é também uma resposta
dos setores populares e organizados contra a globalização hegemonizada
pelos interesses norte-americanos, que têm no Banco Mundial
e no FMI os seus representantes.
São movimentos contrários à política econômica do G-8, que é hegemônica.
Mesmo sem ter uma unidade e muitas vezes sem ter uma articulação
das propostas vão desenvolvendo suas reivindicações. É a união
daqueles que são contra uma globalização desumana e um Estado neoliberal
privatizador. Questões importantes fazem parte das discussões
destes que são contra a globalização. Desde a polêmica dos transgênicos,
do aquecimento global, dos direitos dos povos pobres, contra a
fome no mundo, pelos direitos dos pequenos agricultores, contra a dívida
externa dos países pobres. Enfim, um conjunto indistinto de manifestações
e reivindicações por uma globalização dos explorados e dominados,
contra a globalização do capital.
z
blemas básicos que a humanidade ainda não resolveu para todos como
moradia, comida, segurança, vestuário, educação, saúde); o que pode
significar em contra partida um crescimento da solidariedade mundial.
Sobre essa questão veja sobre o Fórum Social Mundial na última parte
deste “Folhas”.
Pesquise em jornais e revistas quais são as reivindicações dos grupos que fazem parte das manifestações
antiglobalização e identifique aqueles que têm como proposta serem contrários aos rumos da
globalização capitalista, que foram tratados neste texto: a abertura de mercado, as mudanças na organização
do trabalho e o neoliberalismo.
pesquisa
185
Sociologia
Globalização
Siglas
FMI: FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL: criado em 1946 pelo acordo
de Bretoons Wood, tinha como finalidade coordenar as relações financeiras
entre os países; o desenvolvimento das políticas ficou sob a hegemonia
norte-americana, na medida em que os EUA passavam a liderar o
mundo capitalista no pós-guerra.
BANCO MUNDIAL: criado em 1945 pelo acordo de Bretoons Wood, tinha
como finalidade no pós-guerra coordenar as relações financeiras
entre os países. o desenvolvimento das políticas ficou sob a hegemonia
norte-americana, na medida em que os EUA passavam a liderar o
mundo capitalista no pós-guerra.
G–8: A cúpula do G-8 (Grupo dos Oito) é uma reunião anual que
conta com a participação dos governos dos sete países mais ricos do
mundo (G-7), formado por EUA, Japão, Alemanha, França, Reino Unido,
Itália e Canadá, e da Rússia. Suas reuniões tratam de questões relativas
à globalização.
OMC: Organização Mundial do Comércio. Suas reuniões tratam de
questões relativas ao comércio entre os grandes grupos empresariais
no mundo todo.
MERCOSUL (Mercado Comum do Sul): foi criado em 1991, são membros:
Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela.
NAFTA (TRATADO DE LIVRE COMÉRCIO DAS AMÉRICAS): (North America
Free Trade Agreement) O NAFTA foi iniciado em 1988, são paísesmembros
do NAFTA: Estados Unidos, Canadá e México.
ALCA (ÁREA DE LIVRE COMÉRCIO DAS AMÉRICAS): proposta dos EUA de
um novo acordo comercial e industrial compreenderia América do Norte,
Sul, Central, alvo de negociações, sem acordo entre os países, principalmente
da América Latina que resistem à sua implementação.
FÓRUM SOCIAL MUNDIAL: um espaço organizado de discussões dos setores
populares apoiados por sindicatos, ongs, governos populares, associações
profissionais e que discutem propostas diferentes das feitas pelo G-8.
“(...) É um espaço de debate democrático de idéias, aprofundamento
da reflexão, formulação de propostas, troca de experiências e articulação
de movimentos sociais, redes, ongs e outras organizações da
sociedade civil que se opõem ao neoliberalismo e ao domínio do mundo
pelo capital e por qualquer forma de imperialismo. O Fórum Social
Mundial se caracteriza também pela pluralidade e pela diversidade, tendo
um caráter não-confessional, não governamental e não-partidário.
Ele se propõe a facilitar a articulação, de forma descentralizada e em rede,
de entidades e movimentos engajados em ações concretas, do nível
local ao internacional, pela construção de um outro mundo, mas não
pretende ser uma instância representativa da sociedade civil mundial.
O Fórum Social Mundial não é uma entidade nem uma organização”
(www.forumsocial.org.br).
z
186
Ensino Médio
Trabalho, Produção e Classes Sociais
Referências:
ANDERSON, P. Um mapa da esquerda na Europa Ocidental. Rio de Janeiro:
Contraponto, 1996.
_____________. Balanço do Neoliberalismo In: Sader, E. e GENTILI, P. Pósneoliberalismo:
as políticas sociais e o Estado Democrático. São Paulo: Paz
e Terra, 1995.
GOUNET, T. Fordismo e Toyotismo na civilização do automóvel. São Paulo:
Bomtempo Editorial, 2002.
HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1994.
HOBSBAWN, E. A era dos extremos: o breve século XX (1914-1991). São
Paulo: Companhia das Letras, 1995.
IANNI, Octavio. Neoliberalismo e neosocialismo. IN: IANNI, Octavio. A era do
globalismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.
KURZ, R. Os últimos combates. Petrópolis: Vozes, 1997.
_________. O colapso da modernização: da derrocada do socialismo de caserna
à crise da economia mundial. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
SANTOS, B. de S. Dilemas de nosso tempo: globalização, multiculturalismo
e conhecimento. Revista Educação e Realidade. nº 26 (1) 13-32. jan/jul.,
2001.
Sites
www.forumsocial.org.br
z
z
187
Sociologia
Globalização
ANOTAÇÕES
188
Ensino Médio
Poder, Política e Ideologia
esde que homens e mulheres passaram a viver em grupos
e a trabalhar coletivamente, várias formas de organização
social foram se configurando, sendo que uma
das mais recentes e que permanece até hoje em várias
sociedades, chama-se Estado.
Mas, por que isso aconteceu? Se retornarmos aos filósofos que realizaram
as primeiras análises acerca do Estado, iremos perceber que
esses chegaram a algumas conclusões, mas principalmente a uma, que
fala da necessidade que os homens têm, como um todo, quando vivem
em sociedade, de estar sob a responsabilidade de uma instância ordenadora,
que lhes dê o direcionamento de determinadas decisões, quer
dizer, o que aponta a dificuldade dos homens e mulheres em viverem
coletivamente em “estado de natureza”.
Assim, o Estado se consolidou como uma instituição que no decorrer
do desenvolvimento das sociedades, apresentou características as
mais distintas, que foram desde o poder de um único homem, até o
Estado que buscava representar a coletividade.
A partir do início do desenvolvimento do capitalismo, temos a formação
dos Estados Nacionais Modernos, os quais são caracterizados por
mecanismos políticos que facilitam o governo de determinado grupo sobre
determinado território. Esses mecanismos baseiam-se em sistemas
de leis e regras sociais, mas principalmente na capacidade do governo
de usar a “força” com a finalidade de implementar suas políticas.
Essa capacidade de atingir objetivos (com o uso da força), inclusive
diante de fortes resistências, chama-se poder. O poder, para ser efetivado
(bem -sucedido em seus objetivos) faz uso do que conhecemos
como ideologia.
A ideologia pode ser definida como o conjunto de idéias ou como
a “visão de mundo” de um grupo (ou classe social) que se impõe, ou
procura se impor sobre outro.
I
n
t
r
o
d
u
ç
ã
o
189
Sociologia
Todos desejam estar bem, viver bem, enfim ser felizes! É isto que
ouvimos continuamente, principalmente dos meios de comunicação –
nos comerciais de TV, nas músicas, nos filmes, etc... Mas o que significa
esta “felicidade” propagada pela mídia? Significa consumir, ou seja,
ser proprietário de um carro maravilhoso, do último modelo de celular,
freqüentar lugares badalados da moda...
As conseqüências desse tipo de raciocínio nos levam a uma busca
desenfreada por produtos e por um modelo de vida quase inatingível!
Trata-se de uma corrida sem ponto de chegada, e na qual descobrimos
que esta “felicidade” que se compra, caberá a apenas alguns. E como
ficam os milhões de seres humanos que morrem de fome e de epidemias,
que nunca freqüentaram uma escola, que vivem nas ruas ou na
beira das estradas? Qual o significado da felicidade para estas pessoas?
É muito provável que seja um prato de comida.
O que nos leva a desenvolver este pensamento individualista? A
acreditar que o sucesso e a felicidade dependem unicamente do esforço
de cada um? A ignorar que vivemos numa sociedade na qual as
oportunidades não são colocadas igualitariamente...
O primeiro “Folhas” aqui apresentado discute como a sociedade
capitalista vai sendo mantida mesmo com todos os problemas que ela
possui. A Sociologia novamente vai contribuir para demonstrar como
ocorrem as dinâmicas dentro do capitalismo. Ela explica como a ideologia
vai disseminar um conjunto de normas e idéias que vão reproduzindo
as relações que homens e mulheres estabelecem quando buscam
resolver suas necessidades de sobrevivência.
No segundo “Folhas” você estudará o por quê e como o Estado foi
sendo organizado, algumas de suas formas e tipos de governo, bem
como o seu desenvolvimento em alguns países. Verá, também como as
populações, de acordo com algumas ideologias, foram se organizando
e mudaram os rumos dos governos de seus países. Diante disso, fica o
desafio para podermos pensar o Brasil.
Introdução
11
IDEOLOGIA
desta ou daquela maneira, quando
estamos na escola, no trabalho, nas
festas familiares? Ou por que você se
veste deste ou daquele modo e por que
quer comprar um celular ou um tênis novos
que você viu na televisão?
1Colégio Estadual Professor José Guimarães – Curitiba - PR
192
Ensino Médio
Poder, Política e Ideologia
As propagandas que aparecem na TV, nos jornais e nas revistas
mostram imagens bonitas com a intenção de cativar o telespectador.
Elas podem ser da seguinte forma: a imagem representa uma paisagem
bonita, que pode ser uma praia, estrada de terra, deserto, cidade – e
o automóvel é dirigido por pessoas sorridentes e felizes, vivendo situações
surpreendentes. Ou ainda em um ambiente animado, cheio de
jovens, sorridentes, dançando, todos com um celular sofisticado com
novas funções. E assim elas encantam as pessoas, pois as propagandas
têm a tarefa de cativar para vender o produto e estimular um comportamento
que é característico da sociedade capitalista: o consumismo.
Esse comportamento aparece como máximo que todos – jovens, adultos,
idosos, crianças e adolescentes devem seguir ao criar necessidades
que estão além daquelas que são básicas – comer, ter acesso à água potável,
moradia segura, educação, lazer, saúde e transporte.
Assim, as propagandas, os programas televisivos, os filmes e as novelas
passam a idéia de que com a posse de objetos – celulares, tênis,
roupas, mochilas, bonés, chaveiros, cosméticos, acessórios, eletrodomésticos
– todos terão uma satisfação imediata e universal. Como
se o fato de consumir fosse suficiente para garantia de uma vida plena
e feliz.
Para compreender melhor, observe o quanto existe de consumismo
na sua ação e da sua família, realizando o exercício abaixo.
Faça uma lista de objetos consumidos por você e sua família durante um mês separando aquilo que
é necessário para você daquilo que é considerado supérfluo. Depois, observe se o que está na lista do
que é necessário é realmente essencial, pois consideramos básico dentro deste texto aquilo que garante
a nossa existência: comida, água, moradia, lazer, saúde, transporte e conhecimento. Compare e reflita
na seguinte ordem:
consumo necessário > consumo supérfluo > consumo básico.
Este é o ponto de partida neste texto, para entender a ideologia em uma de suas formas aparentes
– o consumo – que vai moldando o comportamento das pessoas dando à ação humana uma direção
que tem como objetivo a posse dos objetos. Observe ainda que nas propagandas essa posse aparece
como se estivesse ao alcance de todas as pessoas. Como vivemos na sociedade capitalista, sabemos
que ela é uma sociedade desigual – dividida em classes sociais – e que essa desigualdade marca qualquer
acesso à propriedade de objetos particulares como a propriedade dos meios sociais de produção.
Mas, nas propagandas há uma inversão dessa realidade. Vamos refletir sobre essas questões buscando
no pensamento teórico da Sociologia um apoio para desvendarmos a ideologia camuflada.
PESQUISA
193
Sociologia
Ideologia
Leia os trechos das músicas e indique qual é a crítica ao consumismo que está na mensagem de
cada uma delas:
ATIVIDADE
A ideologia e a dominação capitalista
O pensador alemão Karl Marx (1818-1883) afirmou que a ideologia
dominante será aquela advinda da classe que domina a sociedade,
ela representará, então, as idéias, a forma de pensar e explicar o
mundo provenientes desta mesma classe. Essas afirmações encontramos
na obra A Ideologia Alemã escrita em 1845-1846, “As idéias (...) da
classe dominante são, em cada época, as idéias dominantes; isto é, a
classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo
tempo, sua força espiritual dominante” (MARX, 1996: 72). E essas idéias possuem
a característica de aparecerem para todos como universais e racionais
“(...) cada nova classe que toma o lugar da que dominava antes
dela é obrigada, para alcançar os fins a que se propõe, a apresentar
seus interesses como sendo o interesse comum de todos os membros
da sociedade, isto é, para expressar isso mesmo em termos ideais: é
obrigada a emprestar às suas idéias a forma de universalidade, a apresentá-
las como sendo as únicas racionais, as únicas universalmente válidas”
(MARX, 1996: 74).
z
Geração Coca- cola
Legião Urbana
Quando nascemos fomos programados
A receber o que vocês nos empurram
Com enlatados dos USA, de 9 às 6.
Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou a nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês...
Televisão
Titãs
A televisão me deixou burro,
muito burro demais
Agora todas coisas que eu penso me parecem iguais
O sorvete me deixou gripado
pelo resto da vida
E agora toda noite quando deito
é boa noite querida
Ô cride, fala pra mãe
Que eu nunca li num livro que
um espirro
fosse um vírus sem cura
Vê se me entende pelo menos
uma vez, criatura!
194
Ensino Médio
Poder, Política e Ideologia
Para Marx, na sociedade capitalista a produção de objetos é a atividade
essencial, pois é com ela que a divisão em classes e a exploração
do trabalho ocorrem. Essa divisão impulsiona a classe dominante
em manter o controle sobre o conjunto da sociedade. Na análise que
Marx realiza sobre o capitalismo, que encontramos na obra O Capital,
de 1867, há uma crítica à forma como essas relações entre patrões e
empregados vão ocorrendo na sociedade.
Quando compramos alguma coisa não nos importamos em saber
em quais condições de trabalho e com qual salário aquele objeto foi
produzido. Por exemplo, se você está com frio e tem que comprar uma
blusa, vai se preocupar com a utilidade que ela terá para você. Não
se preocupará com as condições de trabalho dos operários da indústria
têxtil.
A propaganda irá atuar sobre você e o consumo ocorrerá via esta
ação misteriosa e mágica que revela somente a utilidade do produto.
Isso ocorre com qualquer objeto produzido no capitalismo, pois todos
eles podem ser igualados. Veja: se as horas gastas para produzir a
sua blusa forem igualadas às horas para produzir um CD, eles vão ter o
mesmo preço. É por isto que muitas vezes um CD custa o mesmo que
uma lata de ervilha. Quanto menos tempo leva, dentro da jornada, para
produzir um objeto, mais lucro tem o capitalista, que com uma determinada
produção paga os gastos que tem com o trabalhador. Essa
igualdade de horas trabalhadas vai equiparar as mercadorias e na hora
do consumo só vai importar o preço das coisas. Este é o caráter mágico
cheio de “argúcias teológicas” que Marx está indicando no seu texto
que vamos citar a seguir:
< Andy Warhol. 210 coca-cola bottles, 1962, o/c 82,5 x 105”. Private Collection – NY.
195
Sociologia
Ideologia
Nesta obra, O Capital, Marx, demonstra o Valor de todo e qualquer
objeto que no capitalismo possui a forma de Mercadoria. Estes objetos
vão possuir uma utilidade, que está localizada no consumo, e algo
mais que está localizado na hora que a blusa, no caso do exemplo, for
produzida. Analisar e desvendar o processo produtivo e a organização
da sociedade foi a sua intenção.
Ao consumirmos somos influenciados pela necessidade e utilidade
– básica ou supérflua – que temos de possuir determinado objeto. Em
geral, não nos preocupamos em compreender o que ocorre com a realidade
do trabalhador e seu modo de vida. Assim, o valor de uso, a
utilidade possui uma força ao despertar a nossa atenção para o consumo.
Então a Mercadoria possui um VALOR DE USO que é a utilidade do
produto, o que nos leva a consumi-lo para suprir essa necessidade.
Já o que Marx chamou de VALOR é o processo de fabricação deste
objeto (no caso do exemplo, a blusa), que tem um lugar determinado,
na fábrica, quando durante a jornada de trabalho, ocorre o processo
de exploração do trabalho no capitalismo. Vejamos, no exemplo
a seguir:
Quando um(a) trabalhador(a) é contratado por uma determinada
jornada de trabalho de 8 horas diárias, estamos considerando, que
dentro desta jornada, existem três momentos:
1. Uma primeira parcela em que com duas horas de atividade em que
este trabalhador(a) executou a sua função, ele paga o seu salário.
2. Uma outra parcela, de duas horas em que a sua atividade paga os
custos da produção – matérias-prima, impostos, transporte do produto,
a compra de novas máquinas.
3. Uma terceira parcela de quatro horas em que este trabalhador continua
produzindo e estes produtos são o lucro ou um valor a mais
– MAIS-VALIA – que o proprietário da fábrica vai se apropriar.
Esse processo configura o que Marx chamou de essência da sociedade,
quando ocorre a produção de objetos, pois é neste momento
Mais-valia: São as horas
dentro da jornada de
trabalho – a de 8 horas do
exemplo acima – em que a
produção executada se reverte
para o capitalista na forma
de lucro. Ela pode ser relativa
– quando estas horas
aumentam de acordo com o
desenvolvimento do processo
de automação; e pode ser
absoluta: quando as horas
de trabalho excedem a jornada.
“A primeira vista, a mercadoria parece ser coisa trivial, imediatamente
compreensível. Analisando-a, vê-se que ela é algo muito estranho, cheio de
sutilezas metafísicas e argúcias teológicas. Como valor de uso, nada há de
misterioso nela, quer a observemos sob o aspecto que se destina a satisfazer
necessidades humanas, com suas propriedades, quer sob o ângulo de que
só adquire essas propriedades em conseqüência do trabalho humano. É evidente
que o ser humano, por sua atividade, modifica do modo que lhe é utíl
a forma dos elementos naturais. (...) A mercadoria é misteriosa simplesmente
por encobrir as caracterísiticas sociais do próprio trabalho dos homens, apresentando-
as como característica materiais e propriedades sociais inerentes
aos produtos do trabalho”. (MARX, K., 1994: 82).
196
Ensino Médio
Poder, Política e Ideologia
A ideologia e a normatização do cotidiano
Continuando a análise sobre a relação da ideologia com o cotidiano,
e considerando a reprodução e manutenção da sociedade como
um processo social, apresentamos o pensamento da filósofa Marilena
Chauí sobre esta questão:
“Como sabemos, a ideologia não é apenas a representação imaginária
do real para servir ao exercício da dominação em uma sociedade fundada
na luta de classes, como não é apenas a inversão imaginária do processo
histórico na qual as idéias ocupariam o lugar dos agentes históricos reais.
A ideologia, forma específica do imaginário social moderno, é a maneira necessária
pela qual os agentes sociais representam para si mesmos o aparecer
social, econômico e político, de tal sorte que essa aparência (que não
devemos simplesmente tomar como sinônimo de ilusão ou falsidade), por
ser o modo imediato e abstrato de manifestação do processo histórico, é
o ocultamento ou a dissimulação do real. Fundamentalmente, a ideologia é
um corpo sistemático de representações e de normas que nos “ensina” a
conhecer e a agir”. (CHAUÍ, 1997: 3-4).
