sexta-feira, 2 de julho de 2010

1362 - HISTÓRIA DO LIVRO

Universidade de Lisboa | FCUL | SAHFC
Henrique Leitão

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Investigador auxiliar da Secção Autónoma de História e Filosofia das Ciências (SAHFC), FCUL

Interesses de investigação

História das Ciências Exactas nos séculos XV-XVII
História da Ciência em Portugal
História do Livro Científico
Projectos

Coordenador da Comissão Científica da edição das Obras de Pedro Nunes. Academia das Ciências de Lisboa
Membro [Correspondant International] do Projecto: «La Mathématisation comme Problème. Quantification, Formalisation, Mathématisation», Université P. Mendès France, Grenoble, França. Em curso.
Membro do Projecto Internacional "Circulating Knowledge in early modern science". Início 2006. Em curso.
Membro do Projecto "Fundamentação de critérios para a musealização do Observatório Astronómico de Lisboa", POCTI-2002/HAR/48711/2002. 2004-2007.
Coordenador do Projecto "Património científico e cultura manuscrita: A colecção de manuscritos científicos da Biblioteca Nacional, Lisboa". POCTI/HCT/58543/2004. 2005-2008.
Consultor Científico do «Projecto de Informatização, Digitalização e Divulgação do Fundo Bibliográfico Antigo da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto». Site disponível em: http://www.fc.up.pt/fa. (2005-2007).
Publicações
Livros (selecção)


Henrique Leitão, A Ciência na Aula da Esfera do Colégio de Santo Antão, 1590-1759 (Lisboa: Comissariado Geral das Comemorações do V Centenário do Nascimento de S. Francisco Xavier, 2007), 110 p.
Conceição Tavares e Henrique Leitão, Bibliografia de História da Ciência em Portugal, 2000-2004 (Lisboa: Centro de História das Ciências da Universidade de Lisboa, 2006), 134 p.
O Livro Científico Antigo dos séculos XV e XVI. Ciências físico-matemáticas na Biblioteca Nacional. Catálogo de livros científicos dos séculos XV e XVI. Comissário científico: Henrique de Sousa Leitão; coordenação técnica: Lígia de Azevedo Martins (Lisboa: Biblioteca Nacional, 2004), 533 p.
Luís Saraiva and Henrique Leitão (eds.), The Practice of Mathematics in Portugal. Papers from the International Meeting organized by the Portuguese Mathematical Society, Óbidos, 16-18 November, 2000 (Coimbra: Acta Universitatis Conimbrigensis, 2004), 758 p.
Luís Trabucho de Campos, Henrique Leitão e João Filipe Queiró (eds.), International Conference: Petri Nonii Salaciensis Opera, Lisbon-Coimbra, 24-25 May 2002. Proceedings (Lisboa: Departamento de Matemática, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 2003), 184 p.
Henrique Leitão, O Comentário de Pedro Nunes à Navegação a Remos (Lisboa: Edições Culturais da Marinha, 2002), 104 p.
Pedro Nunes, 1502-1578: Novas terras, novos mares e o que mays he: novo ceo e novas estrellas. Catálogo bibliográfico sobre Pedro Nunes. Comissário científico: Henrique de Sousa Leitão; coordenação técnica: Lígia de Azevedo Martins (Lisboa: Biblioteca Nacional, 2002), 301 p.
Artigos e capítulos (selecção)

