13/06/2010 Ano IV
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A Escolástica
De: Roberto César de Castro Rios
imagem: Santo Agostinho, por Botticelli
Os historiadores parecem estar concordes em dividir a Idade Média em dois períodos, tanto cronológica como culturalmente: a Alta Idade Média, do século VI ao XI, com seus distúrbios políticos e econômicos; e a Baixa Idade Média, que tem seu início no século XII. Um dos fatos culturais marcantes desse século é o início da tradução, para o latim, principalmente a partir do árabe, das obras de Aristóteles. Outro ponto de convergência dos estudiosos do medievo é a impossibilidade em separar a filosofia da teologia. De fato, todos os filósofos medievais – cristãos, árabes ou judeus – foram crentes.
Enquanto na tradição patrística, que teve em Santo Agostinho seu mais influente filósofo teólogo, predominou o Credo ut intelligem – a fé em busca da razão, no período áureo da Escolástica (o florescimento cultural a partir do séc. XIII) a razão fundamenta-se na fé de uma criação racional operada pelo Criador divino. Assim, a síntese filosófica do medievo é a tentativa de constituição da metafísica como ciência ou, em outros termos, da presença de Deus na Natureza, nos seus mistérios cósmicos e fenomenológicos. Na filosofia medieval o conhecimento “das coisas” estava relacionado como se dá, ou não, o conhecimento de Deus.
Na interpretação de L. A. De Boni, em A Escola Franciscana: de Boaventura a Ockham, o “discurso humano, o conhecimento humano, refere-se às coisas, mas estas se referem à idéia que delas existe em Deus” (grifo nosso). Em outros termos o desígnio das coisas implica na necessidade de um designador resultante do argumento teleológico, também presente em Tomás de Aquino.
imagem: Galeno
A filosofia medieval no Ocidente torna-se serva da fé e teve como objetivo máximo estabelecer a relação entre a razão natural e a fé. Neste período tipicamente teocêntrico, na unidade da fé cristã e católica, a universidade recém-formada era mais uma realidade espiritual do que um conjunto ou complexo de edifícios
Assim, tal como na patrística, na escolástica não existe uma separação clara entre a filosofia e a teologia. No entanto, alguns autores também destacam um aspecto socioeconômico do medievo, na Europa Ocidental, que incentivou a criação das universidades: a união entre as pessoas as pessoas de estudo para defenderem seus direitos e privilégios: tal é a origem das universidades.
O florescimento cultural da Baixa Idade Média deu-se pela influência da filosofia médio-oriental – árabe e judaica – na qual a cultura helênica já se encontrava estabelecida havia alguns séculos, aí incluída a geometria de Euclides, bem como pela tradução direta para o latim de textos gregos, em especial os de Aristóteles. Tal filosofia havia passado por um processo de absorção indireta intermediado por pensadores como os sírios Nísibis e Gandisapora. Paralelamente, os árabes travam conhecimento com os muitos comentários de Teofrasto (372-287 a.C), peripatético e sucessor de Aristóteles no Liceu de Atenas, como também os de Amônio, mestre de Plotino, e Porfírio. Os árabes ainda tiveram um papel decisivo na incorporação e divulgação das obras de Euclides, quanto à geometria, e de Galeno na medicina.
imagem: Maimonedes
Inicia-se então o período conhecido como “a fase áurea da Escolástica”, nome originado das escolas eclesiásticas e universidades da Europa onde se realizavam os ensinamentos de filosofia e teologia. Ressalte-se que a primeira tentativa de conciliar o pensamento de Aristóteles com a Bíblia deu-se com o filósofo judeu Moses Maimonides (1135-1204) que, adiantando-se aos escolásticos, em especial Alberto Magno e Tomás de Aquino, refutou os pontos de conflito com o Antigo Testamento: mundo eterno e não criado ex nihilo, bem como a idéia de um Deus impessoal, o que certamente influenciou a análise crítica dos filósofos escolásticos. Após a tomada da cidade de Toledo dos mouros em 1085 pelo rei Afonso VI de Castela, o local se notabilizou nos anos seguintes por concentrar eruditos árabes, judeus e cristãos. Este intercâmbio de línguas e culturas tornou então o lugar propício para o trabalho de tradução, em especial do árabe para o latim, das obras de Aristóteles. O mesmo aconteceu na ilha de Sicília, mas do grego para o latim, já que aí havia maior concentração de pessoas que conheciam a língua grega.