Portanto, as nossas escolhas estão ligadas à ideologia que de acordo
com os interesses daqueles que dominam a sociedade, vai organizando
o mundo à nossa volta.
Ao observar cenas na televisão que mostram as pessoas andando
na rua indo para o trabalho em ônibus lotados, em caminhões precáz
que o trabalhador vai reproduzindo a sociedade ao aceitar as disposições
legais do seu contrato de trabalho e se submete à jornada nele estipulada.
Em outros momentos também ocorrem determinações sobre
os indivíduos quando vão estabelecendo uma ação de conformidade
frente à “dureza” que é o cotidiano da busca do emprego, de pagar as
contas, de ser atendido pelo médico, de poder ir ao cinema, enfim, resolver
as necessidades materiais – ter acesso à comida, à água potável, a
um abrigo seguro, ao conhecimento, e as necessidades subjetivas - sentimentos,
desejos, questionamentos, aspirações.
E na hora em que vive este cotidiano, ele vai sendo sugado pela
necessidade de garantir que as metas estabelecidas, no emprego sejam
cumpridas: prazos, cotas, produtividade que estão na fábrica, na loja,
no banco, na gráfica, no trabalho do cobrador e do motorista de ônibus.
No campo a realidade não é diferente, há a exigência de melhor
rentabilidade na colheita de tantos alqueires no dia, nas exigências de
colher tantas toneladas de cana no dia, enfim. Prazos são estabelecidos
e para garanti-los nós não pensamos muito, vamos fazendo, executando
e obedecendo, sem questionar.
197
Sociologia
Ideologia
rios, as filas e os grupos que se formam à volta de uma oferta de emprego
ou de vagas na colheita de algum produto, você já parou para
pensar porque isto ocorre? O que faz com que as pessoas todos os
dias, realizem esta busca cotidiana, incessantemente? Por que as pessoas
vão repetindo estas ações cotidianas? Há um conformismo nesta repetição?
O que pensar sobre isto nos indica?
Voltando ao ponto de partida do conceito vamos observar que ao
reafirmarmos a necessidade de fazermos “aquilo que se espera de nós”
vamos reproduzindo a sociedade. Esta reprodução está justamente no
que foi descrito acima quando as pessoas aceitam a situação sem questioná-
la. Mas, a responsabilidade deste conformismo não está nas pessoas
isoladamente, nos indivíduos. Está nas idéias contidas na ideologia,
que ao serem disseminadas na sociedade vão garantindo que a
aceitemos nos moldes em que ela está organizada. Fazemos isto porque
recebemos um conjunto de informações que vão atuar sobre a
nossa forma de pensar sobre o mundo, as pessoas e as coisas. Faça a
tarefa a seguir e analise sobre o papel da ideologia e a ação dos seres
humanos.
Descreva uma situação ou uma cena (em que) você se conformou com as limitações impostas – no
trabalho, na escola ou, na família ou na comunidade – e uma outra situação em que você não se conformou
e quebrou as “regras”. Reflita sobre isso, concluindo sobre o que é mais fácil: é conformar ou
se rebelar? Por quê?
ATIVIDADE
< Foto: Icone Audiovisual
198
Ensino Médio
Poder, Política e Ideologia
Após as conclusões da proposta de trabalho acima leia novamente
o que escreveu Marilena Chauí sobre a força da ideologia sobre as pessoas,
tendo em vista a pressão que ela exerce sobre o cotidiano:
“A sistematicidade e a coerência ideológicas nascem de uma determinação
muito precisa: o discurso ideológico é aquele que pretende coincidir
com as coisas, anular a diferença entre o pensar, o dizer e o ser e, destarte,
engendrar uma lógica da identificação que unifique pensamento, linguagem
e realidade para, através dessa lógica, obter a identificação de todos os sujeitos
sociais com uma imagem particular universalizada, isto é, a imagem
da classe dominante. Universalizando o particular pelo apagamento das diferenças
e contradições, a ideologia ganha coerência e força porque é um
discurso lacunar que não pode ser preenchido. Em outras palavras, a coerência
ideológica não é obtida malgrado as lacunas, mas, pelo contrário,
graças a elas. Porque jamais poderá dizer tudo até o fim, a ideologia é aquele
discurso no qual os termos ausentes garantem a suposta veracidade daquilo
que está explicitamente afirmado”. (CHAUÍ, 1997: 3-4).
Essas idéias universalizantes são dúbias e passam a concepção,
por exemplo, de que todos estão em condições iguais de competir,
o que é garantido pela Constituição Federal de 1988, mas ao mesmo
tempo demonstra que entre estes existem os mais “capazes” que vão
ter acesso ao emprego, a vaga na universidade, a ser campeão na gincana
da escola. Esse pensamento, ao dar primazia ao vencedor, cria
um preconceito, pois desconsidera aqueles que ficaram em segundo
lugar, em terceiro, em quarto, em último como se essas pessoas não
merecessem respeito. Não percebemos esta dubiedade quando incentivamos
e assistimos às competições entre as pessoas, entendendo
que o resultado que elas apresentam é a verdade absoluta.
E esta verdade passa a ser uma idéia universal de que os primeiros
são os mais capazes, o que incentiva um comportamento competitivo
entre as pessoas. Ao fazer isso, a ideologia cria uma ação preconceituosa
e individualista, pois muitos acham que é correto ser
assim, pois “eu fui o melhor”. Nada mais ilusório, já que há desigualdades
materiais (de classe) e de outros tipos também, como as de
gênero e etnia, que estão fora das “escolhas” dos indivíduos, e que
acabam tornando desiguais também, as oportunidades sociais das
pessoas.
O individualismo é uma ideologia que surge com o pensamento
liberal do século XVII, que tem John Locke como principal representante.
Essa concepção, naquela época, guindava o ser humano a uma
esfera de atuação que lhe era negada na Sociedade Feudal (século V
a XV), com a dominação da nobreza. Com a ascensão da burguesia
(século XVIII) e o seu controle do Estado e a disseminação e norma199
Sociologia
Ideologia
tização das suas idéias na sociedade, a concepção de Indivíduo como
aquele capaz de agir, deixa de ser inovadora passa a cristalizar no nosso
cotidiano, via os meios de comunicação, a idéia de que o melhor,
é o mais capaz e é aquele que deve ter acesso aos bens e seviços da
sociedade. Isso significa desenvolver um individualismo, que nos séculos
que se seguiram (XVIII ao XXI) aumentou com o consumo, pois
somente alguns podem consumir mais que os outros.
Muitas pessoas acham que isto está correto pois foi ele quem venceu
– a disputa pelo emprego, pela promoção, pela vaga na faculdade.
Vencer em uma sociedade de desiguais significa reprodução da sociedade,
pois se alguém venceu outros ficaram de fora. E se ficaram de
fora, permanece a desigualdade. Questionar essa realidade é importante
para percebermos como veremos adiante, neste texto, a quebra dos
padrões individualistas e conformistas vigentes.
Primeiro precisamos entender o processo de internalização que impulsiona
a ação cotidiana de ir ao trabalho, à escola, ao médico, aos
compromissos sociais, para depois entendermos o processo de rompimento
com a ideologia.
O processo de internalização
e a condição humana
Sabemos que se faltarmos na escola, no trabalho, na consulta médica
vamos sofrer uma punição. Se não cumprirmos as regras de organização
da sociedade, a mesma vai atuando sobre nós na forma de
advertências, desemprego, perda da vaga, no caso das situações indicadas
acima. E existem outras situações, como chegar atrasado na prova
de um concurso e não podermos entrar mesmo que a responsabilidade
sobre o atraso não seja nossa. Ou melhor, imagine que você está
observando o pôr-do-sol e pensando sobre como esta cena é bonita;
ou pensando na sua vida – familiares, amigos, namorados e namoradas,
emprego, escola, futebol... enfim, tudo que diz respeito a você. O que
isso tem haver com a dominação e a reprodução na sociedade?
O seu pensamento não ocorreu sem você estar ligado à sociedade
em que vive. Você não começou a pensar naquele momento, pois tudo
que você sentiu não surgiu de repente. Você o trouxe consigo, pois realizou
a experiência de ser punido pelos códigos de conduta, e aprendeu
ao longo de sua vida o que significa ser punido de alguma forma.
Assim, você sabe quando está na hora de ir para o emprego, pois
se não for vai ser no mínimo repreendido, podendo até ser demitido.
Assim você se levanta e deixa de ver o nascer do Sol e vai para a empresa,
o banco, a loja, o mercado, a colheita, o armazém, o escritório
da cooperativa.
z
200
Ensino Médio
Poder, Política e Ideologia
Você já ouviu falar da trilogia do filme Matrix? Nessa trilogia, segundo
o enredo, as pessoas vivem em um mundo que a máquina criou.
Tudo que o ser humano é e deseja está nesta história, ligado a esta dominação.
Alguns personagens se revoltam contra esta situação e se organizam
para romper com ela. A frase a seguir está no primeiro filme
da trilogia: “Você vivia em um mundo de sonhos, Neo”. Ela, dentro da
história é o momento em que é demonstrado a um dos personagens, o
Neo, que o mundo em que ele vivia era criado pela máquina.
Já observou também, na televisão, as propagandas de carros que
mostram todos felizes, vivendo aventuras, satisfeitos e realizados com
a posse do automóvel? Ou ainda as propaganda de celulares (você têm
um?) em que a satisfação se realiza tendo em vista a posse de um celular
mais e mais sofisticado?
É como se vivessemos um outro mundo controlado por outras pessoas
e objetos, e que vamos aceitando como se ele fosse normal e universal.
Assistir ao filme Matrix e fazer um paralelo entre a situação colocada pelo filme e pelas propagandas,
assinalando sua conclusão. Elabore um texto em que você apresente as suas considerações sobre
o tema a partir do seguinte roteiro: a) descrição daquilo que assistiu; b) relacionar o filme com a propaganda;
c) relacioná-los com a realidade; d) dar a sua opinião no final do texto comparando todos os
outros itens com o seu cotidiano.
ATIVIDADE
Considerando que ideologia é este processo de identificação e
aceitação de um comportamento universalizado e ao mesmo tempo
individualizado você já pensou como é que de fato ela atua organizando
a vida cotidiana. Afinal, somos ou não somos livres para organizá-
la de acordo com a nossa vontade? Essa discussão envolve uma
reflexão muito interessante que é realizada dentro da Filosofia e que
diz respeito ao que os filósofos chamam de CONDIÇÃO HUMANA.
Veja no texto ao lado o que o filósofo Jean-Paul Sartre (1905 – 1980)
escreveu sobre a condição humana afirmando que na sua configuração
não existe natureza – condições naturais que não podem ser mudadas,
por exemplo, mesmo com toda a modificação tecnológica sobre
uma macieira, mudando o sabor, a casca, as sementes a macieira
sempre vai dar maçã) – e sim ação histórica – ação humana que modifica
continuadamente a realidade (desde a sua ação de acordar e ir
201
Sociologia
Ideologia
todos os dias para escola ou para o trabalho até ações que envolvem
conflitos sociais), e que portanto a indagação sobre o que somos passa
por entender que se somos históricos devemos compreender as contradições
ou os problemas que os seres humanos vivem ao longo da
história da humanidade.
Sendo assim, as pessoas não são conformistas porque querem livremente,
mas porque a existência de um complexo que atua sobre elas
vai conformando as suas ações e idéias. Este complexo, que é a ideologia
vai conservar o grupo que controla as decisões, como a classe
que domina a sociedade. Assim, há uma dominação ideológica, que se
desenvolve com a intenção de reproduzir a sociedade e fazer com que
as regras e o lugar que cada um ocupa – os que dominam e os dominados
– continue o mesmo, ou que as mudanças ocorram dentro do
controle daqueles que têm interesse em manter tudo como está.
“Além disso, se é impossível
achar em cada homem uma
essência universal que seria a
natureza humana, existe contudo
uma universalidade humana
de condição. Não é por
acaso que os pensadores de
hoje falam mais facilmente de
condição do homem que da
sua natureza. Por condição
entendem mais ou menos
distintamente o conjunto de
limites a priori que esboçam a
sua situação fundamental no
universo. As situações históricas
variam: o homem pode
nascer escravo numa sociedade
pagã ou senhor feudal
ou proletário. Mas o que não
varia é a necessidade para
ele de estar no mundo, de lutar,
de viver com outros e ser
mortal (....) E embora os projetos
possam ser diversos,
pelo menos nenhum me é inteiramente
estranho (...)” (Sartre,
1978:16).
A dominação ideológica
e o interesse do indivíduo
Mas este processo ideológico que atinge a todos os indivíduos,
transformando a nossa maneira de entender e pensar e, portanto agir,
não é somente um processo de dominação. É possível encontrar no
nosso dia-a-dia, manifestações de ruptura desta ideologia. Vejamos como
isso poderia ocorrer:
Imagine que você e seus amigos resolveram reivindicar mais luz e
infra-estrutura de lazer no seu bairro. Vocês vão ter que se organizar,
fazer abaixo assinado, entrar em contato com a prefeitura, exigir a presença
dos vereadores. Mas, o terreno que vocês estão pensando em
utilizar para construir uma praça com bancos, quadra, iluminação, palco
para apresentações, um galpão para reuniões é alvo de interesse de
uma construtora e de imobiliárias. Existem outros terrenos, mas para
vocês este é o melhor porque está localizado ao lado de um bosque
de mata nativa. E é por isso que a construtora está também interessada.
Vai construir um condomínio de luxo na região. Vejam só a disputa
que vai ser para convencer a prefeitura que o terreno deve ser destinado
para o lazer do bairro. Assim como vocês, a construtora vai se
organizar.
De um lado vocês e seus amigos e do outro a construtora. No meio
está o poder público, representado pela prefeitura. Será uma boa briga,
se vocês de fato tivessem interesse e disposição para organizar esta
luta. Então, não são somente os interesses daqueles que detêm o caz
202
Ensino Médio
Poder, Política e Ideologia
pital e o controle das decisões que vão se organizar e
se manifestar. Aqueles que não são proprietários do
capital, mas da sua força de trabalho – energia e conhecimento,
também vão ter os seus interesses expressos
nos embates dentro da sociedade. Não esqueça
que capital é a riqueza – fábricas, máquinas,
matéria-prima, prédios, ações – que é propriedade
do capitalista que deve ser constantemente
investida para gerar
mais capital.
Entenda e fique
atento para a questão
a seguir, que na sociedade
capitalista, o poder
público está a serviço
da classe dominante,
via seus representantes nos
governos. O governo de um
município é realizado por pessoas
que possuem identificações
políticas com as mais diferentes propostas
sobre como administrar e governar
uma cidade. Isso ocorre porque
nesta sociedade não existe neutralidade nas ações que as pessoas desenvolvem,
pois como a ação humana é uma ação histórica e política,
ela sempre vai representar os interesses das classes sociais, das mais
variadas formas, em meio aos confrontos entre a ideologia dominante
e os interesses dos dominados.
Assim, estes interesses – dos dominados – expressam-se das mais
variadas formas, sejam organizados nos sindicatos, nos partidos políticos
ligados às lutas democráticas e dos trabalhadores, sejam nos movimentos
sociais – feministas, negros, étnicos, estudantil, ecológicos,
do campo e da cidade, pelo direito ao emprego, à terra, por moradia
e por infra-estrutura básica.
Por exemplo, você já deve ter ouvido falar em greve! Este é um direito,
que no Brasil é assegurado por lei a partir de 1988 com a promulgação
da Constituição. Esse direito é exercido pelos trabalhadores
organizados nos seus sindicatos, nos momentos em que precisam pressionar
mais os seus empregadores – no meio rural e urbano, no setor
de serviços ou produtivo, no setor público ou no privado, no Brasil e
em muitos lugares do mundo.
Quando exercem este direito estão defendendo os seus interesses
por melhores salários e melhores condições de trabalho. Esses interes203
Sociologia
Ideologia
ses são diferentes dos seus empregadores, que no capitalismo, buscam
economizar com o trabalho e aumentar o capital. Esse modo de confrontação
ao ser exercida pelos trabalhadores na forma de greve faz
com que os seus interesses se contraponham aos dos empregadores.
Como vimos acima, aqueles que dominam a sociedade querem que
sejamos conformistas, que aceitemos as regras que a ideologia dissemina
na sociedade. Com a greve ou outra forma de contestação – manifestações,
passeatas, operações para diminuir o ritmo do trabalho,
faltas coletivas, denúncias na imprensa e no ministério público – os trabalhadores
abrem brechas na ideologia dominante, possibilitando que
outra forma de pensar e agir no cotidiano possa se desenvolver, o que
pode possibilitar que um questionamento sobre a organização da sociedade
ocorra.
Este desenvolvimento enfrentará a dominação ideológica pela ação
da classe dominante, que ao utilizar todos os meios de comunicação, o
aparato militar e disseminação de idéias, vai reforçar a ideologia predominante
de que as pessoas “são baderneiras, gostam de confusão e
querem prejudicar o país”.
1. Entrevistar duas pessoas que tenham participado de alguma greve, fazendo as seguintes perguntas:
a) Foi fácil tomar a decisão de entrar em greve?
b) Havia organização anterior – sindicato, Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA), comissão
sindical, de negociação e/ou outras ou ela começou com a necessidade de realizar a
greve?
c) Quais eram as reivindicações?
d) O que propunha o patrão?
e) Qual foi o resultado?
f) Se a organização para a greve continua ou se o sentimento de solidariedade e/ou amizade entre
os trabalhadores se desenvolveu e se ele permaneceu com o fim da greve.
2. Observar:
a) Se as reivindicações dos trabalhadores têm objetivos diferentes da proposta patronal;
b) A quem o resultado obtido favoreceu?
3. Escrever um relatório sobre as questões que foram analisadas com a entrevista e uma conclusão a
partir do item 2.
pesquisa
204
Ensino Médio
Poder, Política e Ideologia
Veja que deste modo muitas vezes essas lutas localizadas dentro da
sociedade podem assumir um caráter mais econômico, ou mais político
ou cultural ou social, enfim, o que é importante é saber que essas
lutas existem na medida em que as pessoas vão se deparando com
contradições, isto é com problemas não resolvidos da humanidade. Assim
há um embate entre a ideologia dominante e os interesses dos dominados.
Se buscarmos na história vamos encontrar muitos exemplos destas
situações como por exemplo:
A Revolução Francesa (1789) e a Revolução Russa (1917) são também
momentos históricos diferentes, mas que podem demonstrar
como os confrontos, de forma diferenciada pelo momento histórico
em que ocorreram, são elementos importantes para que possamos
entender este conflito entre a classe que domina a sociedade
e a classe dominada.
Os movimentos hippie, feminista e pelos direitos civis nos EUA,
nos anos 1960 são exemplos de lutas que realizam reivindicações
além das questões entre o trabalho e o capital – como liberdade de
expressão e de manifestação cultural, contra o machismo, o autoritarismo
patriarcal e contra o preconceito étnico.
Em fins dos anos 70 e início dos anos 80, no Brasil, houve um crescimento
da luta sindical. Esta atingiu o patamar de luta política ao
contribuir para o movimento democrático pelo fim da Ditadura Militar
(1964-1984).
=
=
=
Pesquisa: A Ideologia pode ter outros sentidos além do que foi apresentado neste Folhas. Ela pode,
por exemplo, referir-se a constituição de uma ciência que buscasse a gênese das idéias, procurando
desvendar como as mesmas foram sendo criadas e divulgadas na sociedade. (Destutt de Tracy).
Ela ainda pode ser entendida como uma “visão de mundo” mais geral e hegemônica, que domina em
certas conjunturas históricas por ser “coerente” com as demais estruturas sociais, o que poderia levar os
indivíduos a atuar-agir em determinadas direções. Ela: “organiza a ação pelo modo segundo o qual se
materializa nas relações, instituições e práticas sociais e informa todas as atividades individuais ou coletivas”.