Henrique Leitão, «The contents and context of Manuel Dias' Tianwenlüe», in Luís Saraiva and Catherine Jami (eds.), History of Mathematical Sciences: Portugal end the East, III. The Jesuits, the Padroado and East Asian Science (1552-1773) (Singapore: World Scientific, 2008), pp. 99-121.
Henrique Leitão, «Leituras de Plínio no séc. XVI: Astronomia», in Aires A. Nascimento (coord.), Os clássicos no tempo: Plínio, o Velho, e o Humanismo Português. Colóquio Internacional (Lisboa: Centro de Estudos Clássicos, 2007), pp. 151-171.
Henrique Leitão, «Azulejos que testemunham uma tradição de ensino científico», in Azulejos que ensinam, catálogo da exposição (Coimbra: Museu Nacional Machado de Castro, Centro de Matemática da Universidade de Coimbra, 2007), pp. 16-33.
Henrique Leitão, «Maritime discoveries and the discovery of Science: Pedro Nunes and Early Modern Science», in: Victor Navarro Brotóns e William Eamon (eds.), Más allá de la Leyenda Negra: España y la Revolución Científica. Beyond the Black Legend: Spain and the Scientific Revolution (Valencia: Instituto de Historia de la Ciencia y Documentación López Piñero, Universitat de València, C.S.I.C., 2007), pp. 89-104.
Henrique Leitão, «Ars e ratio: A náutica e a constituição da ciência moderna», in: María Isabel Vicente Maroto y Mariano Esteban Piñeiro (coords.), La Ciencia y el Mar (Valladolid, 2006), pp. 183-207.
Henrique Leitão, «Entering dangerous ground: Jesuits teaching astrology and chiromancy in Lisbon», in: John W. O'Malley S.J., Gauvin Alexander Bailey, Steven J. Harris, T. Frank Kennedy S.J. (eds.), The Jesuits II: Cultures, Sciences, and the Arts, 1540-1773 (Toronto: University of Toronto Press, 2006), pp. 371-389.
Luís Miguel Carolino e Henrique Leitão, «Natural Philosophy and Mathematics in Portuguese Universities, 1550-1650», in: Mordechai Feingold and Victor Navarro Brotóns (eds.), Universities and Science in Early Modern Period, (Dordrecht: Springer, 2006), pp. 153-168.
Henrique Leitão, «Anotações ao De erratis Orontii Finaei», in Pedro Nunes. Obras, vol. III (Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2005), pp. 257-398.
Magno Moraes de Mello e Henrique Leitão, «A pintura barroca e a cultura matemática dos Jesuítas: O Tractado de Prospectiva de Inácio Vieira, S. J. (1715)», Revista de História de Arte, 1 (2005) 95-142.
Henrique Leitão, «Pedro Nunes and the Aristotelian Mechanical Problems», in: Luís Trabucho de Campos, Henrique Leitão and João Filipe Queiró (eds.), International Conference: Petri Nonii Salaciensis Opera, Lisbon-Coimbra, 24-25 May 2002. Proceedings (Lisboa: Departamento de Matemática, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 2003), pp. 141-182.
Henrique Leitão, "Jesuit Mathematical Practice in Portugal, 1540-1759", in: Mordechai Feingold (Ed.), The New Science and Jesuit Science: Seventeenth Century Perspectives (Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, 2003), pp. 229-247.
Henrique Leitão, "A periphery between two centers? Portugal in the scientific route from Europe to China (16th and 17th centuries)", in: Ana Simões, Ana Carneiro, Maria Paula Diogo (Eds.), Travels of Learning. A Geography of Science in Europe (Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, 2003), pp. 19-46.
Henrique Leitão, "Sobre as "Notas de Álgebra" atribuídas a Pedro Nunes (ms Évora, BP, Cod. CXIII/1-10)", Euphrosyne, 30 (2002) 407-416.
Henrique Leitão, «Galileo's Telescopic Observations in Portugal», em: José Montesinos y Carlos Solís (eds.), Largo Campo di Filosofare. Eurosymposium Galileo 2001 (La Orotava: Fundación Canaria Orotava de la Historia de la Ciencia, 2001), pp. 903-913.
Sociedades Científicas

Representante Nacional de Portugal na DHST da IUHPS (Division of History of Science and Technology of the International Union of History and Philosophy of Science).
Membro do 'Scientific Board' da European Society for the History of Science (ESHS)
'Membre correspondant' da Académie Internationale d'Histoire des Sciences
Membro da History of Science Society, E. U. A.
Sócio Correspondente da Academia das Ciências de Lisboa.
Sócio da Sociedade Portuguesa de Física.
Sócio da Sociedade Portuguesa de Matemática.
Membro do Conselho Consultivo do Seminário Nacional de História da Matemática.
Membro Colaborador do Centro de História de Além-Mar, Universidade Nova de Lisboa.
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> Scientia

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Diário Económico: 20 anos de história em livro
1/04/2010 Deixar um comentário
Compilar em livro a história de um jornal que se tornou num repositório da economia portuguesa, foi o desafio lançado a Filipe Fernandes, um jornalista com vasta experiência nesta área, que trabalhou no Diário Económico (DE) e no Jornal de Negócios e que integrou a equipa fundadora das revistas Exame e Fortuna.
Actual director-adjunto da Exame, Filipe Fernandes, embora não se considere um “escritor no sentido literário do termo”, sente-se, isso sim, “um jornalista que escreve livros…”, como “O Homem Sonae”, “Negócios Viciados”, “Organizem-se!” e “Excomungados de Abril”.