O translatio studiorum, a transmissão de saberes dos árabes e judeus, muito ligado às fontes gregas, certamente influenciou a filosofia cristã, mas não a ponto dos estudiosos intitularem-se filósofos. Em sua grande maioria eram religiosos, preferindo então serem chamados de teólogos. J. Katz, em A History of Mathematics – An Introduction, afirma:
“O currículo em artes em todas as universidades era baseado no antigo trivium de lógica, gramática e retórica e no quadrivium de aritmética, geometria, música e astronomia. O estudo na faculdade de artes fornecia aos estudantes a preparação necessária a um nível mais alto de conhecimento nas faculdades de direito, medicina e teologia”.
imagem: Aristóteles e Averrois em marcha contra a torre da falsidade
Entre os tradutores mais conhecidos nota-se uma preferência por obras que seriam utilizadas no quadrivium ou em medicina e história natural. De fato, no currículo das primeiras universidades em que o estudo da história e de línguas era negligenciado, ele parece estar voltado às necessidades sociais de professores, médicos, advogados e teólogos. Esta concentração no quadrivium sem dúvida influenciou decisivamente, para que em lugares como Oxford, houvesse progresso no estudo da matemática e filosofia natural.
Aristóteles foi figura central não apenas na Baixa Idade Média, mas dela até Galileu, após o Renascimento, sendo que até esse período encerrado no século XVII, a filosofia natural aristotélica foi alvo de um processo de continuidade crítica, iniciado no século XIII. A primeira constatação derivada desta posição é a de que o monoteísmo cristão não afetou, ao menos no medievo, a essência da filosofia natural aristotélica.
Podemos então concluir que o pensamento e os argumentos lógicos presentes na obra de Aristóteles foi o que possibilitou e forneceu às mentes dos filósofos medievais os elementos e condições suficientes para criticá-la, mas sem refutá-la, já que inicialmente esta crítica estava voltada a um melhor entendimento da obra do Estagirita. Aristóteles não entrava só. Levava em sua companhia toda uma série de comentadores árabes, como Avicena e Averróis, Avicena (980-1037) torna-se particularmente importante, pois sua obra principal Al-Shifâ (A cura da alma) – suma filosófica de 18 livros, dos quais 8 voltados à física, é considerada como a “...primeira a assimilar o aristotelismo sobre uma base monoteísta e neoplatônica, o que atraiu a atenção e o estudo de sua obra pelos filósofos escolásticos. Quanto a Averróis (1126-1198) sua obra de especial importância são os Comentários sobre as obras de Aristóteles, divididos em Grandes Comentários, Comentários Médios e Paráfrases. “Averróis é inquestionavelmente o mais fiel intérprete de Aristóteles, possibilitando aos escolásticos uma apreciação adequadada doutrina aristotélica. .
No entanto, a Escolástica não deve ser vista apenas como um aristotelismo cristianizado: além da filosofia dos árabes é preciso considerar as tradições agostiniana e patrística em geral. A influência do pensamento aristotélico no período foi essencial, mas não foi única.
Roberto César de Castro Rios
Roberto César de Castro Rios é economista e exerce a função de Auditor Fiscal da Receita Federal na Delegacia Especial de Assuntos Internacionais em São Paulo. É Mestre em História da Ciencia pela PUC-SP, e tem especial interesse pela História da Física e sua relação com a Religião.
robertocrc@terra.com.br
São Paulo - SP
(Está autorizada a reprodução deste texto. Solicita-se que a fonte seja mencionada e linkada).
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Consegui tirar minhas duvidas nesse texto.
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muito bem elaborado,parabéns!
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Agradeço a todos pelo trabalho realizado, pois muito contribuiu para meu enriquecimento pessoal e acadêmico.
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elaborar uma resenha descrevendo os fundamentos da escola filosofica eescalastica
Glenda
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Achei muito interessante é bem explicativo.
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texto muito bom.... ajuda muito
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