(GRAMSCI, 1978, p.377).
Em um outro sentido, ela pode ser entendida também como a forma de compreender o mundo que
se baseia na aparência imediata dos fatos analisados, sem perceber a condição histórica-social- cultural
para produção dos mesmos. (Marx)
Baseado no que foi rapidamente apresentado acima, você deve ter percebido que, algumas vezes,
os conceitos trabalhados na Sociologia, têm significados diferentes. Vamos testar isto? Escolha uma das
possibilidades listadas acima e procure mais informações a seu respeito. Crie um pequeno texto onde
você irá comparar o conceito de Ideologia apresentado neste Folhas e o de sua pesquisa, apontando os
elementos que eles tenham em comum e os que os diferencia. Bom trabalho!
pesquisa
205
Sociologia
Ideologia
Referências:
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1985.
_________. O Manifesto comunista. URSS: Edições Progresso, 1987.
_________. Manuscritos econômicos-filosóficos. Lisboa: Edições 70, 1989.
_________. A ideologia alemã. São Paulo: Hucitec, 1996.
MANNHEIN, K. Ideologia e utopia. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.
SARTRE, J-P. O existencialismo é um humanismo. São Paulo: Abril Cultural.
1978.
ZIZEK, S. (org). Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 1999.
Filmes:
Matrix (EUA ,1999, Diretores: Andy Wachowski, Larry Wachowski )
Sarafina, o Som da Liberdade ( EUA, 1993, 116 min, direção: Darrel Roodt)
Hair ( EUA, 1979, 120 minutos, direção: Milos Formam)
A. Spartacus (EUA : 2004, 76 minutos, direção: Robert Dornhelm )
B.Spartacus (EUA : 1960 183 minutos Direção: Stanley Kubrick)
Viva Zapata! (EUA, 1952, direção: Elia Kazan)
Danton (França / Polônia, 1982, 130 minutos, direção: Andrzej Wajda
z
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12
FORMAÇÃO DO
ESTADO MODERNO
por que organizaram um meio de serem
controlados?
Tal como nós, muitas pessoas tentaram
responder à questão acima e escreveram
verdadeiros tratados a partir de seus estudos
e análises de sua sociedade e do momento
histórico em que viviam. Acompanhemos
algumas dessas respostas!
1Colégio Estadual Hasdrubal Bellegard – Curitiba - PR
208
Ensino Médio
Poder, política e ideologia
Comecemos por Nicolau Maquiavel (1469-1527) que viveu numa
sociedade italiana corrompida, dividida, sujeita às invasões externas.
Ele nos diz que os homens buscam uma organização de um poder capaz
de colocar freios em seus maus sentimentos e em seus desejos
mundanos. Assim sendo, o homem só tem um caminho: escolher uma
forma de governo capaz de controlar a maldade humana.
Afinal que tipo de governo seria esse? Segundo Maquiavel, somente
um príncipe seria capaz de organizar os homens numa sociedade onde
existisse o equilíbrio, sem maus desejos, educada, virtuosa e com instituições
estáveis. Quando chegasse a atingir esse tipo de sociedade, o
príncipe não precisaria mais governar pois os homens chegariam a um
ideal e poderiam mudar a forma de governo para a República pois os
homens seriam virtuosos e participariam ativamente.
Para o filósofo Thomas Hobbes (1588-1679), o homem, em seu “estado
de natureza”, acaba provocando conflitos com os outros, pois
vive competindo, desconfia de todos e vive buscando a glória. Essa
situação levou os homens a buscarem uma maneira de evitar esse
constante estado de guerra de todos contra todos.
E qual foi a saída? A saída foi fazer um contrato que assegurasse a
paz. Mas será que só isso resolveu a questão? Segundo Hobbes, não,
pois um papel assinado não garante a paz. É necessário que os homens
submetam sua vontade à vontade de um só homem que os mantenha
em respeito e sob leis. E quem seria esse homem? Que tipo de
organização seria necessária? Esse homem seria um rei que exerceria o
poder despoticamente e essa organização seria o Estado absolutista.
Mas o que é Estado absolutista e por que Hobbes nos dá essa resposta?
Bem, na sociedade dele, a Inglaterra, havia muitos conflitos entre
o poder real, absoluto, e o poder do Parlamento, que queria liberdade
política e econômica, e isso estava levando a muitas brigas. Além
do mais, o governo existe para que possamos viver em paz e o poder
do governante tem que ser ilimitado. Portanto, segundo Hobbes, ou o
poder é absoluto, centralizado e sem divisões ou continuamos a viver
na condição de guerra, de poderes que se enfrentam constantemente.
Já, para John Locke (1632-1704), a resposta à questão inicial é: os
homens concordaram, livremente, em organizar a sociedade com o
objetivo de preservar e consolidar ainda mais os direitos que possuíam
no “estado de natureza”. Que direitos são esses? O direito à vida,
à liberdade e aos bens, que Locke simplesmente chama de propriedade.
E como garantiriam isso? Por meio de um corpo de leis. A próxima
ação dos homens foi a de escolher a forma de governo a partir da
decisão da maioria.
Qual a forma de governo defendida por Locke? Aquela que for escolhida
pela maioria e que cumpra seu objetivo: conservar a propriedade.
Se isso não for cumprido e ainda o governo usar da força sem
amparo legal, o povo tem o legítimo direito de resistência à opressão
e à tirania.
209
Sociologia
Formação do Estado Moderno
Por que Locke defende o poder legítimo da população ir contra uma
forma de governo? Porque ele era contra o poder absoluto exercido em
sua sociedade, a inglesa. Essa é mais uma prova de que qualquer tipo de
governo, para ele, só é válido se for do consentimento do povo.
Vejamos mais uma resposta à nossa questão inicial. Ela nos é dada
por Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) que, em seu livro O Contrato
Social, nos diz que os homens fizeram uma escolha entre serem infinitamente
livres em seus impulsos, que podem aniquilar a “vida natural”
ou aceitarem as garantias de liberdade e de propriedade dadas pela
lei. É possível, então, ser livre mesmo a partir da criação de leis? Não
é algo esquisito, pois as leis não nos limitam? Segundo Rousseau não,
porque somos parte ativa e passiva nesse processo. Como assim? É o
seguinte: nós elaboramos as leis e ao mesmo tempo as obedecemos, o
que mostra ser possível a relação perfeita entre liberdade e a obediência.
Obedecer à lei escrita por nós mesmos é um ato de liberdade.
Para que a melhor escolha prevalecesse, foi necessário que todos
fizessem uso da razão e da liberdade, a fim de instituírem um contrato.
Essa é a primeira condição que dá legitimidade à vida política, uma
vez que todos estamos em pé de igualdade. A partir daí os homens fizeram
um contrato que inaugurou a organização de um Estado. E qual
a forma de governo defendida por Rousseau? Diferentemente dos outros
pensadores aqui apresentados, ele afirma que qualquer forma de
governo que se adote é secundária desde que ela esteja submetida ao
poder soberano do povo. O governo é, então, entendido como corpo
administrativo do Estado, sendo limitado pelo poder do povo. É nesse
sentido que, mesmo sob o regime monárquico, o poder do povo pode
ser soberano, se o monarca governar como funcionário do povo.
Diante dessas idéias, nos cabem algumas questões. Responda-as:
1. Pesquise o que significa “estado de natureza” para Hobbes e John Locke. É a mesma explicação de
“vida natural” para Rousseau? Faça uma comparação entre os significados encontrados.
2. Releia as idéias de Maquiavel, Hobbes, John Locke e Rousseau. Depois diga com qual delas você
concorda e não concorda, bem como o porquê.
3. Você é convocado a responder a questão: “Por que o homem, querendo ser livre organiza um meio
de ser controlado?” Como a responderia?
ATIVIDADE
E a problemática continua, mesmo que tenhamos conseguido entender
um pouco os motivos da organização do Estado. E qual seria,
então a melhor forma de organização desse Estado? Maquiavel defende
um governo centralizado na pessoa de um príncipe; Hobbes defende
210
Ensino Médio
Poder, política e ideologia
“Uma discussão célebre”
“Uma história das tipologias das formas de governo, como esta, pode ter início na discussão referida
por Heródoto, na sua História (...) entre três persas – Otanes, Megabises e Dario – sobre a melhor
forma de governo a adotar no seu país depois da morte de Cambises. O episódio, puramente imaginário,
teria ocorrido na segunda metade do século VI antes de Cristo, mas o narrador, Heródoto, escreve
no século seguinte. De qualquer forma, o que há de notável é o grau de desenvolvimento que já tinha
atingido o pensamento dos gregos sobre a política um século antes da grande sistematização teórica
de Platão e Aristóteles (no século IV). A passagem é verdadeiramente exemplar porque, como veremos,
cada uma das três personagens defende uma das três formas de governo que poderíamos denominar
de “clássicas” (...). Essas três formas são: o governo de muitos, de poucos e de um só, ou seja,
“democracia”, “aristocracia” e “monarquia”, embora naquela passagem não encontremos ainda todos
os termos com que essas três modalidades de governo foram consignadas à tradição que permanece
viva até nossos dias.
(...) Otanes propôs entregar o poder ao povo (...) argumentando assim: ‘Minha opinião é que nenhum
de nós deve ser feito monarca, o que seria penoso e injusto. Vimos até que ponto chegou a prepotência
de Cambises, e sofremos depois a dos magos. De qualquer forma poderia não ser irregular
o governo monárquico se o monarca pode fazer o que quiser, se não é responsável perante nenhuma
instância? Conferindo tal poder, a monarquia afasta do seu caminho normal até mesmo o melhor dos
homens. A posse de grandes riquezas gera nele a prepotência, e a inveja é desde o princípio parte de
sua natureza. Com esses dois defeitos, alimentará todas as malvadezas: cometerá de fato os atos mais
reprováveis, em alguns casos devido à prepotência, em outros à inveja. Poderia parecer razoável que o
monarca e tirano fosse um homem despido de inveja, já que possui tudo. Na verdade, porém, do modo
como trata os súditos demonstra bem o contrário: tem inveja dos poucos bons que permanecem,
compraz-se com os piores, está sempre atento às calúnias. O que há de mais vergonhoso é que, se
alguém lhe faz homenagens com medida, crê não ter sido bastante venerado; se alguém o venera em
excesso, se enraivece por ter sido adulado. Direi agora, porém, o que é mais grave: o monarca subverte
a autoridade dos pais, viola as mulheres, mata os cidadãos ao sabor dos seus caprichos.
O governo do povo, porém, merece o mais belo dos nomes, ‘isonomia’; não faz nada do que caracteriza
o comportamento do monarca. Os cargos públicos são distribuídos pela sorte; os magistrados
precisam prestar contas do exercício do poder; todas as decisões estão sujeitas ao voto popular.
Proponho, portanto, rejeitarmos a monarquia, elevando o povo ao poder: o grande número faz com
que tudo seja possível’.
(...) Megabises, contudo, aconselhou a confiança no governo oligárquico: ‘Subscrevo o que disse
Otanes em defesa da abolição da monarquia; quanto à distribuição do poder ao povo, contudo, seu
conselho não é o mais sábio. A massa inepta é obtusa e prepotente; nisto nada se lhe compara. De nenhuma
forma deve tolerar que, para escapar da prepotência de um tirano, se caia sob a plebe desatinada.
Tudo o que faz, o tirano faz conscientemente; mas o povo não tem sequer a possibilidade de saa
monarquia absolutista; John Locke diz que a melhor forma é aquela
escolhida pelo povo; já Rousseau defende que a melhor forma de
governo é aquela em que, quem for escolhido para governar deve ser
funcionário do povo, que é soberano. Para entendermos melhor por
que existem essas opções de tipos de governo, leia atentamente a história
que se segue.
211
Sociologia
Formação do Estado Moderno
ber o que faz. Como poderia sabê-lo, se nunca aprendeu nada de bom e de útil, se não conhece nada
disso, mas arrasta indistintamente tudo o que encontra no seu caminho? Que os que querem mal aos
persas adotem o partido democrático; quanto a nós, entregaríamos o poder a um grupo de homens
escolhidos dentre os melhores – e estaríamos entre eles. É natural que as melhores decisões sejam tomadas
pelos que são melhores’.
(...) Em terceiro lugar, Dario manifestou sua opinião: ‘O que disse Megabises a respeito do governo
popular me parece justo, mas não o que disse sobre a oligarquia. Entre as três formas de governo, todas
elas consideradas no seu estado perfeito, isto é, entre a melhor democracia, a melhor oligarquia e
a melhor monarquia, afirmo que a monarquia é superior a todas. Nada poderia parecer melhor do que
um só homem – o melhor de todos; com seu discernimento, governaria o povo de modo irrepreensível;
como ninguém mais, saberia manter seus objetivos políticos a salvo dos adversários.
Numa oligarquia, é fácil que nasçam graves conflitos pessoais entre os que praticam a virtude pelo
bem público: todos querem ser o chefe, e fazer prevalecer sua opinião, chegando por isso a odiarse;
de onde surgem as facções, e delas os delitos. Os delitos levam à monarquia, o que prova que esta
é a melhor forma de governo.
Por outro lado, quando é o povo que governa, é impossível não haver corrupção na esfera dos negócios
públicos, a qual não provoca inimizades, mas sim sólidas alianças entre os malfeitores: os que
agem contra o bem comum fazem-no conspirando entre si. É o que acontece, até que alguém assume
a defesa do poder e põe fim às suas tramas, tomando-lhes o lugar na admiração popular, admirado
mais do que eles, torna-se monarca. Por isso, também a monarquia é a melhor forma de governo.
Em suma, para dizê-lo em poucas palavras: de onde nos veio a liberdade? Quem a deu? O povo,
uma oligarquia, ou um monarca? Sustento que, liberados por obra de um só homem, devemos manter
o regime monárquico e, além disso, conservar nossas boas instituições pátrias: não há nada melhor’.”
< (BOBBIO, 1985. p.39-41).
Vejamos: temos algumas respostas do porquê os homens organizaram a sociedade e o Estado. Vamos
trabalhar um pouco respondendo às questões abaixo.
1. Os três personagens da história “Uma discussão célebre”, Otanes, Megabises e Dario fazem, cada
um, a defesa de uma das formas de governo e criticam outra. Faça um quadro que mostre qual é
o tipo de governo defendido e criticado por cada um. Neste quadro anote os argumentos que eles
utilizam.
2. Com mais três colegas, elejam um tipo de governo para defenderem
e um outro para criticarem, isto é, dizerem porque apóiam
um e não o outro. Depois montem um tribunal onde apresentarão
a defesa e as críticas desses tipos de governo. Escolham
cinco colegas para serem os juizes que elaborarão o veredicto
final de cada tipo de governo.
ATIVIDADE
212
Ensino Médio
Poder, política e ideologia
“Em minha pessoa reside o poder soberano. Só a mim
pertence o poder legislativo, sem dependência e sem
partilha. A ordem pública emana de mim por inteiro, e os
direitos e interesses da nação estão unidos necessariamente
aos meus, e só repousam em minhas mãos.” (MICELI,
1987:52).
Tudo isso nos leva a pensarmos em nossas sociedades e em nossos
tipos de governo. Por que temos, no Brasil e nos E.U.A., a República
presidencialista? Por que na Inglaterra e na Espanha há a Monarquia
parlamentarista? Por que na França e na Itália há o Parlamentarismo?
Por que a experiência de alguns países, como, por exemplo, a França
e os E.U.A., é tida como modelo para os demais?
Para respondermos essas questões é necessária a pesquisa do processo
histórico de cada país a fim de entendermos as razões ou os motivos
de terem determinado certo tipo de governo. Vejamos a história
da França, mais exatamente o processo da Revolução Francesa, como
exercício de análise e compreensão.
Essa Revolução ocorreu em 1789 e desde então é cantada em verso
e prosa como modelo de revolução democrático-burguesa. Mas por
quê? É considerada modelo porque pode e deve servir de exemplo;
democrático porque ao lançar as palavras de ordem – liberdade, igualdade
e fraternidade – procurou assegurar o respeito aos direitos de cada
um; e burguesa porque, conforme mostrou a história, ajudou e ajuda
a deter propostas de mudanças mais efetivas.
Mas precisamos nos perguntar sobre a organização da sociedade
francesa às vésperas da revolução de 1789: Que tipo de sociedade era?
Quem a governava? Como a governava? Quem inspirou os ideais revolucionários?
Os revolucionários conseguiram atingir os objetivos propostos?
Para começar, pode-se dizer que, apesar dos historiadores colocarem
como período final do feudalismo o século XVI, havia ainda,
na França, alguns caracteres feudais que, teimosamente, insistiam em
manter-se vivos por mais tempo. Isso está longe de significar, entretanto,
que o sistema feudal se mantivesse dominante até o século XVIII,
pois, um capitalismo “agrário” vinha sendo introduzido muito antes
disso, a ponto de, no século XVIII, os tradicionais pagamentos aos senhores
serem bastante modestos quando comparados com os arrendamentos
capitalistas.
Politicamente, a sociedade francesa era governada pelos
reis que mantinham o poder centralizado em suas mãos a
ponto de Luis XV dizer ao Parlamento de Paris:
213
Sociologia
Formação do Estado Moderno
Veja você! O que diferencia os antigos reis absolutistas dos ditadores
de hoje não é a prepotência deles, mas a capacidade de dizer claramente
e em público, o que ia em suas cabeças!
Luis XV ignorava ou talvez fingia não saber que a monarquia estava
desacreditada, que os poderes locais, simbolizados pelos antigos
senhores feudais, não aceitavam a centralização da administração, que
os intendentes de justiça, de polícia e de finanças eram funcionários
poderosos, pois em suas mãos estava o controle das revoltas, do comércio,
da agricultura e da indústria, além de serem responsáveis pelo
recrutamento de soldados para o exército e da cobrança de impostos
antecipados à Coroa.
Além desses problemas internos, a França estava falida pois disputava,
com a Inglaterra, a Áustria e a Prússia, por exemplo, territórios
coloniais. No fundo era uma briga pela divisão do mundo e do controle
político e econômico a partir de interesses exclusivos.
Está dando para perceber como o tipo de governo implantado na
França vai construindo seu próprio fim? Então continuemos! Vejamos
agora como a sociedade francesa estava organizada internamente. Vamos
lembrar de uma perguntinha clássica que se faz quando estudamos
de 5ª à 8ª: Como estava organizada a sociedade francesa às vésperas
da revolução de 1789? Lembra a resposta? Vamos ajuda-lo! Ela
estava organizada em três grupos:
a) 1º Estado representado pelo clero que tinha privilégios políticos, judiciários
e fiscais, controlava 10% das terras de todo território francês e,
além disso, cobrava taxas de batismo, casamento, sepultura e a dízima.
Isso não quer dizer que todo o clero tinha esses privilégios. Somente o
alto clero, isto é, bispos e abades, tinha esses privilégios. Os que pertenciam
ao baixo clero, ou seja, os padres sem cargos, passavam dificuldades
tanto quanto a maioria da população francesa.
b) 2º Estado representado pela nobreza, aquela que detinha o poder
na Idade Média, também tinha muitos privilégios como: podiam
usar espada; tinham banco reservado nas igrejas; não pagavam impostos;
tinham o monopólio de acesso aos cargos superiores do
exército, da igreja e de serem juízes. Muitos ainda recebiam impostos
dos seus camponeses.
c) 3º Estado era composto pelos camponeses, artesãos, operários, pela
burguesia, fosse ela comercial, industrial ou financeira e pelos
profissionais liberais – médicos, juristas, literatos e professores. Para
grande parte desses que compunham o 3º Estado, especialmente
os camponeses, artesãos e operários, a situação não era nada boa.