Lançado à margem do vigésimo aniversário do jornal que lhe dá o nome, o livro Os 20 anos do Diário Económico foi escrito com o objectivo de deixar para os vindouros um “registo intemporal da história do DE”, explicou-nos Pedro Montargil, da editora.
“Filipe Fernandes contou com a ajuda e apoio de todas as pessoas que contactou, nomeadamente accionistas e membros das equipas de direcção que ao longo dos anos foram passando pelo jornal, tornando-se assim possível a construção de um memorando de valores, princípios e pessoas que fazem parte do sucesso do DE e que constitui também um compromisso de futuro com os leitores”, assegurou-nos Pedro Montargil, acrescentando que a obra “recorda o passado, marca o presente e regista novos desafios e projectos do Económico”.

e-Magazine – Pode dizer-se que o livro Os 20 anos do Diário Económico retrata a economia portuguesa das últimas duas décadas?
Filipe Fernandes – Não diria assim. O que pretendi foi contar a forma como o jornal se foi afirmando, do ponto de vista dos seus proprietários, directores e jornalistas. Em simultâneo, procurei formatar, em termos descritivos, um painel da evolução da economia portuguesa intentando mostrar como é que as principais políticas económicas e financeiras se foram afirmando ao longo dos anos e como é que os negócios e a vida empresarial foram também eles sofrendo mutações.

“História da economia e dos negócios dos últimos 20 anos é inseparável do DE”

e-M – O que mais o fascinou na concepção do livro e na história do DE?
F.F. – O que mais me fascinou foi sentir que a cultura do DE, que eu conhecia como jornalista, ainda se mantém e é partilhada por muitos que por lá passaram. É algo que tem a ver sobretudo com uma identidade muito forte de defesa dos principais valores e do core business do jornal. Ao mesmo tempo, entusiasmou-me verificar que a leitura do DE é indissociável da história da economia e dos negócios dos últimos 20 anos.
e-M – Quais são os episódios mais marcantes que retrata?
F.F. – Os três capítulos em que se divide a parte referente à história económica assinalam, provavelmente, os três grandes momentos vividos no país nos últimos 20 anos: as políticas de modernização com a entrada na União Europeia, a estratégia de adesão ao Euro e o choque provocado por uma crise que parece não ter fim…
e-M – Como caracteriza o livro enquanto obra literária?
F.F. – É a história de um jornal económico diário em Portugal entre dois séculos e que tem mostrado uma grande resistência. É isso.
e-M – Quais as suas expectativas quanto à recepção de Os 20 anos do Diário Económico, por parte do público e dos agentes directamente interessados?
F.F. – Que seja lido.
e-M – O que é que o atraiu, o que é que o levou a tornar-se jornalista em áreas tão complexas como a economia e os negócios?
F.F. – É, de facto, a minha área de eleição! É aqui que se cruzam temas e ideias que, muitas vezes, começaram por ser artigos mas que depois, à medida que prossigo a pesquisa, vão ganhando dimensão e isso é infinitamente atraente…

“Existe uma comunhão entre os leitores do jornal e o livro”

“Temos recebido diversas mensagens de felicitação e posso, desde já, avançar que o livro está a ter uma grande procura. A obra Os 20 anos do Diário Económico veio reforçar a relação de proximidade entre o DE e os seus leitores. Por esse motivo, é com satisfação que verificamos o entusiasmo com que recordam ou até mesmo, aprendem, a história de um jornal que já faz parte do seu dia-a-dia”, referiu-nos a fechar este trabalho, Pedro Montargil, responsável pela edição.

Carla Sofia Flores

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daniel23 : E aí galera! blz? trabalho com pesquisa e desenvolvimento sustentável. e sou estudante de TI. agente vai se falando!
jjv : Alguem tem o resumo do livro criando filhos em tempos dificeis de Elizabeth Monteiro
stevie : alguem estuda na etec de são vicente?
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rafaelmalan : bateria garotas e a torta perigosa??
rafaelmalan : alguem tem o resumo do livro:
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Eli 40914 : oi alguem tem oresumo do liocro aconselhamento: integrando a psicoterapia e biblía?
Eli 40914 : aconselhamento
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Rissia : Alguém aí faz faculdade de ciências sociais ou de história?!
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1357 - HISTÓRIA DO LIVRO


<História das disciplinas escolares e do livro didático



LINHA DE PESQUISA: Escola e Cultura: História e Historiografia da educação

PROJETO: História das disciplinas escolares e do livro didático.

