Sociedade e Cultura, v. 3, n. 1 e 2, jan/dez. 2000, p. 251-255 251
DESIGUALDADE SOCIAL ESTÁVEL
GRAHAN, Sandra Lauderdale. Proteção e obediência: criadas e seus
patrões no Rio de Janeiro, 1860-1910. São Paulo: Cia das Letras, 1992.
237 páginas.
Joaze Bernardino*
O livro de Sandra Lauderdale Grahan, Proteção e obediência:
criadas e seus patrões no Rio de Janeiro, 1860-1910, está na
categoria daquelas obras que, devido a sua qualidade e à importância
temática, deveriam ter sido escritas por um brasileiro. Mas como nem
tudo são flores, Proteção e obediência é uma tradução da tese de
doutorado da autora americana defendida no departamento de História
da Universidade do Texas em 1988, sob o título House and street: the
domestic world of servants and masters in nineteenth-century Rio
de Janeiro.
Proteção e obediência, um trabalho historiográfico que envolveu
uma habilidosa consulta a arquivos, parte de uma díade para entender o
Brasil da época: os patrões e as criadas. O universo dos primeiros é
composto por membros do parlamento, ministros de gabinete, conselheiros
do Estado, juízes do Tribunal Superior e funcionários subalternos que
conduziam os negócios do Estado. E, por outro lado, o universo das criadas
era composto tanto por mulheres forras e escravas, quanto por mulheres
negras e mulatas (categorias da época). Ao escolher as criadas como
grupo ocupacional, Sandra L. Grahan conscientemente afasta o estereótipo
* Mestre em Sociologia pela UnB. Professor assistente de Sociologia, do Departamento
de Ciências Sociais da UFG.
252 BERNARDINO, Joaze. Sandra L. Grahan. Proteção e obediência...
de que somente as escravas eram criadas; ao contrário, seu estudo
demonstra que a categoria criada vai além das categorias civis livre/
escrava. Todavia, não cabe a afirmação de que a categoria criada vai
além da classificação racial, envolvendo mulheres brancas. Ao contrário,
o papel social de criada era monopolizado por mulheres negras e mulatas.
É claro que no período histórico estudado por Sandra Grahan já
era possível encontrar mulheres brancas, européias pobres recémchegadas
ao Brasil, desempenhando o papel de trabalhadoras domésticas,
mas estas não mais desempenhavam o papel de criadas – que remete à
noção complementar de proteção e obediência, da qual falaremos a seguir
–, mas muitas vezes desempenhavam o papel de governantas, que tinham
muitas vezes como missão, como fala Gilberto Freyre (1990a), civilizar
ou europeizar as famílias brasileiras. A título de exemplo de como a
categoria criada atravessava as categorias civis livre/escrava, a autora
de Proteção e obediência apresenta os seguintes dados: no
recenseamento de 1872, de 61% a 65% das mulheres trabalhadoras livres
eram servidoras domésticas (categoria da Directoria Geral de Estatística),
enquanto de 87% a 90% das escravas eram servidoras domésticas na
corte. O âmbito do trabalho doméstico incluía mucamas, amas-de-leite,
carregadoras de água, lavadeiras, costureiras, cozinheiras, copeiras,
arrumadeiras.
O cenário que permite o encontro do mundo das criadas e dos
patrões é a cidade do Rio de Janeiro – a capital do Império e, logo depois,
da República –, que em 1872 possuía aproximadamente 34 mil mulheres
escravas e libertas ocupadas como criadas entre os seus 228.743
habitantes, e que em 1906 tinha mais de 77 mil mulheres trabalhando
como criadas entre os seus 620 mil moradores. Em números relativos,
em 1872 as criadas representam cerca de 15% da população do Rio de
Janeiro, enquanto em 1906 representavam algo em torno de 13% da
população, constituindo o maior grupo ocupacional da cidade.
Diferentemente de inúmeros trabalhos sobre relações raciais, o
trabalho de Sandra Grahan centra-se no período que vai de 1860 a 1910.
Estudando esses anos, a autora percebe as continuidades e rupturas entre
o antes e o depois da Abolição da Escravidão (1888) e da Proclamação
da República (1889). O estudo desse período permite ver que, a partir da
década de 1860, o trabalho doméstico vai se tornando cada vez menos
Sociedade e Cultura, v. 3, n. 1 e 2, jan/dez. 2000, p. 251-255 253
espaço de mulheres escravas, passando a incorporar a cada ano que se
passava mulheres livres. Além disso, esse intervalo de tempo coincide
com grandes transformações tecnológicas no Rio de Janeiro, que refletiam
diretamente sobre o trabalho das criadas; entre estas transformações
estão o surgimento dos primeiros bondes, a instalação de água encanada
e do sistema de esgoto.
Os cinco capítulos do livro estão articulados a partir de dois pares
conceituais: casa/rua e proteção/obediência. A oposição entre casa e
rua, uma clara alusão aos trabalhos de Freyre (1990b) e DaMatta (1991),
é construída a partir de uma referência a um quadro de Debret da década
de 1820, que retrata um funcionário do governo saindo de casa com sua
família. A família do funcionário do governo, três filhas e a esposa, é
cortejada por seis escravos. Os membros da família estão ricamente
vestidos. Entre os escravos, por sua vez, percebe-se através das roupas
uma queda progressiva de status. Esse quadro do pintor francês traz à
mente algumas distinções importantes entre a casa e a rua: a distinção e
gradação entre as criadas de porta adentro e as criadas de rua; casa
como um lugar seguro e rua como um ambiente repleto de riscos.