Para piorar, uma grande seca, entre 1785 e 1789, provocou a elevação
dos preços dos principais produtos consumidos por eles. Isso
fez com que a fome se alastrasse ainda mais. Dá para perceber
o que andou acontecendo, não? Como conter camponeses, artesãos
e operários famintos e revoltosos?
214
Ensino Médio
Poder, política e ideologia
Aqui, para tentar responder quem inspirou os propósitos da revolução, retornemos aos nossos
pensadores, especialmente Locke e Rousseau que tentaram provar que os homens são os
principais responsáveis por seu destino. Analisemos assim: as necessidades práticas da burguesia
de aumentar seus lucros e a busca dos camponeses, artesãos e operários de acabar com
a fome e a miséria acabaram dando
respaldo às idéias filosóficas. Só faltava
arregaçarem as mangas e irem para
a luta. Foi o que aconteceu em 14
de julho de 1789 quando uma multidão
invadiu e tomou a Bastilha, fortaleza
onde o rei trancafiava seus inimigos
políticos.
Só nos resta saber se os revoltosos conseguiram seus objetivos. Fica aqui o desafio:
1. Faça uma pesquisa e responda se os revoltosos conseguiram atingir seus objetivos e quais meios
foram utilizados.
2. Pesquise se na história do Brasil houve um acontecimento ou uma revolta que possa ser comparada
com a Revolução Francesa. Faça um quadro comparativo entre elas destacando: por que ocorreu,
quem participou, quais os objetivos, o que a influenciou e quais os resultados obtidos.
3. Entreviste cinco pessoas com as seguintes questões:
a) Você sabe explicar o que é:
1) Monarquia?
2) Oligarquia?
3) Democracia?
4) Parlamentarismo?
b) Hoje, no Brasil, temos o presidencialismo como tipo de governo. Quem fez essa escolha? Com
base em quê?
c) Se tivéssemos um plebiscito no Brasil para mudar o tipo de governo, em qual você votaria? Monarquia,
Oligarquia, Parlamentarismo ou Presidencialismo? Por quê?
Construa um texto comentando e relacionando as respostas com a questão inicial de nosso estudo.
Leia suas conclusões para os demais colegas.
pesquisa
< Foto: João Urban
215
Sociologia
Formação do Estado Moderno
Referências:
BOBBIO, N. Estado, governo, sociedade: por uma teoria geral da política.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
BOBBIO, N. A teoria das formas de governo. 4ª ed. Brasília: Ed. UnB,
1985.
GOMES, R. Crítica da razão tupiniquim. 8. ed. Curitiba: Criar, 1986.
HOBBES, Thomas. Leviatã ou Matéria, forma e poder de um estado
eclesiástico e civil. 3ª Edição. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Pensadores)
KANT, I. Crítica da razão prática. Lisboa: edições 70,1989. (Textos Filosóficos).
MICELI, P. As revoluções burguesas. São Paulo: Atual, 1987.
ROUSSEAU, J. J.. Do contrato social. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
v. 1.
SADEK, M. T. Nicolau Maquiavel: o cidadão sem fortuna. O intelectual de virtù.
In.: WEFFORT, Francisco (Org). Os clássicos da política: 3. ed. São
Paulo: Ática, 2003. v. 2.
WEFFORT, F. (Org). Os clássicos da política: 13ª ed. São Paulo: Ática,
2003. v. 2.
z
216
Ensino Médio
Neste capítulo abordaremos um tema de extrema importância para a
Sociologia que trata dos movimentos sociais. Buscaremos compreender
quais as características dos mesmos e ainda trataremos de apresentar alguns
movimentos que se fazem presentes na história do capitalismo.
Mas por que seria tão importante para a Sociologia a temática dos
movimentos sociais? Por que abordar essa discussão e não outra?
Bom, podemos começar a pontuar algumas questões importantes
que demonstram a relevância desse tema em um livro didático de Sociologia
destinado ao Ensino Médio.
Vamos começar discutindo o que querem dizer essas duas palavras
“movimento” e “social”. Pensar todo o desenvolvimento da história da
humanidade é pensar todas as transformações que o homem vem produzindo
para si mesmo.
Essas transformações estão presentes em todos os âmbitos da vida
humana, desde a forma de se comunicar (pense que até o desenvolvimento
da palavra e da escrita outras formas de comunicação foram utilizadas,
como por exemplo, a pintura na parede das cavernas até a forma
de se alimentar, se vestir, de se organizar socialmente.
Temos, portanto, que a palavra “movimento” nos indica uma série
de transformações na vida do homem, e estas garantem que a história
seja um movimento que cria novas situações, permitindo que um dia
seja diferente do outro.
Mas quem realiza esses movimentos?
Essas mudanças, movimentos que acontecem na história são gerados
pelos próprios homens que fazem parte da história. Isso quer di-
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r
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d
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o
Introdução
217
Sociologia
zer que todas as alterações que acontecem em nossas vidas são fruto
da interferência do próprio homem na mesma.
Isto porque o homem não vive isolado do mundo à sua volta, nós
somos seres sociais e, enquanto tais, realizamos as transformações na
história de forma social, envolvendo um grupo ou uma classe, mas
nunca isoladamente.
Desta forma, já estamos discutindo a segunda palavra: “social”. O
que ela quer nos dizer? Ela nos traz a idéia de que esses movimentos
de transformação que estávamos tratando acima ocorrem junto à sociedade,
em situações específicas e em um período específico.
Se agora juntarmos essas duas palavras tem-se que movimento social é a
transformação histórica desencadeada pelo homem que vive em sociedade na
sua própria história.
Essa afirmação não é incorreta para movimento social. Mas, para a
Sociologia essa definição certamente é incompleta. Isso porque, a mesma
não explica porquê surgem os movimentos sociais, não nos auxilia
a discutirmos sobre o papel que os movimentos sociais cumprem
na sociedade contemporânea, não nos ajuda a pensarmos quais são os
tipos de movimentos sociais existentes, isso para citar apenas alguns
problemas.
Por isso, nos três Folhas que seguem este capítulo procuramos desenvolver
indagações que proporcionem a você, aluno, o questionamento
do que é um movimento social, ao mesmo tempo que exemplificamos
a temática historicamente com alguns casos que julgamos mais
relevantes para um primeiro contato.
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218
Ensino Médio
Assim, no primeiro Folhas abordaremos questões como: por que
surgem os movimentos sociais? O que são os movimentos sociais?
Quais os possíveis projetos dos movimentos sociais? Bem como, discutiremos
como os movimentos sociais encontram-se na atualidade do
capitalismo.
No segundo Folhas, discutiremos sobre os movimentos com caráter
agrário que se desenvolveram no Brasil, falaremos, portanto, das Ligas
Camponesas e do MST. Abordaremos tais organizações discutindo
a formação agrária de nosso país, desde a colonização até a contemporaneidade,
buscando compreender porquê se faz necessário na nossa
história esses tipos de movimentos.
Ainda, trataremos das especificidades históricas que diferenciam o
surgimento das Ligas Camponesas de 1945 até 1964 quando comparado
ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, que surgem
com caráter nacional em 1985.
No terceiro e último Folhas, o movimento a ser enfocado será o
estudantil. Nesta discussão demonstraremos o importante papel desenvolvido
pelos estudantes no mundo durante o ano de 1968, e forneceremos
os recursos legais para que o aluno, na escola em que se
encontra, atue de forma positiva tanto dentro de seu espaço escolar
como em sua comunidade.
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Introdução
219
Sociologia
Todos os três Folhas apresentados, portanto, discutirão os movimentos
sociais no período de vigência do sistema capitalista, mais especificamente,
no século XX, sempre tendo como princípio apontar o
porquê, quando e como os mesmos se desenvolveram.
Seguindo a proposta do Livro Didático Público, essas discussões
apontadas não se encontram encerradas, mas são apresentadas de modo
a ajudá-lo a questionar e analisar a realidade social a partir dos referenciais
teóricos da Sociologia.
Agora, que você aluno inicia a leitura dos textos, sugerimos que a
ordem seja esta seqüência apresentada, e apreenda com os vários movimentos
sociais, marcantes em nossa história, que a possibilidade de
realizarmos transformações sociais dependem de ações coletivas, sempre
criando um movimento, mudanças em nossas vidas.
“[...]Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim.”
“Tanto Mar”, Chico Buarque, 1978.
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13
MOVIMENTOS
SOCIAIS
or que há pessoas que teimam
em se organizar e propor mudanças
para a sociedade?
Você já ouviu falar em movimentos
sociais, não é? Afinal, o que são os movimentos
sociais, e mais, qual a importância
deles para nossa vida cotidiana?
222
Ensino Médio
Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
Na história contemporânea temos diversos exemplos de formas
de organizações coletivas, reivindicando as mais diferentes coisas ou
ações caracterizando o que é um movimento social.
Como exemplo, citamos o Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem-Terra (MST), o Fórum Social Mundial (FSM), o movimento
hippie, movimento feminista, o movimento estudantil, o movimento
dos sem-teto, o movimento pela “Tradição, Família e Propriedade”
(TFP), os movimentos anti-capitalistas, dentre outros. A lista de movimentos
sociais existentes é longa, isso pensando apenas nos séculos
XX e XXI.
É pelo significado social e político e, ainda, pela quantidade de movimentos
sociais existentes que tal tema é de extrema importância para
a Sociologia.
Vamos por partes...
É importante dizer que abordaremos a temática dos movimentos
sociais sempre pensando na forma de organização social atual em que
vivemos. Portanto, estaremos tratando dos movimentos vinculados ao
sistema capitalista. Quer dizer, priorizaremos aqueles movimentos sociais
que nascem de demandas próprias desta forma de organização
social.
As cidades, organizadas na forma que conhecemos hoje, desenvolveram-
se a partir do século XII, ligadas às necessidades dos homens
medievais de realizarem trocas comerciais. Mas, no entanto, sabendo
que durante a Idade Média a forma de organização social dava-se principalmente
dentro dos feudos, essas cidades ainda não assumiam a importância
que as mesmas possuem numa sociedade industrial.
Com a consolidação do capitalismo a partir do século XVIII, continuou
existindo uma separação entre campo e cidade, mas tal distinção
não criava um isolamento do campo, ao mesmo tempo em que,
o desenvolvimento e o progresso não se restringiam à cidade. Em suma,
estamos tratando da importância do rural e do urbano para o desenvolvimento
capitalista, que cria duas realidades diversas, mas que,
no entanto, nunca deixam de estar vinculadas e apresentando novas
necessidades.
Considerando que a sociedade capitalista tem sua organização e
sua dinâmica marcadas pelas disputas e conflitos entre as classes sociais
presentes nela, principalmente, entre as duas classes fundamentais,
a burguesia e os trabalhadores, boa parte dos movimentos sociais
será motivada diretamente, por interesses de classe ou manifestará aspectos
daquelas disputas como são os casos dos movimentos sindical,
de camponeses, dos sem-teto. Já outros movimentos, como o feminista,
os de juventude, o hippie, os ecológicos, podem ou não estar, tam223
Sociologia
Movimentos Sociais
bém, motivados diretamente por “interesses de classe” de seus participantes.
Ocorre, muitas vezes, de suas razões mais evidentes serem da
ordem de outros interesses, como os ligados a lutas contra discriminações
de gênero, étnicas, de geração ou culturais.
Assim, na sociedade contemporânea, tanto quem vive nas zonas urbanas,
como quem vive nas zonas rurais, organiza-se em torno de seus
interesses particulares e forma os mais diversos movimentos sociais.
Não negamos a diferença quanto ao ritmo de vida existente para
quem mora no campo e para quem vive na cidade. Por exemplo:
quem mora na cidade sempre se assusta, num primeiro momento, com
os horários que as pessoas da zona rural acordam, almoçam e jantam,
pois, na maioria das vezes, isso ocorre sempre mais cedo, em comparação
à vida urbana.
A comparação contrária também é verdadeira: quem sempre morou
no campo fica alucinado com o número de pessoas nas ruas, com a
quantidade de carros, de prédios e da corrida contra o tempo de quem
vive nas cidades.
Diferenças entre o campo e a cidade existem e, certamente vão
muito além destes dois exemplos acima, mas há também um elemento
que une essas duas formas de vida aparentemente distintas: o fato de
que tanto o trabalhador da cidade como o do campo e seus pequenos
produtores, para obter a sua sobrevivência,submetem-se às regras e
leis da produção de mais-valia. Os primeiros quando vendem sua força
de trabalho no mercado, os segundos quando têm a sua produção
sujeitada às demandas e obrigações impostas pelas leis de mercado capitalista
e da prioridade dos interesses dos capital urbano.
Sendo assim, boa parte dos movimentos sociais que se organizam
a partir desta realidade social nasce ou se relaciona, direta ou indiretamente,
com questões ligadas à estrutura de classes e aos conflitos de
interesses entre as diversas classes e frações de classe. Isto pode ser
observado, por exemplo, no movimento feminista, onde demandas pelo
fim do machismo estão ao lado de reivindicações pela redução da
exploração no trabalho. O mesmo pode ser observado em movimentos
como o dos negros no Brasil, onde a luta contra a discriminação
por cor da pele está associada a demandas por emprego e escolaridade.
Ou, ainda, quando se vê, no movimento social que luta por terra,
surgir a organização das mulheres exigindo dos “homens sem-terra”
tratamento igualitário dentro da organização do próprio movimento.
Os movimentos caracterizam-se por reivindicações diferentes, mas
a idéia do movimento social como forma de organização coletiva é extremamente
importante neste sistema, pois é a partir deles que se consegue
suprir determinadas necessidades dos mais diversos grupos.
Classes Sociais: com a
consolidação do capitalismo
segundo Karl Marx, estabeleceu-
se o conflito e a
contradição, principalmente,
entre os interesses de
duas classes sociais fundamentais
neste sistema. Estamos
falando da burguesia
(composta pelos indivíduos
que detêm os meios de
produção e o capital) e do
proletariado (classe trabalhadora
que necessita vender
a sua força de trabalho
em troca de salário, por
não deter os meios de produção
e capital).
224
Ensino Médio
Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
Quando tratamos dos movimentos sociais encontramos diversas características
gerais que permeiam a todos eles, uma delas, por exemplo,
é o fato de que estes demonstram a possibilidade de atuarem na
História de modo a “determinar” como será o seu desenvolvimento.
Estamos falando que os indivíduos tornam-se sujeitos históricos quando
organizados de forma coletiva e com objetivos em comum, e, portanto,
apesar de não terem certezas sobre o futuro do movimento, podem
lutar (seja qual for a reivindicação e o projeto) para a inclusão,
exclusão ou transformação radical da sociedade.
Esta forma de movimento é muito importante numa sociedade como
a que vivemos, pois políticas públicas, tais como: econômicas, sociais,
educacionais, trabalhistas, dentre tantas outras, podem ser modificadas,
quando indivíduos que isoladamente não possuiriam um
grande poder de transformação organizam-se, e com isso, conseguem
interferir na sociedade, transformando-a, ou até, mantendo-a de forma
a garantir seus interesses.
Podemos citar, como exemplo de manifestações sociais que extrapolam
a tentativa de reformas e desejam uma transformação social radical
da sociedade, a Revolução Cubana, que surge como uma manifestação
contrária ao regime ditatorial presente no país, e acaba por
culminar num governo socialista, a partir de 1959.
Inúmeros exemplos poderiam ser citados para mostrar o homem
enquanto sujeito histórico. A partir do momento em que no Brasil temse
o movimento social dos negros buscando a sua inclusão, uma série
de benefícios foram por este grupo conquistados, como por exemplo:
as políticas afirmativas (sobre este assunto ver mais no “Folhas” sobre
cultura), isso representa um processo de transformação na organização
da sociedade, que para acontecer necessitou que o indivíduo compreendesse
seu papel na sociedade como sujeito histórico.
Portanto, afirmar que a sociedade é desta ou daquela forma, e que
não adianta tentar interferir, é reproduzir um pensamento que na verdade
atende aos interesses daquelas pessoas, grupos ou classes sociais
que se encontram privilegiadas nas relações sociais, já que os movimentos
sociais estão presentes na História para demonstrar exatamente
o contrário: quando os indivíduos organizam-se coletivamente muito
da estrutura social pode ser alterada.
Pesquise como o modo de produção capitalista, ao longo do século XX, determinou as formas de trabalho
encontradas tanto no campo como na cidade, diferenciando-as, e traçando suas semelhanças.
pesquisa
225
Sociologia
Movimentos Sociais
A princípio, abordaremos este tema de forma mais teórica para
melhor definir o que é, quando, como e porque se desenvolvem os movimentos
sociais.
Os movimentos sociais apresentam-se ao longo da História de diversas
maneiras e por diversos motivos mas, como se verá em seguida,
há algumas características em comum a todos eles, por exemplo: em
todo movimento social há um princípio norteador.
O que seria este princípio norteador?
Trata-se de um projeto construído coletivamente,
na maioria das vezes buscando a solução
de um problema, a transformação de uma
situação, ou ainda, o retorno a uma situação
anterior, na qual os indivíduos entendem que
havia uma melhor condição para suas vidas.
Os tipos de projetos dos movimentos sociais
variam, principalmente, a partir do posicionamento
quanto a características do status
quo. Alguns movimentos ligados à luta por terra
e por moradia podem pôr em dúvida a própria
lógica do sistema social, questionando, por
exemplo, a forma da propriedade e de distribuição
da riqueza social. Outros movimentos sociais, como o feminista,
os de juventude, os étnicos, podem pretender, primeiramente,
modificar valores e comportamentos sociais. É o que ocorre quando
movimentos sociais feministas “pedem” tratamento igual para as mulheres
no mercado de trabalho, mesmo sem questionar, exatamente, o
trabalho assalariado como forma de exploração do trabalho.
Para uma melhor compreensão do que está sendo dito acima podemos
usar como exemplo as reivindicações do Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem-Terra (MST). Este tem como projeto a realização
da reforma agrária que significa o fim dos latifúndios e a possibilidade
da existência de pequenas propriedades rurais, nas quais os menos favorecidos,
nesta sociedade capitalista, poderiam estabelecer-se de forma
a criarem seu sustento através de uma agricultura de subsistência
ou organizada em cooperativas.
É importante salientar que a questão da terra no Brasil sempre foi
uma das bandeiras dos movimentos sociais, pois em nossa estrutura
agrária a concentração de terras e a existência de latifúndios estão presentes
desde o início de nossa colonização. Isto porque nossa formação
social deu-se em dependência de outros países, consequentemente,
nossa produção agrária também.
z
< www.mst.org.br/multimidia/gfotos
< Assentamento João Batista - Pará
226
Ensino Médio
Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
Para elucidar o que estamos dizendo, podemos citar a criação das
Capitanias Hereditárias — cuja produção era destinada ao mercado
português; um exemplo disso na atualidade é a produção da soja e da
laranja que também é destinada ao mercado internacional.
Assim, temos como característica estruturante em nosso país, a subordinação
de parte importante da produção agrícola a uma produção
em larga escala e às necessidades do exterior, o que leva a um modelo
baseado na utilização de grandes propriedades rurais, produzindo
uma pequena variedade de produtos.
Podemos ter uma maior clareza desse processo no Brasil quando
utilizamos algumas informações obtidas a partir dos dados cadastrais
do INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) de
1992, a partir dos quais fica claro que a concentração de terra no Brasil
só tem aumentado. Conforme podemos observar no gráfico abaixo,
desde a década de 1960, vem aumentando a porção de terras abarcadas
pelas propriedades com mais de 1000 hectares e, em contrapartida,
diminuindo aquela ocupada pelas propriedades com menos de 100
hectares. Para facilitar a visualização da imensidão de terras de que estamos
tratando, cada 1 hectare equivale a 10.000 m2.
Capitanias Hereditárias:
forma inicial da distribuição
das terras brasileiras.
Neste modelo, as
terras eram dadas, pela coroa
portuguesa, para quem
tivesse a possibilidade de
investimento e quisesse se
aventurar por aqui.