Professor responsável: Prof. Dr. Kazumi Munakata

Colaboradores: Prof. Dr. Bruno Bontempi Junior e Profa. Dra. Circe Maria Fernandes Bittencourt




EMENTA:
Por que a escola ensina o que ensina? Tradicionalmente, a resposta a essa questão não apresentava nenhuma dificuldade: tratava-se apenas de transmitir às novas gerações o legado cientifico e cultural de toda a humanidade. Cumpria então discutir o “como ensinar?” e essa questão remetia à didática. Obviamente, não era possível transmitir todo o acervo humano na sua integralidade, o que implicava seleção de conteúdos e sua adaptação e simplificação de modo a adequá-los à capacidade dos alunos em cada patamar do seu desenvolvimento cognitivo. O “o que ensinar?” era, então, o corolário da questão sobre o “como ensinar?” quando se operava aquilo que muitos denominaram “transposição didática”. O currículo seria, nessa medida, a ciência que promoveria a administração dos conteúdos a ensinar, compatibilizando-os como o “como ensinar?”
Nas décadas de 1960 e 1970, no entanto, as chamadas Teoria Crítica do Currículo e Nova Sociologia da Educação constataram o caráter não meramente técnico e administrativo do currículo escolar. Segundo essas perspectivas, o currículo não designa um campo em que simplesmente se busca o modo mais pedagogicamente adequado de selecionar, organizar, administrar e ministrar os conteúdos dos conhecimentos, mas um conjunto de prescrições e práticas que, sob esse pretexto pedagógico, contribui para a reprodução das relações sociais existentes. Expressão da ideologia, para se efetivar como tal requer o cancelamento de sua história, e, portanto, a sua crítica depende exatamente da elucidação da história da sua instituição. De reconhecida fertilidade, essa abordagem conferiria nova direção aos projetos de reforma curricular daqueles anos, com base, exatamente, na crítica de ideologia.
Passada a vaga reformadora, no entanto, o conservadorismo reinstalou-se facilmente no currículo. Segundo certas vertentes de análise, como a de Goodson, isto ocorreu simplesmente porque as propostas reformadoras deixaram intactas as “terras altas”, os lugares mesmos que dão suporte ao currículo “tradicional”: as disciplinas escolares. Os reformadores buscaram introduzir uma postura “crítica” e “reflexiva” nas disciplinas, tentaram ultrapassar suas fronteiras mediante propostas de “interdisciplinaridade”, mas não interrogaram sobre o fato de as disciplinas escolares aparecerem como unidades epistemológicas e, portanto, não buscaram elucidar a sua historicidade.
Embora sem explicitar essas preocupações políticas, a vertente francesa de investigação da história das disciplinas escolares, representada, entre outros, por Chervel e Belhoste, também interroga sobre a instituição, historicamente determinada, das disciplinas escolares. Decorrente da crise das chamadas humanidades, padrão e ideal do ensino prevalente até o final do século XIX, as disciplinas escolares não resultam simplesmente do desmembramento dos “conteúdos” ali embutidos, mas de sua seleção e reorganização, implicando expurgos, acréscimos, alteração de significado etc., numa operação efetivada “pela escola, na escola e para a escola” (Chervel). Convém advertir para o fato de que o processo de configuração dos saberes escolares como disciplinas ocorre paralelamente à constituição dos conhecimentos universitários e científicos tal qual se apresentaram ao longo do século XX, cujos processos ainda estão por ser elucidados.
No âmbito escolar, a constituição das disciplinas corresponde à redistribuição das finalidades atribuídas à instrução. Se as humanidades tinham como fim a formação do homem “livre” e “integral”, com as disciplinas, agora, as finalidades podem ser mais minuciosamente administradas. A gramática escolar, por exemplo, na conhecida análise de Chervel, visa muito mais a ortografia do que as regras gramaticais propriamente ditas. Nessa medida, identificar as finalidades, nem sempre explícitas, das disciplinas escolares é de fundamental importância para a pesquisa nessa área.
Isso não significa que os conteúdos explícitos não tenham importância. As disciplinas não são um pretexto e ocasião para que certas finalidades sejam realizadas; se elas se constituem como suportes das finalidades é porque acionam certos conteúdos e não outros. Por isso, a investigação histórica das disciplinas escolares deve desvendar não apenas os processos de sua constituição e de consolidação como uma vulgata (Chervel), como também as modalidades de sua difusão e apropriação., seja por diferentes propostas curriculares ou por livros didáticos e publicações educacionais. Além dessas permanências, é preciso também averiguar as rupturas.
Postular que uma disciplina escolar implica finalidades é também afirmar que ela não se reduz a um conjunto, mais ou menos homogêneo, de conteúdos. Em suma, ela não é um conjunto de idéias, cujo “ensino” deve ser planejado à parte. Não há, de um lado, a disciplina escolar e, de outro, a sua didática, pois a noção de disciplina escolar já contém as atividades e os exercícios que ela requer. Nessa medida, métodos e modos de ensino vinculam-se intimamente às disciplinas escolares. Do mesmo modo, as avaliações também constituem componente importante das disciplinas escolares.
Por fim, não se pode perder de vista que as finalidades inscritas nas disciplinas escolares visam não simplesmente o ambiente escolar, mas a sociedade em que este se situa. Por isso um tópico importante da pesquisa sobre disciplinas escolares incide sobre os processos de aculturação dos alunos e a relação (e a distância) entre o que foi ensinado e o que foi aprendido.