Casa e rua são espaços completamente distintos. Esta última exigia
das mulheres brancas que sempre saíssem acompanhadas por criadas,
posto que precisavam ser protegidas da vulgaridade e dos perigos da
rua. Além disso, o simples fato de estarem acompanhadas de criadas
distinguia as mulheres que tinham alguma posição das que não tinham.
Por outro lado, casa e rua diferenciavam as criadas que conheciam a rua
das que não podiam sair à rua As primeiras eram mulheres mais
experientes tanto do ponto de vista cronológico quanto sexual, que
desempenhavam basicamente as atividades de lavagem de roupa,
carregamento de água e compras diárias no mercado. Já as ‘criadas de
portas adentro’ eram as favoritas e, conseqüentemente, as mais
protegidas. Estas eram responsáveis pelas tarefas de limpeza da casa,
cuidados com a prataria ou podiam ser as mucamas e as amas-de-leite.
Além disso, as criadas de casa eram recompensadas com afeição e
confiança e, freqüentemente, com a liberdade. Muitas vezes, chegavam
ao ponto de se identificarem com as famílias às quais pertenciam. Se as
criadas de portas adentro eram favoritas diante das criadas de rua, elas
eram, por outro lado, submetidas a uma vigilância mais estrita, assim
254 BERNARDINO, Joaze. Sandra L. Grahan. Proteção e obediência...
como experienciavam uma hierarquia mais clara no dia-a-dia, sobretudo
porque o espaço da casa não é igualitário, havendo espaços em que as
criadas podiam manter-se e outros que estavam proibidos a elas. Por
outro lado, as criadas de rua, embora expostas aos perigos da rua, podiam
configurar uma individualidade entre iguais e longe da presença vigilante
dos patrões, posto que a rua propiciava um mundo social mais autêntico
e íntimo entre os que se consideravam iguais.
O outro par conceitual presente ao longo de todo livro é proteção
e obediência. Esses conceitos, embora não tenham recebido em nenhuma
parte do livro alguma discussão analítica, talvez sejam as categorias
histórico-sociológicas que permitam que o estudo das relações entre
patrões e criadas no Rio de Janeiro de 1860 a 1910 não fique localizado
apenas no tempo e no espaço, mas permita pensar elementos estruturais
da formação político-cultural do Brasil. Proteção e obediência referemse
à responsabilidade dos patrões em prover os cuidados básicos de
alimentação, abrigo, roupa, remédio, quiçá liberdade, em troca de
obediência por parte das criadas. A existência de uma expectativa de
comportamento protetor, por um lado, e obediente, por outro, evidencia
claramente que a relação senhor/criada era pessoal, próxima e duradoura,
porém nunca uma relação entre iguais. Obviamente que a responsabilidade
do senhor para com a criada implicava o seu corolário, o controle. A
face mais evidente desse controle era o fato de o patrão ter o direito de
comprar ou vender um criado, e esse controle poder-se-ia estender até a
vida emotiva e sexual da criada. Engana-se quem pensa que as
expectativas de proteção e obediência ficavam restritas apenas aos atores
sociais diretamente envolvidos nessas relações; ao contrário, a expectativa
de obediência era ensinada aos filhos da criada (que muitas vezes estavam
fisicamente presentes na casa do patrão), assim como a expectativa de
proteção era ensinada aos filhos do senhor. Tais expectativas de
comportamento são responsáveis por aquilo que Florestan Fernandes
chamou de “padrão heteronômico de relações raciais”, a saber um tipo
de relação social caracterizado pela desigualdade e pela dependência
(Fernandes, 1965).
Neste sentido é que os conceitos proteção e obediência evidenciam
sua operacionalidade para reflexões que vão além da época e cidade
estudadas por Sandra L. Grahan, isto é, proteção e obediência possibilitam
Sociedade e Cultura, v. 3, n. 1 e 2, jan/dez. 2000, p. 251-255 255
o estudo da aparente estabilidade da desigualdade social no Brasil. E,
além disso, esses conceitos permitem lidar com um ator social, a criada
(e suas sucedâneas), privilegiado, posto que atua como mediador entre
dois mundos: o mundo dos brancos e ricos e o mundo dos negros e pobres.
Por essas razões e por muitas outras, o livro de Sandra Lauderdale
Grahan pode ser considerado uma importante e preciosa ferramenta
analítica para todos interessados no estudo de desigualdades sociais e
raciais no Brasil, tendo em vista que não reduz a compreensão da
desigualdade a constatações simplistas de exploração, mas, ao contrário,
abre as portas para pensar na complementaridade e na acomodação que
têm caracterizado a cultura política brasileira.
Referências
DAMATTA, Roberto. A casa e a rua. Rio de Janeiro: Guanabara e Koogan,
1991.
FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes. São
Paulo: Dominus/Edusp, 1965, v. 1.
FREYRE, Gilberto. Ordem e progresso. Rio de Janeiro: Record, 1999a.
_____. Sobrado e mucambo. Rio de Janeiro: Record, 1990b.
COPYRIGHT AUTOR DO TEXTO
Nenhum comentário:
Postar um comentário