O que aconteceu no período de 1972 a 1978 que acelerou a concentração fundiária brasileira? Isto
ocorreu em todas as regiões? Por quê?
Quais as conseqüências sociais desse processo no campo e nas cidades?
ATIVIDADE
45,1 47
53,3
55,2
< montado a partir de dados do INCRA, 1992
propriedades com menos de 100 hectares
propriedades com mais de 1000 hectares
20,4
16,4
16,5
15,4
1966 1972 1978 1992
Porcentagem sobre o total de terras do Brasil
227
Sociologia
Movimentos Sociais
Essa concentração fundiária causa sérios problemas. Os pequenos
produtores não conseguem obter rendimentos significativos, pois lhes
falta o essencial – a terra. Considerando que esses produtores são a
maioria e que empregam grande parte da força de trabalho do campo,
podemos entender muitos fatos, como as precárias condições de
vida da maioria da população rural e a venda de terras por parte dos
pequenos proprietários para os produtores maiores ou para as grandes
empresas.
Em suma, a questão da terra torna-se uma bandeira para os movimentos
sociais, pois sua concentração transforma-se em um problema
num país de grandes dimensões, e com uma população sem acesso à
terra e sem condições de ter acesso àquilo que ela produz.
No caso dos movimentos sociais que lutam pela mudança na estrutura
agrária, fica evidente a presença de “ interesses de classe” em
jogo. Por exemplo, trabalhadores do campo X grandes proprietários.
Conhece-se também, movimentos sociais do campo organizados por
pequenos proprietários, que buscam, às vezes, melhores políticas estatais
para suas necessidades (crédito, política de preços mínimos) ou
se organizam para enfrentar ameaças de desapropriação por causa da
instalação de barragens e usinas de energia em suas terras. Aqui, já se
tem um conflito de classes direto. O enfrentamento se dá entre pequenos
proprietários e o Estado. Vê-se, portanto, que há movimentos cujas
motivações e propostas visam mais a defesa do status quo, conforme
já observado anteriormente
Na atualidade, um movimento que pode explicar de maneira clara
o que são essas organizações coletivas, que não pensam na organização
social de forma a transformá-la e sim de modo a voltar a formas
anteriores são os movimentos neonazistas, também conhecidos como
skinheads.
Não só no Brasil, mas por todo mundo, crescem as manifestações
fóbicas a diferentes culturas, nacionalidades ou etnias; especificamente
aqui, há movimentos oriundos da ideologia nazista, que chegam a
tratar com violência indivíduos que se vestem ou comportam-se diferentemente
do eles definem como correto.
Há um grupo na grande São Paulo chamado “Carecas do ABC”, cuja
atividade coletiva chegou ao extremo da agressão física contra outros
jovens como os de grupos punks. Encontra-se, também entre os “Carecas”,
o preconceito contra os negros, os homossexuais e os nordestinos.
Na cidade de Curitiba, capital do estado do Paraná, recentemente
(set/2005) um grupo pregando ‘o orgulho branco’ agrediu uma pessoa
negra na região denominada setor histórico da cidade. Suas atitudes
228
Ensino Médio
Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
não pararam por aí, panfletos cujo conteúdo propunha o preconceito
aos homossexuais e aos negros foram afixados nos postes do local.
Como já adiantamos atrás, temos um terceiro tipo de movimento
social que não só luta pela transformação de uma dada situação, mas
também tem como objetivo a transformação radical da forma de organização
da sociedade.
O que estamos dizendo, neste caso, é que o coletivo organiza-se
a partir de uma necessidade cotidiana, como, por exemplo, melhores
condições de trabalho; mas quando o movimento começa a desenvolver
seus objetivos transformam-se, a luta intensifica-se, e inicia-se uma
tentativa de mudança radical do sistema.
Certamente, o que estamos descrevendo não é nenhuma receita de
como o movimento social deve se organizar para se tornar revolucionário,
na verdade, para que tal dimensão possa ser atingida há fatores
sociais e históricos do momento vivenciado que contribuem para tal
formação, portanto, há uma indeterminação histórica, isso quer dizer
que há uma impossibilidade, a priori de afirmar o que acontecerá ou
não no futuro, se esse caráter revolucionário pode ocorrer ou não.
Esses movimentos geralmente organizam-se a partir de uma reivindicação
local e específica, mas, à medida que se desenvolvem, começam
a adquirir maior expressão social, extrapolando suas reivindicações
iniciais, o que exige do próprio movimento um novo projeto e
uma nova proposta para o futuro.
Estamos dizendo agora que, se por um lado, é possível pensar em
movimentos que querem alterar algumas características da realidade
social, outros pedem uma volta a antigas formas de pensamento preconceituosas
e autoritárias, e ainda, existem os movimentos sociais
que criam a possibilidade de uma nova forma de organização social,
na tentativa de superarem suas necessidades.
229
Sociologia
Movimentos Sociais
Desta forma, trataremos um pouco mais cuidadosamente dos movimentos
sociais que apresentam pouca possibilidade de ruptura (transformação
radical da sociedade) com a realidade social posta, mas que
de alguma forma apresentam alternativas. Um bom exemplo para estas
formas de movimento encontra-se no Fórum Social Mundial, realizado
desde 2001, que já ocorreu no Brasil, em Porto Alegre, e na Índia,
em Mumbai.
O Fórum Social Mundial (FSM) foi idealizado e criado a partir da
iniciativa de alguns brasileiros que desejavam desenvolver uma resistência
ao pensamento dominante, e principalmente, a forma neoliberal
de organização política e econômica em que a sociedade encontrase
na atualidade.
A vontade de fazer oposição ao neoliberalismo no Fórum Social
é tão séria que, as datas para as suas realizações foram programadas
sempre concomitantes a do Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça.
Esse Fórum Econômico é realizado anualmente para discutir os rumos
a serem dados à economia dos países centrais e periféricos.
A partir do momento em que surgiu a idéia, criou-se um Comitê
Organizador a fim de por em prática o Fórum; o mesmo acabou ocorrendo
no ano de 2001, em Porto Alegre, na sua primeira edição, e no
mesmo ano foi criado um Conselho Internacional para melhor desenvolver
a sua organização e eventos.
Realize uma pesquisa buscando um movimento social existente no Brasil que represente uma destas
três formas descritas acima, caracterizando-o e compreendendo os motivos que os levaram a defenderem,
suas reivindicações. Para realizar esta pesquisa sugerimos que procure um movimento que
exista na sua região, seja ela rural ou urbana.
pesquisa
Neoliberalismo:
Os princípios do neoliberalismo remontam o liberalismo
clássico de Adam Smith, no qual o mercado
não é regulado pelo Estado, e sim pela livre concorrência.
Na atualidade o liberalismo está sendo reestabelecido
de acordo com as novas necessidades
históricas surgidas – por isso, o uso do prefixo
neo (novo) – na política econômica mundial. Entre
as propostas de tipo neoliberal, destacam-se a indicação
de retirada do Estado das atividades econômicas,
a redução de políticas estatais de proteção
de mercado e a redução da regulamentação
estatal sobre as relações trabalhistas
< www.mst.org.br/multimidia/gfotos
< I Fórum Social Mundial – Abertura
230
Ensino Médio
Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
O FSM é também composto por outros Fóruns realizados paralelamente
nas mais diversas regiões, com os mais diversos propósitos. Há
os chamados fóruns temáticos: Fórum Mundial da Educação, Fórum
sobre “Democracia, Direitos Humanos, Guerra e Tráfico de Droga”; e
ainda, os fóruns nacionais e regionais: como por exemplo, Fórum Pan-
Amazônico, Fórum Social Africano, entre tantos outros mais.
Esta formação caracteriza o FSM como uma série de grandes eventos,
nos quais são discutidas as mais diversas temáticas sempre preocupadas
com a criação de alternativas para a realidade social. Desta
forma, o FSM constitui-se como um espaço de articulação, debate, discussão
e reflexão teórica pelos mais diversos movimentos sociais que
participam de suas atividades.
Estes movimentos sociais, por sua vez, possuem os interesses mais
diversos, não havendo, portanto, uma prioridade na defesa das lutas.
Todas são importantes e válidas, pois seguindo o projeto norteador do
Fórum, cada uma delas possui um contexto específico que as fazem
necessárias. Segundo o que diz Boaventura de Sousa Santos, sociólogo
e participante do Fórum: “As prioridades políticas estão sempre situadas
e dependentes do contexto” (Santos, 2005: 37)
Assim, a impossibilidade da construção de uma alternativa coletiva,
geral, ao mesmo tempo que, possibilita a diversidade e a não imposição
de um único modelo como alternativa, também faz com que o
ambiente de debate perca-se na preocupação individual de cada movimento.
Geralmente, é pensado como uma saída que reforme o sistema,
pois para uma transformação radical da sociedade é necessário a
existência de um grande movimento social.
Portanto, cada movimento possui suas necessidades, buscam alternativas
diferenciadas para seus problemas e utiliza-se do FSM como um
momento para suas articulações e debates. Esta característica é tão forte
dentro da organização ou realização do Fórum que na sua carta de
princípios consta que nenhum dos participantes pode falar em nome do
FSM, tamanha é a diversidade de reivindicações e propostas lá encontradas.
Para maiores informações sobre a Carta de Princípios do FSM pode
ser consultado o site do Fórum: www.forumsocialmundial.org.br.
Uma outra característica peculiar quanto à constituição do Fórum
é o fato do mesmo não possuir qualquer liderança; os seus dois conselhos
e o caráter democrático das decisões não permitem que exista
uma hierarquia, e ainda é atribuída, por parte dos movimentos sociais
que participam do Fórum uma grande importância às redes que são
criadas ou possibilitadas por intermédio da Internet.
Assim, como afirma o próprio Boaventura: “O FSM é uma utopia
radicalmente democrática que celebra a diversidade, a pluralidade e a
horizontalidade. Celebra um outro mundo possível, ele mesmo plural
nas suas possibilidades”. (Santos, 2005: 89)
231
Sociologia
Movimentos Sociais
As diferenças dos movimentos sociais participantes do FSM, portanto,
são inúmeras, como já foi afirmado. Há uma pluralidade quanto
à sua constituição que fica ainda mais clara quando são discutidas as
possibilidades e alternativas para a sociedade. Encontram-se desde os
que querem romper drasticamente com esta forma de organização social
em que vivemos, até os que reivindicam uma reforma no sistema
político, econômico e social, garantindo sua inclusão neste.
O que há em comum entre todos eles, e os fazem se reunir, é a luta
contra as formas devastadoras assumidas pelo neoliberalismo contra
as minorias e os não-detentores de capital. Há também, a opção pela
busca da transformação, seja ela qual for, por intermédio da intervenção
e pressão política, lutando e idealizando a construção de um outro
mundo por meio de mecanismos pacíficos.
Na verdade essa caracterização atual do Fórum enquanto espaço
de movimentos sociais, não é um consenso. Esta é uma posição, por
exemplo, de Francisco Withaker (um dos fundadores do FSM e membro
das comissões), defensor da idéia de que se uma linha comum for
estabelecida, o espaço será perdido e se estará “asfixiando” a própria
fonte de vida do Fórum.
Outra posição também encontrada é a de que o Fórum deve ser
sim um movimento dos movimentos, isso quer dizer que o Fórum deve
assumir uma posição política, pois caso contrário, será um espaço
que se perderá e não canalizará nenhuma ação concreta, perdendo seu
sentido de existência.
É assim que o Fórum, tomado como exemplo, sintetiza algumas das
características e dilemas dos movimentos sociais atuais.
Uma afirmação realizada no inicio desta discussão ainda pode ser retomada: foi afirmado que o FSM
é representativo dos movimentos sociais que não realizam uma ruptura radical com a realidade, mas
também, foi dito, que os movimentos que compõem o Fórum são contrários ao neoliberalismo e buscam
alternativas para a sociedade.
Assim, com base no que foi dito acima, pesquise os projetos de dois movimentos sociais que participam
do Fórum Mundial Social e compare seus objetivos e suas propostas para a sociedade. Para
realizar tal pesquisa, sugerimos que se consulte o site ou os materiais impressos produzidos pelo Fórum.”.
Pesquisa
232
Ensino Médio
Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
Referências:
GOHN, M. G. (Org.). Movimentos Sociais no início do século XXI: antigos
e novos atores sociais. Petrópolis: Editora Vozes, 2003.
_______. Movimentos Sociais e luta pela moradia. São Paulo: Edições
Loyola, 1991.
HOBSBAWN. E. Rebeldes Primitivos: estudo sobre formas arcaicas de
movimentos sociais nos séculos XIX e XX. 2ª ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores,
1978.
______. A era do capital: 1848-1875. 3ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1982.
MARX, K. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Boitempo Editorial,
1998.
SANTOS, B. S. O Fórum Social Mundial: manual de uso. São Paulo: Cortez
Editora, 2005.
TOURAINE, A. A sociedade pós-industrial. Lisboa: Moraes editores,
1970.
Site:
www.forumsocialmundial.org.br
z
z
233
Sociologia
Movimentos Sociais
ANOTAÇÕES
14
MOVIMENTOS
AGRÁRIOS NO BRASIL
que pensaria sobre os movimentos
sociais que lutam pela reforma
agrária?
E se você fosse um trabalhador rural
sem lugar para morar e trabalhar,
você participaria desses movimentos?
1Colégio Estadual Paulo Leminski – Curitiba - PR
236
Ensino Médio
Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
“- Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.
- É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
neste latifúndio.
- Não é cova grande.
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
[...]
- Viverás, e para sempre
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.
- Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas.
- Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia.
- Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator.
- Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita”.
(João Cabral de Mello Neto, “Morte e Vida Severina”)
Assentamento do Contestado, próximo a cidade da Lapa, ocupado em
07/02/1999. Foto: Giselle Nicaretta.
<
Reforma Agrária: Processo de redistribuição
de terras (latifúndios), em
novas modalidades de ocupação, como
pequenas propriedades, propriedades
coletivas, colônias com direito ao
uso de terras do Estado, realizado pelo
Governo.
Vamos refletir sobre estes problemas conhecendo
os movimentos sociais que lutam pela
posse da terra!
Como foi dito no “Folhas” anterior com relação aos movimentos sociais,
para que possamos compreender um movimento temos que entender
as necessidades históricas que possibilitaram o surgimento deste.
Ou seja, para abordarmos a questão dos movimentos sociais rurais
no Brasil é necessário analisar e entender o desenvolvimento do capitalismo
brasileiro e suas formas de produção agrária.
Para alguns autores das Ciências Humanas, houve pelo menos três
formas de desenvolvimento do capitalismo. Isto quer dizer que ao lonz
237
Sociologia
Movimentos Agrários no Brasil
Lênin: Vladimir Ilitch Lênin
(1870-1924) Um dos
participantes da Revolução
Russa (1917) — revolução
esta que teve por objetivo
criar um sistema socialista
—, desenvolveu importantes
discussões a respeito do
desenvolvimento do capitalismo
e sobre a implementação
do socialismo na Rússia.
Vejamos como isso aconteceu!
Em países como a França e a Inglaterra tem-se a chamada via clássica
do desenvolvimento do capitalismo. Isso quer dizer que nesses países,
a burguesia realizou rupturas radicais com o antigo mundo feudal
e absolutista. Em suas bandeiras de luta, a burguesia desejava não só o
progresso, mas também, a liberdade, a igualdade e a fraternidade para
todos. Em outras palavras, nestes países ocorreram revoluções, a Revolução
Francesa (1789) e a Revolução Industrial (século XVIII).
Em locais onde esses processos aconteceram, especialmente no caso
francês, a burguesia, na luta pelo poder do Estado, contou com a
colaboração de outros segmentos sociais. Posteriormente, renegando
as classes que haviam participado da queda do mundo absolutista, a
saber: a classe de camponeses expropriados de suas terras, um número
significativo de pequenos comerciantes e de trabalhadores assalariados
da cidade. Estes, mais tarde conformariam o proletariado.
No restante da Europa e, em destaque, na Alemanha, a transição
para o sistema capitalista não se deu pelo movimento de massas populares,
mas sim num acordo entre a burguesia ascendente e a nobreza
feudal decadente. Este processo foi descrito por Marx e Engels como
aburguesamento da nobreza e enobrecimento da burguesia.
Esse caminho de desenvolvimento do capitalismo foi denominado
por Lênin de via prussiana do desenvolvimento burguês. Diferentemente
do ocorrido na França e Inglaterra, não há ruptura revolucionária
com as antigas classes dominantes de proprietários rurais.
Apresentamos até agora, duas formas de desenvolvimento do capitalismo,
no entanto, dependendo da leitura que se faça sobre o desenvolvimento
do mesmo, ainda é possível tratar a respeito de uma terceira
forma. Esta terceira forma está diretamente vinculada à maneira
como o capitalismo desenvolveu-se no Brasil, que teve início no Período
Colonial, a partir do século XVI.
Não só o “descobrimento” do Brasil, bem como todo o processo
produtivo que aqui foi desenvolvido, esteve necessariamente vinculado
com as necessidades políticas e econômicas da metrópole portuguesa.
Tanto a extração de pau-brasil, quanto a produção de cana-deaçúcar
eram atividades realizadas de acordo com as necessidades da
economia da coroa portuguesa.
z
go da história os países tornaram-se capitalistas, mas cada um com características
específicas. Para ilustrar o que estamos discutindo, podemos
exemplificar perguntando por que o Brasil é diferente dos EUA,
ou da Itália, e assim por diante. E é por conta desta maneira diferenciada
de desenvolvimento do sistema capitalista, que temos, por exemplo,
movimentos sociais que lutam pela Reforma Agrária no Brasil e
não na Europa.
< www.bibl.u-szeged.hu/ bibl/mil/ww1/who/lenin.jpg
238
Ensino Médio
Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
Os latifúndios de monocultura formam a base da organização agrária
do nosso país. Desde o início de nossa formação social temos na
constituição do Brasil a presença de latifúndios vinculados à monocultura.
Esta característica, apresentada desde o princípio, mantém-se predominantemente
em toda a história brasileira.
A história do Brasil agrário é marcada por uma característica peculiar:
o fato de nossa produção sempre ter ocorrido vinculado às necessidades
dos países europeus, seja no período de transição do mundo
medieval para o capitalista, seja posteriormente, já com o efetivo desenvolvimento
do capitalismo. São as necessidades do capital internacional
que direcionam nossa produção.
Assim, desde o período no qual a economia baseava-se na produção
canavieira, passando pela produção de algodão (mercadoria produzida
em larga escala, devido à demanda oriunda da revolução industrial),
produção cafeeira e atualmente, da soja e do gado de corte,
dentre outras mercadorias produzidas, o Brasil manteve-se com uma
economia agrária subordinada aos interesses externos e, portanto, dentro
de um modelo agro-exportador.
Se por um lado, afirma-se que tais empreendimentos são positivos
para o desenvolvimento da economia nacional, do PIB (Produto Interno
Bruto) e da balança comercial, por outro, uma série de fatores negativos
podem ser evidenciados nesta forma de desenvolvimento agrário.
Dentre estes fatores podemos citar:
a) este é um tipo de produção que por estar vinculado a interesses externos
ao do país pode, a qualquer momento, em função de uma
crise da economia mundial, por exemplo, tornar-se desinteressante,
e por conta disso criar uma situação de crise econômica nacional;
b) este tipo de modelo agrário, por necessitar de grandes extensões de
terras, torna a propriedade rural restrita a uma pequena parcela da
população;
c) realiza uma produção que não satisfaz as necessidades imediatas
(subsistência) da população nacional.
Esses fatores são as principais explicações que nos mostram a necessidade
de uma Reforma Agrária no Brasil. E também demonstram
porque tal fato não acontece, por exemplo, nos países europeus.