As fontes para esse conjunto de tópicos de investigação são dos mais variados tipos, sendo os mais óbvios os programas respectivos das disciplinas escolares. Mas um programa é, não raramente, resultado de conflitos e negociações, e acompanhar o debate pela definição de uma proposta pode lançar luz ao próprio programa que se efetivou. Esses debates aparecem em transcrições de vários fóruns de discussão (Poder Legislativo, Câmaras, Conselhos etc.) assim como em diversos impressos e publicações. Nestes é também possível acompanhar as manifestações, favoráveis ou contrárias, em relação ao programa em vigor, além de conhecer sugestões e comentários sobre as maneiras de ministrar os conteúdos das disciplinas. De difícil acesso, mas extremamente reveladores são os cadernos e as anotações de alunos, os apontamentos do professor, os registros em dispositivos como diário de classe e as provas e os exames, tanto os realizados internamente à instituição escolar, quanto aqueles que visam a avaliação externa.
Os relatórios de estágio supervisionado dos cursos de licenciatura tem-se mostrado uma fonte muito fértil para a análise da disciplina realmente ensinada, contanto que o investigador saiba depurar as avaliações subjetivas dos estagiários e até mesmo falsificações. Biografias e, principalmente, as autobiografias podem por vezes oferecer uma descrição inusitada, pessoal, das disciplinas ensinadas ou aprendidas. Determinadas obras de ficção também se prestam a isso. História oral e observação in loco são recursos que devem sempre ser levados em conta, apesar das dificuldades metodológicas que implicam.
Por fim, o livro didático (e similares: livro-texto, livro de leitura, manual etc.) tem sido considerado uma fonte privilegiada para o estudo da história das disciplinas escolares, na medida em que se constitui na expressão quase canônica da vulgata acima referida. Ali estão os conteúdos que numa época se consolidaram como constitutivos de uma disciplina. Mais do que isso, é cada vez mais freqüente o livro didático apresentar uma estrutura que já organiza os conteúdos em unidades que simulam uma aula, com respectivas atividades, exercícios e avaliações. Acompanhar as sucessivas edições de livros didáticos possibilita, então, traçar a evolução das disciplinas escolares.
Além disso, examinar as disciplinas escolares mediante livros didáticos significa reconhecer que a vulgata também se determina em esferas pouco consideradas, que são o âmbito da edição e distribuição desses livros e os sujeitos aí envolvidos, desde autores, editores, divulgadores, até, quando houver, aqueles encarregados de avaliar os livros. Os protocolos de edição, definidos pelo governo ou pelas próprias editoras, determinam de modo considerável o produto final e, portanto, a disciplina a ser ministrada. Pesquisar a história das disciplinas escolares incorporando como fonte os livros didáticos requer que se examine também esses aspectos editoriais geralmente desprezados como “técnicos”. É preciso também reconstituir todos os momentos pelos quais o livro passa até chegar à sala de aula, desde a concepção, a produção e a avaliação (quando houver), até a venda e a compra. Nesse circuito, conhecer a figura do comprador (governo, organizações, indivíduos) não é indiferente.
Estudar o livro didático, no entanto, não se completa se não se verificar o que efetivamente acontece com ele na sala de aula. O fato de a disciplina estar ali consolidado como vulgata não assegura por si só que ela seja ministrada tal qual se imaginou nas várias instâncias de definição da disciplina. O que o professor e o aluno fazem com o livro didático, por sinal, é um desses momentos obscuros que requer elucidação se se pretende avançar para além da investigação das intenções proclamadas. O estudo dos usos efetivos do livro didático pode constituir uma das entradas possíveis para a análise da disciplina “em funcionamento”.
Dessas considerações decorrem os seguintes subprojetos:
1. A desagregação das humanidades e a disciplinalização dos saberes escolares (século XIX): investigação sobre as redefinições das finalidades do ensino, sobretudo o secundário, e a introdução de “matérias” que vão se sobrepondo ao ensino das humanidades, o que as desfiguram.
2. Partilha dos conteúdos (séculos XIX e XX): investigação do modo como os conteúdos dos saberes escolares, antes dispersos ou concentrados, vão se distribuindo entre as disciplinas à medida que estas se constituem e se reconstituem.
3. Métodos de ensino e sua relação com a disciplinarização dos saberes escolares (séculos XIX e XX): investigação sobre os diversos métodos e modos de ensino (mútuo, simultâneo, misto; intuitivo; analítico ou sintético etc.), propostos principalmente no decorrer do século XIX e nas primeiras décadas do XX, e sua adequação ou não com a disciplinarização dos saberes.
4. Compêndios, manuais escolares e livros didáticos (séculos XIX e XX): investigação dessa modalidade de impressos escolares como dispositivo e suporte da disciplinarização dos saberes escolares, abordando-os em suas múltiplas determinações (edição, mercado, políticas públicas educacionais, circulação e consumo/uso). Constituem atividades do Projeto as Disciplinas, as Atividades Programadas (APs), as pesquisas coletivas e as pesquisas individuais. O Projeto também vincula-se ao Projeto Temático "Educação e Memória: organização de acervo de livros didáticos" (Brasil) e ao Projeto Manes (Espanha).