Vimos, mesmo que brevemente, que nos países de via clássica
(França e Inglaterra) houve uma revolução que rompe com o antigo
mundo medieval, e ainda, nesses países a produção agrícola não foi a
da monocultura, caracterizando a formação do latifúndio, muito pelo
contrário, esses países compravam a produção das colônias (monocultura)
para a sua produção industrial.
Capital Internacional:
Acúmulo de riqueza, reproduzido
no desenvolvimento
industrial, financeiro e
agrário de um país diferente
do seu local de origem
(geralmente países periféricos
como o Brasil), visando
sempre a geração de mais
riqueza e lucro, que retornará
ao seu país inicial.
Balança Comercial: Relação
final entre a exportação
e importação de mercadorias
por um país.
PIB: Valor total da produção
e riqueza produzida em
um país.
239
Sociologia
Movimentos Agrários no Brasil
Quando houve a revolução industrial na Europa, e a Inglaterra iniciou
com a produção têxtil, foi o Brasil um dos fornecedores de algodão.
Hoje, a produção de laranja em larga escala é exportada aos Estados
Unidos, e também a soja é exportada para vários países.
Na atualidade, essa realidade da produção agrícola baseada em
enormes extensões de terras, com uma pequena variação do tipo de
produto, proporciona uma sociedade na qual a quantidade de proprietários
de terra é reduzida, e ainda , a produção da pequena propriedade
rural é desvalorizada no mercado nacional.
Há pelo menos de 4 a 6 milhões de famílias sem-terra, cerca de 1%
dos proprietários rurais possuem 46% das terras produtivas e cadastradas
no Brasil (Censo do IBGE – 1996). As propriedades com menos de
100 ha representam neste último censo, 89,3% das propriedades, mas
representam cerca de 20% das terras brasileiras. Neste mesmo Censo
foram registradas 17.930.890 pessoas ocupando atividades no campo,
contrapondo-se aos dados de 1985 — que registram 23.394.881 trabalhadores
— portanto, percebe-se uma redução do trabalho no campo
em 23%.
Existe um outro indicativo que contribui para destacarmos a importância
da pequena propriedade na produção agrícola no Brasil. Segundo
os dados estatísticos sobre o montante da produção das pequenas
e médias propriedades produzidos pelo IBGE no Censo Agropecuário
de 1996, temos que: a produção de áreas com menos de 100 ha
correspondem a 47% da produção nacional, os estabelecimentos entre
100 ha a 1.000 ha correspondem a 32%; já as áreas com 1.000 ha
a 10.000 ha correspondem a 17% da produção, e ainda, as áreas acima
de 10.000 ha produzem apenas 4% do valor total da produção no
Brasil.
Segundo esses dados, é possível observar que mesmo a produção
da pequena e média propriedade sendo desvalorizada pela existência
de atividades rurais agro-exportadoras, ela é responsável pela maior
parte da produção agrária realizada no país. Isso em última instância
reforça a discussão e a necessidade de realização de uma grande Reforma
Agrária neste território.
São consideradas no Brasil, segundo a chamada Lei de Reforma
Agrária, pequenas propriedades, áreas que possuam menos de 5 módulos
fiscais, médias propriedades, aquelas que tenham de 5 a 15 módulos
e grandes propriedades, áreas que tenham mais de 15 módulos.
Os valores dos módulos fiscais variam de Estado para Estado, de região
para região, pois para a determinação do valor em hectares são
levados em consideração o tipo de exploração predominante no município,
a renda obtida com tal exploração, outras atividades produtivas
na área, e ainda, o conceito de propriedade familiar.
240
Ensino Médio
Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
Bom, até aqui explicamos, mesmo que brevemente, porque um país
como o Brasil possui movimentos sociais cujo objetivo é a Reforma
Agrária. Mas temos ainda de entender quando e como esses movimentos
sociais se organizam para tal.
Primeiros Movimentos de luta pela terra:
As Ligas Camponesas
Vamos descrever um quadro social bastante peculiar quanto às suas
características agrárias. Características estas que colocam em xeque
a forma como a organização do campo encontra-se na atualidade, pelo
menos no que diz respeito à distribuição de terras. Se por um lado,
tem-se um país cuja formação capitalista permitiu uma desigualdade
social ímpar, e certamente necessita de uma reformulação para atender
às necessidades de toda a população; por outro, essa transformação
pode ser alcançada de diversas maneiras.
Ao longo da história brasileira, principalmente no que diz respeito
ao século XX, várias propostas de Reforma Agrária foram discutidas
pelos mais diversos movimentos e governos. Hoje o movimento
de maior destaque e evidência é o Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem-Terra (MST).
Mas antes de seu surgimento, houve uma série de movimentos que
discutiram e lutaram pela reforma agrária. Dentre eles podemos citar
as Ligas Camponesas; a Comissão Pastoral da Terra (CPT) criada em
1975; ULTAB (União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil)
criada em São Paulo, final de 1955; e o MST.
A história das Ligas Camponesas pode ser compreendida em três
momentos: o primeiro, que começa em 1945 e vai até 1947; um segundo,
que se inicia em 1948 até 1954; e um último momento, com certeza,
o mais expressivo do movimento, que foi de 1954 até o seu final,
em 1964.
As chamadas Ligas Camponesas têm sua origem entre os anos de
1945 – 1947. Neste período, nosso país estava passando por um regime
de relativa democracia. Havia chegado ao fim a ditadura do 2° goverz
Realize uma pesquisa sobre a condição da produção agrícola na sua região ou do Estado, buscando
dados que tragam o tipo de produção existente (seu destino), bem como a distribuição dessas terras
(tamanho e proprietários) e a condição de vida do trabalhador do campo.
pesquisa
241
Sociologia
Movimentos Agrários no Brasil
no de Getúlio Vargas, que reprimiu toda e qualquer forma de manifestação
social contrária as suas idéias, inclusive colocando na ilegalidade
o Partido Comunista Brasileiro.
E foi justamente a partir dos integrantes do Partido Comunista que
as primeiras Ligas Camponesas se formaram. Em quase todos os Estados
brasileiros os trabalhadores rurais organizaram-se, no entanto, devido
ao fato do Partido ter sido colocado novamente na ilegalidade no
ano de 1947, houve uma certa desmobilização do movimento, que, no
entanto, continuou resistindo até meados dos anos de 1950 em alguns
lugares.
Alguns fatos marcaram este segundo período: a guerrilha de Porecatu
(conflito entre posseiros e latifundiários na divisa de São Paulo e
Paraná — 1950), a revolta de Dona Noca (conflito no interior do Maranhão
— 1951), o território livre de Formoso (conflito entre posseiros
e latifundiários por uma área de quase 10 mil quilômetros quadrados)
e o primeiro Congresso Nordestino de Trabalhadores Agrícolas (ocorrido
em Recife, sob a orientação do Partido Comunista de Pernambuco
— 1954).
Após o ano de 1954, as Ligas Camponesas organizaram-se ainda
com mais força, principalmente no estado de Pernambuco. De modo
geral, será esse o principal foco de resistência e atuação desse movimento
rural. Isto porque havia uma série de fatores que contribuíram
para o desenvolvimento do movimento no local, destacam-se: o fenômeno
da seca, altos índices de mortalidade, a decadência da economia
da região, dentre outros.
A atuação das Ligas desenvolveu-se no sentido de conscientização
e politização dos trabalhadores do campo e a busca pela reforma agrária
também estava vinculada a melhores condições de trabalho.
O movimento das Ligas Camponesas adquiriu tamanha importância
no cenário nacional que muitos de seus integrantes visitaram a ex-
União Soviética, a China e Cuba, em diversos momentos. Isso com o
intuito de melhor organizar o movimento e articulá-lo com outros, como
também, conhecer a produção agrícola desses países e a forma como
se dava a distribuição de terras.
A passagem por esses países, por parte dos membros das Ligas
Camponesas, também se deve ao fato dessas nações estarem experimentando
formas de organização social e do trabalho diferenciadas
das existentes no capitalismo. Chamadas de socialismo, estas experiências
apareciam no horizonte como possibilidades de se efetivar um
sistema no qual os valores humanistas poderiam ser vivenciados, e as
desigualdades sociais superadas, acabando, inclusive, com a luta de
classes entre os trabalhadores e a burguesia.
Algumas inovações dessas alternativas de organização social poderiam
ser observados na forma de distribuição de terras que experimen242
Ensino Médio
Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
tavam. No caso de Cuba, por exemplo, logo após a Revolução (1959),
estabeleceu-se no país uma Reforma Agrária que nacionalizava as propriedades
com mais de 420 hectares e as redistribuía aos trabalhadores
e arrendatários.
Portanto, tinha-se em Cuba pós revolucionária, uma distribuição
das terras diferenciada do sistema capitalista (e do Brasil) e ainda, por
mais que nestes solos a maior parte da produção fosse a da cana-deaçúcar,
lá não havia a concentração de terras, nem a distribuição concentrada
da renda, pois o trabalho era organizado de forma coletiva.
Estes eram exemplos de organizações sociais que os integrantes das
Ligas Camponesas estavam buscando conhecer, para que assim, de alguma
forma, pudessem desenvolver novas experiências em solo brasileiro.
Uma série de fatores políticos e sociais, nacionais e internacionais,
colaboraram para o desenvolvimento e ampliação não só da Ligas
Camponesas, no início da década de 1960, mas de uma série de movimentos
tanto no campo quanto na cidade. Estamos falando da eleição
de um governo progressista para governo federal, nas figuras de Jânio
Quadros e João Goulart – 1961, e também da Revolução Cubana (já citada
no primeiro Folhas de movimentos sociais – 1959).
Por um momento as Ligas Camponesas aglutinaram em sua volta
uma série de outras manifestações sociais, como por exemplo: Ligas de
Estudantes; Ligas Urbanas; Ligas Feministas; dentre outras. Houve ainda
na Liga Camponesa a formação de guerrilhas para organizar a resistência
à oligarquia agrária, tendo a participação não só do homem do
campo, mas também, o da cidade.
Na organização dos movimentos utiliza-se uma série de mecanismos
para sensibilizar o homem do campo e mobilizá-lo pela luta da
terra e da Reforma Agrária. Seus integrantes discutiam a necessidade
da existência desse movimento utilizando-se da Bíblia, do Código Civil,
e da Poesia Popular (violeiro, cantador e folhetista); isto porque
estas eram linguagens que faziam parte daquele cotidiano, ao mesmo
tempo, que se tornavam grandes facilitadores, considerando que uma
grande quantidade da população era analfabeta.
No estatuto das Ligas é possível compreender a finalidade da existência
do movimento. Consta no Artigo 2°:
“A liga tem por objetivos:
1° Prestar assistência social aos arrendatários, assalariados e pequenos
proprietários agrícolas.
2° Criar, instalar e manter serviços de assistência jurídica, médica, odontológica
e educacional, segundo suas possibilidades.
Parágrafo Único: A Liga não fará discriminação de cor, credo político,
religioso ou filosófico entre seus filiados.” (ESTATUTO DAS LIGAS, 2002:183).
Guerrilha: organização
política, cujo objetivo
de transfomação pode ser
atingido através da luta armada.
243
Sociologia
Movimentos Agrários no Brasil
Desta forma, tem-se que na organização e reivindicações das Ligas
estava presente além da luta por uma redistribuição dos latifúndios,
antes de tudo, uma melhor condição do homem do campo e a sua devida
assistência. As ligas Camponesas sofreram um revés e chegam ao
seu fim quando ocorre o golpe militar de 1964, impossibilitando qualquer
atuação do movimento.
As causas do golpe militar foram as mais diversas, mas podemos
colocar a existência de um governo progressista no Estado Federal,
aliada a uma série de manifestações sociais que colocavam em risco interesses
da burguesia nacional e internacional. Havia também a ameaça
à grande propriedade rural, associada à existência do Partido Comunista,
em um cenário internacional que apontava, de certa forma,
uma possível expansão do socialismo na América Latina. Estes fatores
criaram condições para a efetivação do golpe político da direita que tomou
o poder e decretou o fim de todos esses movimentos.
Daí que podemos compreender que a história do Brasil é marcada por
uma série de atos políticos e sociais tanto da classe trabalhadora quanto
da burguesia à procura de melhores condições para a sua existência. Como
já foi mencionado no “Folhas” anterior, esta situação geralmente leva
ao conflito, sendo que os movimentos sociais são a expressão dos mesmos,
ao mesmo tempo que o golpe militar em 1964 também o é.
Burguesia Nacional:
detentores de capital e dos
meios de produção cuja origem
é a mesma do país no
qual investem.
< Revolta dos Posseiros – Capanema – PR (1957)
< Foto: O. Jansen
244
Ensino Médio
Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
Bom, é fato: a ditadura militar brasileira impediu uma maior expansão
dos movimentos sociais no pós-1964, mas, no entanto, estes nunca
deixaram de existir efetivamente, pois, se por um lado o golpe os abafou,
por outro, ele não resolveu uma série de questões sociais que estavam
presentes na nossa realidade e que levavam parte da população
a retomar a luta por reivindicações anteriores. O problema da concentração
de terras, por exemplo, agravou-se.
A reorganização dos trabalhadores rurais:
A retomada da luta pelo MST
Entre 1964 e 1985, durante o período de ditadura militar, o capitalismo
no Brasil conheceu um certo tipo de “crescimento”; hoje, também
fruto desse crescimento o país é verdadeiramente um gigante, mas é
um gigante na ordem dos países que se subordinam aos interesses do
capital internacional e dos países centrais.
A partir de 1964, a economia nacional conheceu uma forma de desenvolvimento
na qual a sua produção passou a ser direcionada para
dois pólos principais. De um lado a intensificação da produção dos
bens de consumo duráveis (automóveis, eletro-eletrônicos), e de outro,
o esforço para uma produção com caráter exportador. Tais medidas
econômicas proporcionaram um surto de desenvolvimento econômico,
que só teria fim nos anos 70.
Entretanto, assim como em outros períodos da história nacional, os
mesmos mecanismos que asseguraram o êxito do chamado “milagre
econômico” do período militar, condicionaram e conduziram ao seu
próprio fim. Se o regime militar proporcionou, de uma forma ou de
outra, um suposto desenvolvimento econômico nacional, por outro lado,
este mesmo governo trouxe diversas mazelas para a Nação.
Entre os problemas desencadeados pelos governos militares, sem
dúvida, a questão do “arrocho salarial” foi a mais significativa. Por
meio de medidas constitucionais, o governo proibiu o aumento dos salários
em períodos menores que um ano; e quando os reajustes eram
efetivados, quem fornecia os índices era o próprio governo (Justiça do
z
Realize uma pesquisa que aborde os motivos do golpe militar em 1964 e suas conseqüências para
os movimentos sociais e partidos de esquerda existentes no Brasil naquela época.
pesquisa
245
Sociologia
Movimentos Agrários no Brasil
Trabalho – Federal), certamente manipulando-os, sendo estes sempre
inferiores ao da inflação do ano anterior.
Assim, as custas dos trabalhadores e de um regime no qual qualquer
manifestação contrária ao governo era absolutamente proibida, o
Brasil, na década de 1970, teve elevados índices de crescimento, que
se tornaram conhecidos como o “milagre econômico”.
No entanto, este surto de aceleração da economia entrou em colapso
a partir de 1973, quando se tem no âmbito internacional a chamada
“crise do petróleo”. E em alguma medida foi tornando-se cada
vez mais difícil sustentar as formas manipulatórias do Estado brasileiro,
já que em determinado momento, boa parte da burguesia nacional
tornou-se contrária aos militares, pois estes não estavam satisfazendoos
tanto como desejavam. Tais insatisfações aumentaram ainda mais,
quando no ano de 1978, ocorre a “2ª crise do petróleo”, deixando a
economia mais vulnerável, tanto pensando na ótica dos trabalhadores
como da burguesia, pois o crescimento nacional a altos índices não
mais ocorre ao mesmo tempo que se mantém o “arrocho” salarial.
É neste momento que se tem no plano nacional duas situações conhecidas,
que ocorreram concomitantes: de uma lado o Estado – tendo como
presidente o general Ernesto Geisel – já propondo, em vista da sua pouca
legitimidade e do esgotamento da experiência ditatorial, uma transição
a um regime democrático de forma “ lenta, gradual e segura”; e de outro
lado, a efervescência de vários movimentos sociais, pois parte da população,
principalmente trabalhadores e moradores pobres das periferias
das grandes cidades, já não se subordinava totalmente ao silêncio imposto
pelos militares.”
Inegavelmente, a segunda metade da década de 1970 foi marcada
por profundas tentativas de oposição ao regime militar: se de um lado,
a própria burguesia começava a se incomodar em alguns momentos
com o regime, de outro, as contestações por parte do movimento estudantil,
das articulações nos bairros (por meio da Igreja Católica) contra
a carestia começam a tomar fôlego.
Iniciava-se um processo de manifestações e a tentativa de mais uma
vez inserir os intelectuais, políticos e militantes (que estiveram, ou ainda
estavam exilados), na cena nacional. Uma das discussões que se
processam neste período já era a tentativa de se reestabelecer os antigos
partidos de esquerda (que até este momento, tinham um pequeno
espaço legal apenas por intermédio do MDB), e ainda, a criação de
novas organizações sociais e partidos.
É marca desse período o surgimento não só do Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem-Terra MST (1984), mas também do Partido do
Trabalhadores – PT, no final da década de 1970.
Nesse momento de crise econômica e política nacionais, junto à
possibilidade novamente de organização coletiva é que o MST surgiu,
Crise do Petróleo: Na
década de 1970 houve
duas crises do petróleo, a
primeira em 1973 e a segunda
em 1978, ambas
fruto de uma alta do preço
do petróleo, que sendo
a matéria-prima básica
(combustível e derivados),
criaram um colapso econômico
no mundo capitalista.
246
Ensino Médio
Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
a princípio sem uma organização centralizada; uma série de conflitos
de terras aconteceu durante o regime militar, mas só com o surgimento
da Comissão Pastoral da Terra (CPT), o movimento começou a se
articular.
O movimento, embora já existisse desde o final da década de 1970,
só ganha estatuto de movimento organizado nacionalmente em 1984
com o 1° Encontro Nacional, na cidade de Cascavel, no estado do Paraná.
Em 1985, acontece o 1° Congresso Nacional do MST, na cidade
de Curitiba, também, no estado do Paraná.
(Documentos e mais informações sobre o MST
visitem o site www.mst.org.br)
Esses dois momentos marcaram o surgimento
de um movimento que ao longo da década
de 1980 e 1990 deixou marcas profundas
na história nacional. Se estas marcas são questionáveis
ou não, o fato é que a produção agrária
no Brasil volta a ser discutida, bem como a
distribuição de terras, e ainda, as desigualdades
sociais existentes nesta sociedade.
A forma de atuação do MST é feita a partir de ocupações de terras
públicas ou particulares (latifúndios improdutivos ou que possuem dívidas
com o Estado) criando um fato político que pressiona os órgãos
públicos a negociarem a concessão da posse da terra. Certamente, este
processo de ocupação nem sempre é harmonioso, grandes conflitos
armados e sangrentos já ocorreram.
Como foi dito no “Folhas” anterior a respeito dos movimentos sociais,
em alguns movimentos é evidente a defesa de interesses e visões
de mundo que surgem a partir das condições de classe de seus membros.
No caso do MST, seu interesse, a saber a Reforma Agrária, entra
em conflito necessariamente com os interesses da burguesia proprietária
dos latifúndios.
Em várias ocasiões há conflitos entre os integrantes do MST e a polícia,
que é, por vezes, incumbida pela justiça de restaurar a posse da
terra. Outras vezes enfrentam milícias armadas pelos fazendeiros para
evitar que ocupem suas terras. Os latifundiários no Brasil possuem
uma organização própria criada em 1985, chamada UDR (União Democrática
Ruralista), cujo objetivo é a defesa da propriedade fundiária,
que seus possuidores julgam estar ameaçadas pelo MST.