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COPYRIGHT DEVIDO AO AUTOR DO TEXTO.

1356 - HISTÓRIA DO LIVRO


<História das disciplinas escolares e do livro didático



LINHA DE PESQUISA: Escola e Cultura: História e Historiografia da educação

PROJETO: História das disciplinas escolares e do livro didático.

Professor responsável: Prof. Dr. Kazumi Munakata

Colaboradores: Prof. Dr. Bruno Bontempi Junior e Profa. Dra. Circe Maria Fernandes Bittencourt




EMENTA:
Por que a escola ensina o que ensina? Tradicionalmente, a resposta a essa questão não apresentava nenhuma dificuldade: tratava-se apenas de transmitir às novas gerações o legado cientifico e cultural de toda a humanidade. Cumpria então discutir o “como ensinar?” e essa questão remetia à didática. Obviamente, não era possível transmitir todo o acervo humano na sua integralidade, o que implicava seleção de conteúdos e sua adaptação e simplificação de modo a adequá-los à capacidade dos alunos em cada patamar do seu desenvolvimento cognitivo. O “o que ensinar?” era, então, o corolário da questão sobre o “como ensinar?” quando se operava aquilo que muitos denominaram “transposição didática”. O currículo seria, nessa medida, a ciência que promoveria a administração dos conteúdos a ensinar, compatibilizando-os como o “como ensinar?”
Nas décadas de 1960 e 1970, no entanto, as chamadas Teoria Crítica do Currículo e Nova Sociologia da Educação constataram o caráter não meramente técnico e administrativo do currículo escolar. Segundo essas perspectivas, o currículo não designa um campo em que simplesmente se busca o modo mais pedagogicamente adequado de selecionar, organizar, administrar e ministrar os conteúdos dos conhecimentos, mas um conjunto de prescrições e práticas que, sob esse pretexto pedagógico, contribui para a reprodução das relações sociais existentes. Expressão da ideologia, para se efetivar como tal requer o cancelamento de sua história, e, portanto, a sua crítica depende exatamente da elucidação da história da sua instituição. De reconhecida fertilidade, essa abordagem conferiria nova direção aos projetos de reforma curricular daqueles anos, com base, exatamente, na crítica de ideologia.
Passada a vaga reformadora, no entanto, o conservadorismo reinstalou-se facilmente no currículo. Segundo certas vertentes de análise, como a de Goodson, isto ocorreu simplesmente porque as propostas reformadoras deixaram intactas as “terras altas”, os lugares mesmos que dão suporte ao currículo “tradicional”: as disciplinas escolares. Os reformadores buscaram introduzir uma postura “crítica” e “reflexiva” nas disciplinas, tentaram ultrapassar suas fronteiras mediante propostas de “interdisciplinaridade”, mas não interrogaram sobre o fato de as disciplinas escolares aparecerem como unidades epistemológicas e, portanto, não buscaram elucidar a sua historicidade.
Embora sem explicitar essas preocupações políticas, a vertente francesa de investigação da história das disciplinas escolares, representada, entre outros, por Chervel e Belhoste, também interroga sobre a instituição, historicamente determinada, das disciplinas escolares. Decorrente da crise das chamadas humanidades, padrão e ideal do ensino prevalente até o final do século XIX, as disciplinas escolares não resultam simplesmente do desmembramento dos “conteúdos” ali embutidos, mas de sua seleção e reorganização, implicando expurgos, acréscimos, alteração de significado etc., numa operação efetivada “pela escola, na escola e para a escola” (Chervel). Convém advertir para o fato de que o processo de configuração dos saberes escolares como disciplinas ocorre paralelamente à constituição dos conhecimentos universitários e científicos tal qual se apresentaram ao longo do século XX, cujos processos ainda estão por ser elucidados.