Quando a ocupação é considerada legal ainda demora um período
para que os integrantes do movimento consigam a posse da terra. Por
mais que grandes dificuldades sejam encontradas nesses processos de
ocupação até o da conquista do direito da posse da terra, uma outra
série de problemas é criada a partir do momento em que se conquista
o direito da terra.
Fato Político:
Atividade realizada por um
grupo que desencadeia
uma série de conseqüências,
dentre elas, tornar pública
a sua reivindicação,
tendo como principal objetivo
a atenção da imprensa
e do Estado para uma resolução
mais rápida do problema.
< www.mst.org.br/multimidia/gfotos
< Encontro dos Sem Terrinha
247
Sociologia
Movimentos Agrários no Brasil
Um desses problemas é o de como organizar a produção agrícola,
agora que o latifúndio foi dividido em uma série de pequenas propriedades?
E ainda, como criar possibilidades para que esses “novos” pequenos
proprietários sobrevivam e consigam tirar da terra o seu “pão”?
Uma das saídas que vem sendo gerada pelo movimento é o de organizar
a pequena propriedade em cooperativas, ou mesmo os agricultores
se unirem para produzirem coletivamente, buscando assim uma
maior inserção destes produtos no mercado.
Por seu lado, essas alternativas também enfrentam dificuldades.
Muitas vezes, por conta do incentivo insuficiente dado pelos governos,
o pequeno produtor não resiste e acaba por vender a terra. A comercialização
da terra “conquistada” pela Reforma Agrária por parte
dos integrantes dos Movimentos
de Sem-Terra, é um dos fatos que
recebe a crítica mais comum presente
entre a população em geral.
Também, não podemos deixar de
mencionar o papel da mídia na ênfase
que ela dá a esse fato, tratando-
o de modo isolado das suas causas.
De um modo geral, quanto ao
MST, as notícias de boa parte da mídia,
são quase sempre tendenciosas
– favoráveis às posições dos proprietários
de terras
< www.mst.org.br/multimidia/gfotos
Procure notícias de jornais ou, se possível, assista ao documentário chamado “Meu bem, meu
mal”— sobre a caravana do MST que se dirigia a Curitiba no ano de 2000, e teve um dos integrantes
morto num confronto com a polícia — e avalie a quem a reportagem analisada acaba defendendo.
ATIVIDADE
Além de tudo, deve-se levar em consideração que a concorrência
do pequeno produtor com a produção em larga escala e mecanizada
no campo, na maioria das vezes, é desleal, já que o latifúndio não só
possui toda uma infra-estrutura para sua produção como também, consegue
muito mais facilmente créditos dos governos, geralmente por
sua produção ter como finalidade a exportação.
Dentre as tentativas de superação destes obstáculos, o MST também
possui como alternativa não só a capacitação política, mas também
técnica do assentado, formação preocupada em fornecer conhecimentos
adequados para um melhor aproveitamento da terra.
< Acampamento Cabanos no Maranhão
248
Ensino Médio
Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
Como última atividade a ser desenvolvida, sugerimos uma saída a campo realizando uma visita a um
assentamento ou acampamento do MST, para conhecer essa realidade. Uma outra sugestão é a leitura
de notícias que tratem do tema da Reforma Agrária, bem como, vídeos que falem sobre o movimento
realizando assim uma produção de texto.
ATIVIDADE
< www.mst.org.br/multimidia/gfotos
O MST, além de ser contrário a um único tipo de produção agro-exportadora
(monocultura), também incentiva a realização de culturas que
deixem de utilizar agrotóxicos em seus produtos, bem como o de sementes
transgênicas, realizando inclusive encontros agroecológicos, na
tentativa de gerir novas experiências.
Certamente, a repercussão do MST, no Brasil, aumentou em muito
a partir de meados dos anos 1990, quando alguns conflitos ocorreram
em diversas ocupações. Tendo em vista sua capacidade de articulação,
o movimento também aumentou sua atuação na sociedade, participando
de uma série de outras discussões como, por exemplo, colocandose
contra a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), discutindo o
papel da mulher e produzindo um projeto político-pedagógico para os
processos educacionais que acontecem nos seus assentamentos.
O MST certamente é fruto de um conjunto de fatores históricos nacionais
e internacionais do desenvolvimento do capitalismo que criaram
uma realidade social cheia de conflitos e contradições, da mesma
forma que as Ligas Camponesas foram uma tentativa de luta e reivindicação
por melhores condições do trabalhador rural.
< Assentamento Santa Maria do Oeste - PR
249
Sociologia
Movimentos Agrários no Brasil
Referências:
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GOHN, M. G. Os sem-terra, ONG’s e cidadania. São Paulo: Editora Cortez,
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JUNIOR, C. P. História Econômica do Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense,
1973.
MELO NETO, J. C. Morte e vida severina. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira,
2000.
MELO, D. M. Subjetividade e gênero no MST: observações sobre documentos
publicados entre 1979-2000. In.: GOHN, M. da Gloria (org.). Movimentos
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Editora Vozes, 2003.
MORAES, C. História das ligas camponesas do Brasil. In: STEDILE, J. Pedro
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1960. São Paulo: Expressão Popular, 2005.
Sites
www.mst.org.br. Acesso em 25/11/2005
www.incra.gov.br. Acesso em 30/11/2005
www.ibge.gov.br. Acesso em 02/12/2005
Vídeos
Cabra marcado para morrer, 1984, Brasil, direção: Eduardo Coutinho.
O bem e o mal, 2001, Brasil, Direção: Tetê Moraes.
O sonho de Rose, 2001, Brasil, Direção: Tetê Moraes.
z
z
z
15
MOVIMENTO
ESTUDANTIL
fazer para transformar a sociedade
na qual você se encontra?
erá que os estudantes, quando organizados,
podem ser considerados movimentos
sociais?
será que essas organizações já trouxeram
mudanças para a sociedade?
1Colégio Estadual Paulo Leminski – Curitiba - PR
252 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
Ensino Médio
Em novembro de 1985, foi criada uma lei federal que regulamenta
o funcionamento das entidades estudantis no Brasil. Essa lei, de n°
7.398 de 4 de novembro de 1985, assegura aos estudantes do Ensino
Fundamental e Médio o direito de se organizarem autonomamente e
criarem uma entidade representativa de seus interesses.
Mas você sabe como funcionam tais entidades e conhece esta lei?
O que estamos tratando é da possibilidade, por exemplo, dos alunos
de qualquer escola no Brasil poder criar um Grêmio Estudantil a
partir da eleição direta do corpo discente (alunos).
Está na lei n° 7.398:
“Art. 1o – Aos estudantes dos estabelecimentos de ensino de 1º e 2º
graus fica assegurada a organização de Estudante como entidades
autônomas representativas dos interesses dos estudantes
secundaristas com finalidades educacionais, culturais,
cívicas, esportivas e sociais”.
Qual o procedimento que devemos ter para criar um Grêmio?
É criada uma ou mais chapas, compostas por alunos da própria escola,
que concorrerão a uma eleição, e posteriormente, representarão
os interesses dos alunos nas discussões da escola.
Portanto, a partir dessa lei, o estudante além de se organizar enquanto
entidade representativa, também pode reivindicar mudanças
não só dentro da sua escola, como também, no que diz respeito à sociedade
em que está envolvido.
Boa parte das instituições de ensino hoje, tanto do Ensino Fundamental
e Médio, como as de nível Superior, possuem suas entidades
representativas. As escolas possuem seus Grêmios Estudantis, as Universidades
possuem CA’s (Centros Acadêmicos), DA (Diretório Acadêmico)
e DCE (Diretório Central dos Estudantes); e ainda existem
entidades que representam o coletivo dos estudantes não só na instituição,
mas em toda a sociedade, nas mais diversas instâncias. Assim,
temos no Estado do Paraná a UPE (União Paranaense de Estudantes)
e a UPES (União Paranaense de Estudantes Secundaristas), e em nível
nacional a UBES (União Brasileira de Estudantes Secundaristas), a UNE
(União Nacional dos Estudantes).
Mas nem sempre foi assim na história do Brasil. Durante o período
militar (1964-1985), essas entidades foram proibidas de se organizarem
em acordo com a lei. Não que as mesmas deixaram de existir, mas elas
estiveram na clandestinidade durante quase todo o período, e por conseqüência,
seus integrantes também.
Agora, se essas organizações eram ilegais (do ponto de vista constitucional
e jurídico), por que esses estudantes colocaram suas vidas
em risco fazendo parte dessas instituições e organizando movimentos
sociais no Brasil durante esse período?
Movimento Estudantil 253
Sociologia
A resposta certamente não é porque eles eram baderneiros, ou desejavam
criar conflitos sem nenhum sentido, muito pelo contrário, esses
estudantes que na época fizeram parte dos movimentos estudantis, desejavam
uma sociedade mais justa, democrática, na qual de fato pudessem
defender seus interesses.
Portanto, da mesma forma que os movimentos sociais já estudados
nos textos anteriores, como o movimento dos trabalhadores rurais
sem-terra – que defendem o fim do latifúndio e a reforma agrária –, o
movimento social organizado pelos estudantes também reivindicavam
transformações na sociedade brasileira.
E isso não acontece só no Brasil, em outros países como a França,
os Estados Unidos da América, a Alemanha, a Itália, o Chile, a Argentina,
a Espanha, dentre tantos outros países, possuíram ou possuem movimentos
estudantis, defendendo os mais diversos motivos.
A sua escola tem um Grêmio Estudantil? Você sabe quais atividades esse Grêmio tem desenvolvido
em prol de você, estudante, e da sua comunidade? Discuta as suas propostas em sala de aula, buscando
interferir nessa entidade.
Caso em sua escola não exista um grêmio, organizem-se de modo a oferecer discussões que proporcionem
a criação de um.
Para obter maiores informações sobre como organizar um Grêmio, bem como as lutas do movimento
estudantil na atualidade, procurem as entidades representativas no Estado ou mesmo as Nacionais.
ATIVIDADE
A segunda metade do século XX teve em sua história uma série de
situações que de certa maneira criaram condições para o surgimento
de inúmeros movimentos sociais.
No caso específico do Brasil, o golpe militar de 1964 deu início ao
regime ditatorial, incompatível com os valores democráticos e, acabou
por favorecer e desencadear movimentos sociais, tanto de oposição
quanto de defesa do governo vigente.
O regime ditatorial brasileiro tinha como um de seus objetivos conter
as crescentes manifestações de caráter popular, que exigiam reformas
sociais, mais ou menos, profundas (agrária, estudantil e urbana,
principalmente). A direita e a extrema direita política da época, julgavam
que essas manifestações e reivindicações estavam vinculadas de
forma direta e indireta à expansão do socialismo e do comunista pelo
mundo.
254 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
Ensino Médio
Não podemos deixar de lembrar que durante a década de 1960,
ocorria no mundo a chamada Guerra Fria, cujos principais participantes
eram a ex-URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) e os
Estados Unidos. Pós-II Guerra Mundial estabeleceu-se uma disputa entre
essas duas potências, que desejavam a expansão e consolidação de
seus regimes econômicos e políticos, a saber, o socialismo e o capitalismo.
E este fator externo foi fundamental para o advento da ditadura
militar no Brasil, inclusive contando com a participação direta de
organizações secretas e militares norte-americanas como a CIA (Agência
Central de Inteligência dos Estados Unidos) no processo de treinamento
dos militares brasileiros e observando o desencadeamento das
ações da esquerda.
Os jornalistas tinham suas reportagens censuradas, os atores e escritores
tinham suas peças impedidas de serem exibidas, os professores
eram obrigados a deixarem as salas de aula por emitirem opiniões
contrárias tanto ao regime ditatorial, como também, os valores morais
e sociais impostos pelo Estado.
Um grande número de partidos e organizações de esquerda surgiu
neste período de tensão na sociedade brasileira, cujo principal objetivo
era o fim da ditadura militar.
Cada organização desta exerceu, durante a ditadura, um importante
papel de resistência. Uma série de ações foram pensadas e realizadas
na busca pela transformação da sociedade brasileira.
Podemos então citar dentre essas mais variadas formas de atuação
na sociedade brasileira: O PCB (Partido Comunista Brasileiro), ALN
(Aliança Libertadora Nacional), PCBR (Partido Comunista Brasileiro
Revolucionário), MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro), o
Partido Comunista do Brasil (PC do B), Ação Popular (AP), a POLOP
(Organização Operária Marxista Política Operária), isso para elencar
apenas algumas.
Esses grupos tinham as mais diferentes orientações: uns tinham como
meta a guerrilha armada, outros discutiam a formação de uma “frente
ampla”, a qual uniria a burguesia nacional, os trabalhadores e as mais
diversas organizações sociais para combater a ditadura.
Entre as formas de intervenção desses grupos, podemos lembrar da
prática de seqüestros organizados pelo MR-8, que chegaram a incluir
embaixadores estrangeiros, e também a realização de assaltos a bancos,
organizados como o intuito de arrecadar fundos para a resistência à ditadura.
O próprio movimento estudantil desenvolvia ações que questionavam
e combatiam a ditadura. Mesmo antes da execução do golpe em
1964, principalmente a UNE possuía uma série de atividades, nas quais
a valorização do nacional estava posta em primeiro plano.
Uma dessas atividades era em torno dos CPC’s (Centro Popular de
Cultura). Esta entidade foi criada no ano de 1962 pela UNE e tinha co-
Guerra Fria:
Momento histórico iniciado
após o fim da II Guerra Mundial,
no qual EUA (Estados
Unidos da América) e URSS
(União das Repúblicas Socialistas
Soviéticas) dividem
o mundo em dois blocos, o
que era capitalista e o bloco
comunista. Neste período
houve uma série de conflitos
indiretos entre esses dois
países dentro de outros territórios
nacionais, como, por
exemplo, Cuba ou o Vietnã. A
corrida armamentista, o desenvolvimento
tecnológicoespacial
e a busca pela expansão
de seus regimes em
outros países também foram
marcas desse período.
Movimento Estudantil 255
Sociologia
mo objetivo fomentar a produção cultural brasileira. Seus incentivos
davam-se em todas as áreas da arte. Em todas as obras que foram produzidas
estavam presentes um caráter nacional popular associado ao
protesto social. Com esta nova concepção sobre o que a arte tinha de
representar, objetivava-se criar uma unidade nacional por meio da valorização
da população brasileira, trazendo para o centro das manifestações
artísticas o seu cotidiano e suas experiências sociais.
Dessa forma, a música, o teatro e todas as outras manifestações artísticas
tinham como objetivo final de suas produções a apresentação
de temas que fossem, de algum modo, ligados às classes populares do
país, buscando criar uma identidade nacional que se opunha aos valores
culturais das elites dominantes, “contaminados” por cultura estrangeira.
Um bom exemplo para este tipo de produção que valorizava o nacional
popular e ainda realizava protesto é a música “Subdesenvolvido”,
de Carlos Lyra e Chico de Assis.
Nessa música, a letra descreve uma situação já bastante comum na
época, que era a incorporação de valores que não eram nacionais, mas
sim norte-americanos, denominado pelos autores de “americanos”.
Eles fazem referência ao consumo de formas de pensar, dançar e
cantar que tinham sua origem nos EUA, um país desenvolvido. Este
país, segundo a letra, nos influenciava, mas, no entanto, estas formas
de pensar não correspondiam à nossa realidade nacional.
Subdesenvolvido
Os versos da música dizem:
“[...] O povo brasileiro embora pense, dance, cante como o americano,
não come como americano
não bebe como americano
vive menos, sofre mais
[...] Subdesenvolvida, subdesenvolvida
Essa é que é a vida nacional”.
Portanto, temos uma letra que discute a incorporação de um modo
de vida que não é brasileiro, de um povo que não possui as dificuldades
nacionais e ainda, não vive numa nação subdesenvolvida.
E a solução para este tipo de problema, seguindo a proposta do
CPC, seria a elaboração cultural e teórica de manifestações genuinamente
brasileiras, que resgatassem a produção nacional popular e ainda,
que fossem instrumento de crítica política e social.
Os trabalhos desenvolvidos pelos artistas que compunham o quadro
do CPC’s da UNE, portanto, desejavam criar uma arte que resgatasse
o nacional popular e, ao mesmo tempo, fosse uma forma de se
protestar contra questões de caráter político e social.
256 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
Ensino Médio
O movimento estudantil realizou outros atos contra as políticas educacionais,
já sob o regime militar brasileiro. No ano de 1965, os estudantes
saíram às ruas reivindicando mais verbas para o ensino, como
também o fim do acordo MEC-USAID (Ministério de Educação e Cultura/
Agência e Ajuda Externa dos EUA).
Uma das principais mudanças propostas no acordo com a Agência
norte-americana dizia respeito ao incentivo à privatização do ensino
brasileiro, principalmente o Ensino Superior. Além disso, a Agência
financiava programas educacionais de caráter conservador e subsidiava
ainda a formação de pós-graduados no EUA. O USAID também tinha
como objetivo promover no estrangeiro uma posição favorável
aos EUA no que dizia respeito à Guerra Fria. Em um dos seus relatórios
afirmava:
“A Guerra Fria é uma batalha para o intelecto do homem [...].Se nós pudermos
ajudar essas universidades a exaltar a verdade, a encontrá-la e a
ensiná-la, então nós teríamos a maior segurança de que o Brasil seria uma
sociedade livre e um amigo leal dos Estados Unidos”. (USAID apud GERMANO, 2000;
127-8)
Com posições contrárias a essas políticas educacionais propostas
pela Reforma Universitária, mais uma vez, o movimento estudantil coloca-
se contra as políticas desencadeadas pelo governo militar.
Por conta de suas atuações na sociedade brasileira, a UNE, e de
modo geral, todo o movimento estudantil foi alvo do governo militar
brasileiro. Já em 1° de abril de 1964, a sede da UNE, localizada no Rio
de Janeiro, foi invadida e incendiada por um grupo paramilitar chamado
CCC (Comando de Caça aos Comunistas). Esses grupos paramilitares
agiram durante quase todo o período da ditadura, na tentativa de
eliminar os movimentos sociais existentes que representavam um suposto
“perigo vermelho”, como comunistas (organizados ou não nos
partidos), e os estudantes que eram, em boa parte,vinculado à UNE.
Fazer oposição a esse regime, no entanto, era uma ação bastante
perigosa, principalmente, após o ano de 1968, quando os militares ins-
Confronto entre policiais e estudantes
em São Paulo, em agosto
de 1968.
< Foto: Arquivo Nacional/Correio da Manhã.
Grupos Paramilitares:
: organizações de caráter
privado, que reproduzem
o ideário do Estado e
realizam ações com estruturas
muito parecidas com
as do Exército.
Movimento Estudantil 257
Sociologia
tituem o chamado AI-5 (Ato Institucional n° 05). Esses Atos eram instrumentos
jurídicos que permitiam a criação de novas leis, que se sobrepunham
a Constituição Nacional, mas ao mesmo tempo permitiam
a utilização da mesma no que estivesse de acordo com os valores do
regime militar.
Consta no artigo 4°do Ato Institucional n° 05 de 13 de dezembro
de 1968:
“ Art 4º - No interesse de preservar a Revolução, o Presidente da
República, ouvido o Conselho de Segurança Nacional,
e sem as limitações previstas na Constituição, poderá
suspender os direitos políticos de quaisquer cidadãos
pelo prazo de 10 anos e cassar mandatos eletivos federais,
estaduais e municipais”.
Esse ato dentre as várias ações que deliberava, colocou o Congresso
Nacional em recesso, da mesma forma que várias Assembléias Legislativas
Estaduais e Câmaras de Vereadores. Diversos parlamentares foram
cassados e presos, inclusive um dos articuladores do golpe de 1964, Carlos
Lacerda que, até o ano de 1965, mantinha-se como governador do
antigo estado da Guanabara, hoje Rio de Janeiro. Este ato demonstra como
o governo estava tornando-se cada vez mais rígido e punitivo.