No âmbito escolar, a constituição das disciplinas corresponde à redistribuição das finalidades atribuídas à instrução. Se as humanidades tinham como fim a formação do homem “livre” e “integral”, com as disciplinas, agora, as finalidades podem ser mais minuciosamente administradas. A gramática escolar, por exemplo, na conhecida análise de Chervel, visa muito mais a ortografia do que as regras gramaticais propriamente ditas. Nessa medida, identificar as finalidades, nem sempre explícitas, das disciplinas escolares é de fundamental importância para a pesquisa nessa área.
Isso não significa que os conteúdos explícitos não tenham importância. As disciplinas não são um pretexto e ocasião para que certas finalidades sejam realizadas; se elas se constituem como suportes das finalidades é porque acionam certos conteúdos e não outros. Por isso, a investigação histórica das disciplinas escolares deve desvendar não apenas os processos de sua constituição e de consolidação como uma vulgata (Chervel), como também as modalidades de sua difusão e apropriação., seja por diferentes propostas curriculares ou por livros didáticos e publicações educacionais. Além dessas permanências, é preciso também averiguar as rupturas.
Postular que uma disciplina escolar implica finalidades é também afirmar que ela não se reduz a um conjunto, mais ou menos homogêneo, de conteúdos. Em suma, ela não é um conjunto de idéias, cujo “ensino” deve ser planejado à parte. Não há, de um lado, a disciplina escolar e, de outro, a sua didática, pois a noção de disciplina escolar já contém as atividades e os exercícios que ela requer. Nessa medida, métodos e modos de ensino vinculam-se intimamente às disciplinas escolares. Do mesmo modo, as avaliações também constituem componente importante das disciplinas escolares.
Por fim, não se pode perder de vista que as finalidades inscritas nas disciplinas escolares visam não simplesmente o ambiente escolar, mas a sociedade em que este se situa. Por isso um tópico importante da pesquisa sobre disciplinas escolares incide sobre os processos de aculturação dos alunos e a relação (e a distância) entre o que foi ensinado e o que foi aprendido.
As fontes para esse conjunto de tópicos de investigação são dos mais variados tipos, sendo os mais óbvios os programas respectivos das disciplinas escolares. Mas um programa é, não raramente, resultado de conflitos e negociações, e acompanhar o debate pela definição de uma proposta pode lançar luz ao próprio programa que se efetivou. Esses debates aparecem em transcrições de vários fóruns de discussão (Poder Legislativo, Câmaras, Conselhos etc.) assim como em diversos impressos e publicações. Nestes é também possível acompanhar as manifestações, favoráveis ou contrárias, em relação ao programa em vigor, além de conhecer sugestões e comentários sobre as maneiras de ministrar os conteúdos das disciplinas. De difícil acesso, mas extremamente reveladores são os cadernos e as anotações de alunos, os apontamentos do professor, os registros em dispositivos como diário de classe e as provas e os exames, tanto os realizados internamente à instituição escolar, quanto aqueles que visam a avaliação externa.
Os relatórios de estágio supervisionado dos cursos de licenciatura tem-se mostrado uma fonte muito fértil para a análise da disciplina realmente ensinada, contanto que o investigador saiba depurar as avaliações subjetivas dos estagiários e até mesmo falsificações. Biografias e, principalmente, as autobiografias podem por vezes oferecer uma descrição inusitada, pessoal, das disciplinas ensinadas ou aprendidas. Determinadas obras de ficção também se prestam a isso. História oral e observação in loco são recursos que devem sempre ser levados em conta, apesar das dificuldades metodológicas que implicam.
Por fim, o livro didático (e similares: livro-texto, livro de leitura, manual etc.) tem sido considerado uma fonte privilegiada para o estudo da história das disciplinas escolares, na medida em que se constitui na expressão quase canônica da vulgata acima referida. Ali estão os conteúdos que numa época se consolidaram como constitutivos de uma disciplina. Mais do que isso, é cada vez mais freqüente o livro didático apresentar uma estrutura que já organiza os conteúdos em unidades que simulam uma aula, com respectivas atividades, exercícios e avaliações. Acompanhar as sucessivas edições de livros didáticos possibilita, então, traçar a evolução das disciplinas escolares.
Além disso, examinar as disciplinas escolares mediante livros didáticos significa reconhecer que a vulgata também se determina em esferas pouco consideradas, que são o âmbito da edição e distribuição desses livros e os sujeitos aí envolvidos, desde autores, editores, divulgadores, até, quando houver, aqueles encarregados de avaliar os livros. Os protocolos de edição, definidos pelo governo ou pelas próprias editoras, determinam de modo considerável o produto final e, portanto, a disciplina a ser ministrada. Pesquisar a história das disciplinas escolares incorporando como fonte os livros didáticos requer que se examine também esses aspectos editoriais geralmente desprezados como “técnicos”. É preciso também reconstituir todos os momentos pelos quais o livro passa até chegar à sala de aula, desde a concepção, a produção e a avaliação (quando houver), até a venda e a compra. Nesse circuito, conhecer a figura do comprador (governo, organizações, indivíduos) não é indiferente.
Estudar o livro didático, no entanto, não se completa se não se verificar o que efetivamente acontece com ele na sala de aula. O fato de a disciplina estar ali consolidado como vulgata não assegura por si só que ela seja ministrada tal qual se imaginou nas várias instâncias de definição da disciplina. O que o professor e o aluno fazem com o livro didático, por sinal, é um desses momentos obscuros que requer elucidação se se pretende avançar para além da investigação das intenções proclamadas. O estudo dos usos efetivos do livro didático pode constituir uma das entradas possíveis para a análise da disciplina “em funcionamento”.
Dessas considerações decorrem os seguintes subprojetos:
1. A desagregação das humanidades e a disciplinalização dos saberes escolares (século XIX): investigação sobre as redefinições das finalidades do ensino, sobretudo o secundário, e a introdução de “matérias” que vão se sobrepondo ao ensino das humanidades, o que as desfiguram.
2. Partilha dos conteúdos (séculos XIX e XX): investigação do modo como os conteúdos dos saberes escolares, antes dispersos ou concentrados, vão se distribuindo entre as disciplinas à medida que estas se constituem e se reconstituem.
3. Métodos de ensino e sua relação com a disciplinarização dos saberes escolares (séculos XIX e XX): investigação sobre os diversos métodos e modos de ensino (mútuo, simultâneo, misto; intuitivo; analítico ou sintético etc.), propostos principalmente no decorrer do século XIX e nas primeiras décadas do XX, e sua adequação ou não com a disciplinarização dos saberes.
4. Compêndios, manuais escolares e livros didáticos (séculos XIX e XX): investigação dessa modalidade de impressos escolares como dispositivo e suporte da disciplinarização dos saberes escolares, abordando-os em suas múltiplas determinações (edição, mercado, políticas públicas educacionais, circulação e consumo/uso). Constituem atividades do Projeto as Disciplinas, as Atividades Programadas (APs), as pesquisas coletivas e as pesquisas individuais. O Projeto também vincula-se ao Projeto Temático "Educação e Memória: organização de acervo de livros didáticos" (Brasil) e ao Projeto Manes (Espanha).


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