A criação deste ato institucional ainda possibilitava que a qualquer
momento fosse dada voz de prisão ao cidadão e encaminhado as instituições
competentes (polícia política), sem a necessidade de um mandato
judicial e sem a garantia do direito de “hábeas corpus”, que é um
direito garantido por Constituição, no qual é possível que o preso seja
libertado e aguarde todo o andamento do processo.
Isso possibilitava que a cada passo julgado equivocado pelo governo,
a cada palavra dita fora da medida estabelecida pelo mesmo, o cidadão
poderia ter rapidamente sua prisão decretada ou mesmo seus
direitos de político, de jornalista, de compositor impossibilitados de serem
exercidos.
Do ponto de vista social e político estabeleceu-se um caos no país
do futebol, que não mais possuía um árbitro que antes do jogo estabelecesse
as regras do mesmo, muito ao contrário, as regras, as normas
e as possibilidades eram a todo o instante alteradas, obviamente,
sempre de acordo com os interesses do governo.
É em meio desse conflito social e político, no qual os partidos e organizações
de esquerda existentes estavam na ilegalidade e eram sempre
considerados subversivos, e ainda, numa nação na qual existiam
no Congresso Nacional apenas dois partidos políticos: o MDB (Movimento
Democrático Brasileiro) e a ARENA (Aliança Renovadora Nacional),
que o movimento estudantil brasileiro faz forte oposição ao governo,
exigindo direitos democráticos e mudanças em suas políticas.
258 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
Ensino Médio
O ano de 1968 marca a história do Brasil, no entanto, não só pela
criação do Ato Institucional n° 05, mas, também, porque neste mesmo
ano foram realizadas inúmeras ações contrárias ao governo militar organizadas
pelo movimento estudantil de grande repercussão nacional.
Uma série de fatos marca o movimento estudantil no ano de 1968,
um dos mais chocantes foi a morte do estudante Edson Luís, no Rio de
Janeiro, em março deste referido ano. Sua morte deve-se a um conflito
entre os estudantes e a PM (Polícia Militar), a Polícia Civil e agentes
do DOPs (Departamento de Ordem Política e Social).
Os estudantes estavam reivindicando que o restaurante universitário
Calabouço, na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) tivesse
o valor de suas refeições reduzidas além das melhorias e conclusão
das obras no estabelecimento.
Uma manifestação foi organizada para que essas reivindicações se
tornassem públicas, no entanto, neste período, era necessário pedir
que o governo a autorizasse. Uma vez não sendo autorizada, e ainda,
por ser contrário ao governo, esse movimento foi brutalmente reprimido
com violência dos policiais, levando o estudante Edson Luís
à morte.
A partir da morte deste estudante, vários conflitos
envolvendo os estudantes, a comunidade
de modo geral e a polícia foram acirrados. A repressão
policial tomava as formas mais brutais,
deixando alguns setores da sociedade escandalizados
com os fatos que eram transmitidos pela
imprensa.
Na missa de sétimo dia de Edson Luís, novamente
todos os participantes, inclusive os padres,
foram cercados pela presença de policiais e
Estudantes carregam caixão com o corpo de Edson
Luís Lima Souto, morto em confronto com a polícia
militar em 28 de março de 1968, no Rio de Janeiro.
< Foto: Arquivo Nacional-Correio da Manhã.
da cavalaria na frente da Igreja da Candelária no
Rio de Janeiro, antes e depois da missa.
A tensão e o medo de se desencadear novamente
um massacre com os presentes para a
missa, fez com que no final da mesma, todos saíssem
juntos, com os padres na primeira fila.
“– Não gritem, não falem nada — de vez em quando dizia um padre. —
Devagar, ninguém corre.
O silêncio do cortejo permitia que se ouvisse a impaciência do inimigo
que os esperava a alguns metros: era aquele mesmo ruído de cascos de
cavalos que antes chegava ao altar e agora estava cada vez mais próximo”
(VENTURA, 1988: 121).
Movimento Estudantil 259
Sociologia
Mas apesar da repressão mostrar-se cada vez mais dura e obstinada
em liquidar seus adversários, as manifestações, dos mais diversos grupos
não deixaram de acontecer. Por todo o país, tanto os estudantes,
como os intelectuais e militantes não deixaram de se organizar.
Em São Paulo, são impressionantes os relatos que tratam dos conflitos
na Rua Maria Antonia, onde se localizavam a Faculdade de Filosofia
da USP e a Faculdade Mackenzie. No caso de São Paulo, o conflito
foi entre estudantes que tinham posições contrárias, os que tinham
uma postura de esquerda, contestadora da ditadura com alunos cujas
posições políticas estavam vinculadas ao do regime militar.
“[...] os estudantes da Universidade Mackenzie e da Faculdade de Filosofia
da Universidade começaram uma batalha de tiros, bombas, rojões e
coquetéis molotov que durou até o dia seguinte, deixando como saldo um
prédio incendiado, muitos feridos e um morto: o secundarista José Guimarães
de 20 anos”. (VENTURA, 1988: 221)
Como já foi afirmado anteriormente, a participação em movimentos
sociais está vinculada à posição política que defendemos na sociedade.
Desta forma, podemos encontrar no movimento estudantil os contrários
à existência do próprio movimento contra a ditadura. Estes estavam
por sua vez inseridos em organizações paramilitares como o CCC
(Comando de Caça aos Comunistas), já citado anteriormente.
Os conflitos, portanto, aconteciam tendo os mais variados objetivos
e defesas. E estes levavam a sociedade brasileira a uma situação
de tensão constante. Inclusive, após a promulgação do AI-5, este estado
de “nervosismo” tornou-se ainda mais comum, nem tanto pelo aumento
dos conflitos, pois estes foram progressivamente reduzindo-se,
já que o risco de ser preso e morto era enorme, mas pela dificuldade
extrema de posicionar-se politicamante
A lista de presos, torturados e desaparecidos durante a ditadura
brasileira é imensa, há 125 presos políticos, cujo destino suas famílias
nunca descobriram, mesmo existindo, já na época, um movimento organizado
pelas mães e familiares dos presos que desejavam obter notícias
de seus paradeiros.
Vivemos em um país democrático, podemos eleger nossos governantes, podemos nos posicionar
politicamente, podemos inclusive nos manifestar contra uma série de situações livremente... Será? Faça
uma pesquisa sobre o movimento estudantil nos últimos anos aqui no Paraná e na sua cidade, e procure
descobrir quais são as reivindicações do movimento estudantil na atualidade e ainda, pesquise se
estas foram alcançadas.
pesquisa
260 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
Ensino Médio
A tensão e o descontentamento desses anos da ditadura brasileira podem ser percebidos
vislumbrando-se não só uma série de manifestações dos estudantes, mas, também, podem ser
ouvidos e sentidos quando analisamos uma série de composições da época.
Em muitas composições de vários artistas nacionais era cantada a tristeza do exílio, ou mesmo,
a melancolia de uma sociedade na qual os direitos políticos dos cidadãos estavam completamente
limitados. Neste período da nossa história, vários compositores, das mais diferentes
vertentes musicais da época: tropicalismo, música popular brasileira tiveram suas canções parcial
ou completamente censuradas pelos militares.
Chico Buarque de Holanda, um dos mais importantes
compositores da música popular brasileira, teve diversas
músicas censuradas pelo regime militar. Ele utilizava pseudônimos,
como Julinho da Adelaide, para tentar burlar a
censura dos militares.
Isso porque em suas letras, muitas vezes, ele criticava a
ditadura ao mesmo tempo em que apostava em dias melhores.
Dias melhores significavam para o compositor a retomada
de um país democrático.
Em sua música “Apesar de você” está a esperança num
futuro, ao mesmo tempo em que a ditadura brasileira é retratada
como uma forma de conter o “florescimento” (desenvolvimento)
da nação. Leia os versos da música ao lado:
Só que, ao mesmo tempo em que eram produzidas as
chamadas músicas de protesto contra a ditadura, havia também
os compositores que exaltavam o país do futebol, bem
como, suas maravilhas e seu crescimento econômico vertiginoso.
Podemos observar essa diferente postura frente à sociedade brasileira da época quando
analisamos trechos da música “Prá frente Brasil”, de Miguel Gustavo, que foi escrita para a seleção
brasileira de futebol tri-campeã no ano de 1970.
Nessa canção, há a tentativa de valorizar conquistas esportivas nacionais do período, buscando
retratar um Brasil otimista e promissor. Este tipo de postura, por causa do silêncio em
relação às atrocidades do regime militar, substituído pelo elogio ufanista da nação, acabava por
ser a forma de expressão ideológica mais apropriada aos propósitos de controle social por parte
dos militares.
Apesar de você
“[...] Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
que esse dia há de vir
Antes do que você pensa [...].”
(Chico Buarque, 1970)
Prá frente Brasil
“Noventa milhões em ação
Prá frente Brasil do meu coração
Todos juntos vamos
Pra frente Brasil
Salve a seleção [...].”
(Miguel Gustavo, 1970)
http://www.museudosesportes.com.br/
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<
< Taça Jules Rimet
Movimento Estudantil 261
Sociologia
Se no Brasil a década de 1960 foi marcada por uma série de manifestações
de caráter social, nos quais o movimento estudantil teve uma
atuação bastante importante, no restante do mundo, seja ele ocidental
ou oriental, de modo geral os estudantes também estiveram presentes.
No que diz respeito ao ano de 1968, em diversos países os estudantes
saem às ruas gritando palavras de ordem, pelo fim da Guerra do
Vietnã, confrontando a rigorosa repressão sexual em voga, ou ainda, as
rígidas relações de autoridade comuns nas escolas da época.
O ano de 1968 foi particularmente caloroso no mundo todo. Mas
certamente podemos destacar alguns movimentos cujas repercussões
extrapolaram seus limites nacionais.
Há uma música chamada “Sinal Fechado” do sambista Paulinho da Viola do ano de 1969, na qual
há vínculos diretos com o período vivenciado pelo Brasil após a criação do AI-5, já mencionado anteriormente
no texto. Analise esta letra e explique o porquê desta ligação, se preferir procure a letra na íntegra
para realizar a atividade.
“[...]Quanto tempo... pois é... (pois é... quanto tempo...)
Tanta coisa que eu tinha a dizer
Mas eu sumi na poeira das ruas
Eu também tenho algo a dizer
Mas me foge a lembrança [...]”
ATIVIDADE
Como pode ser observado, há nas duas canções uma postura diferente quanto à sociedade
em que se vivia. Na primeira letra, de Chico Buarque, temos uma postura crítica, na qual se
tem a esperança que aquela forma de organização política tivesse fim, a esperança do término
da ditadura militar. Já na outra consagrada canção para os campeões da copa de 1970, a seleção
canarinho, tem-se o ufanismo (exaltação) da nação brasileira.
Da mesma forma, portanto, que os movimentos sociais adquirem projetos diferentes em
acordo com sua consciência de classe, na música, na arte em geral, a forma com que representa
o mundo possui um vínculo direto com a maneira com que o indivíduo ou o grupo que a
produz concebe e analisa a sociedade. Com isso, compreendemos o porquê destas duas posturas
tão diferentes retratando o Brasil militar.
Dê um lado, portanto, com a música de Miguel Gustavo há a valorização da seleção de futebol
e a aclamação de um futuro coletivo e melhor para a sociedade brasileira, com os versos:
“Todos juntos vamos/ Pra frente Brasil [...]”; por outro, temos a música de Chico Buarque
que em acordo com sua postura diante do regime ditatorial brasileiro (regime este que o obrigou
a exilar-se, pois o referido compositor era contrário ao governo militar e um defensor da
redemocratização do país), escreve uma música cuja principal mensagem é a aposta que mais
cedo do que se imaginava o fim do regime chegaria.
Guerra do Vietnã:
conflito entre os vietcongs
e vietnamitas. Eles disputavam
pelo território nacional
do Vietnã, e tinham
como aliados, os primeiros,
os comunistas soviéticos,
e os segundos os Estados
Unidos da América, ambas
forneciam homens e armamentos
para os conflitos.
262 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
Ensino Médio
Você já ouviu falar do movimento hippie? Certamente sim, mas você sabe o que é? Qual a
sua origem? Quais as suas causas, os projetos de vida de seus participantes?
Esse movimento tem sua origem nos Estados Unidos da América, com o objetivo de fazer
oposição à guerra do Vietnã. Pregava-se o amor e não a guerra, com a frase: “Faça o amor não
faça a guerra”, objetivava-se uma nova forma de vida cujos valores são bem diferentes do american
way of life (jeito americano de ser), desenvolvendo uma forma de conceber a vida muito
diferente dos valores sociais vigentes na atualidade.
E mais, o movimento hippie era contrário a esse consumismo desenfreado ao qual as pessoas
subordinam-se cotidianamente. Consumismo este que inclusive se apropria do visual do
movimento para “lançar a moda da próxima estação”.
O movimento hippie foi, portanto, também a expressão de uma “contra-cultura”, isso quer
dizer que: ao mesmo tempo que eram contrários à Guerra do Vietnã, os que faziam parte do
movimento também ofereciam uma forma de organização social diferente, diferente da forma
com que a sociedade norte-americana organizava-se e se reproduzia tanto socialmente como
culturalmente.
O movimento hippie pode ser considerado também a expressão social de certos descontentamentos
referentes à sociedade norte-americana, da mesma forma que no Brasil, o movimento
estudantil pode ser considerado fruto e tentativa de rompimento com valores obscuros e segregadores
como os presentes no regime militar.
Se discutirmos o movimento estudantil francês, também poderemos observar que desde o
seu surgimento há um descontentamento presente, e a necessidade de se criar algo novo na
sociedade.
O chamado Maio de 68, na França, é um exemplo de movimento estudantil que também
rompeu com os limites nacionais, pois na época, o mesmo influenciou outras atividades estudantis
pelo mundo, ao mesmo tempo, que por meio de outras manifestações realizadas pelos
quatro cantos do planeta também obteve a solidariedade de muitos estudantes.
O maio de 68 francês ainda hoje é discutido nas Ciências Sociais, sendo objeto de estudo
de muitos pesquisadores, pois o mesmo proporcionou na sociedade francesa, durante seu curto
período de intensas manifestações, a revelação de uma série de descontentamentos e possíveis
soluções que marcariam a França para sempre.
“Na França a rebelião estudantil liderada pelo estudante Danny Cohn-
Bendit, promove uma greve geral e aproximadamente 10 mil pessoas enfrentam
a polícia num confronto que ficou conhecido como a Noite das Barricadas”
(PARANA, 1998, s/p).
O movimento estudantil francês extrapolou os limites da universidade para incorporar na sua luta
a necessidade de outros, como os trabalhadores, que num ato conjunto decide realizar uma greve
geral na França.
Por conta do descontentamento com a estrutura universitária, os estudantes saem à rua e
entram em choque, tal qual aconteceu no Brasil, com a polícia. E estes confrontos foram absolutamente
violentos.
“[...] os confrontos entre universitários, colegiais, transeuntes, policiais serão extremamente
violentos: carros tombados, incêndios de caixotes, granadas de gás lacrimogêneo, espancamentos.”
(MATTOS, 1981: 53).
Movimento Estudantil 263
Sociologia
< Movimentos de Estudantes em defesa da escola pública, 2000, Curitiba.
< Foto: J. Marçal
Da mesma forma que aconteceu no Brasil, uma série de estudantes foram presos; a Universidade
Sorbonne foi invadida pela polícia na tentativa de sufocar o movimento. Essas invasões
às Universidades foram atitudes bastante presente aqui no Brasil; os estudantes da UnB, por
exemplo, foram brutalmente reprimidos em Brasília, dentro da própria universidade.
O maior diferencial do movimento do Maio de 1968, foi sem dúvida, sua junção com movimentos
de trabalhadores que também participaram dos conflitos de rua. Barricadas eram montadas
nas ruas para a proteção. Os paralelepípedos eram arrancados das ruas e posteriormente
eram utilizados como “arma” lançados nos policiais.
Seria possível elencar uma série de manifestações estudantis pelo mundo que tiveram sua
organização estritamente vinculada aos fatos ocorridos na França, vários movimentos acontecem
em apoio aos estudantes franceses, por exemplo, na Tchecoslováquia.
Os estudantes da Tchecoslováquia, que em maio de 1968, manifestaram-se favoráveis aos
estudantes franceses na frente da embaixada da França, também tentaram resistir meses depois
à invasão soviética em seu país.
Mais uma vez, mostra-se uma capacidade muito grande dos movimentos estudantis em se
organizarem e imporem uma resistência a sistemas políticos que por meio de determinadas formas
de organizações reprimem e limitam a atuação e criação do homem em sociedade.
Com tudo o que foi discutido e apresentado neste texto, concluímos que o movimento estudantil
historicamente possui uma grande possibilidade de resistência e de participação social...
Pensando nisso... vocês, alunos, já discutiram sobre
o Grêmio Estudantil da sua escola????
Não há nenhum movimento que já tenha começado
grande, a história tem um ritmo próprio,
no qual tudo é construído, portanto, iniciar pelo
grêmio estudantil já é um bom começo.
Mas se lembrem, as organizações sociais devem
ser discutidas sempre com muita responsabilidade,
pois o movimento estudantil no mundo
todo possui uma histórica digna e feita de
importantes projetos para transformação social.
Bem pelo que abordamos neste texto e nos dois Folhas anteriores sobre os movimentos sociais, vimos
que para a existência de qualquer forma de organização é necessário um ponto em comum, que
pode ser um desejo de transformação.
Na última atividade proposta, vocês alunos pesquisaram sobre as ações do movimento estudantil
hoje. Mas e vocês, alunos do Ensino Médio possuem um projeto, têm desejos para si e para a sociedade
?
Ou vocês acham que em nossa sociedade está tudo bem, nada deve ser mudado ?
Estamos num mundo no qual catástrofes ecológicas vêm sendo anunciadas, por conta de desequilíbrios
ambientais, um mundo onde há um continente inteiro morrendo de fome, e muito pouco é feito,
uma sociedade que ainda reproduz valores como os racistas e ainda acham que os errados são os
negros...
pesquisa
264 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
Ensino Médio
Referências:
ARNS, D. P. Brasil nunca mais. Petrópolis: Editora Vozes, 1985.
GERMANO, J. W. Estado militar e educação no Brasil (1964-1985). São Paulo: Editora Cortez,
2000.
GORENNDER, J. Combate nas trevas. São Paulo: Editora Ática, 1987.
MATTOS, O. Paris 1968: as barricadas do desejo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1981.
RIDENTI, M. Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução, do CPC e a era da TV. Rio de Janeiro/
São Paulo: Editora Record, 2000.
SECRETARIA DO ESTADO DA CULTURA (SEEC) maio de 68: Sonhos de transformação. Curitiba: Imprensa
Oficial, 1998.
VALLE, M. R. 1968, o diálogo é a violência: movimento estudantil e ditadura militar no Brasil. Campinas:
Editora da Unicamp, 1999.
VENTURA, Z. 1968: o ano que não acabou. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1988
WORMS, L. S.; COSTA, W. B. Brasil século XX: ao pé da letra da canção popular. Curitiba: Editora
Nova Didática, 2002.
Site
www.une.org.br
Vídeos
“O que é isso companheiro”, 1997, Brasil, direção: Bruno Barreto.
“Que bom te ver viva”, 1989, Brasil, direção: Lúcia Murat.
“Pra frente Brasil”, 1983, Brasil, direção: Roberto Farias.
Músicas Citadas:
Subdesenvolvido, Carlos Lyra e Chico de Assis.
Apesar de Você, Chico Buarque de Holanda, 1970.
Pra frente Brasil, Miguel Gustavo, 1970.
z
z
z
z
É possível elencar uma lista de situações desagradáveis que devem ser mudadas...
Pensando nisso, desenvolvam um texto apontando elementos que poderiam favorecer mudanças
positivas na sua vida e na da sua comunidade.
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